27 de outubro de 2017

Uma palavra chega

uma palavra chega

e às vezes, nem sabemos o que nos faz falta até o recebermos, do nada. Um pequenino acto de bondade. Estou a escrever e percebo que ainda estou a pensar em Stig Dagerman. Explico.

Cheguei. O natural cansaço da mudança. Adoecer. Não recuperar bem. O inesperado. Mil e uma coisas para organizar. A placa da cozinha não funciona. O exaustor tem de ser arranjado. A secadora também. Afinal, não, não compensa o arranjo. Tem de vir uma nova. O congelador não tem conserto. Vem outro frigorífico e descubro que previno uma infiltração - nem todo o mal é mau. A cozinha inoperacional durante quase um mês. Uma das bocas da placa nova não funciona. OK. Não vem mal ao mundo. Assistência técnica já na próxima segunda-feira. Estou contente com o papel do passarinhos. O montador é pontual. Prepara as paredes, faz as marcações. Abre os rolos. É papel pintado. Está manchado de cima abaixo. As paredes já estão lixadas e numeradas. Devolver. Reclamar. Esperar. A minha galinha do sal foi-se. Fui comprar outra. Já não fazem, ou, pelo menos, na Bordallo da Guerra Jungueiro não a têm. Guerras perdidas não. Amor aos objectos? Talvez. Também são memória. Trago um ananás para o sal. Mudar. Cabeleireiro, manicure. A seguir à Bordallo, faço mais não sei quantos quilómetros a subir e mais não sei quantos a descer para chegar perto da Igreja de Campo de Ourique. Acertar datas e detalhes. A casa é-me, sempre me foi, o X. O lugar onde. E trabalho em casa. E de repente, diz-me:
o electricista já trabalha connosco há um ano... E sai-me antes que conseguisse fechar a boca:
- preciso que corra tudo bem, já não posso mais. E foi nessa altura que acrescentou:
- sabe, mudei-me para minha casa há quase dois anos. O construtor ainda não mandou fazer algumas das reparações - uma mudança é difícil. E foi só isto. A centelha de bondade. E eu respirei fundo. Uma palavra chega. Foi um consolo. E então Stig Dagerman e o pequeno ensaio "A Nossa Necessidade de Consolo é Impossível de Satisfazer". 

Stig Dagerman, abandonado em bebé pela sua mãe, esperava a cada momento que ela regressasse. Pior. Esperava que ela regressasse em cada carro que passava na rua dos seus avós, com quem vivia, que saísse do carro a correr na sua direcção, de braços abertos, e os fechasse em volta do seu corpo. Nunca aconteceu, claro. Nunca acontece. Em algum momento, e quase sempre no pior, todos fomos abandonados. Alguém nos morreu. Alguém foi embora. Alguém nunca chegou. Em algum momento todos esperámos o milagre do regresso, não interessa de que janela. Stig Dagerman dizia que isso, a falta de consolo, tornava a felicidade impossível. Essa impossibilidade devorou-lhe a vida tanto quanto lhe fez a obra: nada se constrói sem vazio, é preciso que algo não esteja para haver espaço para que algo esteja. É assim. É o copo vazio que contém a água. É a página branca que se enche de letras. É o baldio que dá lugar ao edifício. É sempre o vazio. É uma condição da criação abraçar o vazio, olhar a morte nos olhos e dizer eu sei. Estar só. É uma condição da existência. Tem de se ser feliz mesmo de coração mastigado. Este é o imperativo não circunstancial: apesar de. Porque o sofrimento também é uma condição da existência. 

Quando entrei casa, sentei-me no sofá. Nem música nem televisão. Lá em cima, o vizinho tocava piano e tropeçava no mesmo passo. Insistiu. Falhou. Insistiu. Os miúdos corriam e gritavam, e mais movimento, arrastar, deixar cair, o piano perdeu o pio quando o pai começou a falar com os filhos. Há uma família aqui ao lado e lá em cima. A minha casa tem camadas de silêncio: tout doucement, sans faire de bruit. Depois andei pelas estantes à procura do Dagerman. Nada de "Consolo" nem de "Vestido Vermelho" nem de coisa nenhuma. Talvez tenham ido na virada com tudo resto que só Deus sabe e nunca regressará. Fui até à cozinha, abri a janela, tão bonita a vista à luz da rua, puxei a cadeira para perto do parapeito, estiquei as pernas e fiquei ali na semi-obscuridade, só a existir enquanto bebia um descafeinado. Se calhar a felicidade é isto.


10 de outubro de 2017

O Gato de Schrödinger

O Gato de Schrödinger
Lá fora, a constante de trânsito
num motor único, a obra,
intermitente, ao lado.
Por cima, mais alto, nas copas das árvores,
pássaros conversam noutra língua.
O ouvido, deste campo de vozes,
colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada.
O ouvido é como a razão:
não percebe que ao dizer sim está a dizer não.
Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas:
este é o mundo, sem sim nem não.
Dou um passo para trás.
Observo que me observo observadora.
Enquanto isso, do outro lado da rua,
no penúltimo andar do prédio calcário e branco,
de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada,
agora limpa o vidro da janela por fora.
Sou esta que vê e esta que escreve.
E estas mãos no teclado são minhas também.
E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou,
a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons.
Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico
e voltar a enfiar-me na cama.

8 de outubro de 2017

Sunday dreams, jardim & black coffee


sunday dreams

Começar por onde? Um passo. Outro. E outro. Assim. Andar e nem saber que se anda.

Tudo é novo à minha volta. Tenho outra vez dois anos e a vida é um lugar grande. Já tinha cafés onde ir, um com e o outro sem sumo de laranja natural, aqui mesmo ao pé da porta. Hoje acrescentei o terceiro. Já percebi que é o meu preferido. É no jardim. E um quarto, de facto, há um quarto: sempre fui de café-café, mas a minha mãe ofereceu-me para casa nova uma Nespresso e lá comprei um saco cheio de Arpeggio e Indriya. No entanto, e porque Deus também é outra mãe, ali ao fundo da minha rua, da minha nova rua, há uma velha loja de café. Café mesmo, em grão, em pó, daquele que se vê e toca e cheira. E cafeteiras. Amanhã passo lá a bisbilhotar tudo que o aroma do café acabado de fazer, a fugir da cozinha, a espalhar-se pela casa, é uma alegria que o dia ganha logo cedo.

Então, um passo atrás do outro, com a senhora do Google Maps a falar-me ao ouvido, lá fui. Era mesmo do outro lado da rua, mal começou a falar, calou-se. Ri-me de mim, claro. Ontem, quando precisei dela para me dizer se saía do túnel pela direita ou pela esquerda, estava muda, e dei por mim em cascos de rolha. O que vale é que os cascos de rolha eram da Lisboa de antes de me ir embora e consegui perceber onde estava - se passei, um dia que tenha sido, a pé por um lugar, não me esqueço dele. E perder-me não me atrapalha, sempre me perdi em todo o lado e nem por isso deixo de ir dar ao sítio certo.

Tinha esta ideia de que, quando regressasse a Lisboa, o meu jardim seria o mesmo que foi o da minha avó quando ela cá viveu, o da Estrela. Não. O meu jardim é o da Gulbenkian. Que saudades. E nem sabia. Todo domingueiro. Calha bem: I'm hangin' out on Monday my Sunday dreams to dry, não é menina Ella?  Gente estendida na relva a dormir, pais e filhos e cadeirinhas a passear por entre os bambus e os papiros encostados ao lago, os patos quá, e nem rasto da quebra de natalidade e da taxa de divórcio.

Antes vi as exposições. Pareceu-me que estava na loja. Ando eu à procura de um tapete e aquele não ia malzinho. E os belos Cães de Fo também marchavam para cima do meu livreiro. Como não trouxe a minha caixa chinesa, a vitrine com secretária portátil e o resto, olha, também não era pior... Gostei de rever o amor centauro de Rubens e o cão, um Cavalier King Charles que lá está com a sua linda dona. Do lado moderno, reencontrei a juventude politizada de Pomar, e uma peça de que gosto tanto, dos anos cinquenta. A modernidade, bem se vê, já tem uns anos valentes.

Mas o tempo avançou e, de repente, já era muita gente. Dei a volta toda e fui beber café ao outro lado. Pus-me eu a ver os bonecos emoldurados quando estes bonecos vivos reproduzem os outros, com cheiro, textura, temperatura, e drama dentro que a gente nem sabe. Do anfiteatro estive a vê-los, ao sol, à sombra, a ler. Os turistas e os lisboetas. E encontrei um cantinho de sombra e verde e água, onde nem a gente sabe onde está. Dois miúdos aí de nove anos, lado a lado, ele loirinho, ela morena, mais que cinematográficos, e sem qualquer adulto vigilante, atiravam pedrinhas à agua. Há mil anos naquele gesto. De certeza, no princípio, também o terei feito, todos o fizemos. Onde está esse que fomos?

Gosto deste silêncio. Como quase não tenho voz, estou afónica outra vez, há simetria entre a voz com que o mundo me fala e voz com que lhe respondo.

7 de outubro de 2017

Péssima estreia, filha, péssima estreia


si tu vois ma mère

A minha televisão é mais inteligente do que eu: queria o Sidney Bechet mas não o tinha trazido na mudança, o pc está com o som esquisito, e ela, toma Sidney Bechet. Salvou-me a vida.

É verdade, mudei-me finalmente. Nem sei como, com tanta coisa junta. O meu tio tão doente e depois tão morto - sim, a morte é uma gradação ascendente antes de ser um ponto final. E o caos da transportadora? Tudo se resolve. Até a morte vem por catálogo, à sala, vestida de agente funerário, facilitar a sobrevivência de quem fica. É só outra transportadora, afinal - não tinha pensado nisto.

Também não sei como, mas em três dias mal medidos e uma viagem pelo meio, tenho uma casa quase em ordem. Melhor. Uma vida quase em ordem, sem pontas soltas, nada por rematar - tive aulas de lavores, aprendíamos a bordar, de bastidor e fio de seda, ou Ponto Cruz ou de Assis. Era muito pequenina. Depois o colégio terminou os lavores, acho que os deram por fascistas e anti-feministas. Ainda não arrumei aqueles papéis obrigatórios nos dossiers, a certificação do gás, a Via Verde, sei lá o que mais.

A minha avó era assim, mas em bom. Dizia Faça-se! apontava, aquilo, fora dali, já não posso ver o raio daquelas cortinas, estão uma vergonha, e apareciam feitas novas cortinas mesmo que fosse só ela a ver a vergonha. Eu não digo Faça-se! Faço, paciência, ou nada acontece. 

Hoje, pela primeira vez, pensei, ainda bem que a minha avó está morta. 

Dos outros, não sei grande coisa. De mim, sei pouco todavia um pouco mais. Para que vivemos, para quem? Acho que é para fazermos o que cá viemos fazer o melhor possível e que a nossa família, e os que amamos, se orgulhem disso e de nós, se não conseguirmos, ao menos que não lhes causemos embaraços.

Aqui estou, neste azul Alasca, sem pontas soltas, nem remates por dar, aula de lavores terminada, tudo feito e nada para mostrar, e por entre o Sidney Bechet, de facto, desde o trânsito parado na ponte que só me ouço a perguntar o título de Chatwin, o que faço eu aqui? E na voz claríssima da minha avó, as palavras do avô Afonso, o avô de Carlos da Maia, péssima estreia, filha, péssima estreia.

1 de outubro de 2017

Um Marlboro, se faz favor

Não há? Então, pode ser um Camel...

Um Marlboro, se faz favor


Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter...

Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.

Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças - duas meninas - sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.

E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores... Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?

Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.

26 de setembro de 2017

A culpa é do Cupido!



a culpa é do Cupido!

Não percebo o que raio fazem as pessoas quando não estão a trabalhar. Não consigo atinar com essa história da identidade não estar no trabalho. Onde está, então?

Para mim tudo é trabalho mesmo que não esteja a escrever, sei que vou escrever; se estiver mar dentro com o sol a dar-me nos olhos nem o prazer da água me desvia a seta permanentemente apontada à folha: aliás, tenho a certeza, esta frechada é a de Cupido porque se penso em não escrever, e se por vezes penso, lá se vai tudo ao ar para vir tudo abaixo – tenho sorte, dura pouco esta insanidade temporária que qualquer tribunal aceitaria.

Da última vez que me deu, jurei à Nossa Senhora que tenho no quarto que ela não poria os pés na minha nova casa, nem ela nem São João, padroeiro dos escritores, nem Santo António, nem o registo, e vou pôr o terço no oratório como se me tivesse esquecido dele, fica tudo aqui, não quero nem a medalha que a minha avó me deu, nada, acaba-se agora tudo. Tudo! E eu que não digo um palavrão, ainda que escreva todos, mandei Deus e os Anjos e os Santos a lugares inconfessáveis. Pior, a Nossa Senhora também. Passei-me:

- Nem mais uma linha. Nada. Não existes! Melhor, nunca exististe, ouviste?!

Comigo é assim, aniquilação total e retroactiva… E isto com uma imagem de Nossa Senhora que, quando saí da minha casa, nem veio com as mudanças, trouxe-a eu, com todo o cuidado. Assim, com esta fúria toda nunca me tinha dado. Sinto mesmo alguma satisfação por, ao longo dos anos e graças a uma trela curta, ter domesticado a fera de temperamento que me habita. Mas ela de vez em quando foge… É a minha cruz, este feitio de gato que quando se assusta, eriça o pêlo para parecer maior do que é e ir direito aos tigres. O meu Cão fazia isto aos cavalos, até se apoiava só nas patas traseiras… – tantas saudades meu Lindo Cão.

Odeio não escrever. Ou não pensar em escrever o tempo todo. Fico no limbo. Percebes? Não sei o que fazer comigo. Tropeço em mim. Muito menos sei o que fazer com a transparência em que me ponho se não escrevo, se o preto não se inscreve no branco da folha. Ser invisível é não existir e assistir à não existência. É horrível. A culpa é do Cupido, Nossa Senhora, deixa-me cega, louca, faz de mim táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Cupido, teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno estriquinina, que peixeira de baiano, teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver, e faz-me ser mais má que TU!

25 de setembro de 2017

A vida das pequeníssimas coisas


A VIDA DAS PEQUENÍSSIMAS COISAS

Um Golias chamou-me micróbio.
Não foi o primeiro. Não será o último.
É natural: a água não tem cabelos,
não se pode segurar, as palavras
são um rio, um rio só pára quando é mar.
E ainda há a questão da minha impureza
lexical, da insubmissão formal e
uma grande desnecessidade de aval.
No fundo sabem, eu tenho recursos
estranhos nos bolsos como David e
os heróis da bd - vêm assim como
as fortunas de um bolinho chinês que
se esfarela. Não desfazendo das frases que
orientais vão ao forno,
os meus invisíveis recursos secretos
têm raízes no céu, como eu que sou
uma inexorável máquina de escrever,
mil vezes mais pequena que
qualquer micróbio,
ínfimas partículas de letras no comboio do tempo,
lugar de origem e de destino
escritos no bilhete. É Deus quem dá.
Nós? O que somos nós, se não formos isto que
liga o Céu e a Terra,
o Totem que vivo respira e
o seu avesso que o Tabu sufoca?

3 de setembro de 2017

Coisas Singulares

COISAS SINGULARES

E quer-se independência,
fazem-se planos em bando,
adolescentes mais que pássaros e
antes que o coração seja dono
dos seus ais,
já somos casais,
e um dia somos menos
do que sonhámos, ou mais
do que merecemos.  E somos pais. Claro,
só sei disto por assistir e ouvir falar.
Muito graciosamente, a vida
deu-me outro fruto a provar:
talvez possa resumir-se
no silêncio iluminado de azul,
de Hammershöi. Como tu,
também me sonhei, e era outra
a pintura, era hip hip hurrah, de Kroyer -
um tom de luz mais acompanhado.
Mas tenho sorte, bem vês, entre o menos
que sou e mais que poderia ser,
não é assim tão grande a diferença,
de Skagen a Skagen a distância
é a que vai de me estender no sofá
com McCarthy enquanto tu,
que nunca encontrei, e
se foram montanhas, mares,
números, não sei, só Cecília sabe,
e Camões e Amália, tu, espero,
para que mor não seja a dor,
brindas do lado
de lá da tua tela, também a mim,
como eu aqui: a ti!
E assim, tu e eu, duas existências
desconhecidas uma da outra,
podemos ser nós. Só
por um bocadinho.

23 de julho de 2017

Abarim, Abarim

Com Manuel António Pina


ABARIM, ABARIM

Abarim, Abarim,
do alto do teu silêncio
vi a terra prometida:
passava de manhã para o trabalho
pois acreditava no suor do rosto. E regressava
ao fim da tarde, a casa,
pois tinha asas como os anjos.
Sei de onde vêm as asas e para que servem, e
não é porque de Nebo se vê o mundo,
é porque também eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há,
e mil poemas meus foram escritos por outros.
Quando os dinossauros passeavam na terra,
uns tanto queriam proteger as crias -
neste rasto de sonho e pó de estrelas
a que chamamos cronologia linear -
que nasceram escudos da sua carne,
nomeamo-los asas,
 e debaixo delas se aninhou a fragilidade e gerou a força.
Um dos nomes de Deus é Abir.
Abir é só uma pluma,
uma pena de asa, e do Verbo dessa leveza se fez o bíblico O Poderoso,
porque o amor é Poder e este é o primeiro atributo divino:
a asa do amor cobre todo o mal feito e por fazer e o redime,
e faz de nós homens à Sua imagem: escudo e asa.
O efeito secundário da asa é o voo.
E o terciário, o tamanho.
Assim, quando veio a destruição,
os grandes répteis caíram de orgulho e solidão.

Para diante, em cada manhã,
de volta, em cada tarde, vi a terra prometida.
E o senhor das abelhas por entre os senhores das moscas,
senhor das correlações com significado
por entre o caos,
senhor da ordem, da natureza em língua e mel,
armado, protector e protegido, amado,
a polinizar as horas.
Vi-o quando caminhava, e quando trabalhava,
quando se sentava
e se deitava, quando lia, ria e falava
e eu sonhava que era meu -
terra prometida, quem te prometeu?

Bem sei, logo do
Genesis e até último buraco negro, o primeiro imperativo repete-se:
Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo. Mas.
- Abarim, Abarim, e agora, quem sou eu?
- Dabar.




Abarim: cadeia montanhosa de Moab, de onde, no seu ponto mais alto, Pisgah, no monte Nebo, Moisés avistou a Terra Prometida
Abir: O Poderoso, pena.
Dabar: palavra
Nebo: Monte de cujo cume (Pisgah) Moisés avistou a Terra Prometida
"Eu sou uns grandes olhos que em tudo isto há" Manuel António Pina
"Não tenhas medo, Eu sou o teu escudo"  Genesis, 15:1

13 de junho de 2017

Planos

planos

Vou mudar de casa - vendi a minha, que por acaso até era bastante decente, o ano passado. No dia um de Agosto. Via-se o mar e a serra da varanda do quarto e da varanda da sala. Da janela da cozinha, o jardim maduro com a piscina em frente, e a buganvília roxa, um nó de ramos e flores pérgola afora, à direita. A biblioteca verde, sim, verde, e fui eu quem a pintou prateleira a prateleira, como é possível, fazia horas extra como quarto de visitas. Mas quais visitas?
Estava a quinhentos metros da praia - medi.
Raramente usava carro, só quando chovia ou não tinha outro remédio. A minha linda Peugeot bastava-me. Durante anos fui feliz ali, com o Cão e aquele grande silêncio que fazia o mar ouvir-se pela chaminé da lareira com as gaivotas a ladrar-lhe por cima, e foi só nessa altura, pouco depois de me ter mudado, em pleno Novembro, que percebi porque lhes chamavam cães do mar.
No Inverno, parecia que as ondas me queriam entrar pela porta, o Cão rosnava-lhes de olhos semi-cerrados, deitado ao comprido no braço do sofá, e assim mesmo, sem medo daquele grande lobo, a maresia comia o verniz, a madeira, oxidava o puxador e o que mais apanhasse. Na Primavera vá de reparar tudo. Houve o ano que tive de pôr aquele chumbo de porta blindada a levar uma folha nova tal não foi o estrago. E o ano em que mandei fazer uma estante à face da lareira, a carreguei de livros de poesia, de número atrás de número de NYREV e sabe Deus o mais que assinava e devorava, e enfiei para lá uma televisão fora de moda que mal via a menos que ligasse o dvd. O que gostei daquela estante onde tinha de me empoleirar para chegar ao fundo da prateleira de cima... E dos filmes em looping na velha TV? Na altura fazia planos de comprar a poesia toda, logo a começar pela da Assírio e avançando depois horizonte adiante até ao princípio do tempo. Quem tem a poesia toda? Não sei. Mas num aniversário ofereci-me a Rosa do Mundo para mentir que era eu.
Apesar de ter mandado pintar a casa quando foi comprada, era novinha em folha e estava lambida de um branco que deitava sombras cinzentas, tive de a mandar pintar logo de novo para corrigir o disparate da cor escolhida. Ficou do exacto tom. Sempre fui uma exacta apesar das pilhas de livros pelas cadeiras, mesas, sofás. A exactidão faz-me bem. A minha mãe dizia que abrir os meus armários lhe dava nervos: quais militares alinhados, as minhas chávenas todinhas de asa à direita... Mas ó. Tinha pássaros e ramos e ninhos e flores, insectos e folhas desenhados à mão livre, assim, em locais inesperados, mal se viam até que apareciam súbitos, junto ao rodapé, ou ao lado da porta, a entrar em voo pela janela, e apanhavam toda a gente de surpresa. Era a bicheza local, uma pega azul, duas poupas bebés, borboletas, um louva a Deus, a cistanca, os juncos...  É para que saibam que não se sabe realmente. Pois não? E o verdadeiro ninho de andorinhas lá em cima dispensou-me do Bordalo excepto na cozinha.
Cresci numa casa. Nunca me habituei a apartamentos. Aquele apartamento era uma casa a fingir no último piso: as escadas para o andar de cima, a ausência de esconsos, os tectos altos, a vista desafogada, a ilusão do jardim, emprestavam-lhe o ar de casa casa. E o acesso era por galeria. A galeria, vá-se lá saber se por ser mais ilusionismo, desta vez o de um passeio de acesso à entrada, deixava-me feliz. E o silêncio. Acho que já disse o silêncio. Silêncio suficiente para ser acordada todas as manhãs pela passarada na guarda de ferro da varanda. Era ali que vinham. De todas as guardas de todas as varandas, era ali que reuniam ao toque de alvorada enquanto o Cão se espreguiçava e eu fingia que dormia. Ai que coisa boa ter um Cão, pássaros na varanda e uma almofada onde adormece todo o ruído, e não ter futuro. Não esperar nada. Viver hoje. Só hoje. Só um dia de cada vez como aquela gente diz nos filmes nas reuniões dos A.A..
Isso mudou. Foi sorrateiramente. Primeiro uma coisa. Outra. Pensava e amanhã? Quando o tempo começa a ganhar densidade, existir não chega. Faltam pessoas. Uma ideia de vida. A perspectiva de ser além de existir. E mais outra. Quando se juntaram todas as coisas pareceu que um dia mudou quando foram tantos dias para mudar, a correr subterrâneos. E foi-se o silêncio e com ele foi-se ser e mais nada. Não gosto de dividir paredes. Muito menos quando se tornam esterofónicas, histericofónicas. E tenho um defeito - quero dizer, tenho mil. Um grande defeito, por ser mansa, não se percebe, nem eu percebo, que a coisa vai e vai e vai e um dia de tanto ir não volta. Não há nada a fazer. Fechei a porta. Nunca mais.
No dia um de Agosto, pouquinhos anos depois do nunca mais, vendi a minha casa. Porém a saga, a saga de arranjar casa em Lisboa já estava em curso há que tempos. E foi por causa dela, ali, a desempacotar caixotes de isto o que é? que encontrei a escritura original do apartamento de antes deste onde vivi com o meu lindo Cão, o apartamento de antes de haver O Cão, a escritura do meu primeiro lugar de pessoa crescida de dezoito anos, tantos, meu Deus, onde outra eu viveu uma vida que misteriosamente foi minha e onde nada aconteceu como fora planeado ou sequer imaginado. Nada. Só surpresas de rodapé ou a entrar pela janela.
Agora vou para a minha terceira casa fora de casa. Planos? Só a cor exacta das paredes e a aguarela que encomendei do meu Cão.

11 de junho de 2017

A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, O Cão e eu

A CEGONHA, O RINOCERONTE, A BICICLETA, O CÃO E EU
Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.
No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.
Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe que sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço... Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto - shhh... ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.
Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós... Só percebi quando os vi a serrar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Pelo preço da bala.
Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta - qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d' Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma construção antiga nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A a natureza a dar show e eu espectadora feliz. Quando volto a olhar para a direita, encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?
Já não moro no paraíso. O meu querido Cão já morreu – se neste instante chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro de nariz no vidro. 
Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos. 

3 de junho de 2017

Felicidades hipotéticas

Já aqui contei: desconheço Pedro Mexia. Mas, ó diabo, de há uns tempos para cá parece-me um velho (des)conhecido, um daqueles com quem falo sozinha como as pessoas que respondem boa-noite ao apresentador do telejornal, assim tipo, “durante os anos sessenta”? mas o homem é um iogurte?! Veja lá isso, caro Pedro. E sim, tem razão, também "isento de tudo o Chiado."
Numa destas janelas terá estado a minha felicidade hipotética.

felicidades hipotéticas
Estava a ler o Fim da Aventura, de Pedro Mexia, na Revista E, sobre o novo livro do velho O’ Neill, a pensar que se estivesse ainda em casa da minha avó, e fosse a passar diante dela de livro na mão e lhe dissesse, li tudo e não me cansei – código para hei-de relê-lo uma fartura de vezes –, ouviria por resposta, isso não me parece grande conversa para quem lê até os rótulos dos sabonetes. E sorriria. Ela e eu. A minha avó tinha, também, o humor cítrico de O’Neill - quando o li pela primeira vez, já me estava entranhado e eu nem sabia.
Como não sabia que iria acabar à porta de sua casa, na Rua da Saudade, 23, ali mesmo onde destaparam um teatro romano, onde se sobe ou desce a pique e se tem vista para a parede da frente ou para o rio atrás. Foi uma felicidade hipotética.
Andava à procura de casa. Perdidamente como os muitos que procuram casa em Lisboa. Penso que foi no fim do Outono passado que dei com ela. Ele. Um apartamento pequeno: cozinha, sala, escritório e quarto comunicantes cabiam numa área contada ao centímetro e sem uma única zona de arrumos. Tinham-lhe feito uma daquelas recuperações que são uma lambidela de má cosmética, mas enfim… Chão e portas afagados, micro casa de banho com tudo o que é mais barato e agora se compra como quem vai à mercearia, uma retrete, um autoclismo de plástico, uma base duche em meia-lua, e uma cozinha de poliéster com encastrados, se faz favor, e ponha na conta – fiado é o nome original do cartão de crédito. A despeito disto, a Rua da Saudade não tem saída para o trânsito e, por comparação com a vizinhança, acaba por ser, de longe, a menos movimentada. Pensei, olha, menos mal.
O pior veio depois.
Ao lado da porta, à direita e à esquerda, em cima e em baixo, sei lá eu que fiquei logo encandeada, placas afirmativas de residência no prédio. Ary dos Santos e O’Neill. O’ Neill?! Quero lá saber da má cosmética… venha a meia-lua, venha mesmo a lua-nova, se foi bom para ele, é bom para mim. Fazer o quê? Os bons poetas, de preferência mortos e bem mortos, são a minha fraqueza. Se me quiserem deslumbrada como um veado antes de ser atropelado, mostrem-me uma primeira edição lida e relida de um deles ou de um dos meus maridos ou coisa assim - é preciso perceber que hoje fiquei a pasmar para o Steiner impresso! Casado há 62 anos e não é comigo, vá-se perceber um mistério destes… quero lá saber do homem do detergente Surf!
E agrava-se. Quando era pequena, mesmo pequena, pré-alfabetizada, era muito dada ao drama, teatreira, cheia de véus e anéis, imaginações e palavras fabulosas que usava, vá, com originalidade que hoje não me apetece cascar na infância. A natureza de uma pessoa não muda. Até se pode deixar de andar enfeitado como uma Scheherazade, mas o bicho está lá dentro. Que é como quem diz, ah, está explicado – sim, sempre fui cosmológica, é uma das minhas virtudes inúteis. Estava explicado não ter conseguido casa antes. Estava explicado isso e estava explicado tudo, a redenção é, por natureza, absoluta: tinha de ir parar ali, à Rua da Saudade, por osmose poética. Era o destino. Eram os véus e os anéis desvendados e justificados.
Marco a visita logo decidida a ficar com a casa. Confirmo a marcação. Que sim. Com certeza. E volto a confirmar. De véspera, à noite, informam-me mal e porcamente por sms que a casa está alugada. Veado atropelado, quero saber como, porquê, se a cozinha de poliéster ainda nem está montada, se me garantiram que a primeira marcação era a minha... Ai, do cosmos ao caos à velocidade de um topo de gama, afinal era o destino, a tal felicidade hipotética que se ia à viola e sem letra do vizinho Ary dos Santos…

31 de maio de 2017

Mark my words



mark my words
Talvez não fossem ainda onze da manhã. E já não podia mais quando fechei as janelas, baixei a persiana, e seja o que Deus quiser. Não durmo de dia. Era pequenina e não dormia de dia. Tenho uma incompatibilidade diurna com o sono - e com o ruído, para dizer a verdade. E assim mesmo deitei-me. 
Há coisas de que o corpo se recorda antes do pensamento. Foi há muitos anos. Tinha trabalhado todo o dia, treinado no intervalo do almoço e havia outro treino antes do jantar. Os limites também precisam de respeito. Penso que nesse dia não os respeitei. Depois desse último treino, cheguei ao carro, sentei-me e deixei cair a cabeça no volante. Sentia o corpo a tremer do esforço - nem o duche tinha aliviado o excesso de tensão. E desato a soluçar como um miúdo. Era só cansaço. Nessa altura, lá pelas as oito e meia da noite, nove, ali mesmo, lembrei-me: era o meu aniversário.
Deitei-me esta manhã. Não dormi, claro. E algo em mim recordou aquele ponto baixo. Acho que há uma idade em que podemos repetir os mesmos erros de sempre. Ou um tempo. E outra idade em que já não. Outro tempo. Levantei-me, almocei, enfiei-me no computador e segui pela tarde fora. Antes do jantar, fui fazer uma busca. Casas isoladas só para um, na Comporta, ali mesmo entre a terra e o mar dentro, nem um ai, não quero ouvir gente nem televisões nem carros, não quero saber de nada, nem ver vivalma. E encontro. A preços sauditas.
Não faz mal. Um dia faço um poema para esta casa isolada só para um que Tom Waits levantou para eu descansar na voz de Amy Lavere -  and we'll catch mocking birds.



28 de maio de 2017

Kill Bill state of mind

Quieto quase demais...

Kill Bill state of mind
Sempre li de tudo. Bem, agora menos. Mas quando era pequena lia o que viesse, fosse lá o que fosse a que jogasse a mão. Com a música a mesmíssima coisa. Tive sorte. Tanto com o esmero deseducativo quanto com a escola de gerações onde vivi ensanduichada, e mais ainda com a posição ocupada pela casa onde cresci no mapa familiar. E havia os extras, os figurantes: a amiga da prima da cunhada também aparecia com a sua voz distinta das outras, a blusa, o cabelo, as três mil informações novas nos gestos, nas feições, uma história inteira, assim, do nada. Adorava. Na verdade, era uma canibal. Acho que comia as pessoas dos pés à cabeça só por gostar de gente. Pena tinha eu de não enfiar em casa quem via da janela e com quem conversava antes de me levarem para dentro contra vontade. Tudo me fascinava. O mundo era um raio de um prodígio e as pessoas a maravilha das constelações. Perduravam-me depois de desaparecerem, de saírem porta fora ou seguirem pela rua. Estou mesmo convencida de que estão todas aqui, em looping, um segredo onde entro quando me dá na cabeça, ou quando me chamam, sei lá.
Sei é que havia umas pasmosas dissonâncias. Quem as trouxe? A amiga da prima da cunhada? Joe Dassin. Billy Joel. E o álbum duplo, a banda sonora de Jesus Christ Superstar, filme a que assisti enfiada na frisa com a minha tia para quem as idades indicativas da fita eram um despropósito subordinável ao seu desejo da minha companhia. Escusado será dizer que sabia os LP de cor. Todos. Ainda sei. Mesmo o confutatis maledictis que não tem nada a ver com isto e conseguiu vir cá parar. Tinha uns headphones enormes para o meu tamanho e proporcionais aos anos setenta. Sentava-me no chão, a olhar para A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, que tinha comprado com a minha própria semanada. Um poster entre duas baguettes de plástico.
E isto porque ainda há pouco, logo a seguir ao jogo, estava a fazer um zapping indiferente, dei com Julie  & Julia  na cena da mudança de casa logo ao início do filme, e apeteceu-me perguntar, porque é que os apartamentos, mesmos os maus, ficam giros nos filmes? Nem era pela resposta. Essa eu sei. É o cabrão do cenógrafo. Era só pela conversa. Apetecia-me. E vai-me o pensamento e começa a cantar could we start again, please. Só esta linha. Uma vez. Duas. Escrevi um email. Continuou. Três. Apetecia-me. E começar do princípio também. E de repente, mais um bocadinho: I think you've made your point now, you've even gone a bit too far to get the message home.
A vida está sempre certa. Até irrita como gets the message home. Estou tão farta que só me resta mudar a começar de onde estou.

21 de maio de 2017

Uma palavra chega

No outro dia, e talvez por que eu desejasse tanto ter sido destemida e mais isto e aquilo num saco de impossíveis virtudes e concretizações para quem é apenas como é e nada mais, disseram-me uma das coisas mais bonitas e inesperadas que ouvi: destemido é escrever poesia.
Não precisa de ser verdade aquilo que nos dizem. Basta que acreditemos.

5 de maio de 2017

O outro salmo 63

O OUTRO SALMO 63
Escrevo porque existo aqui,
à sombra das tuas asas
que fazem sombra ao sol
e do azul cinza.
Escrevo porque posso
quando a luz não bate de frente
o riso dos seus dentes nos meus olhos -
e o gozo que ela deve ter de me reflectir,
minúscula, impotente, quando os dias
e a terra seca se colam um no outro e no outro
e as horas correm a soro lento já
que viver é só durar e ver o soro correr.
Se houver um prazer nisto de me quebrares,
podes tê-lo.
Mas hoje, não. Escrevo porque posso.
A verdade é que, se em vez de fraca
fosse forte, levava o mundo adiante
e só para o perder o levaria adiante -
o lugar do tesouro é neste X.
Deus, que há-de ser outro nome
para a majestade do caos e a majestade da ordem
e do majestoso potencial deles e nosso,
quis-me assim, e eu deixo-me ser.
Não há promessas por cumprir,
dívidas por saldar,
minúscula ou não, risível, que interessa? se além de mim,
há isto tudo, rosários inteiros a desfiarem
conta a conta as mil perfeições, desde os miúdos que vi no KFC
ainda nos pulmões da juventude,
o primeiro amor e o último,
a eternidade dos jacarandás em flor,
até onde nem o Hubble chegou e a alma alcança,
e mais os tremendos mistérios do tempo por abrir.
O que isto vai ser quando a física nos enrolar a cronologia
no seu dedo mindinho… Não o verei. Mas sei.
À sombra das tuas asas. Nem queria estar noutro lugar.

29 de abril de 2017

Thank God we can't tell the future. We'd never get out of bed.

Um dos grandes problemas da escrita, quero dizer, para quem escreve, é a puta da verdade. A verdade ela própria, sem factos alternativos nem pós coisa alguma, sequer pózinhos dourados. O problema da verdade na escrita, para quem escreve, é que só se pode dizê-la assim verdadeira na ficção. Mas a ficção tem o tempo dela e está-se bem lixando para o nosso horário - outra verdade, é que nem sempre se pode escrever ficção, e quem escreve não se pode perder em páginas com estados de alma e outras merdas do género.
Não fui eu quem disse, o coração, se pudesse pensar, pararia.
O melhor para quem escreve é não escrever e fechar a boca enquanto a ficção futura se pensa a si mesma dentro de si. É isso o que fazemos: ficamos quietos, fechamos a boca e esperamos. É isso o que fazemos quando sonhamos fazer alguma coisa de jeito enquanto o coração bate. E o tentamos. Se o conseguimos ou não, é outra conversa.

10 de abril de 2017

Parabéns Guerra & Paz!




Falhámos. Acertámos. Perdemos. Vencemos.

Faz hoje 11 anos, a 10 de Abril de 2006, nascia a Guerra e Paz editores. Com Sena e Sophia, com Agustina, Eça e Camilo. A história da Guerra e Paz editores é igual à história dos seres humanos que a fizeram e fazem. Cheia de muitas alegrias (ah, que bom!) e de algumas decepções (olha, já nos lixámos). Mais alegrias do que decepções, Deus seja louvado. Com o orgulho dos enormes livros-álbum de Agustina e Eduardo Prado Coelho e a humildade de colecções de saber e educação que não resistiram a mais de cinco títulos. Com a inovação dos livros com capa de madeira dedicados a Fernando Pessoa e a normalidade dos livros no tradicional formato 15x23, de ficção e não-ficção. Já tivemos o livro mais vendido do ano, Maddie: A Verdade da Mentira, mas também nos caiu em cima, mandada por Deus ou pelo Diabo, a insolvência de um distribuidor, terramoto a que, com uma angústia de Job, sobrevivemos.

Fazemos hoje 11 anos e isso foi o que foi.

Hoje, somos os «Clássicos da Guerra e Paz», 19 títulos indispensáveis publicados num ano e meio, de Eça a D. H. Lawrence, de Luís de Camões a Flaubert. Três novos títulos comemoram o nosso aniversário: El-Rei Junot, de Raul Brandão, o mais insólito romance português, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, aventureiro, viajante, humorista e criador do romance americano, e, por fim, uma monumental edição de Moby-Dick, o romance (será um romance?) de Herman Melville, numa admirável (desculpem a adjectivação, mas isto não vai lá com paninhos quentes) tradução de Maria João Madeira, que até nos baleeiros dos Açores se meteu para perceber o que estava a traduzir.

Foi o que foi, somos o que somos. Somos os «Livros Amarelos», essa estranha colecção que reúne num só livro dois textos de autores diferentes e se arrisca a justificar as razões da escolha, da aproximação ou da oposição, do amor ou do ódio que os junta. O sexto volume sai agora mesmo e junta dois Apocalipses, o de João de Patmos, que talvez seja São João, e o de D. H. Lawrence, que não era santo coisa nenhuma, que é o que diz Helder Guégués, o autor do texto justificativo.

Também somos, pequenissimamente, se é que o revisor me vai deixar passar este ridículo advérbio de modo, editores de poesia. Não vamos invocar o Camões e o Pessoa, ou o Claude Le Petit ou o Aretino que publicámos, mas sim a colecção contemporânea, que tem escrito à porta «reserva-se o direito de admissão», porta que só ainda se abriu a Eugénia de Vasconcellos e, agora, ao romeno Dinu Flamand, abençoado por António Lobo Antunes. Sombras e Falésias, o livro dele, tem esse «segredo da eternidade», a cuja religião logo nos convertemos.

Uma coisa liga o «foi o que foi» ao «somos o que somos»: o gosto do luxo. Talvez por o editor ter nascido pobre e aldeão, há nele o gosto do brilho, das capas cartonadas, das lombadas em pano, dos títulos em prata e ouro. Fraqueza que o seu designer gráfico explora desalmadamente. Sai agora, capa dura, lombada em pano azul, título em prata, uma edição especial do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, com prefácio inédito de Vasco Graça Moura, como inéditas são as 10 ilustrações que opintor Rogério Ribeiro fez para o seu amigo Saramago e que agora esplendem (sim, esplendem mesmo!) no miolo do livro.


É juntando o «foi o que foi» ao «somos o que somos», que hoje damos um passo para amanhã. Amanhã, esse futuro que já está à porta, também é dia de Guerra e Paz. Amanhã, a Guerra e Paz vai ser um bocadinho maior. Para comemorar os 11 anos, a Guerra e Paz entra no livro juvenil. Tínhamos tocado e fugido. Agora, é de vez. Uma colecção, «Os Livros Estão Loucos»,  vai dar a ler numa hora o que antes se lia num dia: romances clássicos adaptados para leitores dos 9 aos 14 anos. Os primeiros são Robinson CrusoéRomeu e Julieta e Alice no País das Maravilhas. Reescrevemos, como se João de Barros tivesse voltado à vida, estes livros de Defoe, Shakespeare e Carroll, e demos-lhe uma volta gráfica louca. Para os pais terem vontade de os roubar aos filhos. Mais, apareceu-nos um herói, o Santiago. O Santiago tem uma irmã mais velha perfeita que lhe dá cabo do juízo. O Santiago, que não é nenhum banana, vingou-se: escreveu um Caderno de Memórias de Difícil Acesso.  E proibiu toda a gente de o ler. Só este ano, vamos publicar dois volumes. O primeiro chama-se Não Te Atrevas a Abrir. Os pais do Santiago são a Raquel Palermo e o João Lacerda Matos. Temos a certeza de que vamos ter de falar muito deles. São livros para o futuro e o futuro vai de 19 de Abril a 20 de Maio deste ano. É muito rápido o futuro na Guerra e Paz editores.


Foi o que foi, somos o que somos e é isto que queremos sempre ser: Guerra e Paz editores, uma casa de edição generalista, que acolhe todas as obras, das mais sofisticadas e elitistas às mais simples e populares. Gostamos do toque de mão do papel, de um inusitado ou mesmo escandaloso grafismo, de uma cor que rompe a página, de pintar à mão as faces de um miolo. Gostamos que dos nossos livros saiam mundos e monstros, punhais e beijos. Gostamos de virar a página.

Manuel S. Fonseca

8 de abril de 2017

Não conheço outra coisa

Nem uma pessoa consegue vir ao de cima...

Não conheço outra coisa
e não é que eu seja assim tão agarrada à vida, apenas não conheço outra coisa. E a morte dura que se farta - tenho tempo, não me atrai.
Mas há dois ou três dias, estava na esplanada a almoçar, a Primavera em forte, azul de postal, vistas de fazer inveja à Região de Turismo, tinha no prato umas belas bochechas de porco em vinho tinto com o arroz armado em pudim flan e um penacho de tomilho a nascer-lhe no meio, ao lado as batatas fritas congeladas - ficaram os dois intocados, claro, o flan com penacho de capacete oitocentista e as batatas - e eu a pensar: raio, porque não fazem umas migas de espargos a acompanhar as bochechas e se deixam de arroz em forma de pudim? Com tanta boa batata, que é lá isto?! Arroz e batata? Verde nada, olha-me o enfardanço...
Enquanto isto, o azul a enfiar-se-me pelos olhos adentro e eu já meio afogada, dou por mim cheia de desapego ao postal, às bochechas, lixe-se o arroz em formas e as fábricas de congelados, uma paz de corpo a boiar e zás, uma estranha em mim não sente nem pensa, de alto a baixo percebe, podia morrer sem espernear e sem remorsos e o que não escrevi, tivesse escrito. É irrelevante.
Foi aqui que vim ao de cima. O sentimento de me deixar ir partiu.
É irrelevante.
Tenho andado com esta irrelevância nos bolsos para todo o lado desde esse dia. Deito-me e levanto-me com ela. Talvez o relevo se obtenha só por continuidade. Assim como um visto biológico, um carimbo, toma lá, tens relevo quando tens dependentes. Qualquer bicho mamífero e saudável cuida das crias. É-se relevante quando se é amado. Preciso. Ou então, um relevo civilizacional, sei lá, olha, aquele ali descobriu a cura de um terror qualquer.
Sem equívocos, continuo a sonhar com templos de kung-fu, penso no Cão, vejo-o na minha imaginação livre da idade e da doença, a correr, enfim, se é inútil, despropositado, infantil, eu penso. Continuo a pasmar-me com a grandíssima maturidade de toda a gente e eu nada. Contudo sei, qualquer coisa se afogou ali, no postal, ao almoço quando a Primavera deu em forte no azul.
O tempo passa. Martelo as teclas. Aceito que é irrelevante. Uma maneira simpática de deslocar o verbo ser da primeira pessoa.