3 de abril de 2013

A Casa - vi



EVITA
Gosto muito de tudo da casa. E de dar conta de tudo da casa, desde saber onde o tapete está puído até ao que está em falta na despensa. Sempre fui assim.
Havia um armário onde se guardava a melhor louça na casa da minha avó. Era muito pequenina e passava horas escondidas, tão cuidadosas, a tirar prato a prato e a pensar mesas perfeitas. Dava uso a tudo, até às peças já só decorativas. A tudo, não escapava nada. E decidia com que talheres. E decidia com que flores. Em que ocasião.
Sempre fui muito Evita: enfeitava-me com uns bons brincos, de preferência uma capinha de vison - sabia lá que não era uma capinha, para o meu tamanho de capuchinho vermelho era -, ensaiava o equilíbrio em cima da vertigem dos saltos altos e pronto, quer dizer, pronta.
Em preparos de grande dame, aos meus olhos, e de grande entroncho, aos olhos da minha avó, em vez de me pôr à conversa em chás de amigas, o que queria era, Evita, ir ver os lençóis estendidos de branquinho lá cima onde secavam, espreitar a ordem dos tanques e da máquina de lavar roupa, sentir o bafo quente do vapor do ferro de passar, entrar no movimento perpétuo da cozinha cheia de naturezas vivas: ervas, legumes, peixe ainda a morrer de tão fresco. E o fogão. Posso ajudar? Qual o quê. Podia era ser enxotada dali para fora. Não há respeito.
Mesmo vestida de crescida, prestes a sair com o marido, voltava para trás: não conseguia resistir à esfregona, à vassoura, à reorganização dos livros por alturas, até ser apanhada em flagrante nestas manobras. Pior. Mandava vir o que me parecia adequado ou fugia de casa para ir pessoalmente comprar e pedia que se pusesse na conta. Coisas prodigiosas e incompreendidas, e em quantidades generosas. Como não tinha autoridade dizia: a avó pediu que lhe dissesse que era para ir à retrosaria buscar fita de veludo da largura de um dedo, em verde escuro, se faz favor, mas é para já. A princípio tinha credibilidade. Depois inventaram um tem a certeza de que foi a avó de muito mau gosto. Deixar uma pessoa assim em xeque…
Nunca me passou pela cabeça que chegada a esta idade não tivesse o meu próprio armário de Ali- Babá da louça. A minha Evita interna e particular não se conforma de não ter a Flora Danica todinha como ela foi feita para a imperatriz Catarina ii da Rússia, mulher ingrata, pois nem esperou pelo serviço de jantar: fez a Frederico da Dinamarca a desfeita de morrer antes de receber o presente - parece mal.
Eu, claro, estou-me bem lixando para a Flora Danica, não tenho a porcelana, não tenho, vejo os bonecos na enciclopédia livres de pratos e travessas.
Mas, ó meu Deus, e aqueles lindos, lindos sinos de gelo espalhados estrategicamente, a espaço certo na minha mesa perfeita? Sim, aquele prato onde deveria estar um pedaço de gelo, tapado por um sino rendilhado por onde se escapasse o frio e a humidade e me refrescasse os convidados em condições? Bem sei, bem sei:
- ó filha, liga o ar condicionado.