Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz. Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu, desassossego, diferença - pior que doença - medo, sete vezes o meu tamanho, investes contra mim, e de espada e lança e escudo e mesmo assim, porque sigo o manual de instruções, também eu te cortarei a cabeça e a darei por alimento às aves do céu e aos bichos da terra: podes ser vítima ou podes ser vitória - não podes ser ambas, nem quando sangras. Tens de ficar de pé, não interessa como, no tempo do pão amargo, tempo do não, tempo da devolução do manuscrito não solicitado, ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado, contra espada e lança e escudo, a instrução. Às aves do céu. Aos bichos da terra. Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster é a flecha apontada ao coração da poesia, fonte de onde todos somos, taça derramada a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então, o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa, não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca, não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa, não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas. O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se. Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto e uma Acção de Graças.
Entrar pelas coisas dentro - não ficar de fora, metódico, assistente. Pintura, página, música, rua, gente. Todo o Amor é invasão: se nos apropriamos dele, ocupa-nos. Assim, ele pode ir, ou nós, e nem por isso deixará de estar presente. Sempre.
Que alegria teria sido se em qualquer um destes duzentos dias tivesses vindo dizer sim. Mas um homem não sabe ter um Coração de Maria: faça-se em ti segundo a minha vontade é o Verbo do homem. E nem sequer tem culpa. Vive fora. Sempre viveu fora. Para fora. O mundo lá fora deu-lhe trabalho a construir, teve de o moldar. E todo o choque é este quando homem e mulher batem de frente, mundo fora, mundo dentro, e alegria não há por duzentos dias. Quem ri é a serpente.
O meu sobrinho e eu, perdão, nós somos Jedis, Darth Vader acompanhado do senador Palpatine diante da Estrela da Morte.
O meu rico sobrinho mais velho tem nove anos. Está no Year 5. E isto diz-se assim mesmo no meio do português porque ele diz assim mesmo no meio do português. Hoje tinha de levar um poema para a escola. E dizê-lo - é preciso acrescentar que o ano passado não correu famosamente: levou The Laughing Heart, de Charles Bukowski. Alguém terá pensado que não era adequado à idade dele. Ele achou que era, gosta muito do poema.
Este ano, sugeri que levasse The Tiger, de William Blake. É um poema maravilhoso. E sem dramas de adequação. E ele, zás! não. Não? Então?
- Não é poeta? Faça lá um poema de Star Wars, para mim, por favor. - Mas eu não escrevo em inglês. - Escreva em português que eu traduzo. - Também não será preciso tanto, senhor tradutor...
Resumido.
A JEDI THOUGHT ABOUT THE DARK SIDE OF THE FORCE
Death Star, oh dreaded Death Star, where you are i do not want to be for i do not want to be tempted by the Darth Vader in me.
então, passei ali no quiosque das flores e comprei uma rosa a caminho de casa - é uma variedade portuguesa de rosas imprevistas. E todo o tempo vinha a pensar naquilo: as últimas imagens do documentário acabado de ver, Maria by Callas, ela ao pé da piscina quando, na verdade, já tudo foi ganho, já tudo está perdido e viver não é preciso. É passado e passou e futuro não pode haver. E a consciência disso é o fim da duração à espera do fim do tempo que lhe foi dado viver. E impressionou-me muitíssimo: como é que uma mulher tão forte se partiu aos pedaços numa linha de sismo? Eu sei que também somos os cubos do jogo de uma criança espalhados pela casa toda. As peças desunidas são só desordem, dessentido. As mesmas peças juntas, organizadas, mostram uma imagem clara.
Pouco depois do início do filme, na entrevista intermitente que o atravessa, Maria Callas, tão bonita, a linha dos lábios natural, sem estar pintada por fora, ao gosto da época, o olhar livre do excesso de maquilhagem, diz o destino é o destino, não se pode fugir. Recentemente ouvi uma Ted Talk sobre fatalistas e não fatalistas e a produtividade, desempenho e satisfação de uns e de outros. Somos animais do fundo do tempo e a nossa memória é mais longa do que a supomos. A biologia, o hardware que trazemos é de configuração antiga e, ao que parece, determina, quase sempre, se conseguimos ou não fugir. Ao plano divino. Ou astrológico. Ou circunstancial.
Chego a casa. E já a rosa está na água. Uma rosa só. Uma rosa chega.
Ele pensava-me - eu sabia. O pensamento dele, mesmo quando corria subterrâneo e por fora era feito de silêncio, era para mim que corria. E eu sabia. Tudo quanto um homem pode ser para uma mulher, ele foi para mim. E por isso eu era para ele. E tudo quanto um homem pode dar a uma mulher. Se eu tivesse sede, ele quereria dar-me água, e eu sabia, e que ele quisesse dar-ma era tão fresco quanto a própria água. Diante de um amor assim, a boca do universo fecha-se ao não, não pode dizer não: o mundo curva-se: tudo é bom, tudo é bom, tudo é bom, até os frutos nascem sozinhos só da pura vontade de nascer, acontecimentos organizam-se, levantam-se cidades inteiras para inventar uma morada onde entrar. O amor de um homem é um trono adornado de céu e estrelas e, toda a gente sabe, a mulher gosta de jóias.
Todas as vidas têm lugares vazios. É verdade que não temos por hábito fazer lugar à mesa para quem não está. Já não está. Mas não é difícil vê-los. Basta olhar para as cadeiras desocupadas, de uma sala, por exemplo. Quem nos falta? Ou melhor, quem esteve tão presente ao nosso lado que a sua ausência é uma companhia? Pior. É uma companhia melhor que a de gente que a gente nem sabe quem seja.
Sempre tive amigas. Amigas mulheres. Uma de infância e até à idade adulta. Duas de adolescência e até à idade adulta. Morreram. Também tive um Amor. Maiúsculo. Ficava-me bem dizer que correu mal e acabou. Era dramático e tcharam. Mas a verdade é que correu mesmo bem. Momentos maus? Sim, claro - fazem parte, há lá amor sem arestas, ângulos agudos, bicudos, patetas? Do meu Amor pude dizer o que disse do meu Cão. Foi o amor que sempre quis ter. E, toda a gente sabe, tive o melhor Cão do mundo. Bem se vê, também tive sorte.
Isto esgota a amizade ou o amor? Não!
O problema é que esta gente que nos faz feliz, ou fez, e é fora de série e admirável e tal, dá-nos cabo da vida. Não se conseguem substituir. E dava muito jeito que sim. E fosse fácil. Ou pelo menos possível.
Um adulto não pode ir para a rua e dizer como um miúdo queres brincar comigo? E fazer um amigo. Pronto. Já está. E quando nos dizem em linguagem de crescidos queres brincar comigo... não se consegue inventar um passado comum e o futuro leva uma carrada de tempo e dá montes de trabalho a levantar. Do amor nem vale a pena falar, é igual, só que mais.
Se calhar a melhor solução é inventar um Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club, dançante, cantante, jantante, de debate, viajante, com ginásio e passeios de bicicleta à la carte. Um Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club de porta fechada. Para entrar tem de responder à pergunta: os melhores amigos, o melhor amor e o melhor cão, quem tem? Disse eu? Então, I think this is the beginning of a beautiful friendship, vamos celebrar.
O amor acaba.
Várias vezes por dia se desama o amor
só para voltar a amar
umas horas depois,
um gesto, o olhar,
a velha chama a velha cama
acabadas de fazer.
Um dia acaba.
Bem-me-quer.
Mal-me-quer,
muito, pouco, nada.
Acaba de vez.
Nada arde na ternura velha,
nem chama nem cama,
nada.
Os passos trágicos desta obra
são ridículos vistos de fora -
nem comédia nem farsa,
apenas a desinvestida atenção,
e a tolerância amorosa e triste
que se tem com o perigoso disparate de
uma criança, ali a temos, connosco.
O amor acaba.
Muito. Pouco. Nada.
E encolhemos os ombros e sorrimos
enquanto pensamos: olha, acabou:
- Queres comer alguma coisa ou só café?
Há mil atrás, todos tivemos pai todos tivemos mãe, avô, avó também, há mil anos atrás fizemos esqui de tapete pelo corredor encerado e demos quedas condizentes com o riso acelerado; e há mil anos atrás brincámos em quintais, subimos às árvores, arranhámo-nos demais, e fomos tão bem comportados nos natais de há mil anos atrás. Há mil anos atrás íamos ser polícias, bailarinas, professores, tirar amígdalas se fôssemos doutores de diga trinta e três, pois à mil anos atrás não esperávamos a vez de ser; há mil anos atrás tínhamos amigos e cão e ninguém conjugava o verbo solidão. Há mil anos atrás a vida era nossa, nem sabíamos que tinha fim. Há mil anos atrás o mundo era um sim.
É Inverno e a Primavera chegou. As árvores tão despidas na avenida, lá em baixo, não sabem. É que há isto de não saber o que não se pode saber: como pode a folha chegar antes da hora se tem hora para chegar? Tudo é isto. Tempística. Tudo quando cabe entre a vida e a morte é. Fora do tempo, nem folha, nem flor, a regra é a voz do Vento. Não desceu Ele sobre Zorobabel e lhe disse, não pela força, não pelo poder, mas pelo meu Sopro Sagrado? Tudo é isto. Tempística. Mesmo há pouco, estava a ouvir como nada muda além da mudança - como gosto de pensar em bíblico, gosto em dança, e no samba estamos todos em nossas pequenas revoluções previstas, Nelson Cavaquinho, Cartola, Ataulfo Alves, Candeia, Barbosa, eu sei lá, sei que o coração não tem actualização, não há upgrade sentimental, nem pela força nem pelo poder, se é Inverno e a Primavera lhe chega à avenida, não pode saber, nenhum templo Zorobabel levanta antes do Vento dizer. Que me perdoem o quadradismo e se eu insisto neste tema - e logo cantado por Maysa - mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o coração. Quando no Sopro a tempística chegar, minha musa, minha lira, minha doce inspiração, você passa, eu acho graça, nessa vida tudo passa, e você passou também e então vou levantar o segundo Templo de Jerusalém.
ESCOLA DE SANTIDADE Talvez eu tenha sido como disse Paulo: não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço. Talvez tu tenhas sido como foi Pedro: jamais me negarias para logo me negares, e mais uma e outra vez. Talvez os santos nada tenham para nos ensinar. Talvez o coração nada tenha para aprender.
Meu amigo Vinicius, leia com seu sotaque, perdão, sutaqui, esta não-feijoada para sua "feijoada à minha moda"
NEM FOGO NEM FOGÃO
De quando em vez, alguém me sabe e tudo compreende: agora mesmo, teu poema de feijão, rede e gato para passar a mão - teu mesmo, Vinicius, pois então. Porém, olha a falha, sem Cão... Minha moqueca, minha histórica feijoada, hoje são nada, nem cozinho mais. Se me perguntares, que é isso menina, assim, onde vais? A ti, meu amigo, pergunto-te eu, e tu, onde estás?
Meu Espírito, Minha Carne, Meu Nome para a Alegria, Minha Porta para o Amor, Meu Amor: não se pode amar sozinho: a escuridão existe e tu não estás aqui.
Nas fases profundas do sono não se devia acordar com memória do sonho onde estávamos: quem é esta pessoa que nos habita enquanto nós dormimos? E vive aquilo que jamais viveríamos? E num mundo com outras leis, a natureza com outras regras, noutras paisagens, com inconcebíveis comportamentos, detalhes de Bosch. Agora que penso nisto, pergunto-me: Bosch acordaria onde eu acordei esta noite? Os Uruk hai, de Tolkien, e as suas armas do tempo do ferro, terão despertado a meio da noite? Os sonhos não se podem contar ou acaba-se numa cama mais ou menos freudiana.
Não se anda por entre estes lugares antigos como o homem, por entre a violência e o sangue, sem que eles se agarrem a nós.
Estava a beber café, a pensar em tudo, há dias de pensar em tudo e calhou ser hoje, quando vi. Na mesa em frente ao sofá tenho uma caixa chinesa de madeira de cânfora. O fecho partiu-se muito antes dela chegar às minhas mãos. Não tem fecho. Num dos cantos, vê-se a massa de um restauro mal sucedido. Teve bicho porque está miudamente esburacada. E a tampa está empenada do lado direito - não fecha completamente. Foi quando vi. Um quase nada inicial, pensei que fosse um reflexo da luz... Um fio vermelho, muito fino, escorria da caixa: o sonho de sangue saiu do sono e, subtil, materializou-se ali. Pego-lhe. Dentro da caixa tenho cartas, postais risonhos em caligrafia amorosa. Palavras que cabem na alegria em pleno sol. Disseram-mas e eu guardei-as. Tive um amor feliz. Fui feliz. E atei-as bem com uma fita vermelha para não irem a lado nenhum - depois do amor morrer, as palavras, como o corpo, são matéria do pó. A fita desfiou. E o fio, tão fino, transbordou. O sangue, contido, é vida. Derramado, é morte.
Uma caixa vazia no meio da casa? Talvez sirva para guardar os comandos e outras peças de quotidiana relojoaria. Não faz mal. Seja como for, os dias estão maiores, a luz dura quase até à noite e isso, toda a gente sabe, é o princípio das maravilhas.
Povos, nações, línguas, é isto: há muito tempo, tanto, sei que foi comigo porque o meu corpo estava lá, nas catacumbas de Cecília ou Calisto, nem recordo, foi quando, de repente, uma pintura hedionda se me agarrou ao pensamento. Não queria nada daquilo - teria preferido estar à superfície, a Roman Holiday, de braço dado com Wyler e Gregory Peck, três a passeio. O gosto do riso. Mas não. Foi, como tudo, como tinha de ser. Isto: três homens jovens num forno em chamas. E um quarto, um anjo, por trás. Fui catolicamente educada. Um católico não conhece a Bíblia para trás e para diante como um protestante de igrejas de paredes vazias e mãos transparentes para um comércio opaco. O católico não prega o evangelho da prosperidade. Se é verdade que conheço a Bíblia, e conheço, é só pela mesmíssima razão que leio Borges ou Rumi. Nabucodonosor - nave que Matrix popularizou, Nebuchadnezzar, and unclean spirits, when they saw him, fell down before him, and cried, saying, Thou art the Son of God, Neo, claro, o novo construtor do homem e dos jardins suspensos da realidade - Nabucodonosor, rei, mandou que ardessem os três homens por não se submeterem à sua vontade. E porque não queimaram, os elevou. Povos, nações, línguas, então é isto: rodeados de fogo por todos os lados ou qualquer que seja o nome do mal, fome doença solidão, escolhemos: ou o mal nos abraça e perecemos ou uma força maior o abraça a ele, e o derrota quando o beija na boca. E se perecermos, perecemos. Pompeu, Petrarca, Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso. Um amigo meu, também de Nebuchadnezzar, navegador de arenas, praças, pegava touros e um dia foi colhido, seremos todos, não há vida sem ceifa, e o nome e a razão da semente, só a semente e o Espírito nela o sabem, seja como tem de ser, apanhou uma valente cornada, atravessou-o. E voltou a pegar. Já no hospital tinha dito: pois quando morrer, vou de mãos no peito e barriga para cima.
e às vezes, nem sabemos o que nos faz falta até o recebermos, do nada. Um pequenino acto de bondade. Estou a escrever e percebo que ainda estou a pensar em Stig Dagerman. Explico.
Cheguei. O natural cansaço da mudança. Adoecer. Não recuperar bem. O inesperado. Mil e uma coisas para organizar. A placa da cozinha não funciona. O exaustor tem de ser arranjado. A secadora também. Afinal, não, não compensa o arranjo. Tem de vir uma nova. O congelador não tem conserto. Vem outro frigorífico e descubro que previno uma infiltração - nem todo o mal é mau. A cozinha inoperacional durante quase um mês. Uma das bocas da placa nova não funciona. OK. Não vem mal ao mundo. Assistência técnica já na próxima segunda-feira. Estou contente com o papel do passarinhos. O montador é pontual. Prepara as paredes, faz as marcações. Abre os rolos. É papel pintado. Está manchado de cima abaixo. As paredes já estão lixadas e numeradas. Devolver. Reclamar. Esperar. A minha galinha do sal foi-se. Fui comprar outra. Já não fazem, ou, pelo menos, na Bordallo da Guerra Jungueiro não a têm. Guerras perdidas não. Amor aos objectos? Talvez. Também são memória. Trago um ananás para o sal. Mudar. Cabeleireiro, manicure. A seguir à Bordallo, faço mais não sei quantos quilómetros a subir e mais não sei quantos a descer para chegar perto da Igreja de Campo de Ourique. Acertar datas e detalhes. A casa é-me, sempre me foi, o X. O lugar onde. E trabalho em casa. E de repente, diz-me:
- o electricista já trabalha connosco há um ano... E sai-me antes que conseguisse fechar a boca:
- preciso que corra tudo bem, já não posso mais. E foi nessa altura que acrescentou: - sabe, mudei-me para minha casa há quase dois anos. O construtor ainda não mandou fazer algumas das reparações - uma mudança é difícil. E foi só isto. A centelha de bondade. E eu respirei fundo. Uma palavra chega. Foi um consolo. E então Stig Dagerman e o pequeno ensaio "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer".
Stig Dagerman, abandonado em bebé pela sua mãe, esperava a cada momento que ela regressasse. Pior. Esperava que ela regressasse em cada carro que passava na rua dos seus avós, com quem vivia, que saísse do carro a correr na sua direcção, de braços abertos, e os fechasse em volta do seu corpo. Nunca aconteceu, claro. Nunca acontece. Em algum momento, e quase sempre no pior, todos fomos abandonados. Alguém nos morreu. Alguém foi embora. Alguém nunca chegou. Em algum momento todos esperámos o milagre do regresso, não interessa de que janela. Stig Dagerman dizia que isso, a falta de consolo, tornava a felicidade impossível. Essa impossibilidade devorou-lhe a vida tanto quanto lhe fez a obra: nada se constrói sem vazio, é preciso que algo não esteja para haver espaço para que algo esteja. É assim. É o copo vazio que contém a água. É a página branca que se enche de letras. É o baldio que dá lugar ao edifício. É sempre o vazio. É uma condição da criação abraçar o vazio, olhar a morte nos olhos e dizer eu sei. Estar só. É uma condição da existência. Tem de se ser feliz mesmo de coração mastigado. Este é o imperativo não circunstancial: apesar de. Porque o sofrimento também é uma condição da existência.
Quando entrei casa, sentei-me no sofá. Nem música nem televisão. Lá em cima, o vizinho tocava piano e tropeçava no mesmo passo. Insistiu. Falhou. Insistiu. Os miúdos corriam e gritavam, e mais movimento, arrastar, deixar cair, o piano perdeu o pio quando o pai começou a falar com os filhos. Há uma família aqui ao lado e lá em cima. A minha casa tem camadas de silêncio: tout doucement, sans faire de bruit. Depois andei pelas estantes à procura do Dagerman. Nada de "Consolo" nem de "Vestido Vermelho" nem de coisa nenhuma. Talvez tenham ido na virada com tudo resto que só Deus sabe e nunca regressará. Fui até à cozinha, abri a janela, tão bonita a vista à luz da rua, puxei a cadeira para perto do parapeito, estiquei as pernas e fiquei ali na semi-obscuridade, só a existir enquanto bebia um descafeinado. Se calhar a felicidade é isto.
O Gato de Schrödinger Lá fora, a constante de trânsito num motor único, a obra, intermitente, ao lado. Por cima, mais alto, nas copas das árvores, pássaros conversam noutra língua. O ouvido, deste campo de vozes, colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada. O ouvido é como a razão: não percebe que ao dizer sim está a dizer não. Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas: este é o mundo, sem sim nem não. Dou um passo para trás. Observo que me observo observadora. Enquanto isso, do outro lado da rua, no penúltimo andar do prédio calcário e branco, de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada, agora limpa o vidro da janela por fora. Sou esta que vê e esta que escreve. E estas mãos no teclado são minhas também. E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou, a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons. Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico e voltar a enfiar-me na cama.