O amor acaba.
Várias vezes por dia se desama o amor
só para voltar a amar
umas horas depois,
um gesto, o olhar,
a velha chama a velha cama
acabadas de fazer.
Um dia acaba.
Bem-me-quer.
Mal-me-quer,
muito, pouco, nada.
Acaba de vez.
Nada arde na ternura velha,
nem chama nem cama,
nada.
Os passos trágicos desta obra
são ridículos vistos de fora -
nem comédia nem farsa,
apenas a desinvestida atenção,
e a tolerância amorosa e triste
que se tem com o perigoso disparate de
uma criança, ali a temos, connosco.
O amor acaba.
Muito. Pouco. Nada.
E encolhemos os ombros e sorrimos
enquanto pensamos: olha, acabou:
- Queres comer alguma coisa ou só café?
Há mil atrás, todos tivemos pai todos tivemos mãe, avô, avó também, há mil anos atrás fizemos esqui de tapete pelo corredor encerado e demos quedas condizentes com o riso acelerado; e há mil anos atrás brincámos em quintais, subimos às árvores, arranhámo-nos demais, e fomos tão bem comportados nos natais de há mil anos atrás. Há mil anos atrás íamos ser polícias, bailarinas, professores, tirar amígdalas se fôssemos doutores de diga trinta e três, pois à mil anos atrás não esperávamos a vez de ser; há mil anos atrás tínhamos amigos e cão e ninguém conjugava o verbo solidão. Há mil anos atrás a vida era nossa, nem sabíamos que tinha fim. Há mil anos atrás o mundo era um sim.
É Inverno e a Primavera chegou. As árvores tão despidas na avenida, lá em baixo, não sabem. É que há isto de não saber o que não se pode saber: como pode a folha chegar antes da hora se tem hora para chegar? Tudo é isto. Tempística. Tudo quando cabe entre a vida e a morte é. Fora do tempo, nem folha, nem flor, a regra é a voz do Vento. Não desceu Ele sobre Zorobabel e lhe disse, não pela força, não pelo poder, mas pelo meu Sopro Sagrado? Tudo é isto. Tempística. Mesmo há pouco, estava a ouvir como nada muda além da mudança - como gosto de pensar em bíblico, gosto em dança, e no samba estamos todos em nossas pequenas revoluções previstas, Nelson Cavaquinho, Cartola, Ataulfo Alves, Candeia, Barbosa, eu sei lá, sei que o coração não tem actualização, não há upgrade sentimental, nem pela força nem pelo poder, se é Inverno e a Primavera lhe chega à avenida, não pode saber, nenhum templo Zorobabel levanta antes do Vento dizer. Que me perdoem o quadradismo e se eu insisto neste tema - e logo cantado por Maysa - mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o coração. Quando no Sopro a tempística chegar, minha musa, minha lira, minha doce inspiração, você passa, eu acho graça, nessa vida tudo passa, e você passou também e então vou levantar o segundo Templo de Jerusalém.
ESCOLA DE SANTIDADE Talvez eu tenha sido como disse Paulo: não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço. Talvez tu tenhas sido como foi Pedro: jamais me negarias para logo me negares, e mais uma e outra vez. Talvez os santos nada tenham para nos ensinar. Talvez o coração nada tenha para aprender.
Meu amigo Vinicius, leia com seu sotaque, perdão, sutaqui, esta não-feijoada para sua "feijoada à minha moda"
NEM FOGO NEM FOGÃO
De quando em vez, alguém me sabe e tudo compreende: agora mesmo, teu poema de feijão, rede e gato para passar a mão - teu mesmo, Vinicius, pois então. Porém, olha a falha, sem Cão... Minha moqueca, minha histórica feijoada, hoje são nada, nem cozinho mais. Se me perguntares, que é isso menina, assim, onde vais? A ti, meu amigo, pergunto-te eu, e tu, onde estás?
Meu Espírito, Minha Carne, Meu Nome para a Alegria, Minha Porta para o Amor, Meu Amor: não se pode amar sozinho: a escuridão existe e tu não estás aqui.
Nas fases profundas do sono não se devia acordar com memória do sonho onde estávamos: quem é esta pessoa que nos habita enquanto nós dormimos? E vive aquilo que jamais viveríamos? E num mundo com outras leis, a natureza com outras regras, noutras paisagens, com inconcebíveis comportamentos, detalhes de Bosch. Agora que penso nisto, pergunto-me: Bosch acordaria onde eu acordei esta noite? Os Uruk hai, de Tolkien, e as suas armas do tempo do ferro, terão despertado a meio da noite? Os sonhos não se podem contar ou acaba-se numa cama mais ou menos freudiana.
Não se anda por entre estes lugares antigos como o homem, por entre a violência e o sangue, sem que eles se agarrem a nós.
Estava a beber café, a pensar em tudo, há dias de pensar em tudo e calhou ser hoje, quando vi. Na mesa em frente ao sofá tenho uma caixa chinesa de madeira de cânfora. O fecho partiu-se muito antes dela chegar às minhas mãos. Não tem fecho. Num dos cantos, vê-se a massa de um restauro mal sucedido. Teve bicho porque está miudamente esburacada. E a tampa está empenada do lado direito - não fecha completamente. Foi quando vi. Um quase nada inicial, pensei que fosse um reflexo da luz... Um fio vermelho, muito fino, escorria da caixa: o sonho de sangue saiu do sono e, subtil, materializou-se ali. Pego-lhe. Dentro da caixa tenho cartas, postais risonhos em caligrafia amorosa. Palavras que cabem na alegria em pleno sol. Disseram-mas e eu guardei-as. Tive um amor feliz. Fui feliz. E atei-as bem com uma fita vermelha para não irem a lado nenhum - depois do amor morrer, as palavras, como o corpo, são matéria do pó. A fita desfiou. E o fio, tão fino, transbordou. O sangue, contido, é vida. Derramado, é morte.
Uma caixa vazia no meio da casa? Talvez sirva para guardar os comandos e outras peças de quotidiana relojoaria. Não faz mal. Seja como for, os dias estão maiores, a luz dura quase até à noite e isso, toda a gente sabe, é o princípio das maravilhas.
Povos, nações, línguas, é isto: há muito tempo, tanto, sei que foi comigo porque o meu corpo estava lá, nas catacumbas de Cecília ou Calisto, nem recordo, foi quando, de repente, uma pintura hedionda se me agarrou ao pensamento. Não queria nada daquilo - teria preferido estar à superfície, a Roman Holiday, de braço dado com Wyler e Gregory Peck, três a passeio. O gosto do riso. Mas não. Foi, como tudo, como tinha de ser. Isto: três homens jovens num forno em chamas. E um quarto, um anjo, por trás. Fui catolicamente educada. Um católico não conhece a Bíblia para trás e para diante como um protestante de igrejas de paredes vazias e mãos transparentes para um comércio opaco. O católico não prega o evangelho da prosperidade. Se é verdade que conheço a Bíblia, e conheço, é só pela mesmíssima razão que leio Borges ou Rumi. Nabucodonosor - nave que Matrix popularizou, Nebuchadnezzar, and unclean spirits, when they saw him, fell down before him, and cried, saying, Thou art the Son of God, Neo, claro, o novo construtor do homem e dos jardins suspensos da realidade - Nabucodonosor, rei, mandou que ardessem os três homens por não se submeterem à sua vontade. E porque não queimaram, os elevou. Povos, nações, línguas, então é isto: rodeados de fogo por todos os lados ou qualquer que seja o nome do mal, fome doença solidão, escolhemos: ou o mal nos abraça e perecemos ou uma força maior o abraça a ele, e o derrota quando o beija na boca. E se perecermos, perecemos. Pompeu, Petrarca, Pessoa: navegar é preciso, viver não é preciso. Um amigo meu, também de Nebuchadnezzar, navegador de arenas, praças, pegava touros e um dia foi colhido, seremos todos, não há vida sem ceifa, e o nome e a razão da semente, só a semente e o Espírito nela o sabem, seja como tem de ser, apanhou uma valente cornada, atravessou-o. E voltou a pegar. Já no hospital tinha dito: pois quando morrer, vou de mãos no peito e barriga para cima.
e às vezes, nem sabemos o que nos faz falta até o recebermos, do nada. Um pequenino acto de bondade. Estou a escrever e percebo que ainda estou a pensar em Stig Dagerman. Explico.
Cheguei. O natural cansaço da mudança. Adoecer. Não recuperar bem. O inesperado. Mil e uma coisas para organizar. A placa da cozinha não funciona. O exaustor tem de ser arranjado. A secadora também. Afinal, não, não compensa o arranjo. Tem de vir uma nova. O congelador não tem conserto. Vem outro frigorífico e descubro que previno uma infiltração - nem todo o mal é mau. A cozinha inoperacional durante quase um mês. Uma das bocas da placa nova não funciona. OK. Não vem mal ao mundo. Assistência técnica já na próxima segunda-feira. Estou contente com o papel do passarinhos. O montador é pontual. Prepara as paredes, faz as marcações. Abre os rolos. É papel pintado. Está manchado de cima abaixo. As paredes já estão lixadas e numeradas. Devolver. Reclamar. Esperar. A minha galinha do sal foi-se. Fui comprar outra. Já não fazem, ou, pelo menos, na Bordallo da Guerra Jungueiro não a têm. Guerras perdidas não. Amor aos objectos? Talvez. Também são memória. Trago um ananás para o sal. Mudar. Cabeleireiro, manicure. A seguir à Bordallo, faço mais não sei quantos quilómetros a subir e mais não sei quantos a descer para chegar perto da Igreja de Campo de Ourique. Acertar datas e detalhes. A casa é-me, sempre me foi, o X. O lugar onde. E trabalho em casa. E de repente, diz-me:
- o electricista já trabalha connosco há um ano... E sai-me antes que conseguisse fechar a boca:
- preciso que corra tudo bem, já não posso mais. E foi nessa altura que acrescentou: - sabe, mudei-me para minha casa há quase dois anos. O construtor ainda não mandou fazer algumas das reparações - uma mudança é difícil. E foi só isto. A centelha de bondade. E eu respirei fundo. Uma palavra chega. Foi um consolo. E então Stig Dagerman e o pequeno ensaio "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer".
Stig Dagerman, abandonado em bebé pela sua mãe, esperava a cada momento que ela regressasse. Pior. Esperava que ela regressasse em cada carro que passava na rua dos seus avós, com quem vivia, que saísse do carro a correr na sua direcção, de braços abertos, e os fechasse em volta do seu corpo. Nunca aconteceu, claro. Nunca acontece. Em algum momento, e quase sempre no pior, todos fomos abandonados. Alguém nos morreu. Alguém foi embora. Alguém nunca chegou. Em algum momento todos esperámos o milagre do regresso, não interessa de que janela. Stig Dagerman dizia que isso, a falta de consolo, tornava a felicidade impossível. Essa impossibilidade devorou-lhe a vida tanto quanto lhe fez a obra: nada se constrói sem vazio, é preciso que algo não esteja para haver espaço para que algo esteja. É assim. É o copo vazio que contém a água. É a página branca que se enche de letras. É o baldio que dá lugar ao edifício. É sempre o vazio. É uma condição da criação abraçar o vazio, olhar a morte nos olhos e dizer eu sei. Estar só. É uma condição da existência. Tem de se ser feliz mesmo de coração mastigado. Este é o imperativo não circunstancial: apesar de. Porque o sofrimento também é uma condição da existência.
Quando entrei casa, sentei-me no sofá. Nem música nem televisão. Lá em cima, o vizinho tocava piano e tropeçava no mesmo passo. Insistiu. Falhou. Insistiu. Os miúdos corriam e gritavam, e mais movimento, arrastar, deixar cair, o piano perdeu o pio quando o pai começou a falar com os filhos. Há uma família aqui ao lado e lá em cima. A minha casa tem camadas de silêncio: tout doucement, sans faire de bruit. Depois andei pelas estantes à procura do Dagerman. Nada de "Consolo" nem de "Vestido Vermelho" nem de coisa nenhuma. Talvez tenham ido na virada com tudo resto que só Deus sabe e nunca regressará. Fui até à cozinha, abri a janela, tão bonita a vista à luz da rua, puxei a cadeira para perto do parapeito, estiquei as pernas e fiquei ali na semi-obscuridade, só a existir enquanto bebia um descafeinado. Se calhar a felicidade é isto.
O Gato de Schrödinger Lá fora, a constante de trânsito num motor único, a obra, intermitente, ao lado. Por cima, mais alto, nas copas das árvores, pássaros conversam noutra língua. O ouvido, deste campo de vozes, colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada. O ouvido é como a razão: não percebe que ao dizer sim está a dizer não. Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas: este é o mundo, sem sim nem não. Dou um passo para trás. Observo que me observo observadora. Enquanto isso, do outro lado da rua, no penúltimo andar do prédio calcário e branco, de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada, agora limpa o vidro da janela por fora. Sou esta que vê e esta que escreve. E estas mãos no teclado são minhas também. E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou, a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons. Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico e voltar a enfiar-me na cama.
Começar por onde? Um passo. Outro. E outro. Assim. Andar e nem saber que se anda.
Tudo é novo à minha volta. Tenho outra vez dois anos e a vida é um lugar grande. Já tinha cafés onde ir, um com e o outro sem sumo de laranja natural, aqui mesmo ao pé da porta. Hoje acrescentei o terceiro. Já percebi que é o meu preferido. É no jardim. E um quarto, de facto, há um quarto: sempre fui de café-café, mas a minha mãe ofereceu-me para casa nova uma Nespresso e lá comprei um saco cheio de Arpeggio e Indriya. No entanto, e porque Deus também é outra mãe, ali ao fundo da minha rua, da minha nova rua, há uma velha loja de café. Café mesmo, em grão, em pó, daquele que se vê e toca e cheira. E cafeteiras. Amanhã passo lá a bisbilhotar tudo que o aroma do café acabado de fazer, a fugir da cozinha, a espalhar-se pela casa, é uma alegria que o dia ganha logo cedo.
Então, um passo atrás do outro, com a senhora do Google Maps a falar-me ao ouvido, lá fui. Era mesmo do outro lado da rua, mal começou a falar, calou-se. Ri-me de mim, claro. Ontem, quando precisei dela para me dizer se saía do túnel pela direita ou pela esquerda, estava muda, e dei por mim em cascos de rolha. O que vale é que os cascos de rolha eram da Lisboa de antes de me ir embora e consegui perceber onde estava - se passei, um dia que tenha sido, a pé por um lugar, não me esqueço dele. E perder-me não me atrapalha, sempre me perdi em todo o lado e nem por isso deixo de ir dar ao sítio certo.
Tinha esta ideia de que, quando regressasse a Lisboa, o meu jardim seria o mesmo que foi o da minha avó quando ela cá viveu, o da Estrela. Não. O meu jardim é o da Gulbenkian. Que saudades. E nem sabia. Todo domingueiro. Calha bem: I'm hangin' out on Monday my Sunday dreams to dry, não é menina Ella? Gente estendida na relva a dormir, pais e filhos e cadeirinhas a passear por entre os bambus e os papiros encostados ao lago, os patos quá, e nem rasto da quebra de natalidade e da taxa de divórcio.
Antes vi as exposições. Pareceu-me que estava na loja. Ando eu à procura de um tapete e aquele não ia malzinho. E os belos Cães de Fo também marchavam para cima do meu livreiro. Como não trouxe a minha caixa chinesa, a vitrine com secretária portátil e o resto, olha, também não era pior... Gostei de rever o amor centauro de Rubens e o cão, um Cavalier King Charles que lá está com a sua linda dona. Do lado moderno, reencontrei a juventude politizada de Pomar, e uma peça de que gosto tanto, dos anos cinquenta. A modernidade, bem se vê, já tem uns anos valentes.
Mas o tempo avançou e, de repente, já era muita gente. Dei a volta toda e fui beber café ao outro lado. Pus-me eu a ver os bonecos emoldurados quando estes bonecos vivos reproduzem os outros, com cheiro, textura, temperatura, e drama dentro que a gente nem sabe. Do anfiteatro estive a vê-los, ao sol, à sombra, a ler. Os turistas e os lisboetas. E encontrei um cantinho de sombra e verde e água, onde nem a gente sabe onde está. Dois miúdos aí de nove anos, lado a lado, ele loirinho, ela morena, mais que cinematográficos, e sem qualquer adulto vigilante, atiravam pedrinhas à agua. Há mil anos naquele gesto. De certeza, no princípio, também o terei feito, todos o fizemos. Onde está esse que fomos?
Gosto deste silêncio. Como quase não tenho voz, estou afónica outra vez, há simetria entre a voz com que o mundo me fala e voz com que lhe respondo.
A minha televisão é mais inteligente do que eu: queria o Sidney Bechet mas não o tinha trazido na mudança, o pc está com o som esquisito, e ela, toma Sidney Bechet. Salvou-me a vida.
É verdade, mudei-me finalmente. Nem sei como, com tanta coisa junta. O meu tio tão doente e depois tão morto - sim, a morte é uma gradação ascendente antes de ser um ponto final. E o caos da transportadora? Tudo se resolve. Até a morte vem por catálogo, à sala, vestida de agente funerário, facilitar a sobrevivência de quem fica. É só outra transportadora, afinal - não tinha pensado nisto.
Também não sei como, mas em três dias mal medidos e uma viagem pelo meio, tenho uma casa quase em ordem. Melhor. Uma vida quase em ordem, sem pontas soltas, nada por rematar - tive aulas de lavores, aprendíamos a bordar, de bastidor e fio de seda, ou Ponto Cruz ou de Assis. Era muito pequenina. Depois o colégio terminou os lavores, acho que os deram por fascistas e anti-feministas. Ainda não arrumei aqueles papéis obrigatórios nos dossiers, a certificação do gás, a Via Verde, sei lá o que mais.
A minha avó era assim, mas em bom. Dizia Faça-se! apontava, aquilo, fora dali, já não posso ver o raio daquelas cortinas, estão uma vergonha, e apareciam feitas novas cortinas mesmo que fosse só ela a ver a vergonha. Eu não digo Faça-se! Faço, paciência, ou nada acontece.
Hoje, pela primeira vez, pensei, ainda bem que a minha avó está morta.
Dos outros, não sei grande coisa. De mim, sei pouco todavia um pouco mais. Para que vivemos, para quem? Acho que é para fazermos o que cá viemos fazer o melhor possível e que a nossa família, e os que amamos, se orgulhem disso e de nós, se não conseguirmos, ao menos que não lhes causemos embaraços.
Aqui estou, neste azul Alasca, sem pontas soltas, nem remates por dar, aula de lavores terminada, tudo feito e nada para mostrar, e por entre o Sidney Bechet, de facto, desde o trânsito parado na ponte que só me ouço a perguntar o título de Chatwin, o que faço eu aqui? E na voz claríssima da minha avó, as palavras do avô Afonso, o avô de Carlos da Maia, péssima estreia, filha, péssima estreia.
Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter...
Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.
Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças - duas meninas - sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.
E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores... Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?
Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.
Não percebo o que raio fazem as pessoas quando não estão a trabalhar. Não consigo atinar com essa história da identidade não estar no trabalho. Onde está, então?
Para mim tudo é trabalho mesmo que não esteja a escrever, sei que vou escrever; se estiver mar dentro com o sol a dar-me nos olhos nem o prazer da água me desvia a seta permanentemente apontada à folha: aliás, tenho a certeza, esta frechada é a de Cupido porque se penso em não escrever, e se por vezes penso, lá se vai tudo ao ar para vir tudo abaixo – tenho sorte, dura pouco esta insanidade temporária que qualquer tribunal aceitaria.
Da última vez que me deu, jurei à Nossa Senhora que tenho no quarto que ela não poria os pés na minha nova casa, nem ela nem São João, padroeiro dos escritores, nem Santo António, nem o registo, e vou pôr o terço no oratório como se me tivesse esquecido dele, fica tudo aqui, não quero nem a medalha que a minha avó me deu, nada, acaba-se agora tudo. Tudo! E eu que não digo um palavrão, ainda que escreva todos, mandei Deus e os Anjos e os Santos a lugares inconfessáveis. Pior, a Nossa Senhora também. Passei-me:
- Nem mais uma linha. Nada. Não existes! Melhor, nunca exististe, ouviste?!
Comigo é assim, aniquilação total e retroactiva… E isto com uma imagem de Nossa Senhora que, quando saí da minha casa, nem veio com as mudanças, trouxe-a eu, com todo o cuidado. Assim, com esta fúria toda nunca me tinha dado. Sinto mesmo alguma satisfação por, ao longo dos anos e graças a uma trela curta, ter domesticado a fera de temperamento que me habita. Mas ela de vez em quando foge… É a minha cruz, este feitio de gato que quando se assusta, eriça o pêlo para parecer maior do que é e ir direito aos tigres. O meu Cão fazia isto aos cavalos, até se apoiava só nas patas traseiras… – tantas saudades meu Lindo Cão.
Odeio não escrever. Ou não pensar em escrever o tempo todo. Fico no limbo. Percebes? Não sei o que fazer comigo. Tropeço em mim. Muito menos sei o que fazer com a transparência em que me ponho se não escrevo, se o preto não se inscreve no branco da folha. Ser invisível é não existir e assistir à não existência. É horrível. A culpa é do Cupido, Nossa Senhora, deixa-me cega, louca, faz de mim táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Cupido, teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno estriquinina, que peixeira de baiano, teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver, e faz-me ser mais má que TU!
Um Golias chamou-me micróbio. Não foi o primeiro. Não será o último. É natural: a água não tem cabelos, não se pode segurar, as palavras são um rio, um rio só pára quando é mar. E ainda há a questão da minha impureza lexical, da insubmissão formal e uma grande desnecessidade de aval. No fundo sabem, eu tenho recursos estranhos nos bolsos como David e os heróis da bd - vêm assim como as fortunas de um bolinho chinês que se esfarela. Não desfazendo das frases que orientais vão ao forno, os meus invisíveis recursos secretos têm raízes no céu, como eu que sou uma inexorável máquina de escrever, mil vezes mais pequena que qualquer micróbio, ínfimas partículas de letras no comboio do tempo, lugar de origem e de destino escritos no bilhete. É Deus quem dá. Nós? O que somos nós, se não formos isto que liga o Céu e a Terra, o Totem que vivo respira e o seu avesso que o Tabu sufoca?
E quer-se independência, fazem-se planos em bando, adolescentes mais que pássaros e antes que o coração seja dono dos seus ais, já somos casais, e um dia somos menos do que sonhámos, ou mais do que merecemos. E somos pais. Claro, só sei disto por assistir e ouvir falar. Muito graciosamente, a vida deu-me outro fruto a provar: talvez possa resumir-se no silêncio iluminado de azul, de Hammershöi. Como tu, também me sonhei, e era outra a pintura, era hip hip hurrah, de Kroyer - um tom de luz mais acompanhado. Mas tenho sorte, bem vês, entre o menos que sou e mais que poderia ser, não é assim tão grande a diferença, de Skagen a Skagen a distância é a que vai de me estender no sofá com McCarthy enquanto tu, que nunca encontrei, e se foram montanhas, mares, números, não sei, só Cecília sabe, e Camões e Amália, tu, espero, para que mor não seja a dor, brindas do lado de lá da tua tela, também a mim, como eu aqui: a ti! E assim, tu e eu, duas existências desconhecidas uma da outra, podemos ser nós. Só por um bocadinho.
Abarim, Abarim, do alto do teu silêncio vi a terra prometida: passava de manhã para o trabalho pois acreditava no suor do rosto. E regressava ao fim da tarde, a casa, pois tinha asas como os anjos. Sei de onde vêm as asas e para que servem, e não é porque de Nebo se vê o mundo, é porque também eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há, e mil poemas meus foram escritos por outros. Quando os dinossauros passeavam na terra, uns tanto queriam proteger as crias - neste rasto de sonho e pó de estrelas a que chamamos cronologia linear - que nasceram escudos da sua carne, nomeamo-los asas, e debaixo delas se aninhou a fragilidade e gerou a força. Um dos nomes de Deus é Abir. Abir é só uma pluma, uma pena de asa, e do Verbo dessa leveza se fez o bíblico O Poderoso, porque o amor é Poder e este é o primeiro atributo divino: a asa do amor cobre todo o mal feito e por fazer e o redime, e faz de nós homens à Sua imagem: escudo e asa. O efeito secundário da asa é o voo. E o terciário, o tamanho. Assim, quando veio a destruição, os grandes répteis caíram de orgulho e solidão.
Para diante, em cada manhã,
de volta, em cada tarde, vi a terra prometida.
E o senhor das abelhas por entre os senhores das moscas,
senhor das correlações com significado
por entre o caos,
senhor da ordem, da natureza em língua e mel,
armado, protector e protegido, amado,
a polinizar as horas.
Vi-o quando caminhava, e quando trabalhava,
quando se sentava
e se deitava, quando lia, ria e falava
e eu sonhava que era meu -
terra prometida, quem te prometeu?
Bem sei, logo do
Genesis e até último buraco negro, o primeiro imperativo repete-se:
Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo. Mas.
- Abarim, Abarim, e agora, quem sou eu?
- Dabar.
Abarim: cadeia montanhosa de Moab, de onde, no seu ponto mais alto, Pisgah, no monte Nebo, Moisés avistou a Terra Prometida
Abir: O Poderoso, pena.
Dabar: palavra
Nebo: Monte de cujo cume (Pisgah) Moisés avistou a Terra Prometida
"Eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há" – Manuel António Pina
"Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo" Genesis, 15:1