25 de abril de 2014

EV Phone Home

CASA
Enfiei três livros, um caderno de notas e o portátil num saco. Ainda passei Isdin no rosto, no decote, nas mãos: sol a pique e vento forte - mesmo bom para secar o cabelo enquanto conduzia. Hoje gostei de conduzir: o céu estava azul até ao alcatrão e cheirava a flor de laranjeira.
Sentei-me na esplanada em frente ao mar a comer o eterno gelado - um prodígio. Os livros e o caderno a dormirem no saco o meu sono. O fumo branco de um avião já invisível subia cada vez mais alto. Na mesa do lado uma menina muito pequenina, três anos, não mais, pôs-se a apontar feliz da vida: é uma estela candente, olha, mãe, uma estela candente! E a mãe, não é estela, é estrela, es-tre-la, es-tre-la, e não é candente, é cadente, e é um avião, estúpida. És estúpida como o teu pai, não vês que é um avião. Depois um grande silêncio. Não se podia ver que era um avião porque o avião não estava à vista. Sei bem do que falo porque tinha as lentes de contacto por baixo dos óculos escuros, portanto, a miopia tinha-me fugido toda.
O cabelo estava seco, o gelado comido, dos livros, do caderno e do portátil nem um ai, a esplanada cheia. Levantei-me e fui passear entre as túnicas e os vestidos à venda, quinze eurinhos, deixo-lho por doze, leve por dez. Não o levo por nada deste mundo e se ela me conhecesse saberia, é 100% fibra e o meu pavor de entrar em combustão espontânea não precisa de ajuda.
Já de volta, vinha a pensar, queria tanto ir para casa. Onde estás tu, casa? Quando era acabada de nascer a minha casa era a dos meus pais. Depois, minha foi a casa dos meus avós. Seguida da casa do meu então marido. Ex. Agora, há dezasseis anos quase, tenho esta, parece minha, mas não é, é do banco porque lhe pago, e onde o tempo de lá viver se esgotou. Porquê? Não sei. Vê-se o mar ao perto e a serra ao fundo na direcção oposta – moro em azul e verde. Tenho a janela do lava loiça com vista para o jardim – e isto, quem havia de dizer, é uma coisa importante. A buganvília cresceu tanto que é uma sombra em meio ao calor. Nenhum vizinho por cima me sapateia o juízo, é o último intencional andar. É um apartamento, é certo… será isso a desgostar-me, a mim que prefiro casas velhas, tectos altos, ou uma modernice aberta e bem respirada nas linhas direitas? Não sei. Mas sei que hoje gostei de conduzir e vinha a pensar, quero ir para casa.