17 de janeiro de 2013

Ruby Slippers



FALTA UM BOCADINHO À LUA
Há cerca de um ano estava no México. À noite, o mar era preto, o céu era preto e nenhuma luz cortava a escuridão. A maior lua do mundo, vi-a lá. Era redonda, dourada e quase lhe tocava o queixo na água que, desde a areia até ele, abria a verdadeira yellow brick road. Pus-me da varanda a ver aquilo tudo, assim como quem está num navio pela primeira vez e descobre que, afinal, nunca esteve noutro lado. Se tivesse acreditado então que seria capaz de caminhar sobre tal marinha passadeira, teria ido sempre em frente à espera de que, ao fim, a lua abrisse a boca e me comesse.

Poucos dias depois daquela noite, de manhã, numa mercearia, encontro um dos melhores extractos de baunilha - reconheci a marca. Pego no frasco. No rótulo um sol azteca ilumina a flor em baixo. É ele, radioso, o sol que deu a luz à lua que antes tinha visto fulgente, ela, um animal de sombra - e lembro do verso de Else Lasker-Schüler, poeta que desenhava sóis e luas e mais nas folhas, o teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Hoje fiz doce de tomate. Juntei, como sempre lhe junto, duas casquinhas finas de limão, pau-de-canela e baunilha. A baunilha. A única coisa que trouxe da viagem onde usei sempre os sapatos de Dorothy, um frasco de baunilha. Quem poderia adivinhar que havia de chegar até à minha cozinha uma pontinha da lua para barrar o pão e eu a comia? Vê como está bom, Toto, prova.