12 de maio de 2013

A Casa - vii



VALHA-ME DEUS QUE É MILAGRE! EQUÍDEO...
A minha avó tinha um humor, vá, queirosiano. Não lhe bastava a presença impressiva, o sorriso que nos deixava a pensar, terá achado graça ou uma desgraça, ser uma mulher, que diabo, há que dizê-lo, bela e ter um pulso férreo. Não, tinha de ter aquele humor. Explico. Era de uma grande implicância com a Igreja Católica em geral e com Fátima em particular. E não acreditava em Deus. No entanto, atirou comigo para um colégio de freiras – estou convencida de que não me enfiou num convento porque o ar do tempo era outro, tivesse nascido 100 anos antes, e zás, clausura.
Azarucho do caneco, saiu-lhe por neta uma beatorra do piorio: cresci com o gosto dos santos, a paixão pelos registos, os roliços barrocos, o drama dos ex-votos, e com uma loucura por água benta e de beijar o pézinho do Menino, factos geradores de tal incompreensão repulsiva que anos depois, uma vida, ainda me abanam os tímpanos com os agudos da indignação: parece que é parva, que nojo, não há milagre que limpe esses viveiros de doenças, que nojo!
Isto porquê? Liguei a televisão. Zapping noticioso. Peregrinos chegam a Fátima. Ora, Fátima e eu é um tu cá tu lá. Aquela Loca do Anjo dá-me cabo de séculos de racionalidade num segundo - apesar do anjo ter o cabelo igualzinho ao do Vegeta. Isto para não falar dos outros altares Marianos do mundo. E o que nem conto? E o Rocío? Enfim, desgraço-me. Ao que queria lembrar.
A minha avó tinha farpas, perdão, frases extraordinárias. Uma vocação perdida para o sound bite. E para uma descrente recorria sempre a Deus em cada uma delas. Era crescidota eu. Pareceu-me que teria mais hipóteses de sucesso se informasse em vez de pedir: Avó, olhe, como gostava muito de ir na peregrinação a cavalo, a Fátima, se calhar ia já para Évora.
- Valha-me Deus, ainda nem estamos a 13 de Maio e já se deu um milagre: uma burra a cavalo.