26 de outubro de 2013

Somos, não somos?

Thich Quang Duc por Mal­colm Browne

No outro dia, no Jornal de Negócios vinha uma entrevista ao nosso Bidarra e uma recensão ao seu livro Rolando Teixo. Mais coisa menos coisa. Cliquei para ler e zás, sai-me uma moralidade de bolinho da sorte, porém azarucho, algo do género: o jornalismo de qualidade paga-se lailailailai, portanto, se quiser ler... tudo em termos polidos, mas estava lá o dedinho indicador espetado.
É verdade. O bom jornalismo paga-se. E o mau jornalismo também. E o assim-assim. Acho bem, todos têm despesas. Pagar é o verbo. De igual forma, encontram-se textos muito bons, razoáveis e abaixo dos mínimos gratuitamente e mesmo na fila do desemprego e com as mesmas despesas.
É dos bons e escreve de graça? É fiel e o seu marido põe-lhe os cornos? É jovem, tem tudo para fazer e vontade e está preparado e ficou irremediavelmente doente? Isto para dizer o quê?
A despeito da ordem, há o caos. E é preciso aceitar ambos para não nos passarmos dos carretos. A questão não é de merecimento, de justiça - também Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela. O mundo não é a preto ou branco. Nem nós. Somos a mão esquerda e a mão direita. A alegria e a tristeza. Somos o bem e o mal. Para sermos, somos ambos, sempre. Por isso, a questão é: diante do caos, favorecer a ordem. Fazer civilização. E o resto, o que nos cabe, olhe, é o imponderável. Quer ver?
Quando durante a guerra do Vietname tranquilos monges budistas se imolavam pelo fogo, a ocidente tal era tido por um acto de desespero, fanatismo. No mesmo ocidente que há quase dois mil anos ajoelhava diante da cruz onde Cristo se deixou sacrificar ignorava-se o elemento comum e super-evidente entre o acto desses monges e o de Cristo: ninguém se estava a suicidar apesar da percepção do suicídio. Oferecer a vida é uma expressão extremada de um imenso amor para configurar uma língua para todas as línguas numa Babel. Uma língua inequívoca e usando o mais sagrado dos valores como alfabeto. A perplexidade, ficarmos pasmados, interrompe-nos o pensamento, pára-nos a acção, permite que nos interroguemos depois. E não podemos dessensibilizarmo-nos ou tornamo-nos predadores dos filhos dos outros.
Há na imolação pelo fogo, na cruz lenta e cheia de violências a encarnação de um sofrimento intolerável. Aceitá-lo voluntariamente é dizer muito alto, tão alto que se faz uma religião, tão alto que as fotografias dos monges correram o mundo: estamos a sofrer pelo sofrimento dos que sofrem e este é o meu amor para estancar essa dor, para que a reconciliação se faça; sou impotente, dou a minha vida, quem tem o poder, faça a reconciliação. Cristo fez o mesmo. Entregou-nos o seu corpo que ainda tomamos, carne e sangue no memorial eucarístico para revogar a velha lei, para proclamar: amai-vos como eu vos amo. É amor à dimensão da cruz, sacrificial. Este eu morro para que tu vivas, para que te reconheçam a existência e o sofrimento nesta hora do indivíduo parece-nos uma aberração. Sabemos que não é. Os pais dariam se pudessem a vida pelos filhos que a necessitam.
Voltemos à imprensa. Na Visão desta semana há bons e maus textos – aliás, a Visão está organizada como o cosmos: caos e ordem. Escreve-se rotativamente, ana-ni-ana-não ficas tu e eu não, então há sempre gente que escreve bem ao lado de gente que escreve francamente mal. Poderia ser a melhor revista de língua portuguesa com pouco esforço, juntando muitos bons todas as semanas e o mais que lhe falta – mas para quê excelências? Enfim, há bons e maus textos, o que não há são textos grátis. Comprei-a, portanto. Porquê?
Porque José Gil escreveu Patologia de um País. E é um belo texto para o retrato justo de um país construído a partir do OE para 2014. Merece ser pago. O problema é que também merece ser lido por quem não o pode pagar. E a questão nele levantada, usando todavia um nível de discurso dinâmico, é simples, é nem mais nem menos do que a questão do sofrimento de um país devastado, não pela guerra, todavia ameaçado pela miséria e pela atomização, e pela falta de capacidade para lhes responder com lucidez, competência, ou pelo menos esperança.
Portugal sofre.
Não diga que o sofrimento é dos trinta e dois mil homens e mulheres que este ano tentaram entrar na Europa vindos do Norte de África, da Síria e perto ou longe, correndo risco de vida no Mediterrâneo onde agora os olhos estão postos. Nem que sofrimento é nos países emergentes onde as contradições espelham a natureza bestial de que também somos feitos.
Não é a essa besta que também somos que precisamos de dar voz. E como bem nota José Gil, ela, agora, debaixo destas condições que dia a dia se agudizam está de braço dado connosco: muitas pessoas lutam para se conservar, para não endoidecer ou desatar aos tiros sobre a multidão (…) A passagem ao acto deve circular fantasmaticamente em inúmeras cabeças, com o self meio esburacado e estilhaçado.
A realidade está a ser substituída pelo absurdo. O caos ganha terreno.
É à compaixão, ou se preferir porque nos é mais fácil, ao amor que precisamos de dar voz. Sem fogo. Sem cruz.
Quando um amor nos magoa, porque se ama mais a si mesmo, porque tem medo de não ser amado na sua fraqueza ou porque não tem meios para nos amar melhor, faz-nos sofrer. E sofre também. Apetece tratá-lo de igual modo para que entenda na carne onde nenhuma explicação é precisa. Ou pelo menos castigá-lo, expulsá-lo do quarto. Ou fecharmo-nos no quarto para sofrermos sozinhos. Contudo a separação nada repara. E o silêncio, patogénico ou não, não aproxima dois amantes.
A responsabilidade, sim. Responsabilidade não é o peso da culpa. É o passo adiante que que diz estou aqui para nós.
Este foi o governo que escolhemos para nos representar, por actos ou por omissões.
E ainda que a realidade esteja a ser substituída pelo absurdo, não estamos sós. Tu tens-me a mim. E eu a ti. Temos de nos fazer presentes um no outro, uns nos outros onde somos competentes. É o amor que nos salva do sofrimento e nos devolve à alegria, e é o amor que constrói uma comunidade. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, não é apenas uma oração. É um modo de vida: fazer hoje. Se fizermos hoje, amanhã não nos faltará.
O governo, a economia, ou a imprensa, a arquitectura, o diabo a quatro, a forma como amamos, as artes, são valores de bandeira, quero dizer, são os símbolos da comunidade que construímos, das relações que estabelecemos. De quem somos. Não me digam que não somos mais do que isto.