12 de novembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- ATÉ COM RIMAS BEBÉS -
v
PARA SER FELIZ
Os intelectuais não gostam de felicidade,
de gente feliz, tal substantivo não querem,
eles, tão adverbialmente contra o adjectivo,
à substantiva vida, dizem-lhe não. Porquê?
Porque engoliram o dicionário de sinónimos,
subiu-lhes o palavreado à cabeça e regurgitam
litterasputas: lá, felicidade é ventura, sorte, êxito
e êxtase.
Ora, não se pode ser um intelectual de êxito
montado na ventura -
na desventura ainda se vai ao êxtase.
Apesar de ventura ser um tudo nada passé,
proibido francesismo, galo do cismo do caraças,
não há abat-jours com  neurónio, só quebra luzes,
mas se for a filha do Ventura
pós-modernamente montada, logo, coisa de nada, marcha.
Sendo feliz, estou, portanto, lixada,
da selecção gramatical à semântica contextual
hão-de faltar-me, pelo menos, a sombria consciência
social, o bom gosto e o café relacional: queres onde,
na tua revista ou no meu jornal?
Felicidade é coisa de bicho. Tem prazer. Sofre a dor.
Arrumam-se livros de tédio nas horas sem remédio.
Ri-se, chora-se. Cala-se tanto.
Come-se muito silêncio à frente da solidão para ser feliz:
felicidade é texto imprevisto, frase perfeita. Vida. Cliché de
meu amor, diz, minha querida.