8 de julho de 2013

ART ME UP - XI

ART ME UP
MANUEL SAN PAYO - i
TOCAMO-NOS TODOS COMO AS ÁRVORES NO INTERIOR DA TERRA
MSP - DG
Há aquilo que todos sabemos: Manuel San Payo é artista plástico. É professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Fez mil exposições colectivas e individuais. E há aquilo que nem todos sabem ainda que ele o tenha escrito numa página dos seus Diários Gráficos:
O desenho aproxima as pessoas. A rapariga que eu esbocei sorriu para mim. Saiu na Avenida. Acho que sabia perfeitamente o que eu estava a fazer. Foi como se me conhecesse há uns tempos.
Como disse Herberto Helder na refeitura de Húmus de Raul Brandão: Tocamo-nos todos como as árvores no interior da terra.
MSP - DG iv
Do mesmo modo que um escritor é, antes do mais, aquele que ouve, um artista plástico é, antes do mais, aquele que observa. A sua atenção acorda-nos para o que está diante de nós e não vemos: o seu olhar emoldura, por um lado, e compõe e ilumina, por outro, para nos oferecer uma realidade, também ela, depois de vista, património nosso.
Porque a chave é aquela e não outra: a arte aproxima as pessoas, não apenas pelo seu denominador comum, o acto criativo, mas pela génese desse acto: o amor. A religação entre criador e criatura. Não há arte sem desejo de união. Não há essa vontade se não existir a consciência da separação. Foi um corte. Umbilical. É uma ferida.
MSP - DG ii
Há alguém que observa. A mão desenha. O observado faz-se uma concretização e já é essa nova concretude que se contempla. Toda a expressão artística se radica no erotismo por muito que a sua união com o objecto seja, pasme-se, mística. Nenhuma ferida naquele exacto instante, nenhuma separação: é à inteireza que é devolvido o criador, a criatura e quem os contempla.
MSP - vi
Poderemos ver aquilo que não somos? Creio que não e é por isso que a nossa visão nos determina, nos acresce ou nos reduz. Mas se nos mostrarem, sim, vemos. Este é um recurso imemorial, mesmo a Bíblia o inscreveu.
MSP - F
A exploração diarística e plástica de Manuel San-Payo não é uma exploração do horizonte pessoal da atenção? Nascem flores, crescem rostos, germinam as ruas e a maturação dos edifícios, explodem na direcção do retorno à semente, ao seu criador. Toda a expressão artística é seminal. Não será por isso que em diferentes tradições religiosas a representação do Início está centrada na representação do falo e o cosmos na ejaculação?
MSP - IP
A tela, a página, na verdade, o espaço, ou se preferir o silêncio, não estão em branco ainda que neles se abra na sua maior dimensão a liberdade: as fronteiras são as que o próprio artista delimita através da sua consciência da vida, pois não há outras fronteiras - são a circunscrição do seu mundo.
MSP - vii
Há uma voz. Ou um traço, a luz que rasga, o sopro. Como? Que mundo é esse? O mundo inescapável da infância visto com os olhos do adulto, os dias da inescapável realidade vistos com os olhos da criança que nunca deixou de estar presente. Como em Bunny & Bear no tempo em que a crueldade e a inocência coabitam pacificamente e o sangue tinge a vida.
B&B
Os doze anos de Manuel San-Payo não são aspiracionais, só na canção evocativa, são o fruto desta impossível coincidência temporal. E no entanto, ela existe e fora dela, nada existe que não seja sonho.

Toda a realidade é interpretativa, e nós somos o sujeito que a intervenciona. Manuel San Payo vem lembrar-nos disto.