1 de novembro de 2013

Rolando Teixo, de Pedro Bidarra

As desvantagens de não se pertencer a qualquer capela literária e afins são amplamente conhecidas. As vantagens menos. Pessoalmente gosto delas. A liberdade tem preço. E eu pago. Isto para dizer que não há qualquer conflito de interesses, ainda que escreva para a Guerra e Paz e escreva também com os meus Manuel Fonseca e Pedro Bidarra no blog Escrever é Triste.
Por muito que, como diz Pedro Bidarra, as pessoas venham sempre de algum lado, a verdade é que não interessa a Rolando Teixo que o seu autor venha da BBDO e seja o mais conhecido e premiado dos nossos criativos – acho que é assim que se diz em politicamente correcto de um profissional da publicidade. Ou melhor, interessa, mas tanto quanto o facto de ter jogado à carica ou pegado um touro. Jogou? Pegou? Não sei.
Rolando Teixo pertence à colecção Poucas Palavras, Grande Ficção, da editora Guerra & Paz.
Que poucas palavras são estas e que tamanho tem a ficção prometida? Estas poucas palavras, poucas se medidas em tempo de leitura, são um conto. E são ficção e literatura. Porque podemos ter literatura sem ficção, ficção sem literatura. E grande literatura e grande ficção.
Sim, já ouvi dizer que Rolando Teixo é um romance. Não é. É um conto. E essa é uma das suas maiores virtudes, entre outras razões porque é o primeiro trabalho literário de Pedro Bidarra. Para além da criação há a técnica. O conto serve para fazer a mão para ambas. E em Rolando Teixo isto acontece de forma limpa: o verbo e o substantivo dominam o adjectivo, tal como o avanço para o desfecho se sobrepõe a todas as vontades narrativas, mesmo às que lhe servem se suporte. E são duas.
Uma serve de pano de fundo social e é mantida com a notícia do rapto do banqueiro que se desenvolve em paralelo com o processo de vegetalização de Rolando e o enquadra profissionalmente.
A outra dá-lhe o tecido afectivo através do casamento, uma empresa familiar tão falida quanto a vida profissional e social de Rolando, e sustentadas ambas pela rotina e rituais já esvaziados de tudo, até de sentido, e bem representadas na casa da família, em Monsanto, lugar de expectativas incumpridas, construções desconseguidas e só presentes na memória do sonho tido como à janela com vista para o verde inútil.
Estes dois mundos tangentes, o profissional desfeito numa sociedade em crise e o de uma conjugalidade em crise, não são, no entanto, o cerne de Rolando Teixo, são o pretexto – não resisti à fonética. O cerne é o indivíduo. A negação de si mesmo. Ou se preferir em linguagem de fazer bonito, do self. A negação desse eu que não soube, não pôde, não conseguiu integrar naquilo que era esperado de si, que é esperado de todos nós, o que é no seu eu mais nuclear, íntimo, a sua própria razão de ser. A negação cresce no escuro. Toma conta de Rolando. Devora-o. Toda a negação nos devora. Ele resiste. Penosamente. Ao espelho. Em ferida. Enquanto pode. A questão em Rolando Teixo é: quem podemos ser? Que custos tem? Portanto, a velha e sempre necessária questão da liberdade. Reflectida, aqui, no equilíbrio entre a responsabilidade, a vocação, o dever, o coração. Quem podemos ser.
Tudo isto é tratado por Pedro Bidarra com virtudes e algum vício em cinco capítulos, ou melhor, em cinco dias definidores.
A arquitectura do conto é leve e funciona: os diálogos são tocados de ouvidos, são a música do dia-a-dia, são credíveis, somos nós. Nas descrições do quotidiano que só em si mesmo se justifica, também somos nós: sobreviver faz parte de viver, e por vezes, algumas vezes, por tantas circunstâncias, há um tempo em que viver é só isso: sobreviver. As frases são curtas e efectivas, dominadas pela acção. Mantêm o texto de trela curta e o leitor também. Ninguém se dispersa: nem o autor, nem o texto, nem o leitor. Atenção. Foco. Bom, não é? Como o elemento anómalo foi introduzido sem negociação logo ao início e cresce com o texto, é um dado adquirido e aceite, cedo deixa de ser uma anomalia para ser uma condição.
Os vícios são pequeninos. Um: a visibilidade desta arquitectura como a da sua congénere do ferro: está ao honesto serviço da função. Que mal tem? Nenhum. O elevador de Santa Justa é assim. Outro: excesso de controlo: os pontos estão marcados e ligados entre si no texto. Ligá-los é, deve ser, trabalho do leitor. Só assim se é colhido ou pelo imprevisto ou pelo inevitável - não somos. Que mal tem? Nenhum.
O conto, este género tão desprezado entre nós e tão bem querido nos países anglo-saxónicos em particular, exige o equilíbrio entre a criatividade e a economia. Ora, isto de economia numa terra onde se escreve para o efeito, para impressionar, quando não se escreve balofo e oco, não pode ser uma categoria amável. Eu amo-a, no entanto. Amo os contos de Borges e os contos de Eça e os de Herberto Helder. São mais curtos, são, mas Tabucchi, se não estou em erro, escreveu um maior do que este de Pedro Bidarra. Não vamos contar caracteres por causa disto, pois não?
Rolando Teixo, o primeiro livro de Pedro Bidarra é o belo antipasto italiano. Não, não é o nosso singelo e tão bom pãozinho com azeitonas, nem são hors d'oeuvre debicados aqui e ali. Sentamo-nos à mesa e começamos a refeição. Gostei muito. Sente-se ao meu lado para esperar por mais.