31 de julho de 2019

Desisti, regresso, aqui me tens

foi então que, estendida no sofá, como se a eternidade estivesse clara à minha volta, percebi, não, não iria a correr fazer tudo quanto não fiz, dizer quanto não disse. Montar o livro atrasado meses para o deixar pronto. Não. Nem aos vinte poemas enfiados nos rascunhos do telemóvel. Na verdade, se estes fossem os meus últimos dias, faria hoje exactamente o que fiz: no YouTube, vi ovos Benedict cozinhados pelo Jamie Oliver e pelo Gordon Ramsay. As receitas de Jamie Oliver têm isto: a ausência de segredo, a transparência que nos deixa ficar bem na foto quando as reproduzimos - saem sempre bem. Mas não os farei, nem aos ovos nem ao molho holandês, penso fazê-los e isso basta. E fui à Booking para não reservar quarto no Curia Palace, nem marcar SPA nem outros prodígios onde o corpo deixa de se sentir como um inimigo íntimo. Continuei a ler, se ler se pode chamar a falar com alguém desconhecido, a andar numa solidão acompanhada, Scruton, Manuel António Pina, Lúcio Cardoso. E o silêncio de Agosto a subir da rua, a entrar no prédio, um andar de cada vez, e o céu por cima. Se calhar, é por esta razão que encontro penas tão pequeninas no quarto, uma desocupação dos anjos no trânsito e janela aberta ao calor.

E há o ilusionismo da memória. Nesta longa insónia revi o meu perfeito primeiro amor, como o primeiro amor sempre é, e o último. Entre um e o outro, a voracidade do tempo. Passou uma vida e, como é possível, não passou nem um segundo, ainda te vejo, nítido, a descer a rua e a nossa extrema a juventude, sem banda sonora e posso jurar não via mais ninguém, só a ti em cinemascope puríssimo, não havia mais ninguém na cidade deserta e decerto os cafés vinham parar à mesa da esplanada por substanciação da vontade, e não, não preciso de nada, sequer de fechar os olhos para a sensação exacta do teu rosto no meu, olá, respirar o cheiro da tua pele na curva do pescoço e numa expiração o excesso da tua ironia tão fácil de perdoar.

Versos em cascata, os bons e os maus, os lidos e os escritos, planos, fracassos, todos os enganos possíveis e nada pior do que os impossíveis. Tudo se desfaz quando embate na Pavane pour une infante défunte, na Ode ao Destino, amado Sena, meu Deus, nas razões porque vivemos, "pelo meu cão", disse Steiner, e eu também, sem o copiar. E o que tenha sido beijo, verso, ou riso. Que alívio a vida não ter importância, não termos importância. Nenhuma.

7 de fevereiro de 2019

Divina Graça

DIVINA GRAÇA


(...)Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O caminho do céu.

Adélia Prado

Ela não vem,
a poesia.
Podia chamar,
sei que nome tem.
Ela não vem mas
no avesso dos dias
caminha em sentido anti-horário
com a mesmíssima precisão
do seu gémeo cronológico
onde habitamos. Então.
Tudo quanto foi
e hoje está
na funda memória celular
até ao recuo
da primeira explosão,
amplo, amplo arco
do tempo ao não tempo e,
meu Deus,
porquê este dom da vida
nascido assim do desequilíbrio,
matriz de todos os nascimentos -
e onde regressaremos?
À casa mãe,
indistinta indivisa silenciosa negra?
Trago comigo
o Teu anti-material vazio
e a Tua explosão
de mundos estrelas pontes multiversais
em cada linha:
toda a vida está suspensa em sombra.
A complexa harmonia celeste,
e seus segredos fechados que de
adolescente busquei abrir na travessia da insónia
e das bibliotecas,
repousa longe do meu entendimento
e hoje, finalmente, ao alcance dos meus olhos,
terrível e delicada música,
expressão da Divina Graça:
poema és tu, Poeta,
pulsação em cada verso
do vento estelar, nucleossíntese do Verbo.
Ela não vem.
Não precisa.
Ela está.

27 de janeiro de 2019

Em certas noites desrezo

EM CERTAS NOITES DESREZO

O vento é fino
e os ramos
não têm folhas.
A rua desce
e é preciso descê-la
desde o altar
da comunhão
à solidão
da porta de casa.
Onde estás
que a Tua voz
não vem impedir
o sacrifício diário
do meu coração?
Vale ele menos
do que o filho de Abraão?
Quantas mortes temos de morrer?

E mesmo entre as mortes é possível,
como?
avançar nos livros
e no deserto,
um versículo de cada vez,
com as sementes do céu
no escuro do peito
à espera
da flor
e do verso
vindos da terra prometida
em dois degraus de adeus
antes de a porta 
se abrir
para se fechar
ao rasto de infinito
pela rua.


19 de janeiro de 2019

À Senhora Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves


LA VIE EN ROSE, SENHORA MINISTRA

Esta foi uma semana cor-de-rosa. Não por ter sido em ouro sobre azul, ou cheia de momentos que fariam a imprensa pink disparar flashes. E também não foi por alguém me ter tido dans ses bras e me ter falado tout bas. Foi de um rosa político-evangélico. Agora pergunto, senhora Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, de onde lhe vem esta loucura colorida? Do pé de goiaba? É o mandamento perdido de Moisés? E já lhe contaram que há também um rosa-menina farmacêutico, Filibanserin, a fazer pendant com azulinho-menino Viagra? E se o menino usar com menino, e a menina o usar com menina, abre-se a rosa e rasga-se o céu e ui que medo, lá vou eu? E se heterosexualmente utilizados, rosa e azul, é o quê, arroxeado? Arroxeado pode? E se for só prazer sem procriação, é pecado e não mora ao lado, é mesmo ali? 

Que inspiracional, senhora Ministra, separar menina e menino em cores de comprimidos para as disfunções sexuais. Lógicas destas, que pílula, já chega, são demais. E já que estamos nisto: não lhe parece razoável que, se o sexo for uma função, se disfuncione de vez? E o prazer des mots d´amour, des nuits a ne plus en finir? Isso é que fait quelque chose a ponto de se ver la vie en rose, não é cá a função. Nem a segregação. Mas vamos por partes.

O azul e o encarnado foram as cores da realeza, por excelência, no ocidente - se viajarmos em direcções orientais encontramos os amarelos dourados imperiais exclusivos. Na igreja católica esse esquema azul-vermelho é sempre presente. No mundo da cultura pop onde se emulam os mundos reais e religiosos, o que são as red carpet se não um pisar como reis e deuses?

Ora, o uso da cor rosa esteve sempre assimilado ao vermelho, digamos que é uma diluição homeopática do encarnado pelo branco, e associado à vida, à boa carnação, às boas cores.  Uma cor que se encontra no traje masculino ao longo dos séculos. Séculos, senhora Ministra. No traje feminino também, ainda que até ao século xviii, menos. E antes dos anos cinquenta do século xx, altura em que géneros e papéis se extremaram, não passava pela cabeça de ninguém dizer que o rosa era uma cor feminina. As cores, do início do século xx até essa data, não tinham género: tinham idade: o rosa era uma cor infantil e juvenil.

Claro, nos anos setenta, a cor tinha perdido a força dita feminina: quem fez a Revolução Sexual e o Maio de 68 não vestiria os filhos em rosas e azuis polarizados: a minha geração, senhora Ministra, foi a primeira a ser vestida com a moda unisexo, calças de ganga, t-shirt pro menino e pra menina. O que sucedeu depois, quando a minha geração começou a ter filhos, foi que o unisexo perdeu a força e voltaram os rosas, os laços, e os azuis. Pais conservadores, filhos rebeldes, pais rebeldes filhos conservadores…

Se o azul vem do céu e da água e com ele vem a razão, de onde e com quem vem o cor-de rosa?

O cor-de-rosa vem com a flor. A flor branca e a flor encarnada. E vem de sempre. Do vale de Saron para iluminar a beleza da amada no Cântico dos Cânticos; para nomear a perfeição de Cristo, para, cálice, recolher o Seu sangue e inspirar demandas e para transmutar o vinho. E vem na Matéria de Bretanha e faz-se o símbolo por excelência dos seus cavaleiros e rosa cândida na Divina Comédia. E faz-se pedra no gótico aspiracional. E são rosas cor-de-rosa as que Afrodite inventa às portas da morte de Adónis quando se pica num espinho e sobre o branco da flor cai uma gota do seu sangue. Rosa profana. Rosa sagrada. Da pureza à paixão em todas as colorações do branco ao vermelho, da alma aos maravilhosos Rosarium Philosophorum.

E a pílula cor-de rosa, senhora Ministra? Não me refiro a esta que nos quer fazer engolir, à outra, à concreta que se toma com um copo de água, Filibanserin. Bem, palpita-me que não é flor que se cheire. A pílula azul, Viagra, afecta, vá, a engenharia da coisa, é o levanta e cai da questão. Já o comprimido das meninas é dirigido ao software – mexe com a intimidade do rico cérebro. Ora, se é para mexer por mexer com cérebro, quero dizer, com o desejo, mais vale a fórmula clássica que a tia Edith Piaf tão bem escreveu. E nem sequer tem contra-indicações.

Senhora Ministra, imagino que a indigne que assimile a sua dicotomia colorida à disfunção sexual. Mas veja bem, antes disfunção sexual do que restauração sexual – em português de Portugal por muito que restauremos, casas, pinturas, enfim, de um tudo, quando falamos de restauração, falamos de restaurantes, de comida,  e quando falamos de sexo, se calhar por nos saber tão bem, também dizemos barbáries antropofágicas, por exemplo, comia-te todo! Seja qual for o prato diante de nós, senhora Ministra, que não haja disfunção do apetite.

Duas notas mínimas antes de terminar. Uma. 

Senhora Ministra, sou portuguesa, mas sou mulher, logo humana, e tenho família, tudo alçadas do seu talento, e se lhe falo é porque o meu passado brasileiro me condena, e se é extenso: o meu primeiro namorado foi Pedro Bala, filho de Jorge Amado e, ó, se eu o amei. E na madureza dos dezoito anos plenos e bígamos chegaram o meu perfeito marido Drummond, à direita, e Machado à esquerda – Dona Flor mais feliz não houve, há-de ser por isso que sou de um centro moderado. E amigas de uma vida inteira: a minha avó e Cecília Meirelles, eu e Adélia Prado, dois romances felizes sem atrapalhação de género.

A outra. A terra é redonda. E é uma nave onde todos viajamos. No imenso espaço. Ao longe, muito longe, mal se vê. É um ponto. Num ponto não há fronteiras, nem brasileiro-português, mesmo quando o infinito está em todos quantos cabem nesse ponto. E quero mesmo dizer todos sem excluir nem um, nem sequer a senhora Ministra. Plana só mesmo a tabula rasa que devemos fazer do maluquedo que  a senhora Ministra anda para aí a dizer.




Ps: a despropósito: Deus não fala comigo. Nem me aparece. Nunca fez o favor de me aparecer. Mas estou convicta de que o sinal de Deus é o amor, o imenso amor, o infindo amor e sua compaixão, o abraço que a todos acolhe. Não escolhe. Como na bela imagem medieval de Nossa Senhora do Manto.


Ps 2: olhe, senhora Ministra, que lindo artigo: 
https://www.theatlantic.com/sexes/archive/2013/08/pink-wasnt-always-girly/278535/

17 de janeiro de 2019

Flor acesa

FLOR ACESA

Tanta noite
nesta insónia,
e vigília:
abriu-se a flor,
acendeu-se o escuro.

O coração é uma flor.

A Perfeição do Nó Torto

A PERFEIÇÃO DO NÓ TORTO

Há coisas muito bonitas,
esta é uma delas,
e não as podes evitar -
nem as conheces.
 São uma digital
fora do dedo, solta
na vida, uma alegria,
minha luz da manhã
toda particular:
o nó torto da tua gravata
sempre inclinado à direita.
Não te vejo mas sorrio-te:
que fazes tu ao espelho?

Quem vai ao mar perde o lugar


Igor Levit por Robbie Lawrence


Quem vai ao mar perde o lugar

Gulbenkian. Igor Levit. Eu como o diabo gosta. Entupida de antibióticos, mais Symbicort, Brufen, enfim, de um tudo: a alegria das farmácias. Sala quase cheia. E isto é um mistério gulbenkiano: são mil as vezes em que não se consegue um raio de um bilhete, dois lugares consecutivos então... é coisa da ordem dos milagres ou de uma previdência incompatível com o mundo, mas aceitamos, e entre milagres e previdências, vamos. E chegamos e zás, lugares vagos. E não é um nem são dois.
De quem são aquelas cadeiras? Vendem-nas? Licitam-nas? Posso ficar com uma e pregar-lhe uma tabuleta nos costados a dizer Eugénia de Vasconcellos?
Na verdade, isto até seria em benefício da própria Gulbenkian: daqui a um monte de anos, quando eu estiver a escrever noutro multiverso qualquer, neste, um diligente funcionário desta bela instituição poderia dizer: esta era a cadeira de EV, poeta tão extraordinária que para ser perfeita só lhe faltava a modéstia; é que não nos deslargava, nem durante a semana nem no dia do Senhor: era café, era Almedina, era jardim, era piano, orquestra, violino, ópera... vá, ao menos nas conferências era um calhar, quer dizer, vinha quando lhe calhava ao gosto e sentava-se onde calhava que só era esquisita no Grande Auditório - toda a gente sabe que os guias falam exactamente comme ça.
Quando era pequena e até ser grande, tudo se passava no cinema que era teatro. Lá, ia para a frisa. Era um descanso. Bem. Havia as precedências: tias velhas, primos mais velhos e depois, ao fim, os mais novos. Nunca havia dramas salvo quando havia ópera e não se dava a multiplicação das cadeiras que eram seis nem das sessões que em regra eram duas. Só nervos! Mas desperdício de cadeiras, não.
Hoje a sala portou-se malzinho. Telemóveis a tocar, três. Dois na primeira parte, um, na segunda. Tossicava-se aqui  e respondia uma tosse cavernosa ali. É Janeiro. Uma senhora foi tão mas tão mal olhada e ssshhh  ssssh durante um ataque de tosse que se levantou e saiu a meio da primeira parte. Se tivessem pedras... Regressou na segunda.
Confesso, também tossi. Só uma vez. O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte, fui eu. Azarucho, não conseguia respirar. Não saí. Paciência que eu também a tive e durante duas horas ininterruptas. Sim. Até no intervalo.
O senhor catarrento nas minhas costas, comentou tudo em directo. Tudo. Tossia. Comentava. Mas era um tossidor transazonal-fumador o que, como toda a gente sabe, é outro estatuto - permite insultar senhoras tossidoras sazonais não fumadoras, por exemplo. Não se calou. O tempo todo que o raio do homem gostava de se ouvir e, pior, já era um bom bocado surdo. Olha para isto, com a mão esquerda quando isto foi transcrito para as duas mãos por laialailai e ontem no Mezzo, sim porque eu é Mezzo e Bravo e laialailai. E mais do mesmo, que vergonha, não tem vergonha, nem têm vergonha, trazem gente desta que escolhe isto com tanta peça bonita que Schumann tem e laialailai. Sssssh... esta devia ir tossir lá para fora.
- Não fui eu, ó comentador tússico do inferno, cala-te lá bicho do ouvido que foi o meu alter ego que está sentado nesta cadeira vazia aqui ao lado!

Um passo ao lado

Sim, estou a ver-te!




Um passo ao lado 


Veneza. Turistas em corrente infinda em grupos de dezenas avançam pelas ruas, as malas de quatro rodas low cost batem nas pedras e degraus. Todo o dia. E tomam conta das pontes e das praças para incontáveis selfies de canal à frente, canal ao lado, no centro do canal, da praça, ao centro da sala do palácio, da torre, da tela, da gôndola. Têm gorros com um enorme pompom e usam ténis. Fazem fila.

Há uma fila de cinquenta japoneses, alguns de máscaras hospitalares, para entrar no Florian.

Um passo lado, do outro lado, se fossem à salinha pequena do Gran Quadri, à esquerda de quem entra, quatro mesas e um balcão, não teriam máscaras, só café moído na hora - a melhor bica da minha vida e isto não é dizer pouco. Forte. Creme espesso. A perfeição das manhãs em chávena pequena.

E os restaurantes venezianos nas ruas de maior trânsito... são chineses. Pizza e pasta intragáveis de gordura pré-cozinhada. Basta olhar para perceber. E os menus com fotografias dos pratos plasmados nos vidros das janelas.

Mas um passo lado. Ruas vazias. Roupa nos estendais. Pombos dormentes. E filas só de copos altos de spritz , ao balcão do fim da tarde, nenhuma outra língua para além do italiano, nem um gorro de pompom maior do que o rabo de um coelho, nem um, as mulheres usam kubankas de raposa ou do que for, Laras Antipovas com Zhivagos a tiracolo ou de serviço, deslizam de saltos altos e casacos compridos de deixar a PETA à beira de um ataque de nervos. 

À direita e à esquerda, tudo é belo. Até o estaleiro de gôndolas, acidental e fechado, longas pranchas de madeira amontadas a tomar nevoeiro como se fora sol. 

Uma igreja aberta há mais de doze séculos, caída e levantada como nós, pias cheias de água benta, água suficiente para tanto mal, e nem um crente nem um visitante, e mesmo assim um mistério de velas acesas. Um passo ao lado, colado, viveu um alquimista e sobreviveram-lhe as pedras inscritas a claros símbolos enterradas nas paredes amarelas. Vielas estreitíssimas e decadentes. Belas na sombra húmida que nenhuma luz rasga. Pátios inesperados atrás de portões altos. Belos ao céu descoberto do tempo. 

Nos edifícios, medalhas a torto e a direito: aqui viveu x, ali escreveu y, ali morreu z. As pessoas passam, as casas ficam. As ruas. Morrer, antes, parecia-me um escândalo, tinha a cabeça formatada em Cesário Verde, ai se eu não morresse nunca e eternamente buscasse a perfeição das coisas. Merda para isso. A eternidade não precisa de mim para nada.

Nem há Bach suficiente para nos salvar por muito que aqui cresça na acústica perfeita das igrejas. A beleza não salva ninguém nem quando os Tintoretto são mais do que os pintores de rua e as gaivotas se passeiam, de asas fechadas, passo a passo, a cabeça altiva, como orgulhosos cães sem dono.

Porém, na casa onde Peggy viveu, ainda está uma Maiastra de Brancusi. Essa ave cujo canto, não há romeno que o não saiba, resgata da escuridão quem a ouça.


Vemos tudo, tudinho, não é?



Veneza, Natal de 2018

7 de dezembro de 2018

Funciona!

Em pleno Campo de Ourique...
...o botão que reinicializa o mundo. E funciona!

11 de novembro de 2018

Consubstancial à Luz

CONSUBSTANCIAL À LUZ


Emergiu, gerado do majestoso caos,
este coração consubstancial à luz.
E neste mar-tempo todo de impressões debatíveis,
débeis, inter-substituíveis, avança contra corrente,
inalterada jangada indiferente 
de força antiga agora proibida:
antes, chamávamos-lhe Destino,
Amor dentro do Plano Divino,
inevitável eu-tu, inexorável;
hoje, apenas desuso de palavras raras,
e de fundíssimos sentimentos
na alta raiz das coisas claras.

26 de outubro de 2018

De EV a Deus

DE EV A DEUS
Criador e Escriba dos meus passos,
Tu que desenhaste o meu deserto
e a minha errância
e contaste as minhas lágrimas
e me tens no Teu Livro.
Tu, Nome que aprendi, nem sei como,
a bendizer pelo bem quando chega
e pelo mal quando me vem,
pois sei lá eu se Ismael foi expulso
para salvação de José, e se José
foi traído e vendido para reger um mundo,
para salvar um povo...
O que sabemos ambos, Tu e eu,
é que desisti de lutar Contigo:
ganhaste.
Mas não é por isso que a solidão
se parte e lhe descubro dentro
a amêndoa doce que não provei.

24 de outubro de 2018

São rosas, senhor

Não, não é esta metade...


são rosas, senhor

A minha irmã, cunhado e os meus ricos sobrinhos foram ao baptizado do filho de um dos seus amigos. E tudo muito bem. De repente, vindo da mesa das crianças, o cartão vermelho:
- A Cuca disse um grande palavrão.
E aqui faço um parêntesis. Dois. Três. A saber: Cucas são os meus sobrinhos. A Cuca é o meu sobrinho mais novo e tem sete anos. E as Cucas, de sete e dez anos, respectivamente, frequentam o ensino em inglês.
E a minha irmã para o cartão vermelho:
- Falamos sobre isso quando regressarmos a casa. Diga baixinho ao ouvido d'A Cuca que a mãe mandou: nem mais um palavrão.
Quase a chegar a casa, ainda no carro, a minha irmã e o meu cunhado para A Cuca:
- Então, qual foi o grande palavrão?
E A Cuca:
- Hmmm, não me lembro...
Porém a outra Cuca:
- Eu lembro-me: foi dick!
E logo A Cuca:
- Tu percebeste mal: eu estava a falar de metade de uma baleia muito antiga: Dick, Moby Dick.

15 de outubro de 2018

Então, vá...

oopsie...


então, vá.

O meu avô, bicho afectuoso, brincalhão, combustivo e com a força bruta de quem se disciplinou pelo desporto, abraçava. Mas abraçava mal. Era excelente no abraço rápido e forte, mas se a coisa demorava, zás, umas palmadinhas leves nas costas a indicar time's up o que, toda a gente sabe, em português traduz-se por então, vá. 

Ora, se há quem confunda as palmadinhas nas costas com tão bom, mais um bocadinho, posso garantir, apesar de não ser uma especialista, é o oposto. É deslarga-me. É está feito. É se já fui, deixa-me ir. Aliás, uma das minhas grandes especialidades inúteis é isto, ou melhor, é disto: linguagem corporal - dos outros, claro, que não ando com um espelho à frente, e a expressão da aldrabice/verdade conforme ambas são percebidas pelo próprio do aldrabão/verdadeiro que somos todos nós. Sim, o ser humano dito normal mente, ó escândalo, todos os dias. Os homens mentem o dobro das vezes da mulher. Não é, em regra, um mal: é uma defesa, uma estratégia de sobrevivência, uma forma de facilitar as relações cordiais. Já viu o drama que era? Querido, fica-me bem este vestido? Não, filha, faz-te o rabo grande. Ninguém merece, pronto. Enfim, acho quase sempre graça quando as pessoas mentem e quase sempre têm razões bonitas para o fazer, ou boas e práticas. Ou patetas, o que é uma das minhas coisas preferidas: as nossas patetices, o lado vulnerável de cão pequenino a fazer frente a cavalos como o meu lindo Cão fazia só porque era valente. Também somos valentes. Escolho sempre acreditar: quando posso, na mentira, já que fizeram gosto em contá-la, há-de ter importância, quando não posso, tento perceber a razão dela já que se deram ao trabalho. Faço, portanto, que não dei por nada.

Se estiver atenta, o que raramente acontece porque prefiro estar descontraída, há verdades que evito como o diabo à cruz. São as verdades, então, vá. As palmadinhas. As expressões muito óbvias de mas que chatice aturar este agora... Prefiro mentir. Afinal, todos somos cavalos. E cães pequeninos, somos também. À vez. E ora aqui, ora ali. Hoje somos um, amanhã o outro. Com o privilégio de sermos cavalos, vem a responsabilidade de não coicearmos o cão pequenino. Ão.

8 de outubro de 2018

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto a inaugurar a semana... Ide ler.

6 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos

No dia 16 de Outubro, poderá comprá-lo na livraria, mas se quiser insultar com propriedade antes dessa data, para quê esperar se este rubro livro que deixará o insulto rubro de satisfação está disponível em pré-venda, aqui, no site da Guerra & Paz?


4 de outubro de 2018

Modo celebratório: 1ºAno

Saltou-te a tampa!


E zás! a tampa da garrafa do azeite desapareceu, já virei a cozinha ao contrário, ó raios, sabia lá eu que de Moura me vinham ilusionistas...
Ai que linda...


A carne está no forno: temperei, recheei, atei - diabos, sou o Araki do do lombo de porquinho preto!- selei-a bem selada e depois aproveitei aqueles belos sucos, acrescentei vinho, desprenderam-se, e reguei-a quando a pus no tabuleiro. Até pode sair mal, mas por enquanto o cheiro do alecrim perfuma tudo.
E porque não se descascam sozinhas? Que dependentes!

Agora, agora as batatas que ainda falta o puré e gratiná-lo e tal.

Viva!

3 de outubro de 2018

A mudança

Não grite que é tarde!


a mudança

Faz hoje um ano estava de olhos abertos, no meu quarto, sentada na cama, a olhar pela janela sem cortinados, a janela ao lado da mesa de cabeceira e que tem uma mínima estante por baixo. Cheia de livros logo na primeira noite. Tinha o telemóvel na mão. A rua vazia. Os milagres dão-se no ecrã - não sei se pelo seu carácter luminoso ou por se escrever neles como uma tábua de Moisés.


Uma mudança é uma forma voluntária, e no meu caso desejada, de violência. Queria vir. Precisava. Procurei incapaz de não encontrar. Encontrei. Tratei de tudo e de mais teria tratado se houvesse para tratar. O que fosse. Mandei pintar, reparar, limpar. Planeei. Tinha uma visão clara. Claríssima. E a luz? que luz por estas janelas dentro voltadas de frente para a vida, e como ela se espalhava, e mais o enfiamento do céu na perfeita rosa nos ventos: era o norte que sonhara. Vi tudo nítido antes. A disposição dos móveis. Até o lugar dos Santos e do grande volume do Caravaggio. A aguarela do Cão. Sei lá eu como. Organizei. Uma das minhas poucas virtudes úteis é esta: organizo com o pensamento com tal ordem e precisão que a materialização é exacta. A internet chegou antes de mim. A casa é ao pé disto e daquilo e da farmácia e do jardim e do supermercado? Sim, é. E há árvores maduras, passeios planos, café e banco. Lavandaria. Livraria. Restaurante. Tem tudo quanto conta. Elevadores. Escolhi bem. Conta? Não conta. O que é isto de desempacotar caixotes de quilos de livros? Preparar o cartão desses mil caixotes para a reciclagem, ter louça sem fim para lavar depois de lavada antes de a empacotar, uma fila interminável para a máquina e nem uma só formiga que nos salve enquanto dormimos - que pena não ser Psiché. Não ter Eros ao pé. Qual Eros... E assim mesmo tudo. Tudo feito. E mais fosse. 


O meu tio tinha morrido. Antes adoecido. Uma tristeza pegada a outra que o sofrimento não tem perdão. E tinha ficado mais dois meses imprevistos. Então, cheguei num dia de calor inesquecível e com o suor e o luto agarrados à pele. Eu própria não estava bem, ainda, e tive tanta ajuda, a minha mãe conduziu o meu carro até aqui, o meu cunhado no Jeep da minha mãe conduziu as manobras com a transportadora e deixou-me um candeeiro provisório montado na cozinha para que eu não tivesse deprimidas lâmpadas penduradas. Estas pequeninas coisas ficam connosco depois das lâmpadas se apagarem. Os livros arrumados na parte de baixo do armário logo inamovível pelo peso das páginas. Foi a minha mãe que me arrumou o Jung ali, alinhadinho. O pensamento pesa que se farta.


À despedida, ao fim da da tarde desse primeiro dia, a minha mãe, como se eu fosse cega, ou ela já a prever, estão aqui as canadianas. E eu as canadianas vão. Foram. Dizemos estas coisas como se o mal e o bem estivessem à distância da palavra que os rejeita ou acolhe. Não estão, pois não?


A véspera do primeiro dia de escola. A bata pronta, a pasta preparada. E a gente de olhos abertos à espera que a noite alquímica nos transforme nesses seres do amanhã que escrevem e lêem. Vivem pelo seu próprio pé. É o mundo à nossa espera - ou nós à espera de viver.


Passou um ano inteiro. É noite outra vez. Há quanto tempo estão já os cortinados na janela do quarto? E não mudou nada: tenho ainda o telemóvel na mão.

28 de setembro de 2018

Canção a meio do caminho


com Cecília Meirelles e Amália Rodrigues

CANÇÃO A MEIO DO CAMINHO

Não tem que enganar:
o impensável deu-se,
foram montanhas,
foram mares,
foram os números,
tu sabes,
e tiveste de pensar
essas coisas singulares
e isso é o sal na carne viva,
a guitarra muda,
e nem Wittgenstein te salvou,
se nem Deus a Cristo quanto mais,
é o fim do fado. É o fim. É o fim. É o fado.
 A vida agora é o campo das potencialidades,
e a morte.
E, pasma-te, como é possível?
nada arde na derrota
e as vitórias são risíveis.
Tabula rasa és tu que
já foste perfeccionista de base,
control freak,
tenso na quinta casa,
autoritário incapaz de respirar fundo
sem se engasgar,
e sonhador, lírico, apaixonado.
Resumido:
foste palhaço e foste pasto. Foste comido.
A liberdade. A bendita liberdade.
Encolhes os ombros. Sorris um pouco.
Só posso ser o que sou,
é o que tenho,
as mãos são estas.
É o que for.