10 de dezembro de 2013

Amália Ainda Hoje - Soledad

Escrevi isto. E um leitor escreveu-me, e agradeço-lhe, a perguntar: porque não faz o elogio? Faço. Tenho feito. E continuarei a fazer.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vii

O ELOGIO DOS VIVOS: NUNO GONÇALVES, A POP, ELOGIO DA VIDA

Para entender a cultura pop é preciso estar na rua pois é na rua que ela emerge e é na rua que ela desagua.
Há um momento em que alguém faz confluir numa tendência, inicialmente marginal, um conjunto de vontades onde se aglutinam valores éticos e estéticos que se manifestam desde a moda à música, passando pela forma de relação pessoal, inter-pessoal, e relação com a cultura pré-existente, o mundo. Trocado em miúdos: de repente, algo que não estava presente no colectivo passa a estar. E cresce da margem para o centro. Ou se preferir, os centros. Madonna é um bom exemplo porque cresceu até ser gigante, vê-se ao longe. Vivienne Westwood é outro, dia após dia, ano após ano, em passinhos pequeninos infiltrou-se nas passerelles de alta costura e já desceu à Zara. Joana Vasconcelos explora a visibilidade à distância usando-se da dimensão e do popular para uma cultura contemporânea que eleva como não acontecia há anos e por isso a rápida notoriedade. Isto para chegar onde? Ao elogio dos vivos que elogiam a vida. Esta vida do quotidiano, da rua. Esta vida onde se sabe o que falta e se está atento, de orelhas em pé, a ver se sim, se chega, de onde, se se apanha. Melhor ainda. Esta vida feita de gente porosa, permeável, que faz o que nunca se fez antes, nunca daquela forma. Da forma que responde à necessidade daquele momento. Parte da cultura pop é timing. Pulsação.



Para quem como eu tem uma relação apaixonada com o fado, não fora a vontade de conhecer, seria quase preferível nem o ouvir para não ouvir o que se faz desde que foi socialmente revalorizado, e porque foi socialmente reabilitado. Há muito fado dentro do fado. O meu é o transgressor e fez escândalo nos jornais com Camões. É o fado das frases longas inventadas por Alain Oulman para os poetas que Amália cantou. (A Camané, ao excelente Camané, só lhe falta o Oulman dele e os poetas dele. Todavia ele soube de um rio e isso a mim chega-me.) Enfim. Adiante.

Nuno Gonçalves foi o responsável pelo projecto Hoje. Produtor e director artístico a convite da Valentim de Carvalho para mostrar Amália a quem a desconhecia, portanto, a um imenso público, já que então verificaram que os mais jovens ouvintes de Amália tinham em média cinquenta anos de idade. Como sempre digo, desde Camilo o digo, trabalha-se bem por encomenda: quando o metro define os limites, pisa-se o risco com criatividade.
Se aquele Hoje é de 2009 porque o trago aqui, agora? Porque de 2009 até hoje não voltou a haver na música pop portuguesa uma intervenção rasgada como esta Amália Hoje. E estive, à data, não com a crítica especializada, mas com os muitos, quase todos miudagem, que aderiram em coro: adorei.
O fenómeno recente mais parecido com Amália Hoje aconteceu com a exposição da Joana Vasconcelos, em Sintra, que a despeito de nos dar música não podemos ouvir e estamos necessitados de cantar, de nos cantarmos – um destes dias falamos sobre Joana Vasconcelos.
Quando Nuno Gonçalves pegou em alguns dos mais icónicos fados de Amália Rodrigues, os rearranjou numa linguagem e numa expressão interpretativa sem qualquer tangente ao fado e com as vozes inesperadas e súbitas de Fernando Ribeiro e Paulo Praça ao lado de uma muitíssimo corajosa Sónia Tavares porque tão, tão distante de Amália, e os lançou e se lançou para a jovem boca da rua que não os sabia, foi amor, irreverência e sinfónica homenagem. Arrisco dizer que, e por não ser fado, tal como a miudagem, também Amália teria gostado. Também ela se dava à rua, o nome íntimo que o mundo usa para não parecer muito maior do que nós e se fazer habitável pelo lado de fora.

Neste trabalho ouvem-se gerações de música popular, e porque é popular vê-se, entra-nos pelos olhos adentro: desde o fado que evoca Portugal a preto e branco, a Joy Division em branco e preto, está lá Morrissey e ao fundo Jim Morrison e mais... Nada disto será informação nova. Contudo é com esta informação velha que podemos fazer como Nuno Gonçalves fez com Amália Hoje, estrela nestas cinzas: recusar, não o poema de Cecília Meireles, mas recusar dizer adeus a esta a terra, terra morrendo de fome, pedras secas, folhas bravas, antes que o sol se vá com um gesto de agonia, cairá dos olhos nossos, e nem depois não virá Deus, só soledad. Não. Podemos aprender com Nuno Gonçalves que se calhar até desconhecemos o mais que conhecido, chama-se a isso humildade, e agarrá-lo, a esse desconhecido, como a um amante, até o sabermos de cor, dar-lhe uma outra vida que possa juntar-se à que já tem, também é isso o amor.
Outro sopro é sempre um beijo que liberta.