31 de maio de 2017

Mark my words



mark my words
Talvez não fossem ainda onze da manhã. E já não podia mais quando fechei as janelas, baixei a persiana, e seja o que Deus quiser. Não durmo de dia. Era pequenina e não dormia de dia. Tenho uma incompatibilidade diurna com o sono - e com o ruído, para dizer a verdade. E assim mesmo deitei-me. 
Há coisas de que o corpo se recorda antes do pensamento. Foi há muitos anos. Tinha trabalhado todo o dia, treinado no intervalo do almoço e havia outro treino antes do jantar. Os limites também precisam de respeito. Penso que nesse dia não os respeitei. Depois desse último treino, cheguei ao carro, sentei-me e deixei cair a cabeça no volante. Sentia o corpo a tremer do esforço - nem o duche tinha aliviado o excesso de tensão. E desato a soluçar como um miúdo. Era só cansaço. Nessa altura, lá pelas as oito e meia da noite, nove, ali mesmo, lembrei-me: era o meu aniversário.
Deitei-me esta manhã. Não dormi, claro. E algo em mim recordou aquele ponto baixo. Acho que há uma idade em que podemos repetir os mesmos erros de sempre. Ou um tempo. E outra idade em que já não. Outro tempo. Levantei-me, almocei, enfiei-me no computador e segui pela tarde fora. Antes do jantar, fui fazer uma busca. Casas isoladas só para um, na Comporta, ali mesmo entre a terra e o mar dentro, nem um ai, não quero ouvir gente nem televisões nem carros, não quero saber de nada, nem ver vivalma. E encontro. A preços sauditas.
Não faz mal. Um dia faço um poema para esta casa isolada só para um que Tom Waits levantou para eu descansar na voz de Amy Lavere -  and we'll catch mocking birds.



28 de maio de 2017

Kill Bill state of mind

Quieto quase demais...

Kill Bill state of mind
Sempre li de tudo. Bem, agora menos. Mas quando era pequena lia o que viesse, fosse lá o que fosse a que jogasse a mão. Com a música a mesmíssima coisa. Tive sorte. Tanto com o esmero deseducativo quanto com a escola de gerações onde vivi ensanduichada, e mais ainda com a posição ocupada pela casa onde cresci no mapa familiar. E havia os extras, os figurantes: a amiga da prima da cunhada também aparecia com a sua voz distinta das outras, a blusa, o cabelo, as três mil informações novas nos gestos, nas feições, uma história inteira, assim, do nada. Adorava. Na verdade, era uma canibal. Acho que comia as pessoas dos pés à cabeça só por gostar de gente. Pena tinha eu de não enfiar em casa quem via da janela e com quem conversava antes de me levarem para dentro contra vontade. Tudo me fascinava. O mundo era um raio de um prodígio e as pessoas a maravilha das constelações. Perduravam-me depois de desaparecerem, de saírem porta fora ou seguirem pela rua. Estou mesmo convencida de que estão todas aqui, em looping, um segredo onde entro quando me dá na cabeça, ou quando me chamam, sei lá.
Sei é que havia umas pasmosas dissonâncias. Quem as trouxe? A amiga da prima da cunhada? Joe Dassin. Billy Joel. E o álbum duplo, a banda sonora de Jesus Christ Superstar, filme a que assisti enfiada na frisa com a minha tia para quem as idades indicativas da fita eram um despropósito subordinável ao seu desejo da minha companhia. Escusado será dizer que sabia os LP de cor. Todos. Ainda sei. Mesmo o confutatis maledictis que não tem nada a ver com isto e conseguiu vir cá parar. Tinha uns headphones enormes para o meu tamanho e proporcionais aos anos setenta. Sentava-me no chão, a olhar para A Persistência da Memória, de Salvador Dalí, que tinha comprado com a minha própria semanada. Um poster entre duas baguettes de plástico.
E isto porque ainda há pouco, logo a seguir ao jogo, estava a fazer um zapping indiferente, dei com Julie  & Julia  na cena da mudança de casa logo ao início do filme, e apeteceu-me perguntar, porque é que os apartamentos, mesmos os maus, ficam giros nos filmes? Nem era pela resposta. Essa eu sei. É o cabrão do cenógrafo. Era só pela conversa. Apetecia-me. E vai-me o pensamento e começa a cantar could we start again, please. Só esta linha. Uma vez. Duas. Escrevi um email. Continuou. Três. Apetecia-me. E começar do princípio também. E de repente, mais um bocadinho: I think you've made your point now, you've even gone a bit too far to get the message home.
A vida está sempre certa. Até irrita como gets the message home. Estou tão farta que só me resta mudar a começar de onde estou.

21 de maio de 2017

Uma palavra chega

No outro dia, e talvez por que eu desejasse tanto ter sido destemida e mais isto e aquilo num saco de impossíveis virtudes e concretizações para quem é apenas como é e nada mais, disseram-me uma das coisas mais bonitas e inesperadas que ouvi: destemido é escrever poesia.
Não precisa de ser verdade aquilo que nos dizem. Basta que acreditemos.

5 de maio de 2017

O outro salmo 63

O OUTRO SALMO 63
Escrevo porque existo aqui,
à sombra das tuas asas
que fazem sombra ao sol
e do azul cinza.
Escrevo porque posso
quando a luz não bate de frente
o riso dos seus dentes nos meus olhos -
e o gozo que ela deve ter de me reflectir,
minúscula, impotente, quando os dias
e a terra seca se colam um no outro e no outro
e as horas correm a soro lento já
que viver é só durar e ver o soro correr.
Se houver um prazer nisto de me quebrares,
podes tê-lo.
Mas hoje, não. Escrevo porque posso.
A verdade é que, se em vez de fraca
fosse forte, levava o mundo adiante
e só para o perder o levaria adiante -
o lugar do tesouro é neste X.
Deus, que há-de ser outro nome
para a majestade do caos e a majestade da ordem
e do majestoso potencial deles e nosso,
quis-me assim, e eu deixo-me ser.
Não há promessas por cumprir,
dívidas por saldar,
minúscula ou não, risível, que interessa? se além de mim,
há isto tudo, rosários inteiros a desfiarem
conta a conta as mil perfeições, desde os miúdos que vi no KFC
ainda nos pulmões da juventude,
o primeiro amor e o último,
a eternidade dos jacarandás em flor,
até onde nem o Hubble chegou e a alma alcança,
e mais os tremendos mistérios do tempo por abrir.
O que isto vai ser quando a física nos enrolar a cronologia
no seu dedo mindinho… Não o verei. Mas sei.
À sombra das tuas asas. Nem queria estar noutro lugar.

29 de abril de 2017

Thank God we can't tell the future. We'd never get out of bed.

Um dos grandes problemas da escrita, quero dizer, para quem escreve, é a puta da verdade. A verdade ela própria, sem factos alternativos nem pós coisa alguma, sequer pózinhos dourados. O problema da verdade na escrita, para quem escreve, é que só se pode dizê-la assim verdadeira na ficção. Mas a ficção tem o tempo dela e está-se bem lixando para o nosso horário - outra verdade, é que nem sempre se pode escrever ficção, e quem escreve não se pode perder em páginas com estados de alma e outras merdas do género.
Não fui eu quem disse, o coração, se pudesse pensar, pararia.
O melhor para quem escreve é não escrever e fechar a boca enquanto a ficção futura se pensa a si mesma dentro de si. É isso o que fazemos: ficamos quietos, fechamos a boca e esperamos. É isso o que fazemos quando sonhamos fazer alguma coisa de jeito enquanto o coração bate. E o tentamos. Se o conseguimos ou não, é outra conversa.

10 de abril de 2017

Parabéns Guerra & Paz!




Falhámos. Acertámos. Perdemos. Vencemos.

Faz hoje 11 anos, a 10 de Abril de 2006, nascia a Guerra e Paz editores. Com Sena e Sophia, com Agustina, Eça e Camilo. A história da Guerra e Paz editores é igual à história dos seres humanos que a fizeram e fazem. Cheia de muitas alegrias (ah, que bom!) e de algumas decepções (olha, já nos lixámos). Mais alegrias do que decepções, Deus seja louvado. Com o orgulho dos enormes livros-álbum de Agustina e Eduardo Prado Coelho e a humildade de colecções de saber e educação que não resistiram a mais de cinco títulos. Com a inovação dos livros com capa de madeira dedicados a Fernando Pessoa e a normalidade dos livros no tradicional formato 15x23, de ficção e não-ficção. Já tivemos o livro mais vendido do ano, Maddie: A Verdade da Mentira, mas também nos caiu em cima, mandada por Deus ou pelo Diabo, a insolvência de um distribuidor, terramoto a que, com uma angústia de Job, sobrevivemos.

Fazemos hoje 11 anos e isso foi o que foi.

Hoje, somos os «Clássicos da Guerra e Paz», 19 títulos indispensáveis publicados num ano e meio, de Eça a D. H. Lawrence, de Luís de Camões a Flaubert. Três novos títulos comemoram o nosso aniversário: El-Rei Junot, de Raul Brandão, o mais insólito romance português, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, aventureiro, viajante, humorista e criador do romance americano, e, por fim, uma monumental edição de Moby-Dick, o romance (será um romance?) de Herman Melville, numa admirável (desculpem a adjectivação, mas isto não vai lá com paninhos quentes) tradução de Maria João Madeira, que até nos baleeiros dos Açores se meteu para perceber o que estava a traduzir.

Foi o que foi, somos o que somos. Somos os «Livros Amarelos», essa estranha colecção que reúne num só livro dois textos de autores diferentes e se arrisca a justificar as razões da escolha, da aproximação ou da oposição, do amor ou do ódio que os junta. O sexto volume sai agora mesmo e junta dois Apocalipses, o de João de Patmos, que talvez seja São João, e o de D. H. Lawrence, que não era santo coisa nenhuma, que é o que diz Helder Guégués, o autor do texto justificativo.

Também somos, pequenissimamente, se é que o revisor me vai deixar passar este ridículo advérbio de modo, editores de poesia. Não vamos invocar o Camões e o Pessoa, ou o Claude Le Petit ou o Aretino que publicámos, mas sim a colecção contemporânea, que tem escrito à porta «reserva-se o direito de admissão», porta que só ainda se abriu a Eugénia de Vasconcellos e, agora, ao romeno Dinu Flamand, abençoado por António Lobo Antunes. Sombras e Falésias, o livro dele, tem esse «segredo da eternidade», a cuja religião logo nos convertemos.

Uma coisa liga o «foi o que foi» ao «somos o que somos»: o gosto do luxo. Talvez por o editor ter nascido pobre e aldeão, há nele o gosto do brilho, das capas cartonadas, das lombadas em pano, dos títulos em prata e ouro. Fraqueza que o seu designer gráfico explora desalmadamente. Sai agora, capa dura, lombada em pano azul, título em prata, uma edição especial do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, com prefácio inédito de Vasco Graça Moura, como inéditas são as 10 ilustrações que opintor Rogério Ribeiro fez para o seu amigo Saramago e que agora esplendem (sim, esplendem mesmo!) no miolo do livro.


É juntando o «foi o que foi» ao «somos o que somos», que hoje damos um passo para amanhã. Amanhã, esse futuro que já está à porta, também é dia de Guerra e Paz. Amanhã, a Guerra e Paz vai ser um bocadinho maior. Para comemorar os 11 anos, a Guerra e Paz entra no livro juvenil. Tínhamos tocado e fugido. Agora, é de vez. Uma colecção, «Os Livros Estão Loucos»,  vai dar a ler numa hora o que antes se lia num dia: romances clássicos adaptados para leitores dos 9 aos 14 anos. Os primeiros são Robinson CrusoéRomeu e Julieta e Alice no País das Maravilhas. Reescrevemos, como se João de Barros tivesse voltado à vida, estes livros de Defoe, Shakespeare e Carroll, e demos-lhe uma volta gráfica louca. Para os pais terem vontade de os roubar aos filhos. Mais, apareceu-nos um herói, o Santiago. O Santiago tem uma irmã mais velha perfeita que lhe dá cabo do juízo. O Santiago, que não é nenhum banana, vingou-se: escreveu um Caderno de Memórias de Difícil Acesso.  E proibiu toda a gente de o ler. Só este ano, vamos publicar dois volumes. O primeiro chama-se Não Te Atrevas a Abrir. Os pais do Santiago são a Raquel Palermo e o João Lacerda Matos. Temos a certeza de que vamos ter de falar muito deles. São livros para o futuro e o futuro vai de 19 de Abril a 20 de Maio deste ano. É muito rápido o futuro na Guerra e Paz editores.


Foi o que foi, somos o que somos e é isto que queremos sempre ser: Guerra e Paz editores, uma casa de edição generalista, que acolhe todas as obras, das mais sofisticadas e elitistas às mais simples e populares. Gostamos do toque de mão do papel, de um inusitado ou mesmo escandaloso grafismo, de uma cor que rompe a página, de pintar à mão as faces de um miolo. Gostamos que dos nossos livros saiam mundos e monstros, punhais e beijos. Gostamos de virar a página.

Manuel S. Fonseca

8 de abril de 2017

Não conheço outra coisa

Nem uma pessoa consegue vir ao de cima...

Não conheço outra coisa
e não é que eu seja assim tão agarrada à vida, apenas não conheço outra coisa. E a morte dura que se farta - tenho tempo, não me atrai.
Mas há dois ou três dias, estava na esplanada a almoçar, a Primavera em forte, azul de postal, vistas de fazer inveja à Região de Turismo, tinha no prato umas belas bochechas de porco em vinho tinto com o arroz armado em pudim flan e um penacho de tomilho a nascer-lhe no meio, ao lado as batatas fritas congeladas - ficaram os dois intocados, claro, o flan com penacho de capacete oitocentista e as batatas - e eu a pensar: raio, porque não fazem umas migas de espargos a acompanhar as bochechas e se deixam de arroz em forma de pudim? Com tanta boa batata, que é lá isto?! Arroz e batata? Verde nada, olha-me o enfardanço...
Enquanto isto, o azul a enfiar-se-me pelos olhos adentro e eu já meio afogada, dou por mim cheia de desapego ao postal, às bochechas, lixe-se o arroz em formas e as fábricas de congelados, uma paz de corpo a boiar e zás, uma estranha em mim não sente nem pensa, de alto a baixo percebe, podia morrer sem espernear e sem remorsos e o que não escrevi, tivesse escrito. É irrelevante.
Foi aqui que vim ao de cima. O sentimento de me deixar ir partiu.
É irrelevante.
Tenho andado com esta irrelevância nos bolsos para todo o lado desde esse dia. Deito-me e levanto-me com ela. Talvez o relevo se obtenha só por continuidade. Assim como um visto biológico, um carimbo, toma lá, tens relevo quando tens dependentes. Qualquer bicho mamífero e saudável cuida das crias. É-se relevante quando se é amado. Preciso. Ou então, um relevo civilizacional, sei lá, olha, aquele ali descobriu a cura de um terror qualquer.
Sem equívocos, continuo a sonhar com templos de kung-fu, penso no Cão, vejo-o na minha imaginação livre da idade e da doença, a correr, enfim, se é inútil, despropositado, infantil, eu penso. Continuo a pasmar-me com a grandíssima maturidade de toda a gente e eu nada. Contudo sei, qualquer coisa se afogou ali, no postal, ao almoço quando a Primavera deu em forte no azul.
O tempo passa. Martelo as teclas. Aceito que é irrelevante. Uma maneira simpática de deslocar o verbo ser da primeira pessoa.

1 de abril de 2017

Poetas e gente dessa




Why, oh why, didn't I take the blue pill?

Não conheço Pedro Mexia. Não conheço um único poeta vivo. Dos meus poetas mortos, também não conheci um que fosse - chateou-me a sério, fiquei triste, por não ter conhecido Ramos Rosa, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder... Não conheço Lobo Antunes, e só conversei com Agustina num longo sonho de fazer inveja ao Matrix depois do comprimido tomado - nem o cadeirão de orelhas assente em efémero branco me faltou ao sonho: tinha eu dezanove anos e foi tão real aquela ficção que até hoje a tomo por verdadeira e juro por ela. Também sonhei um poema com uma enorme pintura de Paula Rego, e escrevi-o, detalhei bem aquela bonecada toda, acho que lhe chamei O Guardador de Patos e foi um momento de absoluta lucidez - horrível como só a verdade sabe ser.
No início da minha adolescência, a Biblioteca Municipal e a da Gulbenkian funcionavam num claustro que também cumpria funções de Museu. Ia no Verão. À torreira do calor, quando o sol a pique lambe até o ângulo recto das casas nos passeios e não há a sombra de uma sombra. Nem todos os livros se podiam levar para casa e uma pessoa tinha de ler de empreitada e copiar os poemas ainda com a letra redondinha da infância que não se despega nunca, nem quando a caligrafia se faz de electrocardiograma e já somos crescidos. Por mim, comprava aqueles livros e mais sei lá quantos, de certezinha todos, um exemplar de cada, de tudo quanto houvesse sobre a terra, para fazer uma habitável biblioteca infinita onde casa e rua e praia fossem o mesmo caminho de estantes, a pé ou de bicicleta. Eu sabia lá que Eugénio de Andrade estava no Porto? Sabia era que os meus catorze anos queriam vê-lo de carne e osso como os meus quinze queriam conversar com David Mourão Ferreira que descobri por acidente num livro de António Ferro, e os meus dezoito todos os dias juravam a si mesmos, os mentirosos, que amanhã sem falta iriam ter com Yvette Centeno, de Musaeum Hermeticum e cinco mil dúvidas debaixo do braço.
E havia a questão dos maridos. Os meus maridos. Os mortos eram uma poligamia às claras encabeçada por Eça. O pior foi o dia em que vi, não um, mas dois dos meus maridos na Feira do Livro, já em Lisboa. Vivíssimos. A dar à caneta. Uma roda de gente, mais que à volta da banca do peixe, na praça, ao fim-de-semana. Azar do caraças, Vasco Graça Moura estava de um lado e Lobo Antunes do outro e eu, de adultério e poligamia ao léu, com medo de ser apanhada no meio da sanduíche, ou desgraça maior ainda, de lhes falar e ficar com cara de dois de paus, como está? é um gosto conhecê-lo, olhe, li tudo o que apanhei daquilo que escreveu,  o tempo parece que está a querer mudar, não é? zás, fugi logo - sempre fui especialista em fugir daquilo que desejo. E olhar sem tocar também é outra grande especialidade minha. Aliás, foi assim que percebi o gótico no primeiro ano da faculdade. Punha-me a olhar, de olhos postos lá em cima, o edifício de gaveto onde ficava o velho Expresso, e onde passava todos os dias, e com o mesmíssimo olhar, a fila das Colóquio de Letras, as mil horas na Buchholz. Território sagrado, divinas alturas, que gente seria aquela? Eu aos dezassete anos só queria aprender a ser isso, assim por osmose ou milagre, tanto fazia.
Não conheço Pedro Mexia, nem poetas nem escritores, nem críticos literários, nem pintores. Não conheço gente dessa. Quero dizer, conheço. Bem. Até o avesso lhes conheço, virei-os e revirei-os letra a letra. Também gosto de me lembrar deles. Também gosto de lhes agradecer.

31 de março de 2017

Rosa - em alemão pela Leipziger Literatur Verlag

 A Leipziger Literatur Verlag acaba de publicar a colectânea de contos Do Branco ao Negro. Agora em alemão, Von Weiß bis Schwarz, e a Rosa que escrevi.






24 de março de 2017

O terrorismo explicado aos adultos


Ó.... a nossa capital!
O colégio onde os meus sobrinhos estudam diz que é internacional e o ensino é em língua inglesa - com português e mandarim uma ou duas vezes por semana, não sei exactamente. Porém, de vez em quando, lá em casa da minha irmã ou em conversa comigo ou com a avó, saltam frases mais inglesas do que internacionais e de arrepiar as nossas ricas, republicanas e portuguesas orelhas, assim tipo: a nossa rainha faz hoje anos ou Londres, a nossa capital, é linda!
Adiante. Deve ter havido conversa no colégio sobre o atentado na ponte de Westminster e no Parlamento porque em casa houve um total blackout às notícias com desenhos animados em looping - os meus sobrinhos são ainda muito pequenos, um tem cinco anos, o outro oito.
Quando chegaram das aulas, e por isso é que digo, conversa houve e de certeza, o meu sobrinho mais velho para mim:
- Sabe o que são terroristas?
- O que são?
- São pessoas más que pensam que são boas que matam pessoas boas porque pensam que elas são más!
E o mais novo que, como direi, conjuga os verbos em português com desvio à correcção, acrescentou convictamente:
- E os terroristas atropelem pessoas nas pontes e ataquem pessoas por terra, mar e ar!

22 de março de 2017

Tantas saudades meu Lindo Cão


Quem teve tanta sorte com o seu Lindo Cão, meu querido Cão? Fui eu...



e eu que sou católica e praticante, e praticante e praticante, de tanto não acreditar na ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há-de vir, espero, mal morra, ver no mundo que há-de vir, porque de tanto praticar ai dele se não vier, espero ver o meu Cão a correr para mim, aquelas corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento, e eu ai que lindas orelhas de Peter Pan seu maluquete, e ele um salto daqueles de molas nas patas... Não há nada mais feliz do que um cão novo: todos os dias parece que descobriu o mundo na ponta do nariz, a farejar.
Tenho tantas saudades do Cão... Não queria que ele estivesse vivo porque gastou a vida todinha e já não podia mais, nem estar de pé, nem sentado, nem dormir, nem estar acordado, nem o coração já sabia bater e se ele estivesse vivo levava-o a morrer outra vez que gostava que fizessem o mesmo comigo.
O Cão, ó raça de Cão mais que independente! Qual colo nem meio colo, deixo que me faças umas festinhas e já está, o que eu quero é passear, andar a direito sempre frente, ladrar aos cavalos, em pé, que é lá isso de ter esse tamanho todo, é pateta, olhe que chego bem para si, ouviu?!
O Cão mais que independente passou um dia inteiro, o penúltimo dia, numa longa despedida, deitado ao meu colo, a cabeça pousada, sem força nem peso, encostada no meu ombro e assim toda a manhã do dia a seguir, mesmo antes de o levar para morrer. Acho que chorámos os dois o tempo todo  - mas deve ser mentira porque o Cão era um valente e eu nem por isso. E fomos pelo caminho mais comprido, a fazer render o céu azul, o mar azul, a volta que antes fazíamos de carro, só os dois, a cheirar as laranjeiras com maresia. A cabeça sempre no meu ombro. Nem um olhar para tanto azul, nem maresia nem laranjeiras, nada, só um cão velhinho, leve, embrulhado numa mantinha de velho e lá fui levá-lo para morrer antes de almoço.
Assinei um papel. O veterinário deu-lhe a injecção. Morreu ao meu colo. Não estremeceu. Não se sentiu. Só o coração de gasto é que parou. Não queria que estivesse vivo: é cruel a obrigação de sofrer só para durar.
Mas tenho tantas saudades do Cão... E já que não existem milagres, gostava muito que existisse pelo menos a vida no mundo que há-de vir. Só para ver o Cão a correr para mim aqueles corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento...

11 de março de 2017

Imitação dos Livros

IMITAÇÃO DOS LIVROS
E a apresentação do livro
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente 
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou 
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir...
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto 
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim. 
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa -
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho, 
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz, 
e não preciso de me ver reflectida. 
Sei que le coeur n'a qu'une seule bouche e 
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,  
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito 
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim 
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível. 
É o esplendor da decadência de Blanche quando 
a morte assina com a impressão digital do desespero 
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n'a qu'une seule bouche.

5 de março de 2017

Está tudo bem

ESTÁ TUDO BEM
então, esta mulher alimentou o homem
de cada vez que ele passou à sua porta.
E porque ele ia e vinha, mandou fazer em sua casa
um quarto onde descansasse, e lhe o deu,
cama, mesa, cadeira e menorá. Desconhecia-o, mas
sentia o poder que só o sagrado tem, e a presença de
Deus reflectia-se claríssima e forte neste homem.
Jamais a mulher lhe pedira o que fosse, nem quando ele ofereceu.
Até o profeta estranhou tal contenção. Nada lhe pediu, esta mulher:
abrira-lhe a sua casa, alimentara-o, dera-lhe um quarto onde
descansasse, cama, mesa, cadeira e menorá.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé:
viver com a certeza de que a vida é a vida como ela deve ser,
nada do que é nosso nos falta, estamos
na linhas das páginas do livro da vida escritas mão na mão
com a mão Divina, assinadas em baixo por nós.
Assim mesmo, Eliseu, o profeta, quis retribuir, e
procurou o que ela não tinha nem pedia. E disse-lhe:
dentro de um ano terás um filho no teu colo.
Ela não quis levar a esperança tão alto e disse-lhe, não.
Mas o poder de Deus era forte neste homem. Eliseu
quis que ela visse a sua esperança. E ela teve um filho do seu marido.
Ele cresceu. E um dia, do nada, uma dor.
E morreu este filho nunca pedido,
aceite em felicidade e tão amado.
Ao corpo do filho, mandou que o deitassem na cama
onde em sua casa dormia o profeta – não fora afinal
o seu poder o útero da sua criação?
E cavalgou sem parar até ao Monte Carmelo. Eliseu viu-a
a grande distância, quando era apenas um vulto enrolado em pó,
e mandou saber o que se passava.
E a resposta veio. Está tudo bem. Estamos todos bem.
Insistiu o servo.
Está tudo bem. Estamos todos bem - sem abrandar o galope.
Chegou a Eliseu. Deste-me um filho, eu não te o pedi.
Agora ele está morto e essa não foi a tua dádiva. Leva o meu bordão
e que ele toque na cabeça do teu filho e ele viverá.
Não saio daqui sem que venhas tirar o meu filho à morte.
E lá foi o servo com o bordão. Nada aconteceu.
O filho morto na cama do profeta.
Vai então Eliseu com ela. Pelo caminho perguntam, o que se passa?
Está tudo bem. Estamos todos bem.
Eliseu deitou-se sobre a morte do rapaz.
Olhos sobre os olhos. Boca sobre a boca. Palmas sobre as palmas.
Sete vezes se deitou
e sete vezes respirou sobre ela,
e o seu sopro devolveu o filho da sunamita à vida.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé.
O que é nosso ninguém tira: está tudo bem.

10 de fevereiro de 2017

It’s hard out here for a bitch




isto - it’s hard out here
Hoje tive um dia lixado. Estava sentada num banco, na Bertrand, ao lado da literatura infantil, e tinha a cabeça em automático a cantar em repeat o refrão it’s hard out here for a bitch. Na verdade, foi um dia de merda - imagino que quem leia aquilo que escrevo, pense: esta tipa diz montes de palavrões. Escrevo. Escrevo tudo. A poesia não é exclusiva é inclusiva. A ficção. Escrever, escrevo. Dizer, não digo. Nem digo tipa quanto mais gajo. Gajo, então, até me arrepia os tímpanos! No entanto, hoje disse merda, tal não foi...
Vejo agora que estou a mentir - não é por mal.
O Cão morreu dia dois de Dezembro e eu até acho que foi uma última bondade que me quis fazer, esta de passar o dia do meu aniversário comigo e adiar morrer só por mais um bocadinho. Logo de seguida fui para Belgrado e quando regressei, pouco depois, lembro-me de ter pensado: tenho de conversar sobre isto, arrumar isto ou isto devora-me. Mais. Cheguei a dizer: preciso de falar sobre isto. Mas não falei sobre isto. Achei uma mariquice. A certos pensamentos, sentimentos, dúvidas, não sei se dar-lhes voz não é soltar monstros a que depois já não conseguimos pôr a trela. Tenho este preconceito de que a tristeza é um vício em que a gente se põe. E uma falta de disciplina. E de amor pelas pessoas a quem amamos e que nos amam, e por isso a quem devemos o melhor, não o pior de nós.
E isto, que é um isto generalizado, onde cabe Trump e o tempo do homem medíocre como Agustina nos contou tão bem na sua Quinta Essência, e onde cabem os intelectuais e os dirigentes que temos porque os merecemos, e o amargo do doce pão nosso de cada dia que amarga porque o fizemos amargo, a mim, isto não me larga e, caneco, eu não sou disto!

31 de janeiro de 2017

Mistérios de Inglaterra

O Big Ben! Maravilha das maravilhas... mas, ó, está em obras, e se não estivesse, também não podia ter entrado que ainda não tem 11 ou 12, ou lá o raio da idade que precisa para subir aquela infinidade de degraus que vimos até à exaustão no youtube... Mas o lado de fora também é bom, garantiu-me. E o sino toca bem.

MISTÉRIOS DE INGLATERRA
Antes, é preciso dizer que o meu rico sobrinho mais novo que já tem cinco, e não é bebé, nem um robot, é preciso esclarecer, é um menino, não tem ainda o ouvido ideal. Pronto, foi operado aos ouvidos e mais não sei quê. Enfim, coisas pequenas para quem é grande em, vá, fonética e semântica. Adiante.
Ontem, quando a mãe o foi buscar ao colégio, perguntou, como costuma perguntar, sobre o dia, as aulas e os trabalhos de casa. Contou que tinha tido Literacy, é natural, está no primeiro ano, mas que tinha gostado mesmo da aula de Mystery.
E a minha irmã:
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
Mystery é ele ser um aluno do caraças em Literacy...

18 de janeiro de 2017

Só o mundo

SÓ O MUNDO
E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse 
de novo, e nasce! quando aquele ovo 
de talento que se vê, cheira, sente, 
eclode e as estrelas dizem sim. 
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos, 
chama-se infância. 
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente, 
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações - 
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.

15 de janeiro de 2017

Expresso

Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu

A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO


14 de janeiro de 2017

Secreto Investimento

SECRETO INVESTIMENTO
Não estou à mesa.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados -
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha...
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.
Pela parte que me toca, e há-de ser uma proverbial
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro -
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.
Este caldo navegável
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.

7 de janeiro de 2017

Senhor padre, why you mad? Fix ya face...

Fujam!
Estava em Belgrado e era a véspera de Natal. Para mim que sou católica e vivo pelo calendário gregoriano era. Para os belgradinos ortodoxos, não, claro.
O certo é que nessa noite fomos assistir ao Requiem de Brahams - diabo, é uma coisa um bocadinho torcida uma missa pro defunctis na noite de vinte e quatro de Dezembro, por muito que esta peça seja atípica e mais para os vivos do que para os mortos, porém, a verdade é tínhamos acabado de chegar de um restaurante de caça todo ele paredes fora cheio de uma tal catrefada de cabeças enfeitadas com cornos que quando pedi a password do WiFi e o empregado disse Bambi, comecei logo a rir. O que nasce torto... Era uma dessas noites. Nós é que ainda não sabíamos.
Depois do concerto, e por ser Natal e eu ser católica, as minhas amigas marcharam comigo para a Missa do Galo celebrada em sérvio e à meia-noite.
Terceiro banco à esquerda ou o pecado do riso...
Quando chegámos, uns bons vinte minutos antes da hora, estavam já vários bancos cheios. Pelos altifalantes, não muito alto, soft pop  do tipo natalino deprimente, Mariah Carey jurava all i want for Christmas is you - e a minha estranheza em processo de adaptação. Sentámo-nos. A filha de uma das minhas amigas, a da amiga anti-clerical, à minha direita. O padre, ainda por paramentar, andava num desatino de boa dona de casa, acende aqui uma vela, compõe ali uma fita, que raio, e toda a gente com uma seriedade purista de minoria religiosa tal que nos olhinhos até a inquisição se cheirava.
Do nada, a filha da minha amiga, educada com os valores da sua rica mãe e portanto catequese igual a zero, vira-se para mim, com um ar selecto, entre o aflito e o assertivo, e diz baixinho: eu não quero comer nem beber nada aqui.
Começo a rir e não consigo parar - caneco, há que convir, a frase é do melhor... Não estava a rir alto. Estava a rir. Quem é que nunca teve um ataque de riso? No banco atrás, murmúrios de conspiração. E havia pop nos altifalantes, pelo amor de São Kafka... E o padre, zás, a caminho de nós e vá de debitar em sérvio com a mão no meu ombro. A minha amiga traduziu-me uma versão censurada do que ele disse. Eu pedi-lhe que lhe transmitisse a minha resposta sem censura - aposto que nenhum de nós soube, nem o padre nem eu, o que o outro efectivamente quis dizer. E a seguir, debaixo do olhar de reprovação de uma inteira comunidade, saímos as quatro antes que começasse a cheirar a lenha a queimar. Em casa, meia hora depois, ainda me ria - amém.
Não foi Deus quem me disse, Ele não fala comigo, e mesmo assim tenho a certeza: é preferível nascer entre o riso do que entre lágrimas.

24 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado iii - Natal de 2016

PONTO DE INTERROGAÇÃO
Estou à mesa a pensar na inutilidade das palavras diante
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos 
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve, 
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana, 
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron, 
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps, 
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.