29 de janeiro de 2013

ART ME UP - viii


ART ME UP
ANA VIDIGAL - vi - CARTAS DE AMOR (carta de Pilar del Rio) Edição Abraço
PELA METADE


Haverá um livro colectivo. Terá por título, Cartas de Amor. Será editado pela Abraço. Cada carta será iluminada por uma imagem. Haverá uma carta de amor escrita por Pilar del Rio. Essa carta será iluminada por Ana Vidigal.

Não li a carta. Não falei com Ana Vidigal. Sei o que vejo e como São Tomé, creio: faço a translação do objecto artístico que exige a rotação das perguntas – toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência. Objectivamente: o que é arte?

Vejo.

Envelopes.
As cartas de amor que são? Vida enfiada pelas linhas de escrita adentro. Palavras feitas de letras são código refeito por dois amantes e assim, mais do que de letras, um abc inaugural: sempre que dois se amam por escrito, é da tinta que nasce o Verbo. Vida.

A água que se quer dar a beber, vida, precisa de uma mão em concha. O que se quer dizer, a vida, corre, precisa de expressão que contenha e escrevo-te uma carta, continente da vida, mas depois de escrita já é conteúdo, e precisa de um continente, de uma mão em concha que a navegue até ao destino dos teus lábios, e ao fim lhes dê de beber. O envelope é a mão em concha até à sede.

E o envelope é a pele que veste o corpo da carta, lhe protege a intimidade, lhe esconde as entranhas. A essencial homeostase dos signos da carta dentro é o envelope que a regula fora: dobra-se para fechar melhor, guardar melhor, sou um segredo, volta-se, deixa-se abrir, sou o mundo, e sendo amor, somos o mundo em nós - vamo-nos, amor, ao mundo?

Faixas. Preto. Faixas pretas.

Faixas.
Tiras agrafadas, faixas, contêm cada envelope ou envelopes. Afinal, eles não vão a lado algum. A navegação já se fez. Chegaram ao destino ou nunca partiram que é outra forma de chegar porém ao outro lado do eu - ainda és tu mesma depois de mim? Ou és outra já?

Preto.
Preto é sem luz. E é de luto quando sinaliza que uma luz se apagou. Apagou-se. Morreu. Não interessa se continua na memória. Está morta. Ou na saudade. Está morta. Se continua nos filhos, na obra, no diabo a quatro. Está morta e é pó, presente em tudo como as estrelas iluminam na ilusão do tempo que nos chega aos olhos: mortas e iluminam-nos ainda. Nem por isso deixa a morte de ser um corpo que não se pode apertar, uma carne de ausência.

Faixas pretas.
Antes. Sobre a porta um panejamento preto. Os espelhos tapados, uma braçadeira preta nos homens, e a gravata preta, as mulheres de meias de fumo. Fumo. E os envelopes tinham uma tira preta fora a avisar do escuro dentro, a morte dentro. Hoje, metáfora da cor, hora jeuniste, hedónica, nenhum luto se atreve.

Não li. Não falei. Creio como São Tomé. Toda a subjectividade assenta na inclinação do eixo pessoal. Paciência.

Desde Inês de Castro nenhuma morta foi rainha, nenhum morto rei. Ou terão sido em cada vez que o amor disse: onde, ó morte, está a tua vitória?




Nota: onde, ó morte, está a tua vitória? - 1 Coríntios 15:55