GUARDA CHE LUNA
Há um grau de conhecimento que é de fogo.
Há algum tempo disseram-me em coro:
a tua poesia é de liberdade.
Olhei e não vi.
Querer ser livre não é ser livre.
Um desejo não é uma realidade:
é mesmo o que a realidade não é.
Não passaram assim tantos dias,
passaram os suficientes:
hoje, além de saber que todos morreremos, e ai,
para tão grande amor tão curta a vida,
sei, ao contrário de Agostinho da Silva,
que também eu morrerei. Que chatice.
Então, ouve, e sabe isto:
a dez mil mares de distância
não se partilha o mesmo escuro
e a lua que crescente se levanta diante da minha janela,
Vénus ao lado,
não é a lua à tua janela, nem com Vénus do lado,
a dez mil mares de distância, o céu não é
o nosso tecto, meu e teu, não é.
Quando a tua morte te disser olá,
podes atravessar a grande água,
e ganhar a montanha depois:
ser não é reagir, é agir em nome próprio
depois de saberes como te chamas.
Este é o nome da liberdade.
Isso e ter compreendido que o mínimo grão de areia
entre o médio e o polegar
tem a exacta imensidão do mundo:
quando a noite levantar, alta, o crescente
e o brilho de Vénus,
estaremos debaixo do mesmo tecto,
donos do mesmo céu, tu e eu.




