23 de setembro de 2018

10 - uma mulher de sonho



10 - uma mulher de sonho

É incontornável. Homens e mulheres não são iguais. Não são iguais no corpo, não são iguais no psiquismo, não são iguais na mecânica mais ou menos quântica do cérebro. Não são iguais. Os homens contam. As mulheres relacionam. 

Um estudo recente pôs ao léu os pensamentos masculino e feminino na escolha de parceiros. Na verdade, poderia ser um estudo de 1979 e realizado por Blake Edwards. Poderia ser 10. Ou em português, 10 - uma mulher de sonho. Explico. 

O homem faz uma auto-avaliação, isto é, dá-se uma nota num conjunto de critérios: rosto, corpo, rendimentos, profissão, competências sociais... Soma tudo de zero a dez. Depois das contas feitas, procura uma mulher que, na sua avaliação, tenha uma pontuação igual, ou um, dois, ou no máximo três pontos acima. Não é, por isso, surpreendente ver um homem de muita idade, envelhecido, e de grande sucesso económico, ou poder específico, ao lado de uma mulher muito jovem, elegante e bonita. Espelham-se na auto-avaliação. Para além destes casos extremados de grandes diferenças de idades e grandes correspondências de avaliação, há o pão nosso de cada dia, e são quase todos os outros. À esquerda e à direita, encontramos casais que claramente se espelham e de forma mais simétrica: no mesmo patamar de beleza, ou de paisagem social, ou económica, ou profissional. E isto também fala das hierarquias que os conduzem, o foco que os dirige. Resumido: no que querem da vida. Igualmente fascinante é olhar para os segundos ou terceiros casamentos, numa idade de maturidade em que a auto-avaliação já não é a mesma da primeira viagem no carrossel da selva e, assim, permite os encontros que na primeira volta seriam impossíveis por assimetria. A pontuação, portanto, não é estática,  a que se auto-atribui e a que se dá aos outros. Muda a beleza, muda a pontuação. Muda o sucesso, muda a pontuação. Muda o comportamento, muda a pontuação.

As mulheres não dão pontos. Não contam. Mas é igualmente fácil perceber quantos pontos se dá uma mulher: basta olhar para o marido/namorado/híbrido. A escolha da mulher é futurista: a mulher escolhe no presente aquele que lhe parece ser o melhor garante de futuro, qualquer que seja o futuro pretendido na qualidade ou duração.

A parte mais gira do estudo, no entanto, são os grandes erros de avaliação. E pasme-se, quem conta melhor, é quem se engana mais e é mais propenso a cometer grandes erros de avaliação. Porque um homem avalia no presente. Ontem não existe. Amanhã também não. Os homens não contam algo com que as mulheres contam sempre: o potencial. E o melhor dos predictores, o passado. Então, o mais frequente e mais consistente erro do homem é subestimar a mulher que avalia. O mais frequente e mais consistente erro da mulher é sobrestimar o homem que escolhe.

Mal por mal, antes mulher que homem.

15 de setembro de 2018

Despedida

DESPEDIDA

Podes ficar com os Teus exércitos
e suas espadas flamejantes,
arcanjos à frente,
anjos ao centro,
voz do Espírito adiante;
e com os Teus milagres,
protecções, provações, profecias;
e com a inamovível montanha -
a semente de mostarda, devolvo-Ta.
Pelo baptismo, renunciamos ao mal,
pela vida ao bem prometido.
A ti, e eu chamava-te Amor,
lugar onde amanheciam todos os prodígios,
devolvo-te os futuros cancelados
como qualquer outro voo.
Aos meus pares, amados iguais
neste pacto de sangue a preto e branco
a correr pelas páginas:
aprendi, para o bem, o que não vem,
e para o mal, a que renunciei,
sou ímpar, estou só.
Nada mais tenho a devolver
além do corpo de hoje, amanhã pó.
Fecho a porta. Entrego a chave.
Adeus.

11 de setembro de 2018

Serena? Não me parece...

JK Rowling, Nicki Minaj, a sério?
Eu se fosse o Harry Potter ia-me já queixar de ter apanhado com um raio nos cabides!
E se fosse uma anaconda, ó Nicki, apresentava queixa ao Pan...



Os muito puros que me perdoem, mas bom senso é fundamental: não, esta não é uma questão racial; não, esta não é uma questão de género; esta é uma questão de manipulação ao serviço da discriminação positiva e do politicamente correcto.

Toda a gente, aqui e ali, ao longo da vida se portou mal. Perdeu o controlo. Foi impulsivo. Ou mesmo, no pior dos casos, foi-se um filho da puta. Acontece. Não se planeia. Não se deseja. Fica-se aquém. Mas acontece. Ninguém de bom senso se orgulha desses momentos da sua vida. Se possível, oferece-se reparação. Somos falíveis. Mas esforçamo-nos. É assim.

Claro que estou a falar de sua alteza sereníssima, perdão, transtornadíssima, da tenista Serena Williams e do circo que se levantou em torno da palhaçada em campo. (E se, por ventura, estiver a contar as micro-agressões verbais deste texto: filho da puta; sua alteza; palhaçada, sempre adianto, que essa outra ficção do politicamente correcto, também aqui não colhe.)

Quando, de impulsos fora de controlo, Serena parte a raquete, ainda se está no reino do justificável, não é bonito, porém é justificável: é um jogo, vai perder, tem a adrenalina a mil e a energia pede escoamento. Não correu da melhor forma esse escoamento, deu-lhe para mcenroear... olha, azarucho, venha a penalização, e pronto.

Agora, dirigir-se a Carlos Ramos, de dedo em riste, a gritar que trabalhou muito para chegar ali, que é mãe de uma filha para quem é um modelo de irrepreensível comportamento, que ele a penaliza porque ela é mulher, e para rematar, chamar-lhe mentiroso e ladrão, isso, não. Não. Não. E vergonha maior, a Associação de Ténis Feminina fazer disto uma questão de género. Não há género nisto, há comportamento. Um comportamento justamente penalizável dentro do regulamento. Um pedido de desculpas devido.

Pior. De cada vez que uma mulher grita discriminação de género como Pedro gritava lobo sem que lobo houvesse até que lobo houve e ninguém acreditou, presta um deserviço à mulher. Todas e, venha a polícia feminina, todos, portanto, mulheres e essa espécie a quem se atira ao alvo quando se quer ficar bem visto nas colunas de opinião dos jornais, os homens, mais uma vez, todos nós, pessoas, em regra, trabalhamos muito para chegar onde chegamos, o que quer que isso seja, e não nos vitimizamos por isso. Fazemos o melhor que podemos para sermos bons referentes para filhos, sobrinhos, ou o miúdo no passeio por quem não atravessamos o vermelho para peões numa rua deserta não vá ele fazê-lo um dia e vir um daqueles tipos que nem se sabe de onde. Não me passa pela cabeça, como não passou pela cabeça da minha mãe, muito menos da minha avó, eleger o homem como inimigo para resolver as inadequações sociais ou profissionais que são da minha responsabilidade: o modelo opressor/oprimido decalcado do marxismo para o feminismo está caduco. Que feminismo e pseudo anti-racismo são estes, de gente como J.K. Rowling e Nicki Minaj, que querem a censura de um cartoon de Mark Knight, para o Herald Sun, a falsos pretextos?

Querem brincar às vítimas de moinhos de vento? Brinquem. Eu, quando perco a cabeça e parto as minhas raquetes, peço desculpa.

3 de setembro de 2018

O teu poema

O TEU POEMA

Perdes a saúde.
Perdes a beleza,
perdes o amor.
Perdes a alegria.
Perdes a fortuna,
perdes a paz,
perdes a casa.
Perdes a esperança.
Perdes a vida.
Perdeste.
E isso, abre os olhos, só tem importância para ti:
se tivesses importância para alguém,
o teu poema escrevia-se com outras palavras.

31 de agosto de 2018

Amour

AMOUR

Sento-me à mesa e
de frente para mim,
a cadeira vazia.
Ai, come os ovos, Maria!
A escova de dentes,
em cor-de-rosa-coitada,
no copo abandonada
não percebe nada de
nada mas queria.
Ai, põe-lhe a pasta e
sente a menta, Maria!
Olho em volta: é tudo dois,
a casa de dois, não há depois
de tanta simetria.
Ai, fecha os olhos, Maria!
Chego ao computador, que
saudade, amor, de quando
te via - e só a folha branca, vazia.
Ai, cala-te e escreve, Maria!
O Amour é aceso gás néon,
perdão, é francês para não,
ou melhor, non.
Ai, amour, non, Maria...

23 de agosto de 2018

Poemas no Cinema - iii

CETTE BLESSURE

A cena final é comovente e poética,
e para piorar tudo, Vanessa Paradis
canta Cette Blessure, de Leo Ferré, e
sous des larmes qu'affile le désir,
a decadente estética de saltimbanco
para uma felicidade, ao fim, inútil, patética.
E a respiração dela ouve-se por
entre as linhas da canção.
No peito, fundo, o coração. Enfim.
A vida seria insuportável se fosse eterna,
assim, curta demais, sempre se aguenta
como objecto de desejo. Mas não há consolo.
O mal cai mesmo ao nosso lado, e
já nem lembramos porque nos fizemos inimigos,
nem há riso quando o amor que nos deixou
é deixado e assistimos, nem aplaudimos,
nem quando ganhamos a batalha e a guerra
e todos os clichés de uma só vez.

24 de julho de 2018

Árvore de Vida

ÁRVORE DE VIDA

e nem é que não ame, amo, as virtudes
naturais ou de civilização, e as fragilidades, suas irmãs,
mas do inferno sonhar o nosso maior sonho,
o melhor sonho, é uma respiração funda, claríssima,
que nenhum abismo colhe, ali quando, entre camadas
de nada, nada, nada,
se chama à existência o que nunca foi -
e isto de crucificar a razão à verdade,
faz cair demónios e lança estrelas ao céu da manhã.
O hierofante és tu
quando, sem pompa sem adornos sem poder,
és um e pões a mesa para dois,
e sorris ao lugar ainda vazio,
árvore inequívoca, és tu,
e hão-de existir pássaros só para pousar
na vida dos teus ramos.

17 de junho de 2018

Guarda che luna

GUARDA CHE LUNA

Há um grau de conhecimento que é de fogo.
Há algum tempo disseram-me em coro:
a tua poesia é de liberdade.
Olhei e não vi.
Querer ser livre não é ser livre.
Um desejo não é uma realidade:
é mesmo o que a realidade não é.
Não passaram assim tantos dias,
passaram os suficientes:
hoje, além de saber que todos morreremos, e ai,
para tão grande amor tão curta a vida,
sei, ao contrário de Agostinho da Silva,
que também eu morrerei. Que chatice.
Então, ouve, e sabe isto:
a dez mil mares de distância
não se partilha o mesmo escuro
e a lua que crescente se levanta diante da minha janela,
Vénus ao lado,
não é a lua à tua janela, nem com Vénus do lado,
a dez mil mares de distância, o céu não é
o nosso tecto, meu e teu, não é.
Quando a tua morte te disser olá,
podes atravessar a grande água,
e ganhar a montanha depois:
ser não é reagir, é agir em nome próprio
depois de saberes como te chamas.
Este é o nome da liberdade.
Isso e ter compreendido que o mínimo grão de areia
entre o médio e o polegar
tem a exacta imensidão do mundo:
quando a noite levantar, alta, o crescente
 e o brilho de Vénus,
estaremos debaixo do mesmo tecto,
donos do mesmo céu, tu e eu.

10 de junho de 2018

Back in business



Vou-te comer...

Voltei a cozinhar. Pensei que já não sabia e afinal... A verdade é que me apetecia terrivelmente um Kit Kat mas não me parecia que ele se fosse materializar diante de mim. E a outra verdade é que pensei mesmo que já não sabia cozinhar e resolvi confirmar que não sabia. Gosto de cremes. Creme de cogumelos. De feijão. De, sei lá, quase tudo, favas e ervilhas, lentilhas, não. Sempre fui uma grande fã de sopa. De cebola com queijo gratinado. De coentros. Enfim. Fiz creme de feijão. Ficou acetinado, tão bom, adeus kitty - miau.

A minha vontade de cozinhar tinha a vontade de escrever arrumada por junto - claro que nem suspeitei de tal coisa ou já me teria atirado ao fogão, porém quando estava a cortar as cenouras, o texto que quero escrever, e há que tempos interrompido, zás, veio inteirinho, o caminho aberto, ai que alívio, já me tinha conformado a um poema quando fosse e prosa adeus. Que alívio.

Fiz a sopa, para a passar, estreei a belíssima varinha mágica que comprei quando me mudei, a seguir liquidificadora para ficar macia. Tenho ali uma centrifugadora à espera de existir. E mais belas adormecidas há meses e meses. Depois, e enquanto revia Crasy Stupid Love, arrumei a cozinha, fiz uma máquina de roupa, pu-la na secadora, dobrei-a e cesto da roupa por passar. Sou organizada. Da secretária às gavetas. Das contas à posição das almofadas. Tenho mais do que o gosto, a satisfação da ordem. Como Psyche, temos de separar diferentes tipos de grãos numa só noite, não é? E recolher fios do velo de ouro e colher água da alta nascente e pedir a Perséfone o sono perdido. Separar os grãos sempre me foi fácil. Dormir sempre me foi difícil. Entre uma coisa e outra hão-de ter estado os verbos cozinhar e escrever. Nada é possível sem ajuda. Das formigas. De uma voz. Das águias. De Perséfone. Crasy Stupid Love é uma comédia romântica até para quem não gosta de comédias românticas. Somos todos um bocadinho Cal Weaver. O que nos salva é este gémeo obscuro, Jacob, que nos obriga a jogar os ténis fora e a voltar aos saltos altos - ou ao slim cut, quando se é do género masculino. A voltar a cozinhar. Integrar estes dois princípios é mais uma tarefa, então, são cinco as tarefas de Psyche. Bendito seja o sunday rest. E o tio Auden.

No outro dia, no ginásio, estava a pensar, nunca mais vou conseguir voltar andar de bicicleta. Hoje, quase aposto, pensei mal.

Creme de Feijão

1 batata doce grande
2 cebolas grandes
3 dentes de alho
4 cenouras médias
1 pedaço de abóbora
1 lata de feijão encarnado
1 linguiça
1 costeleta do cachaço
1 dose de caldo de carne - caseiro ou de compra
sal
Coza a linguiça com a costeleta do cachaço em água e sal. Retire as carnes. Reserve. Reserve a água. Quando esfriar, retire a película de gordura. Corte os legumes em pedaços de tamanho homogéneo e coza na água reservada já limpa da gordura das carnes - acrescente mais água e sal. Quando os legumes estiverem quase cozidos jogue o feijão e deixe fervinhar - não há problema nenhum em usar feijão de frasco, já cozido, se não tiver demolhado, eu usei e ficou bem. Desligue o lume. Passe tudo com a varinha. Depois de bem passado, jogue na liquidificadora para ficar sedoso. Se gostar da sopa com azeite, acrescente - mas não faz falta pois usou a água onde cozeu as carnes. Sirva com rodelas de linguiça e carne desfiada. Ou com ovo escalfado. Ou com um fio de crème fraîche. Se sobrar um monte de sopa, congele. Boa? Depois dou-lhe a receita do meu caldo de carne. Faz um panelão, reduz, e congela em doses individuais.

8 de junho de 2018

Ups...

Anjos e Santos, perdão, personagens ou familiares, ou lá o que é, já nem sei...


A minha irmã e o meu cunhado foram ao cinema com os miúdos ver o último Star Wars. Os meus sobrinhos adoram. O mais velho então... À saída do cinema informou logo que estava intrigado - sim, assim mesmo: mãe, agora estou intrigado, quem é o pai de Han Solo? Depreende-se, portanto, que o franchising continuará bem e de saúde. A tarde passou.

À noite, como em todas as noites, depois de estarem deitados, a minha irmã foi aconchegá-los às camas do quarto que partilham. Primeiro o mais novo, mimos, beijinhos, boa noite, Deus te abençoe, Amén. Com o mais  velho o mesmo ritual. Mas quando a minha irmã lhe diz Deus te abençoe, ele responde:
- E que a Força esteja consigo, mãe.

29 de maio de 2018

Manual de Instruções

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz.
Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu,
desassossego, diferença - pior que doença - medo,
sete vezes o meu tamanho, investes contra mim,
e de espada e lança e escudo e mesmo
assim, porque sigo o manual de instruções,
também eu te cortarei a cabeça e a darei
por alimento às aves do céu e aos bichos da terra:
podes ser vítima ou podes ser vitória -
não podes ser ambas, nem quando sangras.
Tens de ficar de pé, não interessa como,
no tempo do pão amargo, tempo do não,
tempo da devolução do manuscrito não solicitado,
ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado,
contra espada e lança e escudo, a instrução.
Às aves do céu. Aos bichos da terra.
Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar
na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster
é a flecha apontada ao coração da poesia,
fonte de onde todos somos, taça derramada
a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então,
o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa,
não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca,
não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa,
não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas.
O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se.
Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela
brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto
e uma Acção de Graças.

22 de maio de 2018

Ocupação

OCUPAÇÃO

Entrar pelas coisas dentro -
não ficar de fora, metódico, assistente.
Pintura, página, música, rua, gente.
Todo o Amor é invasão: se nos apropriamos dele,
ocupa-nos. Assim, ele pode ir, ou nós, e
nem por isso deixará de estar presente. Sempre.

14 de maio de 2018

Duzentos dias

DUZENTOS DIAS

Que alegria teria sido
se em qualquer um destes duzentos dias
tivesses vindo dizer sim.
Mas um homem não sabe
ter um Coração de Maria:
faça-se em ti segundo a minha vontade
é o Verbo do homem.
E nem sequer tem culpa.
Vive fora. Sempre viveu fora.
Para fora. O mundo lá fora
deu-lhe trabalho a construir,
teve de o moldar.
E todo o choque é este
quando homem e mulher
batem de frente,
mundo fora, mundo dentro,
 e alegria não há por duzentos dias.
Quem ri é a serpente.

2 de maio de 2018

A tentação de um Jedi

O meu sobrinho e eu, perdão, nós somos Jedis, Darth Vader acompanhado do senador Palpatine diante da Estrela da Morte.

O meu rico sobrinho mais velho tem nove anos. Está no Year 5. E isto diz-se assim mesmo no meio do português porque ele diz assim mesmo no meio do português. Hoje tinha de levar um poema para a escola. E dizê-lo - é preciso acrescentar que o ano passado não correu famosamente: levou The Laughing Heart, de Charles Bukowski. Alguém terá pensado que não era adequado à idade dele. Ele achou que era, gosta muito do poema.

Este ano, sugeri que levasse The Tiger, de William Blake. É um poema maravilhoso. E sem dramas de adequação. E ele, zás! não. Não? Então?
- Não é poeta? Faça lá um poema de Star Wars, para mim, por favor.
- Mas eu não escrevo em inglês.
- Escreva em português que eu traduzo.
- Também não será preciso tanto, senhor tradutor...
Resumido.

A JEDI THOUGHT ABOUT THE DARK SIDE OF THE FORCE

Death Star,
oh dreaded Death Star,
where you are
i do not want to be for
i do not want to be tempted
by the Darth Vader in me.

29 de abril de 2018

Não se pode fugir


então, passei ali no quiosque das flores e comprei uma rosa a caminho de casa - é uma variedade portuguesa de rosas imprevistas. E todo o tempo vinha a pensar naquilo: as últimas imagens do documentário acabado de ver, Maria by Callas, ela ao pé da piscina quando, na verdade, já tudo foi ganho, já tudo está perdido e viver não é preciso. É passado e passou e futuro não pode haver. E a consciência disso é o fim da duração à espera do fim do tempo que lhe foi dado viver. E impressionou-me muitíssimo: como é que uma mulher tão forte se partiu aos pedaços numa linha de sismo? Eu sei que também somos os cubos do jogo de uma criança espalhados pela casa toda. As peças desunidas são só desordem, dessentido. As mesmas peças juntas, organizadas, mostram uma imagem clara.

Pouco depois do início do filme, na entrevista intermitente que o atravessa, Maria Callas, tão bonita, a linha dos lábios natural, sem estar pintada por fora, ao gosto da época, o olhar livre do excesso de maquilhagem, diz o destino é o destino, não se pode fugir. Recentemente ouvi uma Ted Talk sobre fatalistas e não fatalistas e a produtividade, desempenho e satisfação de uns e de outros. Somos animais do fundo do tempo e a nossa memória é mais longa do que a supomos. A biologia, o hardware que trazemos é de configuração antiga e, ao que parece, determina, quase sempre, se conseguimos ou não fugir. Ao plano divino. Ou astrológico. Ou circunstancial.

Chego a casa. E já a rosa está na água. Uma rosa só. Uma rosa chega.

16 de abril de 2018

Tudo quanto um homem pode

TUDO QUANTO UM HOMEM PODE

Ele pensava-me -
eu sabia.
O pensamento dele,
mesmo quando corria subterrâneo
e por fora era feito de silêncio,
era para mim que corria.
E eu sabia.
Tudo quanto um homem pode ser para uma mulher,
ele foi para mim. E por isso eu era para ele.
E tudo quanto um homem pode dar a uma mulher.
Se eu tivesse sede, ele quereria dar-me água,
e eu sabia, e que ele quisesse dar-ma era tão fresco
quanto a própria água.
Diante de um amor assim, a boca do universo
fecha-se ao não, não pode dizer não: o mundo curva-se:
tudo é bom, tudo é bom, tudo é bom, até
os frutos nascem sozinhos só da pura vontade de nascer,
acontecimentos organizam-se, levantam-se cidades inteiras
para inventar uma morada onde entrar.
O amor de um homem é um trono
adornado de céu e estrelas e,
toda a gente sabe, a mulher gosta de jóias.

4 de abril de 2018

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club


Todas as vidas têm lugares vazios. É verdade que não temos por hábito fazer lugar à mesa para quem não está. Já não está. Mas não é difícil vê-los. Basta olhar para as cadeiras desocupadas, de uma sala, por exemplo. Quem nos falta? Ou melhor, quem esteve tão presente ao nosso lado que a sua ausência é uma companhia? Pior. É uma companhia melhor que a de gente que a gente nem sabe quem seja.

Sempre tive amigas. Amigas mulheres. Uma de infância e até à idade adulta. Duas de adolescência e até à idade adulta. Morreram. Também tive um Amor. Maiúsculo. Ficava-me bem dizer que correu mal e acabou. Era dramático e tcharam. Mas a verdade é que correu mesmo bem. Momentos maus? Sim, claro - fazem parte, há lá amor sem arestas, ângulos agudos, bicudos, patetas? Do meu Amor pude dizer o que disse do meu Cão. Foi o amor que sempre quis ter. E, toda a gente sabe, tive o melhor Cão do mundo. Bem se vê, também tive sorte.

Isto esgota a amizade ou o amor? Não!

O problema é que esta gente que nos faz feliz, ou fez, e é fora de série e admirável e tal, dá-nos cabo da vida. Não se conseguem substituir. E dava muito jeito que sim. E fosse fácil. Ou pelo menos possível.

Um adulto não pode ir para a rua e dizer como um miúdo queres brincar comigo? E fazer um amigo. Pronto. Já está. E quando nos dizem em linguagem de crescidos queres brincar comigo... não se consegue inventar um passado comum e o futuro leva uma carrada de tempo e dá montes de trabalho a levantar. Do amor nem vale a pena falar, é igual, só que mais.

Se calhar a melhor solução é inventar um Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club, dançante, cantante, jantante, de debate, viajante, com ginásio e passeios de bicicleta à la carte. Um Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club de porta fechada. Para entrar tem de responder à pergunta: os melhores amigos, o melhor amor e o melhor cão, quem tem? Disse eu? Então, I think this is the beginning of a beautiful friendship, vamos celebrar.

27 de março de 2018

Bem-me-quer, mal-me quer, muito, pouco, nada


MUITO. POUCO. NADA.

O amor acaba.
Várias vezes por dia se desama o amor
só para voltar a amar
umas horas depois,
um gesto, o olhar,
a velha chama a velha cama
acabadas de fazer.
Um dia acaba.
Bem-me-quer.
 Mal-me-quer,
muito, pouco, nada.
Acaba de vez.
Nada arde na ternura velha,
nem chama nem cama,
nada.
Os passos trágicos desta obra
são ridículos vistos de fora -
nem comédia nem farsa,
apenas a desinvestida atenção,
e a tolerância amorosa e triste
que se tem com o perigoso disparate de
uma criança, ali a temos, connosco.
O amor acaba.
Muito. Pouco. Nada.
E encolhemos os ombros e sorrimos
enquanto pensamos: olha, acabou:
- Queres comer alguma coisa ou só café?

25 de fevereiro de 2018

Bonjour Mundo!


Dear future husband
here's a few things
you'll need to know if you wanna be
my one and only all my life
[...]
You gotta know how to treat me like a lady
even when I'm acting crazy
tell me everything's alright
[...]
After every fight
just apologize
and maybe then I'll let you try and rock my body right
even if I was wrong -
you know I'm never wrong. Why disagree? Why, why disagree?
[...]

23 de fevereiro de 2018

Há mil anos atrás

HÁ MIL ANOS ATRÁS

Há mil atrás, todos tivemos pai
todos tivemos mãe, avô,
avó também, há mil anos atrás
fizemos esqui de tapete
pelo corredor encerado
e demos quedas condizentes
com o riso acelerado;
e há mil anos atrás
brincámos em quintais,
subimos às árvores,
arranhámo-nos demais,
e fomos tão bem comportados
nos natais de há mil anos atrás.
Há mil anos atrás íamos ser
polícias, bailarinas, professores,
tirar amígdalas se fôssemos doutores
de diga trinta e três,
pois à mil anos atrás não esperávamos a vez
de ser; há mil anos atrás tínhamos amigos e cão
e ninguém conjugava o verbo solidão.
Há mil anos atrás a vida era nossa,
nem sabíamos que tinha fim.
Há mil anos atrás o mundo era um sim.