2 de setembro de 2013

Carta ao meu Amor


Homem Mau,
Muito gostava de saber por onde anda e a fazer o quê - o com quem dispenso nem seja por uma questão de bom gosto. Já lhe passou pela cabeça que um marido faz muita falta em casa? Imagina o que aconteceu na sua estúpida ausência? Sim, tem a mania que vida dura para sempre e não se digna a aparecer… Fie-se. Qualquer dia chateio-me e digo sim em vez de dizer não e depois quero ver como é que se governa sem mim. Há limites para a santidade. Patetão. Estou tão chateada consigo que até a minha voz interior, esta que agora lhe escreve, subiu para, vá, um sopranozinho. Ai! Que nervos.
Sabe que por sua tão grande culpa me arrisco a encarnar num verme com duas cabeças? Pois devia ou querem lá ver que também não sabe que escrevo aqui, diante deste ecrã grande e cheio de um computador lá dentro que o faz pesado? Isto não é um portátil, seu ingrato, é um all in one. Não é para andar com ele a reboque pela casa. E podia estar tranquila a trabalhar? Não. Porquê? Porque o menino anda aí na boa vai ela!
Vi uma coisinha a mexer, na parede, rente ao tecto. Ponho os óculos – ainda não lhe tinha dito que sou míope? Um horror. Não vejo nada ao longe, deve ser por isso que nunca o encontrei. Já ao perto… E zás. Era uma osga bebé. Racionalmente não tenho medo. Mas parte de mim é irrazão. Quer ver?
Onde há uma osga bebé há uma enorme mãe osga e vai surgir a qualquer instante. E vão cair-me em cima. Uma osga enorme e dezenas de osgas pequeninas. A qualquer instante. E não consigo levar o computador daqui. Vou comprar outro portátil. Vai-te embora osga, please. Vai-te embora, vai, xô. Oh meu Deus, vai crescer às escondidas. A minha casa é um ninho de osgas. Nesta altura estou em pleno Amazonas na barriga de um crocodilo pré-histórico que, aposto, é o pai de todas as osgas, num mundo onde há uma fartura de serpentes e baratas enormes e voadoras.
O delírio reptilário-serpentário dura um segundo. Matei a osga. É verdade. Uma osga bebé. Eu, que nem carne como. Por sua tão grande culpa, homem mau! Torci a esfregona e acertei no super-crocodilo de dez metros que se contorceu no chão debaixo dos meus olhos incrédulos. Tão pequenina. Porque não estava aqui para a espantar a osga e evitar esta mortandade? E o meu karma? E os remorsos? Só desgostos.
Espero que ache o sofá confortável.
Um beijo da sua linda mulher
EV
(Bem sei, bem sei, trato o raio do Amor na terceira pessoa. Mas fazer o quê? Não me vou pôr de tu cá, tu lá, com um desconhecido. Para mais o excesso de intimidade estraga o quotidiano.)