29 de abril de 2014

Amor em telhados de vidro

AMOR EM TELHADOS DE VIDRO
Apaixonei-me. Não, não, nada disso. Apaixonei-me por Lisboa. Foi há muito tempo atrás, aí pelos meus dezoito anos. Agora posso dizer que a amo. Exagero como todos os apaixonados. Amo alguns bairros de Lisboa. Desde 2011 que ando a rondar-lhes as casas e nada. Por isto ou por aquilo, quase sempre por aquilo, nada.
Pode-se ser stalker de casas? Os imoproprietários virtuais poderão americanamente pedir uma restraining order que me evite bisbilhotar-lhes as paredes? Tenho ali uma perdição em São Cristovão, rés-vés com o Castelo. Mas a barulheira preocupa-me. E se desatam a dar concertos no Verão?, aquela engenharia de som que faz tremer o chão, tal qual como quando passam os carros todos quitados e com hiper-mega-bué colunas de atirar o coração contra a garganta? E tenho uma fraqueza pelo Jardim da Estrela não sei porquê, por isso a casa ali ao Príncipe Real e a da Lapa assentam-me bem. E encontrei perto um estúdio com uma área maluca, uma coisa pombalina, um lugar mesmo bom para o empreendedorismo - quando descobrir onde o enfiei. 
Tenho sorte. Das minhas propriedades, nestes três anos, só perdi uma. Cabra infiel. Já não se pode estar longe do objecto amado, já não há índias de ida e volta em fidelidade expectante: desde que o futuro é agora a frustração resiste pouco.
Seja como for, acho que já me decidi. Desta vê-se o céu sem abrir uma única janela. Amanhã vou jogar no Euromilhões.