16 de janeiro de 2013

ART ME UP VI


ART ME UP
ANA VIDIGAL - v - JUÁ DE VIVRE E 4 PINTURAS
A CABEÇA DE JANUS

A cabeça de Janus tem dois rostos. Fitam direcções opostas em simultâneo: a que fica para trás e a que está adiante.
Muito do que humanamente nos define é o horizonte que contemplamos. Erectos, vemos mais longe: o olhar é o centro de muitos comandos civilizacionais. Já o arrastámos pelo chão e já levantámos a cabeça – e não sei se não foi aqui que, de pasmoso, o olhar nos libertou as mãos até então agrilhoadas à terra, e nos ergueu pelos ombros para nos pôr de pé. É tal a força do olhar que inventou o gótico quando mais se demorava no céu de góticas mãos postas e sonhava a ascensão.

Vemos. E o visto torna-se um objecto cheio, investido da paixão que dele nos aproxima ou nos afasta, nos aproxima e nos afasta. O desejo inventa o mundo que mais tarde será vida, não interessa se o sílex ou a televisão. E a vida, sílex e televisão, reinventa-nos. Porque somos bichos de acesso ao simbólico, também desta dinâmica, deste trânsito, podemos dizê-los janusianos, ou não fosse Janus de igual modo o Deus guardião de todas as passagens, portas, mesmo as mais internas, passado e futuro, mesmo a da vida e a da morte, mesmo a de admissão à própria divindade, não apontando apenas a oposição, e sim o curso que se completa: tempo-eternidade, humano-divino.

Sim, somos bichos de acesso ao simbólico: a cabeça é círculo, é sol, razão. É o pai - é o chapéu em Magritte. Tripé fundamental de ausência e motor do trabalho artístico:
.   a consciência do conflito das polaridades e o esforço de integração;.  saber dos escuros que subterrâneos correm, e permitir que o fluxo do inconsciente transpessoal assome, que a crista da onda brilhe na luz, e o irracional se expresse racionalmente;.   o pai perdido.
A reconquista a cada dia deste trabalho é a auctoritas: figura inteira, não dual.
Esta auctoritas, em Ana Vidigal, é a femina faber e é a femina ludens: cabeça de Janus. Não, não me contradigo. A inteireza é feita de algo e do seu oposto integrados. A femina faber é a pintora, formal, normativa. A femina ludens é a artista plástica do trabalho paralelo, informal, inconforme à norma. As duas são uma recolectora, organizada, parcimoniosa, obstinada, obreira abelha. A pintura descansa no trabalho paralelo. Ou é a pintora que descansa na artista plástica? Seja como for há uma só mulher que à noite dorme na cama. Porém são duas as mãos, mão direita e mão esquerda, a agir em conjunto na pintura e no trabalho paralelo: sim, são dois os rostos de Janus, todavia uma só cabeça.

Aqui chegados, chegámos ao que queria mostrar-vos: o presente das futuras exposições de Ana Vidigal, Juá (de vivre), na Fundação Júlio Resende, de 20 de Abril a 22 de Junho, e, sem me adiantar a um certo Brasil, quatro pinturas de transatlântica vontade.
As portas, lembram-se? A circulação, o movimento, o trânsito. Explico.
Se entramos numa galeria somos confrontados com o resultado de um processo e com um percurso. Este, definido pelo artista, o galerista, o curador, e somos manipulados, passo a passo, peça a peça, numa via lucis ou crucis, ou ambas, de encantamento ou de recusa, ou de dúvida, ou tudo. Não queria, desta vez, escrever a mise-en-scène terminal de uma exposição. Queria a pintora a pintar, a artista plástica a executar. Não me queria a mim diante da pintura dela à conversa comigo, queria-a a ela com ela. Nem me queria a mim a agarrar com os olhos as coisas do trabalho paralelo, queria-a a ela com ele. Não queria a galeria, queria o atelier, uma porta aberta por onde, invisível, entrar - talvez Janus também guarde os buracos das fechaduras sem chave que delas pendam para nós, amáveis voyeurs amantes, espreitarmos. Espreitei.

A Juá (de vivre) retorna à intimidade mais uterina, à abstracção da família concreta, aos laços de sangue feitos de história partilhada: a que vimos em Penélope, núcleo de onde explode  a vida, o big bang mítico de todo o presépio. O modo, os recursos, a linguagem, também retornam, todavia, da Austeridade (e pequenos sinais de fumo). Contudo, assentam em morna, macia alcatifa recuperada de amostras recolhidas do gabinete de arquitectura do pai de Ana Vidigal – assim é vida: um delegado de uma empresa de carpetes cumpria os propósitos comerciais da sua empresa visitando outras, dando a conhecer profissionais aconchegos funcionais e decorativos feitos de lã e fibra. Desmontando o atelier do pai, aparecem as amostras. Ana Vidigal guardou-as para um dia. O dia da Juá (de vivre), quando, ao fazer delas a cama de afecto onde a austeridade se deita, deita-se nos laços, deita-se nos braços, deita-se menino e menina na infância onde circula o sangue comum, o lugar eterno de ir crescendo sempre, deita-se na alegria inconsumível do que não perece. Deita-se na Juá para se fazer Juá: todo o amor que fomos porque nos tiveram, porque o tivémos, e ainda. Aquela coisa da carne que mais tarde na amizade se dilata e no amor se expande, e é riso, aquela coisa que é a rede, quer dizer, a alcatifa, onde saboreamos a joie de vivre: temos menos mas isso não obriga que sejamos menos, e podemos mesmo ser mais onde se deita o exacto oposto que Janus olhando apontou na Austeridade (e pequenos sinais de fumo).

E de Ana Vidigal há, em construção, claro, janusiana, simultânea à Juá (de vivre), quatro pinturas em inícios de recorta-cola-seca-recorta-cola.

Ó, o texto vai grande. Hoje não vou contar que em quatro pinturas se escrevem histórias de amor.