7 de março de 2013

FLOR DE SANGUE

GIRLS ON FILM: MEIKO KAJI
FLOR DE SANGUE


Quando era pequena, todos os dias o mundo mudava: todos os dias havia um filme novo no cinema. Jerry Lewis. Bruce Lee. Marisol. John Wayne. Gene Kelly e Fred Astaire e só uma Cyd Charisse para os dois. Ninguém queria saber se o filme tinha vinte ou cinquenta anos, ou se tinha passado dois-fins-de-semana antes, ou saíra ontem: era sempre novinho em folha no tempo em que as heroínas do cinema indiano cantavam com a voz da minha Lata Mangeshkar. Os títulos? Como não há, creio mesmo, nunca houve, nem então. E as meninas dos filmes, tão lindas, de uma pessoa querer crescer durante a noite enquanto dormisse para acordar crescida assim. Mas melhor que tudo eram as tragédias e as vinganças… ó drama bom.



Lady Snowblood é um filme de Toshiya Fujita, dos anos setenta. Lady Snowblood, Meiko Kaji, é Yuki, uma assassina. A família foi dizimada e ela parte em busca da vingança que obterá. A música, tão bonita, Shura no Hana,  foi muito bem reposta nos nossos ouvidos quando Tarantino fez Kill Bill - e ele usou-se, também, de parte do imaginário de Lady Snowblood, e mesmo da imagética, basta olhar para a morte de O-Ren Ishii na neve. E agora, em Django, o sangue nas flores brancas vem de lá.
Esta é a inesquecível canção, ouça todinha. E em baixo, tem a letra contada, vá, fielmente, em português, a partir das traduções disponíveis, em espanhol e inglês, no YouTube, ao meu jeito, pois então - a linda mais que linda Meiko Kaji, que é também quem a canta, sim, bela e talentosa, não vai zangar-se comigo -, ela sabe que são tão boas estas histórias: têm o drama mais infantil, o da cor do sangue, o herói solitário contra o mundo, desprotegido como uma flor. São mais que boas estas histórias, sejam a oriente de olhinhos em bico ou a oeste de cowboy. E na tela voltamos à quase sempre impossível simplicidade do bem e do mal.


Shura no Hana - Flor de Sangue
A neve, branca de luto, cai sobre a manhã morta, e assim ela caminha com o peso dos céus sobre os ombros e abraçada à noite escura dentro de si. O barulho das sandálias, o latido de um cão longe, atravessam o vento de lâminas e a sombrinha de papel é tudo o que tem para o enfrentar. É o caminho que guia os passos de quem há muito desistiu das lágrimas. Eis o rio. As lanternas que alumiam os viajantes estão apagadas. Os grous imóveis: gelaram de frio. E o vento. A neve. O cabelo, que despenteado, e a sombrinha de papel reflectem-se na água fria, mas nem uma lágrima sua acrescerá ao leito das águas. Nada sente quem deixou o desgosto onde deixou o coração. Desejos. Sonhos. Ontem. Amanhã. Bondade. Justiça. Palavras sem significado para a vingança: esta mulher vai matar quem a matou, vai recuperar o seu tesouro de lágrimas.