24 de outubro de 2018

São rosas, senhor

Não, não é esta metade...


são rosas, senhor

A minha irmã, cunhado e os meus ricos sobrinhos foram ao baptizado do filho de um dos seus amigos. E tudo muito bem. De repente, vindo da mesa das crianças, o cartão vermelho:
- A Cuca disse um grande palavrão.
E aqui faço um parêntesis. Dois. Três. A saber: Cucas são os meus sobrinhos. A Cuca é o meu sobrinho mais novo e tem sete anos. E as Cucas, de sete e dez anos, respectivamente, frequentam o ensino em inglês.
E a minha irmã para o cartão vermelho:
- Falamos sobre isso quando regressarmos a casa. Diga baixinho ao ouvido d'A Cuca que a mãe mandou: nem mais um palavrão.
Quase a chegar a casa, ainda no carro, a minha irmã e o meu cunhado para A Cuca:
- Então, qual foi o grande palavrão?
E A Cuca:
- Hmmm, não me lembro...
Porém a outra Cuca:
- Eu lembro-me: foi dick!
E logo A Cuca:
- Tu percebeste mal: eu estava a falar de metade de uma baleia muito antiga: Dick, Moby Dick.

15 de outubro de 2018

Então, vá...

oopsie...


então, vá.

O meu avô, bicho afectuoso, brincalhão, combustivo e com a força bruta de quem se disciplinou pelo desporto, abraçava. Mas abraçava mal. Era excelente no abraço rápido e forte, mas se a coisa demorava, zás, umas palmadinhas leves nas costas a indicar time's up o que, toda a gente sabe, em português traduz-se por então, vá. 

Ora, se há quem confunda as palmadinhas nas costas com tão bom, mais um bocadinho, posso garantir, apesar de não ser uma especialista, é o oposto. É deslarga-me. É está feito. É se já fui, deixa-me ir. Aliás, uma das minhas grandes especialidades inúteis é isto, ou melhor, é disto: linguagem corporal - dos outros, claro, que não ando com um espelho à frente, e a expressão da aldrabice/verdade conforme ambas são percebidas pelo próprio do aldrabão/verdadeiro que somos todos nós. Sim, o ser humano dito normal mente, ó escândalo, todos os dias. Os homens mentem o dobro das vezes da mulher. Não é, em regra, um mal: é uma defesa, uma estratégia de sobrevivência, uma forma de facilitar as relações cordiais. Já viu o drama que era? Querido, fica-me bem este vestido? Não, filha, faz-te o rabo grande. Ninguém merece, pronto. Enfim, acho quase sempre graça quando as pessoas mentem e quase sempre têm razões bonitas para o fazer, ou boas e práticas. Ou patetas, o que é uma das minhas coisas preferidas: as nossas patetices, o lado vulnerável de cão pequenino a fazer frente a cavalos como o meu lindo Cão fazia só porque era valente. Também somos valentes. Escolho sempre acreditar: quando posso, na mentira, já que fizeram gosto em contá-la, há-de ter importância, quando não posso, tento perceber a razão dela já que se deram ao trabalho. Faço, portanto, que não dei por nada.

Se estiver atenta, o que raramente acontece porque prefiro estar descontraída, há verdades que evito como o diabo à cruz. São as verdades, então, vá. As palmadinhas. As expressões muito óbvias de mas que chatice aturar este agora... Prefiro mentir. Afinal, todos somos cavalos. E cães pequeninos, somos também. À vez. E ora aqui, ora ali. Hoje somos um, amanhã o outro. Com o privilégio de sermos cavalos, vem a responsabilidade de não coicearmos o cão pequenino. Ão.

8 de outubro de 2018

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto

E este, meus senhores, é um grandíssimo texto a inaugurar a semana... Ide ler.

6 de outubro de 2018

O Pequeno Livro dos Grandes Insultos

No dia 16 de Outubro, poderá comprá-lo na livraria, mas se quiser insultar com propriedade antes dessa data, para quê esperar se este rubro livro que deixará o insulto rubro de satisfação está disponível em pré-venda, aqui, no site da Guerra & Paz?


4 de outubro de 2018

Modo celebratório: 1ºAno

Saltou-te a tampa!


E zás! a tampa da garrafa do azeite desapareceu, já virei a cozinha ao contrário, ó raios, sabia lá eu que de Moura me vinham ilusionistas...
Ai que linda...


A carne está no forno: temperei, recheei, atei - diabos, sou o Araki do do lombo de porquinho preto!- selei-a bem selada e depois aproveitei aqueles belos sucos, acrescentei vinho, desprenderam-se, e reguei-a quando a pus no tabuleiro. Até pode sair mal, mas por enquanto o cheiro do alecrim perfuma tudo.
E porque não se descascam sozinhas? Que dependentes!

Agora, agora as batatas que ainda falta o puré e gratiná-lo e tal.

Viva!

3 de outubro de 2018

A mudança

Não grite que é tarde!


a mudança

Faz hoje um ano estava de olhos abertos, no meu quarto, sentada na cama, a olhar pela janela sem cortinados, a janela ao lado da mesa de cabeceira e que tem uma mínima estante por baixo. Cheia de livros logo na primeira noite. Tinha o telemóvel na mão. A rua vazia. Os milagres dão-se no ecrã - não sei se pelo seu carácter luminoso ou por se escrever neles como uma tábua de Moisés.


Uma mudança é uma forma voluntária, e no meu caso desejada, de violência. Queria vir. Precisava. Procurei incapaz de não encontrar. Encontrei. Tratei de tudo e de mais teria tratado se houvesse para tratar. O que fosse. Mandei pintar, reparar, limpar. Planeei. Tinha uma visão clara. Claríssima. E a luz? que luz por estas janelas dentro voltadas de frente para a vida, e como ela se espalhava, e mais o enfiamento do céu na perfeita rosa nos ventos: era o norte que sonhara. Vi tudo nítido antes. A disposição dos móveis. Até o lugar dos Santos e do grande volume do Caravaggio. A aguarela do Cão. Sei lá eu como. Organizei. Uma das minhas poucas virtudes úteis é esta: organizo com o pensamento com tal ordem e precisão que a materialização é exacta. A internet chegou antes de mim. A casa é ao pé disto e daquilo e da farmácia e do jardim e do supermercado? Sim, é. E há árvores maduras, passeios planos, café e banco. Lavandaria. Livraria. Restaurante. Tem tudo quanto conta. Elevadores. Escolhi bem. Conta? Não conta. O que é isto de desempacotar caixotes de quilos de livros? Preparar o cartão desses mil caixotes para a reciclagem, ter louça sem fim para lavar depois de lavada antes de a empacotar, uma fila interminável para a máquina e nem uma só formiga que nos salve enquanto dormimos - que pena não ser Psiché. Não ter Eros ao pé. Qual Eros... E assim mesmo tudo. Tudo feito. E mais fosse. 


O meu tio tinha morrido. Antes adoecido. Uma tristeza pegada a outra que o sofrimento não tem perdão. E tinha ficado mais dois meses imprevistos. Então, cheguei num dia de calor inesquecível e com o suor e o luto agarrados à pele. Eu própria não estava bem, ainda, e tive tanta ajuda, a minha mãe conduziu o meu carro até aqui, o meu cunhado no Jeep da minha mãe conduziu as manobras com a transportadora e deixou-me um candeeiro provisório montado na cozinha para que eu não tivesse deprimidas lâmpadas penduradas. Estas pequeninas coisas ficam connosco depois das lâmpadas se apagarem. Os livros arrumados na parte de baixo do armário logo inamovível pelo peso das páginas. Foi a minha mãe que me arrumou o Jung ali, alinhadinho. O pensamento pesa que se farta.


À despedida, ao fim da da tarde desse primeiro dia, a minha mãe, como se eu fosse cega, ou ela já a prever, estão aqui as canadianas. E eu as canadianas vão. Foram. Dizemos estas coisas como se o mal e o bem estivessem à distância da palavra que os rejeita ou acolhe. Não estão, pois não?


A véspera do primeiro dia de escola. A bata pronta, a pasta preparada. E a gente de olhos abertos à espera que a noite alquímica nos transforme nesses seres do amanhã que escrevem e lêem. Vivem pelo seu próprio pé. É o mundo à nossa espera - ou nós à espera de viver.


Passou um ano inteiro. É noite outra vez. Há quanto tempo estão já os cortinados na janela do quarto? E não mudou nada: tenho ainda o telemóvel na mão.

28 de setembro de 2018

Canção a meio do caminho


com Cecília Meirelles e Amália Rodrigues

CANÇÃO A MEIO DO CAMINHO

Não tem que enganar:
o impensável deu-se,
foram montanhas,
foram mares,
foram os números,
tu sabes,
e tiveste de pensar
essas coisas singulares
e isso é o sal na carne viva,
a guitarra muda,
e nem Wittgenstein te salvou,
se nem Deus a Cristo quanto mais,
é o fim do fado. É o fim. É o fim. É o fado.
 A vida agora é o campo das potencialidades,
e a morte.
E, pasma-te, como é possível?
nada arde na derrota
e as vitórias são risíveis.
Tabula rasa és tu que
já foste perfeccionista de base,
control freak,
tenso na quinta casa,
autoritário incapaz de respirar fundo
sem se engasgar,
e sonhador, lírico, apaixonado.
Resumido:
foste palhaço e foste pasto. Foste comido.
A liberdade. A bendita liberdade.
Encolhes os ombros. Sorris um pouco.
Só posso ser o que sou,
é o que tenho,
as mãos são estas.
É o que for.

23 de setembro de 2018

Morte à Chegada

MORTE À CHEGADA

O mal também tem este nome:
morte à chegada -
 e nada podemos diante dele, nada.
Pensavas que ias viver
mas a aurora despontou no escuro,
o fiat! escondeu-se atrás dos dentes cerrados,
na boca fechada,
e os anjos vestiram as asas pretas.

10 - uma mulher de sonho



10 - uma mulher de sonho

É incontornável. Homens e mulheres não são iguais. Não são iguais no corpo, não são iguais no psiquismo, não são iguais na mecânica mais ou menos quântica do cérebro. Não são iguais. Os homens contam. As mulheres relacionam. 

Um estudo recente pôs ao léu os pensamentos masculino e feminino na escolha de parceiros. Na verdade, poderia ser um estudo de 1979 e realizado por Blake Edwards. Poderia ser 10. Ou em português, 10 - uma mulher de sonho. Explico. 

O homem faz uma auto-avaliação, isto é, dá-se uma nota num conjunto de critérios: rosto, corpo, rendimentos, profissão, competências sociais... Soma tudo de zero a dez. Depois das contas feitas, procura uma mulher que, na sua avaliação, tenha uma pontuação igual, ou um, dois, ou no máximo três pontos acima. Não é, por isso, surpreendente ver um homem de muita idade, envelhecido, e de grande sucesso económico, ou poder específico, ao lado de uma mulher muito jovem, elegante e bonita. Espelham-se na auto-avaliação. Para além destes casos extremados de grandes diferenças de idades e grandes correspondências de avaliação, há o pão nosso de cada dia, e são quase todos os outros. À esquerda e à direita, encontramos casais que claramente se espelham e de forma mais simétrica: no mesmo patamar de beleza, ou de paisagem social, ou económica, ou profissional. E isto também fala das hierarquias que os conduzem, o foco que os dirige. Resumido: no que querem da vida. Igualmente fascinante é olhar para os segundos ou terceiros casamentos, numa idade de maturidade em que a auto-avaliação já não é a mesma da primeira viagem no carrossel da selva e, assim, permite os encontros que na primeira volta seriam impossíveis por assimetria. A pontuação, portanto, não é estática,  a que se auto-atribui e a que se dá aos outros. Muda a beleza, muda a pontuação. Muda o sucesso, muda a pontuação. Muda o comportamento, muda a pontuação.

As mulheres não dão pontos. Não contam. Mas é igualmente fácil perceber quantos pontos se dá uma mulher: basta olhar para o marido/namorado/híbrido. A escolha da mulher é futurista: a mulher escolhe no presente aquele que lhe parece ser o melhor garante de futuro, qualquer que seja o futuro pretendido na qualidade ou duração.

A parte mais gira do estudo, no entanto, são os grandes erros de avaliação. E pasme-se, quem conta melhor, é quem se engana mais e é mais propenso a cometer grandes erros de avaliação. Porque um homem avalia no presente. Ontem não existe. Amanhã também não. Os homens não contam algo com que as mulheres contam sempre: o potencial. E o melhor dos predictores, o passado. Então, o mais frequente e mais consistente erro do homem é subestimar a mulher que avalia. O mais frequente e mais consistente erro da mulher é sobrestimar o homem que escolhe.

Mal por mal, antes mulher que homem.

15 de setembro de 2018

Despedida

DESPEDIDA

Podes ficar com os Teus exércitos
e suas espadas flamejantes,
arcanjos à frente,
anjos ao centro,
voz do Espírito adiante;
e com os Teus milagres,
protecções, provações, profecias;
e com a inamovível montanha -
a semente de mostarda, devolvo-Ta.
Pelo baptismo, renunciamos ao mal,
pela vida ao bem prometido.
A ti, e eu chamava-te Amor,
lugar onde amanheciam todos os prodígios,
devolvo-te os futuros cancelados
como qualquer outro voo.
Aos meus pares, amados iguais
neste pacto de sangue a preto e branco
a correr pelas páginas:
aprendi, para o bem, o que não vem,
e para o mal, a que renunciei,
sou ímpar, estou só.
Nada mais tenho a devolver
além do corpo de hoje, amanhã pó.
Fecho a porta. Entrego a chave.
Adeus.

11 de setembro de 2018

Serena? Não me parece...

JK Rowling, Nicki Minaj, a sério?
Eu se fosse o Harry Potter ia-me já queixar de ter apanhado com um raio nos cabides!
E se fosse uma anaconda, ó Nicki, apresentava queixa ao Pan...



Os muito puros que me perdoem, mas bom senso é fundamental: não, esta não é uma questão racial; não, esta não é uma questão de género; esta é uma questão de manipulação ao serviço da discriminação positiva e do politicamente correcto.

Toda a gente, aqui e ali, ao longo da vida se portou mal. Perdeu o controlo. Foi impulsivo. Ou mesmo, no pior dos casos, foi-se um filho da puta. Acontece. Não se planeia. Não se deseja. Fica-se aquém. Mas acontece. Ninguém de bom senso se orgulha desses momentos da sua vida. Se possível, oferece-se reparação. Somos falíveis. Mas esforçamo-nos. É assim.

Claro que estou a falar de sua alteza sereníssima, perdão, transtornadíssima, da tenista Serena Williams e do circo que se levantou em torno da palhaçada em campo. (E se, por ventura, estiver a contar as micro-agressões verbais deste texto: filho da puta; sua alteza; palhaçada, sempre adianto, que essa outra ficção do politicamente correcto, também aqui não colhe.)

Quando, de impulsos fora de controlo, Serena parte a raquete, ainda se está no reino do justificável, não é bonito, porém é justificável: é um jogo, vai perder, tem a adrenalina a mil e a energia pede escoamento. Não correu da melhor forma esse escoamento, deu-lhe para mcenroear... olha, azarucho, venha a penalização, e pronto.

Agora, dirigir-se a Carlos Ramos, de dedo em riste, a gritar que trabalhou muito para chegar ali, que é mãe de uma filha para quem é um modelo de irrepreensível comportamento, que ele a penaliza porque ela é mulher, e para rematar, chamar-lhe mentiroso e ladrão, isso, não. Não. Não. E vergonha maior, a Associação de Ténis Feminina fazer disto uma questão de género. Não há género nisto, há comportamento. Um comportamento justamente penalizável dentro do regulamento. Um pedido de desculpas devido.

Pior. De cada vez que uma mulher grita discriminação de género como Pedro gritava lobo sem que lobo houvesse até que lobo houve e ninguém acreditou, presta um deserviço à mulher. Todas e, venha a polícia feminina, todos, portanto, mulheres e essa espécie a quem se atira ao alvo quando se quer ficar bem visto nas colunas de opinião dos jornais, os homens, mais uma vez, todos nós, pessoas, em regra, trabalhamos muito para chegar onde chegamos, o que quer que isso seja, e não nos vitimizamos por isso. Fazemos o melhor que podemos para sermos bons referentes para filhos, sobrinhos, ou o miúdo no passeio por quem não atravessamos o vermelho para peões numa rua deserta não vá ele fazê-lo um dia e vir um daqueles tipos que nem se sabe de onde. Não me passa pela cabeça, como não passou pela cabeça da minha mãe, muito menos da minha avó, eleger o homem como inimigo para resolver as inadequações sociais ou profissionais que são da minha responsabilidade: o modelo opressor/oprimido decalcado do marxismo para o feminismo está caduco. Que feminismo e pseudo anti-racismo são estes, de gente como J.K. Rowling e Nicki Minaj, que querem a censura de um cartoon de Mark Knight, para o Herald Sun, a falsos pretextos?

Querem brincar às vítimas de moinhos de vento? Brinquem. Eu, quando perco a cabeça e parto as minhas raquetes, peço desculpa.

3 de setembro de 2018

O teu poema

O TEU POEMA

Perdes a saúde.
Perdes a beleza,
perdes o amor.
Perdes a alegria.
Perdes a fortuna,
perdes a paz,
perdes a casa.
Perdes a esperança.
Perdes a vida.
Perdeste.
E isso, abre os olhos, só tem importância para ti:
se tivesses importância para alguém,
o teu poema escrevia-se com outras palavras.

31 de agosto de 2018

Amour

AMOUR

Sento-me à mesa e
de frente para mim,
a cadeira vazia.
Ai, come os ovos, Maria!
A escova de dentes,
em cor-de-rosa-coitada,
no copo abandonada
não percebe nada de
nada mas queria.
Ai, põe-lhe a pasta e
sente a menta, Maria!
Olho em volta: é tudo dois,
a casa de dois, não há depois
de tanta simetria.
Ai, fecha os olhos, Maria!
Chego ao computador, que
saudade, amor, de quando
te via - e só a folha branca, vazia.
Ai, cala-te e escreve, Maria!
O Amour é aceso gás néon,
perdão, é francês para não,
ou melhor, non.
Ai, amour, non, Maria...

23 de agosto de 2018

Poemas no Cinema - iii

CETTE BLESSURE

A cena final é comovente e poética,
e para piorar tudo, Vanessa Paradis
canta Cette Blessure, de Leo Ferré, e
sous des larmes qu'affile le désir,
a decadente estética de saltimbanco
para uma felicidade, ao fim, inútil, patética.
E a respiração dela ouve-se por
entre as linhas da canção.
No peito, fundo, o coração. Enfim.
A vida seria insuportável se fosse eterna,
assim, curta demais, sempre se aguenta
como objecto de desejo. Mas não há consolo.
O mal cai mesmo ao nosso lado, e
já nem lembramos porque nos fizemos inimigos,
nem há riso quando o amor que nos deixou
é deixado e assistimos, nem aplaudimos,
nem quando ganhamos a batalha e a guerra
e todos os clichés de uma só vez.

24 de julho de 2018

Árvore de Vida

ÁRVORE DE VIDA

e nem é que não ame, amo, as virtudes
naturais ou de civilização, e as fragilidades, suas irmãs,
mas do inferno sonhar o nosso maior sonho,
o melhor sonho, é uma respiração funda, claríssima,
que nenhum abismo colhe, ali quando, entre camadas
de nada, nada, nada,
se chama à existência o que nunca foi -
e isto de crucificar a razão à verdade,
faz cair demónios e lança estrelas ao céu da manhã.
O hierofante és tu
quando, sem pompa sem adornos sem poder,
és um e pões a mesa para dois,
e sorris ao lugar ainda vazio,
árvore inequívoca, és tu,
e hão-de existir pássaros só para pousar
na vida dos teus ramos.

17 de junho de 2018

Guarda che luna

GUARDA CHE LUNA

Há um grau de conhecimento que é de fogo.
Há algum tempo disseram-me em coro:
a tua poesia é de liberdade.
Olhei e não vi.
Querer ser livre não é ser livre.
Um desejo não é uma realidade:
é mesmo o que a realidade não é.
Não passaram assim tantos dias,
passaram os suficientes:
hoje, além de saber que todos morreremos, e ai,
para tão grande amor tão curta a vida,
sei, ao contrário de Agostinho da Silva,
que também eu morrerei. Que chatice.
Então, ouve, e sabe isto:
a dez mil mares de distância
não se partilha o mesmo escuro
e a lua que crescente se levanta diante da minha janela,
Vénus ao lado,
não é a lua à tua janela, nem com Vénus do lado,
a dez mil mares de distância, o céu não é
o nosso tecto, meu e teu, não é.
Quando a tua morte te disser olá,
podes atravessar a grande água,
e ganhar a montanha depois:
ser não é reagir, é agir em nome próprio
depois de saberes como te chamas.
Este é o nome da liberdade.
Isso e ter compreendido que o mínimo grão de areia
entre o médio e o polegar
tem a exacta imensidão do mundo:
quando a noite levantar, alta, o crescente
 e o brilho de Vénus,
estaremos debaixo do mesmo tecto,
donos do mesmo céu, tu e eu.

10 de junho de 2018

Back in business



Vou-te comer...

Voltei a cozinhar. Pensei que já não sabia e afinal... A verdade é que me apetecia terrivelmente um Kit Kat mas não me parecia que ele se fosse materializar diante de mim. E a outra verdade é que pensei mesmo que já não sabia cozinhar e resolvi confirmar que não sabia. Gosto de cremes. Creme de cogumelos. De feijão. De, sei lá, quase tudo, favas e ervilhas, lentilhas, não. Sempre fui uma grande fã de sopa. De cebola com queijo gratinado. De coentros. Enfim. Fiz creme de feijão. Ficou acetinado, tão bom, adeus kitty - miau.

A minha vontade de cozinhar tinha a vontade de escrever arrumada por junto - claro que nem suspeitei de tal coisa ou já me teria atirado ao fogão, porém quando estava a cortar as cenouras, o texto que quero escrever, e há que tempos interrompido, zás, veio inteirinho, o caminho aberto, ai que alívio, já me tinha conformado a um poema quando fosse e prosa adeus. Que alívio.

Fiz a sopa, para a passar, estreei a belíssima varinha mágica que comprei quando me mudei, a seguir liquidificadora para ficar macia. Tenho ali uma centrifugadora à espera de existir. E mais belas adormecidas há meses e meses. Depois, e enquanto revia Crasy Stupid Love, arrumei a cozinha, fiz uma máquina de roupa, pu-la na secadora, dobrei-a e cesto da roupa por passar. Sou organizada. Da secretária às gavetas. Das contas à posição das almofadas. Tenho mais do que o gosto, a satisfação da ordem. Como Psyche, temos de separar diferentes tipos de grãos numa só noite, não é? E recolher fios do velo de ouro e colher água da alta nascente e pedir a Perséfone o sono perdido. Separar os grãos sempre me foi fácil. Dormir sempre me foi difícil. Entre uma coisa e outra hão-de ter estado os verbos cozinhar e escrever. Nada é possível sem ajuda. Das formigas. De uma voz. Das águias. De Perséfone. Crasy Stupid Love é uma comédia romântica até para quem não gosta de comédias românticas. Somos todos um bocadinho Cal Weaver. O que nos salva é este gémeo obscuro, Jacob, que nos obriga a jogar os ténis fora e a voltar aos saltos altos - ou ao slim cut, quando se é do género masculino. A voltar a cozinhar. Integrar estes dois princípios é mais uma tarefa, então, são cinco as tarefas de Psyche. Bendito seja o sunday rest. E o tio Auden.

No outro dia, no ginásio, estava a pensar, nunca mais vou conseguir voltar andar de bicicleta. Hoje, quase aposto, pensei mal.

Creme de Feijão

1 batata doce grande
2 cebolas grandes
3 dentes de alho
4 cenouras médias
1 pedaço de abóbora
1 lata de feijão encarnado
1 linguiça
1 costeleta do cachaço
1 dose de caldo de carne - caseiro ou de compra
sal
Coza a linguiça com a costeleta do cachaço em água e sal. Retire as carnes. Reserve. Reserve a água. Quando esfriar, retire a película de gordura. Corte os legumes em pedaços de tamanho homogéneo e coza na água reservada já limpa da gordura das carnes - acrescente mais água e sal. Quando os legumes estiverem quase cozidos jogue o feijão e deixe fervinhar - não há problema nenhum em usar feijão de frasco, já cozido, se não tiver demolhado, eu usei e ficou bem. Desligue o lume. Passe tudo com a varinha. Depois de bem passado, jogue na liquidificadora para ficar sedoso. Se gostar da sopa com azeite, acrescente - mas não faz falta pois usou a água onde cozeu as carnes. Sirva com rodelas de linguiça e carne desfiada. Ou com ovo escalfado. Ou com um fio de crème fraîche. Se sobrar um monte de sopa, congele. Boa? Depois dou-lhe a receita do meu caldo de carne. Faz um panelão, reduz, e congela em doses individuais.

8 de junho de 2018

Ups...

Anjos e Santos, perdão, personagens ou familiares, ou lá o que é, já nem sei...


A minha irmã e o meu cunhado foram ao cinema com os miúdos ver o último Star Wars. Os meus sobrinhos adoram. O mais velho então... À saída do cinema informou logo que estava intrigado - sim, assim mesmo: mãe, agora estou intrigado, quem é o pai de Han Solo? Depreende-se, portanto, que o franchising continuará bem e de saúde. A tarde passou.

À noite, como em todas as noites, depois de estarem deitados, a minha irmã foi aconchegá-los às camas do quarto que partilham. Primeiro o mais novo, mimos, beijinhos, boa noite, Deus te abençoe, Amén. Com o mais  velho o mesmo ritual. Mas quando a minha irmã lhe diz Deus te abençoe, ele responde:
- E que a Força esteja consigo, mãe.

29 de maio de 2018

Manual de Instruções

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz.
Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu,
desassossego, diferença - pior que doença - medo,
sete vezes o meu tamanho, investes contra mim,
e de espada e lança e escudo e mesmo
assim, porque sigo o manual de instruções,
também eu te cortarei a cabeça e a darei
por alimento às aves do céu e aos bichos da terra:
podes ser vítima ou podes ser vitória -
não podes ser ambas, nem quando sangras.
Tens de ficar de pé, não interessa como,
no tempo do pão amargo, tempo do não,
tempo da devolução do manuscrito não solicitado,
ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado,
contra espada e lança e escudo, a instrução.
Às aves do céu. Aos bichos da terra.
Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar
na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster
é a flecha apontada ao coração da poesia,
fonte de onde todos somos, taça derramada
a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então,
o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa,
não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca,
não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa,
não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas.
O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se.
Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela
brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto
e uma Acção de Graças.