9 de outubro de 2013

Cozido à portuguesa, meus ricos filhos, não é cultura portuguesa

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - ii
A Ana Malhoa é a Miley Cyrus
Comentei: gostava de escrever sobre a Miley Cyrus. Aquela questão nos MTV Awards. Disseram-me: não vale a pena, não se passou cá, as pessoas não se interessam por causa da distância, sentem que não lhes diz respeito. Eles logo escreverão. É outro mundo, outra língua - e nós não temos estrelas globais na cultura pop, urbana. A erudição é um nicho, não entra nesta conversa. E tu escreves em português.
Tudo quanto me foi dito é verdade e sensato. E é mentira insensata. E quanto ao português, é a minha língua. Não quero escrever noutra - o que não falta são tradutores de primeira água se alguém em vez de ler os clássicos que deveria, fizer gosto em ler o que escrevo.
Porque é insensatez e mentira? Porque não há cultura portuguesa. Tenha calma. Explico-me. Nunca houve - se houvesse só nós a entendíamos pela sua especificidade. A nossa maior qualidade é essa, a da plasticidade integradora, seja ela navegante, imigrante ou mulata, a nossa vocação é o outro, o mais além é sempre melhor mesmo quando não. Todo o nosso provincianismo tem raiz cosmopolita. Hei-de voltar a isto.
Aponto apenas dois dos nossos grandes e mais conhecidos nomes da dita cultura portuguesa que sabiam não haver uma cultura portuguesa e agiram dentro desse conhecimento: Eça e Pessoa. Na mais alta pintura contemporânea passa-se o mesmo: Lucien Freud e Paula Rego falam a mesma língua. E não é a do cenário inglês ou português em que o pensamento, respectivamente, se lhes formou e a despeito da nacionalidade de Lucien Freud esmagar a visibilidade de Paula Rego apenas e só por nascimento.
Não há cultura portuguesa. Há a cultura ocidental, onde nos situamos, fortemente permeada pelo oriente de séculos e cujos traços ora foram integrados ora combatidos conforme os interesses comerciais. É preciso olhar para a cultura e vê-la como ela é na sua face perene tanto quanto nas linhas de rosto mais sujeitas aos efeitos do tempo.
A cultura pop é o jornal do dia. As notícias de hoje, o nada de amanhã. Lixo. Mas nesse fio contínuo das horas impressas está a história das ideias, dos costumes, da política. E também, aproximando muito o olhar, ao microscópio de uma notícia, pode estar um romance: Capote sabia isto. Ou afastando tanto quanto possível o olhar do minuto que agora passa, e impondo a maior distância para uma visão global, podem estar mil contos a reflectir a humanidade: Borges sabia isto.
Creio que temos estrelas no firmamento. Portuguesas de pai e mãe e não são nossas. Na cultura urbana, na literatura, na pintura. São ocidentais. Não temos a indústria musical norte americana, de facto, ou então a Miley Cyrus seria a Ana Malhoa cuja história, salvaguardando entre outras diferenças de maior peso, geracional e de costumes, tem pontos de contacto significativos.
Fundamental é como tratamos este tecido cultural comum. Pobremente. Tratamo-lo pobremente. Demonstro.
Se o autor/pintor/músico é estrangeiro, espera-se pela crítica do respectivo país de origem para depois espelhar à náusea os conteúdos produzidos. Se é português, para existir na crítica, tem de fazer parte de um círculo mágico, social ou maçónico ou jantante, tanto faz, em que A projecta B que projecta A. Ou isso, ou ir para fora para ser de dentro como qualquer estrangeiro na sempre actual tradição estrangeirada.
Se está a pensar: então porque não escreve sobre algo ou alguém, a partir das suas próprias referências? Alguém nosso em sentido restrito ou aberto? Bem, tenho-o feito. Mais recentemente sobre Alexandre Farto aqui, por exemplo. E sobre outros e outras questões também.
Tenho muito mais para dizer. Se quiser ouvir, vá passando pelas páginas onde escrevo. Sabe, pode parecer insignificante, mas arrependo-me mesmo de não ter escrito sobre a Miley Cyrus.