A Leipziger Literatur Verlag acaba de publicar a colectânea de contos Do Branco ao Negro. Agora em alemão, Von Weiß bis Schwarz, e a Rosa que escrevi.
31 de março de 2017
24 de março de 2017
O terrorismo explicado aos adultos
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| Ó.... a nossa capital! |
O colégio onde os meus sobrinhos estudam diz que é internacional e o ensino é em língua inglesa - com português e mandarim uma ou duas vezes por semana, não sei exactamente. Porém, de vez em quando, lá em casa da minha irmã ou em conversa comigo ou com a avó, saltam frases mais inglesas do que internacionais e de arrepiar as nossas ricas, republicanas e portuguesas orelhas, assim tipo: a nossa rainha faz hoje anos ou Londres, a nossa capital, é linda!
Adiante. Deve ter havido conversa no colégio sobre o atentado na ponte de Westminster e no Parlamento porque em casa houve um total blackout às notícias com desenhos animados em looping - os meus sobrinhos são ainda muito pequenos, um tem cinco anos, o outro oito.
Quando chegaram das aulas, e por isso é que digo, conversa houve e de certeza, o meu sobrinho mais velho para mim:
- Sabe o que são terroristas?
- O que são?
- São pessoas más que pensam que são boas que matam pessoas boas porque pensam que elas são más!
E o mais novo que, como direi, conjuga os verbos em português com desvio à correcção, acrescentou convictamente:
- E os terroristas atropelem pessoas nas pontes e ataquem pessoas por terra, mar e ar!
- Sabe o que são terroristas?
- O que são?
- São pessoas más que pensam que são boas que matam pessoas boas porque pensam que elas são más!
E o mais novo que, como direi, conjuga os verbos em português com desvio à correcção, acrescentou convictamente:
- E os terroristas atropelem pessoas nas pontes e ataquem pessoas por terra, mar e ar!
22 de março de 2017
Tantas saudades meu Lindo Cão
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| Quem teve tanta sorte com o seu Lindo Cão, meu querido Cão? Fui eu... |
e eu que sou católica e praticante, e praticante e praticante, de tanto não acreditar na ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há-de vir, espero, mal morra, ver no mundo que há-de vir, porque de tanto praticar ai dele se não vier, espero ver o meu Cão a correr para mim, aquelas corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento, e eu ai que lindas orelhas de Peter Pan seu maluquete, e ele um salto daqueles de molas nas patas... Não há nada mais feliz do que um cão novo: todos os dias parece que descobriu o mundo na ponta do nariz, a farejar.
Tenho tantas saudades do Cão... Não queria que ele estivesse vivo porque gastou a vida todinha e já não podia mais, nem estar de pé, nem sentado, nem dormir, nem estar acordado, nem o coração já sabia bater e se ele estivesse vivo levava-o a morrer outra vez que gostava que fizessem o mesmo comigo.
O Cão, ó raça de Cão mais que independente! Qual colo nem meio colo, deixo que me faças umas festinhas e já está, o que eu quero é passear, andar a direito sempre frente, ladrar aos cavalos, em pé, que é lá isso de ter esse tamanho todo, é pateta, olhe que chego bem para si, ouviu?!
O Cão mais que independente passou um dia inteiro, o penúltimo dia, numa longa despedida, deitado ao meu colo, a cabeça pousada, sem força nem peso, encostada no meu ombro e assim toda a manhã do dia a seguir, mesmo antes de o levar para morrer. Acho que chorámos os dois o tempo todo - mas deve ser mentira porque o Cão era um valente e eu nem por isso. E fomos pelo caminho mais comprido, a fazer render o céu azul, o mar azul, a volta que antes fazíamos de carro, só os dois, a cheirar as laranjeiras com maresia. A cabeça sempre no meu ombro. Nem um olhar para tanto azul, nem maresia nem laranjeiras, nada, só um cão velhinho, leve, embrulhado numa mantinha de velho e lá fui levá-lo para morrer antes de almoço.
Assinei um papel. O veterinário deu-lhe a injecção. Morreu ao meu colo. Não estremeceu. Não se sentiu. Só o coração de gasto é que parou. Não queria que estivesse vivo: é cruel a obrigação de sofrer só para durar.
Mas tenho tantas saudades do Cão... E já que não existem milagres, gostava muito que existisse pelo menos a vida no mundo que há-de vir. Só para ver o Cão a correr para mim aqueles corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento...
11 de março de 2017
Imitação dos Livros
IMITAÇÃO DOS LIVROS
E a apresentação do livro
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir...
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim.
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa -
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho,
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz,
e não preciso de me ver reflectida.
Sei que le coeur n'a qu'une seule bouche e
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível.
É o esplendor da decadência de Blanche quando
a morte assina com a impressão digital do desespero
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n'a qu'une seule bouche.
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir...
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim.
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa -
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho,
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz,
e não preciso de me ver reflectida.
Sei que le coeur n'a qu'une seule bouche e
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível.
É o esplendor da decadência de Blanche quando
a morte assina com a impressão digital do desespero
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n'a qu'une seule bouche.
5 de março de 2017
Está tudo bem
ESTÁ TUDO BEM
então, esta mulher alimentou o homem
de cada vez que ele passou à sua porta.
E porque ele ia e vinha, mandou fazer em sua casa
um quarto onde descansasse, e lhe o deu,
cama, mesa, cadeira e menorá. Desconhecia-o, mas
sentia o poder que só o sagrado tem, e a presença de
Deus reflectia-se claríssima e forte neste homem.
Jamais a mulher lhe pedira o que fosse, nem quando ele ofereceu.
Até o profeta estranhou tal contenção. Nada lhe pediu, esta mulher:
abrira-lhe a sua casa, alimentara-o, dera-lhe um quarto onde
descansasse, cama, mesa, cadeira e menorá.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé:
viver com a certeza de que a vida é a vida como ela deve ser,
nada do que é nosso nos falta, estamos
na linhas das páginas do livro da vida escritas mão na mão
com a mão Divina, assinadas em baixo por nós.
Assim mesmo, Eliseu, o profeta, quis retribuir, e
procurou o que ela não tinha nem pedia. E disse-lhe:
dentro de um ano terás um filho no teu colo.
Ela não quis levar a esperança tão alto e disse-lhe, não.
Mas o poder de Deus era forte neste homem. Eliseu
quis que ela visse a sua esperança. E ela teve um filho do seu marido.
Ele cresceu. E um dia, do nada, uma dor.
E morreu este filho nunca pedido,
aceite em felicidade e tão amado.
Ao corpo do filho, mandou que o deitassem na cama
onde em sua casa dormia o profeta – não fora afinal
o seu poder o útero da sua criação?
E cavalgou sem parar até ao Monte Carmelo. Eliseu viu-a
a grande distância, quando era apenas um vulto enrolado em pó,
e mandou saber o que se passava.
E a resposta veio. Está tudo bem. Estamos todos bem.
Insistiu o servo.
Está tudo bem. Estamos todos bem - sem abrandar o galope.
Chegou a Eliseu. Deste-me um filho, eu não te o pedi.
Agora ele está morto e essa não foi a tua dádiva. Leva o meu bordão
e que ele toque na cabeça do teu filho e ele viverá.
Não saio daqui sem que venhas tirar o meu filho à morte.
E lá foi o servo com o bordão. Nada aconteceu.
O filho morto na cama do profeta.
Vai então Eliseu com ela. Pelo caminho perguntam, o que se passa?
Está tudo bem. Estamos todos bem.
Eliseu deitou-se sobre a morte do rapaz.
Olhos sobre os olhos. Boca sobre a boca. Palmas sobre as palmas.
Sete vezes se deitou
e sete vezes respirou sobre ela,
e o seu sopro devolveu o filho da sunamita à vida.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé.
O que é nosso ninguém tira: está tudo bem.
de cada vez que ele passou à sua porta.
E porque ele ia e vinha, mandou fazer em sua casa
um quarto onde descansasse, e lhe o deu,
cama, mesa, cadeira e menorá. Desconhecia-o, mas
sentia o poder que só o sagrado tem, e a presença de
Deus reflectia-se claríssima e forte neste homem.
Jamais a mulher lhe pedira o que fosse, nem quando ele ofereceu.
Até o profeta estranhou tal contenção. Nada lhe pediu, esta mulher:
abrira-lhe a sua casa, alimentara-o, dera-lhe um quarto onde
descansasse, cama, mesa, cadeira e menorá.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé:
viver com a certeza de que a vida é a vida como ela deve ser,
nada do que é nosso nos falta, estamos
na linhas das páginas do livro da vida escritas mão na mão
com a mão Divina, assinadas em baixo por nós.
Assim mesmo, Eliseu, o profeta, quis retribuir, e
procurou o que ela não tinha nem pedia. E disse-lhe:
dentro de um ano terás um filho no teu colo.
Ela não quis levar a esperança tão alto e disse-lhe, não.
Mas o poder de Deus era forte neste homem. Eliseu
quis que ela visse a sua esperança. E ela teve um filho do seu marido.
Ele cresceu. E um dia, do nada, uma dor.
E morreu este filho nunca pedido,
aceite em felicidade e tão amado.
Ao corpo do filho, mandou que o deitassem na cama
onde em sua casa dormia o profeta – não fora afinal
o seu poder o útero da sua criação?
E cavalgou sem parar até ao Monte Carmelo. Eliseu viu-a
a grande distância, quando era apenas um vulto enrolado em pó,
e mandou saber o que se passava.
E a resposta veio. Está tudo bem. Estamos todos bem.
Insistiu o servo.
Está tudo bem. Estamos todos bem - sem abrandar o galope.
Chegou a Eliseu. Deste-me um filho, eu não te o pedi.
Agora ele está morto e essa não foi a tua dádiva. Leva o meu bordão
e que ele toque na cabeça do teu filho e ele viverá.
Não saio daqui sem que venhas tirar o meu filho à morte.
E lá foi o servo com o bordão. Nada aconteceu.
O filho morto na cama do profeta.
Vai então Eliseu com ela. Pelo caminho perguntam, o que se passa?
Está tudo bem. Estamos todos bem.
Eliseu deitou-se sobre a morte do rapaz.
Olhos sobre os olhos. Boca sobre a boca. Palmas sobre as palmas.
Sete vezes se deitou
e sete vezes respirou sobre ela,
e o seu sopro devolveu o filho da sunamita à vida.
E aos meus olhos, eu que não sou profeta, isto é a fé.
O que é nosso ninguém tira: está tudo bem.
10 de fevereiro de 2017
It’s hard out here for a bitch
isto - it’s hard out here
Hoje tive um dia lixado. Estava sentada num banco, na Bertrand, ao lado da literatura infantil, e tinha a cabeça em automático a cantar em repeat o refrão it’s hard out here for a bitch. Na verdade, foi um dia de merda - imagino que quem leia aquilo que escrevo, pense: esta tipa diz montes de palavrões. Escrevo. Escrevo tudo. A poesia não é exclusiva é inclusiva. A ficção. Escrever, escrevo. Dizer, não digo. Nem digo tipa quanto mais gajo. Gajo, então, até me arrepia os tímpanos! No entanto, hoje disse merda, tal não foi...
Vejo agora que estou a mentir - não é por mal.
O Cão morreu dia dois de Dezembro e eu até acho que foi uma última bondade que me quis fazer, esta de passar o dia do meu aniversário comigo e adiar morrer só por mais um bocadinho. Logo de seguida fui para Belgrado e quando regressei, pouco depois, lembro-me de ter pensado: tenho de conversar sobre isto, arrumar isto ou isto devora-me. Mais. Cheguei a dizer: preciso de falar sobre isto. Mas não falei sobre isto. Achei uma mariquice. A certos pensamentos, sentimentos, dúvidas, não sei se dar-lhes voz não é soltar monstros a que depois já não conseguimos pôr a trela. Tenho este preconceito de que a tristeza é um vício em que a gente se põe. E uma falta de disciplina. E de amor pelas pessoas a quem amamos e que nos amam, e por isso a quem devemos o melhor, não o pior de nós.
E isto, que é um isto generalizado, onde cabe Trump e o tempo do homem medíocre como Agustina nos contou tão bem na sua Quinta Essência, e onde cabem os intelectuais e os dirigentes que temos porque os merecemos, e o amargo do doce pão nosso de cada dia que amarga porque o fizemos amargo, a mim, isto não me larga e, caneco, eu não sou disto!
31 de janeiro de 2017
Mistérios de Inglaterra
MISTÉRIOS DE INGLATERRA
Antes, é preciso dizer que o meu rico sobrinho mais novo que já tem cinco, e não é bebé, nem um robot, é preciso esclarecer, é um menino, não tem ainda o ouvido ideal. Pronto, foi operado aos ouvidos e mais não sei quê. Enfim, coisas pequenas para quem é grande em, vá, fonética e semântica. Adiante.
Ontem, quando a mãe o foi buscar ao colégio, perguntou, como costuma perguntar, sobre o dia, as aulas e os trabalhos de casa. Contou que tinha tido Literacy, é natural, está no primeiro ano, mas que tinha gostado mesmo da aula de Mystery.
E a minha irmã:
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
Mystery é ele ser um aluno do caraças em Literacy...
18 de janeiro de 2017
Só o mundo
SÓ O MUNDO
E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse
de novo, e nasce! quando aquele ovo
de talento que se vê, cheira, sente,
eclode e as estrelas dizem sim.
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos,
chama-se infância.
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente,
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações -
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse
de novo, e nasce! quando aquele ovo
de talento que se vê, cheira, sente,
eclode e as estrelas dizem sim.
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos,
chama-se infância.
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente,
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações -
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.
15 de janeiro de 2017
Expresso
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| Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu |
A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.
Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.
in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO
14 de janeiro de 2017
Secreto Investimento
SECRETO INVESTIMENTO
Não estou à mesa.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados -
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha...
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados -
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha...
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.
Pela parte que me toca, e há-de ser uma proverbial
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro -
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro -
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.
Este caldo navegável
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.
7 de janeiro de 2017
Senhor padre, why you mad? Fix ya face...

- Fujam!
Estava em Belgrado e era a véspera de Natal. Para mim que sou católica e vivo pelo calendário gregoriano era. Para os belgradinos ortodoxos, não, claro.
O certo é que nessa noite fomos assistir ao Requiem de Brahams - diabo, é uma coisa um bocadinho torcida uma missa pro defunctis na noite de vinte e quatro de Dezembro, por muito que esta peça seja atípica e mais para os vivos do que para os mortos, porém, a verdade é tínhamos acabado de chegar de um restaurante de caça todo ele paredes fora cheio de uma tal catrefada de cabeças enfeitadas com cornos que quando pedi a password do WiFi e o empregado disse Bambi, comecei logo a rir. O que nasce torto... Era uma dessas noites. Nós é que ainda não sabíamos.
Depois do concerto, e por ser Natal e eu ser católica, as minhas amigas marcharam comigo para a Missa do Galo celebrada em sérvio e à meia-noite.

- Terceiro banco à esquerda ou o pecado do riso...
Quando chegámos, uns bons vinte minutos antes da hora, estavam já vários bancos cheios. Pelos altifalantes, não muito alto, soft pop do tipo natalino deprimente, Mariah Carey jurava all i want for Christmas is you - e a minha estranheza em processo de adaptação. Sentámo-nos. A filha de uma das minhas amigas, a da amiga anti-clerical, à minha direita. O padre, ainda por paramentar, andava num desatino de boa dona de casa, acende aqui uma vela, compõe ali uma fita, que raio, e toda a gente com uma seriedade purista de minoria religiosa tal que nos olhinhos até a inquisição se cheirava.
Do nada, a filha da minha amiga, educada com os valores da sua rica mãe e portanto catequese igual a zero, vira-se para mim, com um ar selecto, entre o aflito e o assertivo, e diz baixinho: eu não quero comer nem beber nada aqui.
Começo a rir e não consigo parar - caneco, há que convir, a frase é do melhor... Não estava a rir alto. Estava a rir. Quem é que nunca teve um ataque de riso? No banco atrás, murmúrios de conspiração. E havia pop nos altifalantes, pelo amor de São Kafka... E o padre, zás, a caminho de nós e vá de debitar em sérvio com a mão no meu ombro. A minha amiga traduziu-me uma versão censurada do que ele disse. Eu pedi-lhe que lhe transmitisse a minha resposta sem censura - aposto que nenhum de nós soube, nem o padre nem eu, o que o outro efectivamente quis dizer. E a seguir, debaixo do olhar de reprovação de uma inteira comunidade, saímos as quatro antes que começasse a cheirar a lenha a queimar. Em casa, meia hora depois, ainda me ria - amém.
Não foi Deus quem me disse, Ele não fala comigo, e mesmo assim tenho a certeza: é preferível nascer entre o riso do que entre lágrimas.
24 de dezembro de 2016
Postais de Belgrado iii - Natal de 2016
PONTO DE INTERROGAÇÃO
Estou à mesa a pensar na inutilidade das palavras diante
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve,
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana,
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron,
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps,
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve,
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana,
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron,
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps,
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.
17 de dezembro de 2016
Num só corpo
NUM SÓ CORPO
O tempo passa. O mundo envelhece.
A nossa grande estrela, o sol, arrefece.
E nós com eles num só corpo.
Mas na memória, encapsulado, o passado,
não.
O tempo passa. O mundo envelhece.
A nossa grande estrela, o sol, arrefece.
E nós com eles num só corpo.
Mas na memória, encapsulado, o passado,
não.
15 de dezembro de 2016
Postais de Belgrado - ii

- Ora, a japonesa na parede, não é japonesa coisa nenhuma, é Nádia Knegevich, para se se ler em português que em Sérvio Nádia é Nada, e isso não é coisa que se diga de uma senhora nem quando ela é Knezevic...
POSTAIS DE BELGRADO - ii
Uma japonesa na parede
Uma japonesa na parede
Na noite em que cheguei a Belgrado, na curva ao entrar aqui, na Rua Gospodar Jevremova onde agora estou, vi da janela do táxi uma japonesa na parede. Uma cantora. Era tarde e o escuro era muito. Nem uma réstia de lua. Pensei, amanhã venho ver-te, mistério asiático nos balcãs.
Afinal, o amanhã só chegou quase uma semana depois, foi ontem cedo, por volta das oito e pouca gente na rua.
Cedo aqui, pelo menos neste Inverno, quer dizer manhãs claríssimas de transparente luz anilada: o sol, alto e frio demais, não tem garras para o azul ferino e quase branco, sem uma nesga de sombra, a que me habituei.
Estou no centro histórico da cidade, no Dorcol. O prédio é de gaveto e tem duas frentes. A outra é para a Francuska Ulica, a Rua da França. E a menos de duzentos metros, paralela àquela, tenho uma parte do Bairro Alto, a dos restaurantes e bares, que aqui é Skadarlija, e nem por isso me chega o ruído nocturno ao quarto. À mesma distância, mais centímetro menos centímetro, pois é preciso atravessar a rua, o mercado Bajloni.
Na Skadarlija funcionava a grande destilaria da família Bajloni e é por essa proximidade e, claro, a grande influência da família na vida de Belgrado, que o mercado é chamado assim apesar de ter um qualquer nome oficial – e agora vejo que ainda não contei nem como nem porquê foi Gordana Bajloni viver para o Estoril.
No sentido exactamente oposto, nesta cidade em que cada rua sobe e sobe e depois desce e desce, fica o Chiado: é a Knez Mihajlova Ulica, Rua Duque Miguel, portanto. Ora, nem de propósito, este Miguel é sobrinho do Jevrem que dá nome à rua onde, por enquanto, vivo - no tal prédio de gaveto dos anos trinta, altura em arquitectos e engenheiros russos tanto construíram em Belgrado estas casas de pé direito altíssimo, de uma racionalidade modernista exemplar, confortáveis quase um século depois. Esta parte de Belgrado, a que até hoje conheci, o Dorcol, tem a beleza das construções neoclássicas lado a lado com as modernas até ao tutano, e ambas cobertas de anos e falta de cuidado, envelhecendo juntas como amigas de origens tão diferentes quanto a diferença possa ser.

- Desta casa do século xix vê-se Nádia do século xxi..
É cedo. Oito, talvez. Atravesso o frio seco com gosto. Faço a rua devagar. Ó que gatarrão! Vem cá bicho brilhante e pesado, tens o dobro do volume do meu querido Cão, que saudades... Percebes português? Percebe. Vem ronronar o seu tamanho todo em oitos bem roçados nas minhas pernas. Turrinhas com a cabeça. Ó Cão...

- Depois da Morte no Nilo não precisamos de crime nem no Sava nem no Danúbio. So, let's jazz Mr. Poirot...
Olho em frente e penso, o Poirot da BBC, se fosse da RTS, Rádio Televisão Sérvia, poderia sair por aquela porta: lá em cima, na fachada, um enorme relógio, depois as varandas dos apartamentos, uma com os tapetes ao ar, foge ácaro que congelas, e cá em baixo a Associação de Navegação do Danúbio, mais cinema e sala de espectáculos – olha, jazz às segundas-feiras, está no cartaz por cima da porta de entrada...
Agora sim. Lá está ela, à minha espera apesar do meu atraso.
Olá Madame Nádia, que quer que lhe diga? Se pensei que era japonesa foi só porque não havia nem uma réstia de lua.
Postais de Belgrado - i

- Deve ser esta a famosa dança do sol e dos sete véus...
Postais de Belgrado - i
Mercado Bajloni
Se descer a rua, passo por uma casa de câmbio - dá-me jeito, só tenho euros e aqui, na carteira, a vida conta-se em dinares.
Dinheiro trocado. Boa. Vinte e tal metros e uma pastelaria jovem, pequena, de fabrico próprio. Sem centrifugadora, não tenho sumo verde ao acordar. Quero lá saber... Estou em Belgrado e há-de haver um sumo de laranja fresco a condizer com este frio seco sequíssimo que engana o céu azul e o sol alto das oito e meia da manhã: frio eslavo dum raio que se enfia pelos rins adentro.
Ao pedir o sumo e o café na caixa de pré-pagamento, ao balcão, penso seriamente em desgraçar-me: há folhados por todo o lado a exibirem-se, vaidosões, na vitrine. E pão com quinhentos mil cereais, cada um de sua cor. Lembro-me logo da minha avó: o cereal engorda o gado. Mas os folhados, meu Deus que uma mulher não é de ferro… lindos, as folhas soltinhas, sem gordura, só o brilho dourado do forno e da manteiga. Ainda por cima, folhados de queijo branco e espinafres. É verdade. Podia chamar-me com justiça Maria Café. Maria Broccolini. Ou Maria Espinafres. Não sou Cristo no deserto. À tentação, digo sim.
A menos de cinco minutos, o mercado Bailoni - pronto, Bajloni. A minha primeira visita, na minha primeira manhã belgradina.
Diabo de lugar vivíssimo debaixo do sol imaculado. Aberto. Bancas a perder de vista. Os vegetais, que beleza, o bordado da rama fina e leve das cenouras apetece tocar e levar para casa – é um mercado de produtores. Não serão todos, mas muitos são. Passeio. Vejo. Ouço. Encho a manhã de verbos comestíveis em saladas, frutos, sopa. E do prodigioso kajmak que não é queijo, nem coalho, creme nem requeijão – se escrever kaimak, alguém se ofende?
Este é o mercado Bajloni. Com uma história que passa por Popov - pois é, esse mesmo, o espião. E pelo Estoril. Ó… mal sabia eu que Portugal ficava mesmo aqui ao lado.

- Sim, as flores também são para comer: os meus olhos
2 de dezembro de 2016
Amor Cão
O meu lindo Cão morreu hoje. Este foi o texto que lhe escrevi de aniversário, a 5 de Maio de 2016, para celebrar os seus perfeitos dezasseis anos - na verdade, sabia que era o último aniversário. Sabemos, não é? É assim. É Amor Cão. É para sempre.
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| O meu lindo Cão... |
O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Hoje, lá fora, a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.
Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube… Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão.
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.
20 de novembro de 2016
Aula de Jornalismo: é sempre de um dos Istas...
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| Ups... |
O meu sobrinho, ao fim-de-semana, pode ter um bocadinho de vício de iPad. Eu tenho o vício das notícias e dos documentários. Ora, estava ele tranquilamente no iPad enquanto estava eu tranquilamente a ver a abertura das notícias, e de repente ele:
- Não ouvi, quem foi?
E eu:
- Quem foi o quê?
E ele:
- A notícia, Tatia. A notícia é sempre de um dos Istas: os terroristas, os motoristas, os turistas ou os futebolistas. Não é?
7 de novembro de 2016
Um ovinho chega...
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| Corre! À meia-noite transformas-te em abóbora... |
SÓ UM OVINHO
É verdade que tive lindos presentes de aniversário. Presentes como os discos pedidos e sem ser preciso dizer a frase apesar de serem prodígios do tipo verbal. Uma coisa divina, portanto. Passava-se assim. O meu avô:
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
E eu:
- Um candeeiro de tecto com fio de telefone que sobe e desce, todo em plástico cor-de laranja, sim?
E zás! Só de nomear a maravilha, ela haveria de aparecer. Quero dizer, no caso luminária apareceu. Bem, em princípio, apareceria. A concha, caso Boticelli, maravilha entre as maravilhas, apareceu. Os nãos, como verifiquei, provaram-se redondos, ou melhor, ovais, fechados e, azar dos Távoras, definitivos.
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
E eu:
- Um candeeiro de tecto com fio de telefone que sobe e desce, todo em plástico cor-de laranja, sim?
E zás! Só de nomear a maravilha, ela haveria de aparecer. Quero dizer, no caso luminária apareceu. Bem, em princípio, apareceria. A concha, caso Boticelli, maravilha entre as maravilhas, apareceu. Os nãos, como verifiquei, provaram-se redondos, ou melhor, ovais, fechados e, azar dos Távoras, definitivos.
Não será um segredo bem guardado que, naquele tempo que é o primeiro tempo da infância, não fazia diferença entre belo e opulento, entre opulento e ofuscante. Resumido e espremido: não havia barroco que chegasse para mim! Pudesse eu arrastar caudas de vestidos em sedas bordadas de alto a baixo e andar carregadinha de jóias... Adorava dar-me ares de princesa cativa, estendida na otomana, enquanto esperava um leitinho quente com uma torrada que teria forçosamente de vir numa travessa com chávena, douradas até mais não, douradas para lá de Bagdad! Eu não sabia como a minha avó me deixava lanchar naquela relíquia encandeante, se me olhava de revés quando me dava para o desatino no armário das porcelanas, mau-mau, nem se atreva, ouviu? Mistério do caneco. Dos canecos, aliás, como mais tarde vim a descobrir: a preciosidade tinha sido comprada em meu próprio benefício, e pasme-se, pela minha própria avó: era uma loiça barata de Alcobaça e foi, mais coisa menos coisa, assim:
- Vai-se pelar por isto, é de impressionar indígenas...
Também comprou um pendente do tamanho de um ovo de codorniz, cravejado de safiras e esmeraldas que, perversa, pôs em destaque, mal arrumado, na aneleira. Indígena, rapinei-o logo. Usei-o até partir uma das esmeraldas quando se soltou do meu turbante improvisado.
- Avó, aconteceu uma tragédia, parti uma esmeralda.
- As esmeraldas não se partem.
- Que desgraça, é falso, chame a polícia, roubaram o verdadeiro!
- Vai-se pelar por isto, é de impressionar indígenas...
Também comprou um pendente do tamanho de um ovo de codorniz, cravejado de safiras e esmeraldas que, perversa, pôs em destaque, mal arrumado, na aneleira. Indígena, rapinei-o logo. Usei-o até partir uma das esmeraldas quando se soltou do meu turbante improvisado.
- Avó, aconteceu uma tragédia, parti uma esmeralda.
- As esmeraldas não se partem.
- Que desgraça, é falso, chame a polícia, roubaram o verdadeiro!
Naquele ano, sabia muito bem qual era o meu desejo de aniversário. Tinha andado a ver e a rever, céus, qual ver? a lamber com os olhos as páginas do livro, a fixar os mil um detalhes daquela mínima perfeição.
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
- Pode ser um ovinho. Só um chega. O da Cinderela.
- Um ovinho?
- Sim, só um ovinho. Vou buscar o livro. Este aqui. Pode ser?
- Este ovinho é um Fabergé!
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
- Pode ser um ovinho. Só um chega. O da Cinderela.
- Um ovinho?
- Sim, só um ovinho. Vou buscar o livro. Este aqui. Pode ser?
- Este ovinho é um Fabergé!
Ó...
30 de outubro de 2016
A sunday kind of love
A SUNDAY KIND OF LOVE
Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse sunday kind of love.
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto
somos nós:
uma existência de papel.
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse sunday kind of love.
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto
somos nós:
uma existência de papel.
26 de outubro de 2016
Bonjour Mundo!
[...]
twenty four karat magic in the air
head to toe soul player
[...]
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