10 de fevereiro de 2017

It’s hard out here for a bitch




isto - it’s hard out here
Hoje tive um dia lixado. Estava sentada num banco, na Bertrand, ao lado da literatura infantil, e tinha a cabeça em automático a cantar em repeat o refrão it’s hard out here for a bitch. Na verdade, foi um dia de merda - imagino que quem leia aquilo que escrevo, pense: esta tipa diz montes de palavrões. Escrevo. Escrevo tudo. A poesia não é exclusiva é inclusiva. A ficção. Escrever, escrevo. Dizer, não digo. Nem digo tipa quanto mais gajo. Gajo, então, até me arrepia os tímpanos! No entanto, hoje disse merda, tal não foi...
Vejo agora que estou a mentir - não é por mal.
O Cão morreu dia dois de Dezembro e eu até acho que foi uma última bondade que me quis fazer, esta de passar o dia do meu aniversário comigo e adiar morrer só por mais um bocadinho. Logo de seguida fui para Belgrado e quando regressei, pouco depois, lembro-me de ter pensado: tenho de conversar sobre isto, arrumar isto ou isto devora-me. Mais. Cheguei a dizer: preciso de falar sobre isto. Mas não falei sobre isto. Achei uma mariquice. A certos pensamentos, sentimentos, dúvidas, não sei se dar-lhes voz não é soltar monstros a que depois já não conseguimos pôr a trela. Tenho este preconceito de que a tristeza é um vício em que a gente se põe. E uma falta de disciplina. E de amor pelas pessoas a quem amamos e que nos amam, e por isso a quem devemos o melhor, não o pior de nós.
E isto, que é um isto generalizado, onde cabe Trump e o tempo do homem medíocre como Agustina nos contou tão bem na sua Quinta Essência, e onde cabem os intelectuais e os dirigentes que temos porque os merecemos, e o amargo do doce pão nosso de cada dia que amarga porque o fizemos amargo, a mim, isto não me larga e, caneco, eu não sou disto!

31 de janeiro de 2017

Mistérios de Inglaterra

O Big Ben! Maravilha das maravilhas... mas, ó, está em obras, e se não estivesse, também não podia ter entrado que ainda não tem 11 ou 12, ou lá o raio da idade que precisa para subir aquela infinidade de degraus que vimos até à exaustão no youtube... Mas o lado de fora também é bom, garantiu-me. E o sino toca bem.

MISTÉRIOS DE INGLATERRA
Antes, é preciso dizer que o meu rico sobrinho mais novo que já tem cinco, e não é bebé, nem um robot, é preciso esclarecer, é um menino, não tem ainda o ouvido ideal. Pronto, foi operado aos ouvidos e mais não sei quê. Enfim, coisas pequenas para quem é grande em, vá, fonética e semântica. Adiante.
Ontem, quando a mãe o foi buscar ao colégio, perguntou, como costuma perguntar, sobre o dia, as aulas e os trabalhos de casa. Contou que tinha tido Literacy, é natural, está no primeiro ano, mas que tinha gostado mesmo da aula de Mystery.
E a minha irmã:
- Mystery?! Não! History. Não há aula de Mystery...
E meu iluminado sobrinho:
- Ó mãe... claro que há, são os segredos dos reis e das guerras na aula de Mystery of England.
Mystery é ele ser um aluno do caraças em Literacy...

18 de janeiro de 2017

Só o mundo

SÓ O MUNDO
E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse 
de novo, e nasce! quando aquele ovo 
de talento que se vê, cheira, sente, 
eclode e as estrelas dizem sim. 
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos, 
chama-se infância. 
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente, 
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações - 
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.

15 de janeiro de 2017

Expresso

Transcrevo abaixo o poema que Nicolau Santos escolheu

A MERDA DA BANDOLETE
Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

in O QUOTIDIANO A SECAR EM VERSO


14 de janeiro de 2017

Secreto Investimento

SECRETO INVESTIMENTO
Não estou à mesa.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados -
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha...
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.
Pela parte que me toca, e há-de ser uma proverbial
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro -
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.
Este caldo navegável
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.

7 de janeiro de 2017

Senhor padre, why you mad? Fix ya face...

Fujam!
Estava em Belgrado e era a véspera de Natal. Para mim que sou católica e vivo pelo calendário gregoriano era. Para os belgradinos ortodoxos, não, claro.
O certo é que nessa noite fomos assistir ao Requiem de Brahams - diabo, é uma coisa um bocadinho torcida uma missa pro defunctis na noite de vinte e quatro de Dezembro, por muito que esta peça seja atípica e mais para os vivos do que para os mortos, porém, a verdade é tínhamos acabado de chegar de um restaurante de caça todo ele paredes fora cheio de uma tal catrefada de cabeças enfeitadas com cornos que quando pedi a password do WiFi e o empregado disse Bambi, comecei logo a rir. O que nasce torto... Era uma dessas noites. Nós é que ainda não sabíamos.
Depois do concerto, e por ser Natal e eu ser católica, as minhas amigas marcharam comigo para a Missa do Galo celebrada em sérvio e à meia-noite.
Terceiro banco à esquerda ou o pecado do riso...
Quando chegámos, uns bons vinte minutos antes da hora, estavam já vários bancos cheios. Pelos altifalantes, não muito alto, soft pop  do tipo natalino deprimente, Mariah Carey jurava all i want for Christmas is you - e a minha estranheza em processo de adaptação. Sentámo-nos. A filha de uma das minhas amigas, a da amiga anti-clerical, à minha direita. O padre, ainda por paramentar, andava num desatino de boa dona de casa, acende aqui uma vela, compõe ali uma fita, que raio, e toda a gente com uma seriedade purista de minoria religiosa tal que nos olhinhos até a inquisição se cheirava.
Do nada, a filha da minha amiga, educada com os valores da sua rica mãe e portanto catequese igual a zero, vira-se para mim, com um ar selecto, entre o aflito e o assertivo, e diz baixinho: eu não quero comer nem beber nada aqui.
Começo a rir e não consigo parar - caneco, há que convir, a frase é do melhor... Não estava a rir alto. Estava a rir. Quem é que nunca teve um ataque de riso? No banco atrás, murmúrios de conspiração. E havia pop nos altifalantes, pelo amor de São Kafka... E o padre, zás, a caminho de nós e vá de debitar em sérvio com a mão no meu ombro. A minha amiga traduziu-me uma versão censurada do que ele disse. Eu pedi-lhe que lhe transmitisse a minha resposta sem censura - aposto que nenhum de nós soube, nem o padre nem eu, o que o outro efectivamente quis dizer. E a seguir, debaixo do olhar de reprovação de uma inteira comunidade, saímos as quatro antes que começasse a cheirar a lenha a queimar. Em casa, meia hora depois, ainda me ria - amém.
Não foi Deus quem me disse, Ele não fala comigo, e mesmo assim tenho a certeza: é preferível nascer entre o riso do que entre lágrimas.

24 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado iii - Natal de 2016

PONTO DE INTERROGAÇÃO
Estou à mesa a pensar na inutilidade das palavras diante
desta imagem:
parto a lepinja branca de neve por dentro,
corada de forno por fora, almofadinha aberta em fumo quente,
como pode este pão denso ser tão leve,
esta cara primitiva do pão, crística, toma-o,
estou aqui, à mesa, sozinha, nesta kafana de séculos 
onde não estás, vou partindo o pão, como-o
letra a letra até à frase, és escritora, escreve, 
a tua companhia é a vida, agora a vida está nesta kafana, 
descreve a kafana.
Para quê, para quem? nesta idade
em que cada telemóvel é um Ciclope,
e no lado da internet onde está o olho de Sauron, 
estará a kafana com certeza,
em fotografias, comentários, pontuação,
e a catedral que vejo pelo vidro embaciado
desta moldura de tectos baixos, madeiras velhas,
de tabaco - ah, e se fumam, quem me dera fumar,
não neste mundo pré-anti-tabágico, mas
um cigarro de estalo na ocidentalidade
higienicamente proibitiva -
sim, a catedral podes encontrá-la no Google Maps, 
e à distância da minha mesa ao ícone de Maria com seu Filho, também,
e por baixo, as velas católicas que enterrei e acendi na areia ortodoxa
porque Deus, que não está como tu não estás,
não estiveste nem estarás jamais a esta mesa agora,
não tem existência nem religião ainda que nos abençoe
em língua estranha, do outro lado da estrada,
ao som dos sinos e do tráfico.

17 de dezembro de 2016

Num só corpo

NUM SÓ CORPO

O tempo passa. O mundo envelhece.
A nossa grande estrela, o sol, arrefece.
E nós com eles num só corpo.
Mas na memória, encapsulado, o passado,
não.

15 de dezembro de 2016

Postais de Belgrado - ii

Ora, a japonesa na parede, não é japonesa coisa nenhuma, é Nádia Knegevich, para se se ler em português que em Sérvio Nádia é Nada, e isso não é coisa que se diga de uma senhora nem quando ela é Knezevic...
POSTAIS DE BELGRADO - ii
Uma japonesa na parede
Na noite em que cheguei a Belgrado, na curva ao entrar aqui, na Rua Gospodar Jevremova onde agora estou, vi da janela do táxi uma japonesa na parede. Uma cantora. Era tarde e o escuro era muito. Nem uma réstia de lua. Pensei, amanhã venho ver-te, mistério asiático nos balcãs.
Afinal, o amanhã só chegou quase uma semana depois, foi ontem cedo, por volta das oito e pouca gente na rua.
Cedo aqui, pelo menos neste Inverno, quer dizer manhãs claríssimas de transparente luz anilada: o sol, alto e frio demais, não tem garras para o azul ferino e quase branco, sem uma nesga de sombra, a que me habituei.
Estou no centro histórico da cidade, no Dorcol. O prédio é de gaveto e tem duas frentes. A outra é para a Francuska Ulica, a Rua da França. E a menos de duzentos metros, paralela àquela, tenho uma parte do Bairro Alto, a dos restaurantes e bares, que aqui é Skadarlija, e nem por isso me chega o ruído nocturno ao quarto. À mesma distância, mais centímetro menos centímetro, pois é preciso atravessar a rua, o mercado Bajloni.
Na Skadarlija funcionava a grande destilaria da família Bajloni e é por essa proximidade e, claro, a grande influência da família na vida de Belgrado, que o mercado é chamado assim apesar de ter um qualquer nome oficial – e agora vejo que ainda não contei nem como nem porquê foi Gordana Bajloni viver para o Estoril.
No sentido exactamente oposto, nesta cidade em que cada rua sobe e sobe e depois desce e desce, fica o Chiado: é a Knez Mihajlova Ulica, Rua Duque Miguel, portanto. Ora, nem de propósito, este Miguel é sobrinho do Jevrem que dá nome à rua onde, por enquanto, vivo - no tal prédio de gaveto dos anos trinta, altura em arquitectos e engenheiros russos tanto construíram em Belgrado estas casas de pé direito altíssimo, de uma racionalidade modernista exemplar, confortáveis quase um século depois. Esta parte de Belgrado, a que até hoje conheci, o Dorcol, tem a beleza das construções neoclássicas lado a lado com as modernas até ao tutano, e ambas cobertas de anos e falta de cuidado, envelhecendo juntas como amigas de origens tão diferentes quanto a diferença possa ser.
Desta casa do século xix vê-se Nádia do século xxi..
É cedo. Oito, talvez. Atravesso o frio seco com gosto. Faço a rua devagar. Ó que gatarrão! Vem cá bicho brilhante e pesado, tens o dobro do volume do meu querido Cão, que saudades... Percebes português? Percebe. Vem ronronar o seu tamanho todo em oitos bem roçados nas minhas pernas. Turrinhas com a cabeça. Ó Cão...
Depois da Morte no Nilo não precisamos de crime nem no Sava nem no Danúbio. So, let's jazz Mr. Poirot...
Olho em frente e penso, o Poirot da BBC, se fosse da RTS, Rádio Televisão Sérvia, poderia sair por aquela porta: lá em cima, na fachada, um enorme relógio, depois as varandas dos apartamentos, uma com os tapetes ao ar, foge ácaro que congelas, e cá em baixo a Associação de Navegação do Danúbio, mais cinema e sala de espectáculos – olha, jazz às segundas-feiras, está no cartaz por cima da porta de entrada...
Agora sim. Lá está ela, à minha espera apesar do meu atraso.
Olá Madame Nádia, que quer que lhe diga? Se pensei que era japonesa foi só porque não havia nem uma réstia de lua.

Postais de Belgrado - i

Deve ser esta a famosa dança do sol e dos sete véus...
Postais de Belgrado - i

Mercado Bajloni

Se descer a rua, passo por uma casa de câmbio - dá-me jeito, só tenho euros e aqui, na carteira, a vida conta-se em dinares.
Dinheiro trocado. Boa. Vinte e tal metros e uma pastelaria jovem, pequena, de fabrico próprio. Sem centrifugadora, não tenho sumo verde ao acordar. Quero lá saber... Estou em Belgrado e há-de haver um sumo de laranja fresco a condizer com este frio seco sequíssimo que engana o céu azul e o sol alto das oito e meia da manhã: frio eslavo dum raio que se enfia pelos rins adentro.
Ao pedir o sumo e o café na caixa de pré-pagamento, ao balcão, penso seriamente em desgraçar-me: há folhados por todo o lado a exibirem-se, vaidosões, na vitrine. E pão com quinhentos mil cereais, cada um de sua cor. Lembro-me logo da minha avó: o cereal engorda o gado. Mas os folhados, meu Deus que uma mulher não é de ferro… lindos, as folhas soltinhas, sem gordura, só o brilho dourado do forno e da manteiga. Ainda por cima, folhados de queijo branco e espinafres. É verdade. Podia chamar-me com justiça Maria Café. Maria Broccolini. Ou Maria Espinafres. Não sou Cristo no deserto. À tentação, digo sim.
A menos de cinco minutos, o mercado Bailoni - pronto, Bajloni. A minha primeira visita, na minha primeira manhã belgradina.
Diabo de lugar vivíssimo debaixo do sol imaculado. Aberto. Bancas a perder de vista. Os vegetais, que beleza, o bordado da rama fina e leve das cenouras apetece tocar e levar para casa – é um mercado de produtores. Não serão todos, mas muitos são. Passeio. Vejo. Ouço. Encho a manhã de verbos comestíveis em saladas, frutos, sopa. E do prodigioso kajmak que não é queijo, nem coalho, creme nem requeijão – se escrever kaimak, alguém se ofende?
Este é o mercado Bajloni. Com uma história que passa por Popov - pois é, esse mesmo, o espião. E pelo Estoril. Ó… mal sabia eu que Portugal ficava mesmo aqui ao lado.
Sim, as flores também são para comer: os meus olhos 

2 de dezembro de 2016

Amor Cão



O meu lindo Cão morreu hoje. Este foi o texto que lhe escrevi de aniversário, a 5 de Maio de 2016, para celebrar os seus perfeitos dezasseis anos - na verdade, sabia que era o último aniversário. Sabemos, não é? É assim. É Amor Cão. É para sempre.

O meu lindo Cão...



O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Hoje, lá fora, a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.


Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube… Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão.
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.

20 de novembro de 2016

Aula de Jornalismo: é sempre de um dos Istas...

Ups...



O meu sobrinho, ao fim-de-semana, pode ter um bocadinho de vício de iPad. Eu tenho o vício das notícias e dos documentários. Ora, estava ele tranquilamente no iPad enquanto estava eu tranquilamente a ver a abertura das notícias, e de repente ele:
- Não ouvi, quem foi?
E eu:
- Quem foi o quê?
E ele:
- A notícia, Tatia. A notícia é sempre de um dos Istas: os terroristas, os motoristas, os turistas ou os futebolistas. Não é?

7 de novembro de 2016

Um ovinho chega...

Corre! À meia-noite transformas-te em abóbora...

SÓ UM OVINHO
É verdade que tive lindos presentes de aniversário. Presentes como os discos pedidos e sem ser preciso dizer a frase apesar de serem prodígios do tipo verbal. Uma coisa divina, portanto. Passava-se assim. O meu avô:
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
E eu:
- Um candeeiro de tecto com fio de telefone que sobe e desce, todo em plástico cor-de laranja, sim?
E zás! Só de nomear a maravilha, ela haveria de aparecer. Quero dizer, no caso luminária apareceu. Bem, em princípio, apareceria. A concha, caso Boticelli, maravilha entre as maravilhas, apareceu. Os nãos, como verifiquei, provaram-se redondos, ou melhor, ovais, fechados e, azar dos Távoras, definitivos.
Não será um segredo bem guardado que, naquele tempo que é o primeiro tempo da infância, não fazia diferença entre belo e opulento, entre opulento e ofuscante. Resumido e espremido: não havia barroco que chegasse para mim! Pudesse eu arrastar caudas de vestidos em sedas bordadas de alto a baixo e andar carregadinha de jóias... Adorava dar-me ares de princesa cativa, estendida na otomana, enquanto esperava um leitinho quente com uma torrada que teria forçosamente de vir numa travessa com chávena, douradas até mais não, douradas para lá de Bagdad! Eu não sabia como a minha avó me deixava lanchar naquela relíquia encandeante, se me olhava de revés quando me dava para o desatino no armário das porcelanas, mau-mau, nem se atreva, ouviu? Mistério do caneco. Dos canecos, aliás, como mais tarde vim a descobrir: a preciosidade tinha sido comprada em meu próprio benefício, e pasme-se, pela minha própria avó: era uma loiça barata de Alcobaça e foi, mais coisa menos coisa, assim:
- Vai-se pelar por isto, é de impressionar indígenas...
Também comprou um pendente do tamanho de um ovo de codorniz, cravejado de safiras e esmeraldas que, perversa, pôs em destaque, mal arrumado, na aneleira. Indígena, rapinei-o logo. Usei-o até partir uma das esmeraldas quando se soltou do meu turbante improvisado.
- Avó, aconteceu uma tragédia, parti uma esmeralda.
- As esmeraldas não se partem.
- Que desgraça, é falso, chame a polícia, roubaram o verdadeiro!
Naquele ano, sabia muito bem qual era o meu desejo de aniversário. Tinha andado a ver e a rever, céus, qual ver? a lamber com os olhos as páginas do livro, a fixar os mil um detalhes daquela mínima perfeição.
- Então, já pensou no que gostava de presente de aniversário?
- Pode ser um ovinho. Só um chega. O da Cinderela.
- Um ovinho?
- Sim, só um ovinho. Vou buscar o livro. Este aqui. Pode ser?
- Este ovinho é um Fabergé!
Ó...

30 de outubro de 2016

A sunday kind of love

A SUNDAY KIND OF LOVE

Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse sunday kind of love. 
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto 
somos nós:
uma existência de papel.

26 de outubro de 2016

Bonjour Mundo!

[...]
twenty four karat magic in the air
head to toe soul player
[...]


25 de outubro de 2016

Em todo o esplendor da sua Glória

Oh que lindo Livro Amarelo!...



EM TODO O ESPLENDOR DA SUA GLÓRIA

O que há no Cântico dos Cânticos que atravessa os séculos e sendo tão de ontem se faz de hoje? Penso que seja a ideia do tempo dos inícios e a sua matriz amorosa onde as fronteiras se desfazem ou transpõem diante da urgência dos amantes: a de serem amados e se darem e se pertencerem. Aliás, neste poema dialógico, o coro, os guardas, enfim, quaisquer terceiros se diluem diante destes amantes que encerram em si, no amor que se têm e no que se desejam, as propriedades intemporais do próprio amor.

A Amada e o Amado são o casal primeiro e último, são quem somos quando primeiro amamos e quem desejamos ser depois da utopia amorosa que a paixão constrói e o dia-a-dia destrói, quando já o mundo deixou de ser dual e os terceiros, pessoas, trabalhos, dias nos são igualmente essenciais. Talvez também por isso, no poema, se recupere o tema do jardim como o vimos desde a poesia do antigo Egipto, e onde regressa o jardim edénico, o mesmo que encontramos depois na Ilha dos Amores camoniana, onde a paixão se deixa colher e de onde, obrigatoriamente, sempre seremos expulsos e para onde, obrigatoriamente, sempre faremos o caminho de volta.

Então, o que há no Cântico dos Cânticos que luz sobre o tempo, é a expressão da natureza do amor no que ele tem de perene, de para sempre, em todo o esplendor da sua glória.

Quem é o autor deste Cântico superlativo entre todos, desde o seu título? Será Salomão e por ele será a Amada, Sulamita, a de Salomão?

Salomão terá tido oitocentas esposas e concubinas, casamentos políticos e camas de desejo, mulheres com quem terá partilhado a sua sabedoria, o seu poder, os seus aposentos, o seu declínio e por fim, até perda da Graça Divina com a entrega aos muitos deuses das suas tantas esposas e concubinas. Terá sido uma entre as oitocentas, esta mulher primordial? E terá sido a filha do Faraó com quem casou e num verso com a clareza dessa proveniência lhe refere a beleza? Será o Cântico dos Cânticos um dos registos das festas desse casamento? Terá a sua encenação feito parte das celebrações?

Não sabemos. Sabemos que há matéria poética comum entre o Cântico dos Cânticos e as outras poéticas vizinhas, mais e menos próximas.

Receber o convite de Manuel S. Fonseca para fazer uma versão do Cântico dos Cânticos, foi nada menos do que um susto e uma alegria. Penso que todos temos, de pequenos, planos secretos de almas infantis que crescem connosco mas só têm lugar nos nossos desejos e nos nossos silêncios. São inconfessáveis pelas suas próprias misteriosas razões. Um dos meus desejos, agora realizado, era este, o de fazer uma versão do Cântico dos Cânticos. Para o concretizar, apoiei-me nas seguintes versões inglesas, francesas e portuguesas do Cântico: New International Version (NIV); King James Version (KJV); New Living Translation (NLT); Orthodox Jewish Bible (OJB); La Bible de Jérusalem (BJ); Cântico dos Cânticos de Salomão, segundo a edição de 1821, tradução de Padre António Pereira de Figueiredo; Cântico dos Cânticos, tradução, introdução e notas de José Tolentino Mendonça. Também no Bebedor Nocturno, Poemas Mudados para o Português, de Herberto Helder e nos Poemas de Amor do Antigo Egipto traduzidos por Hélder Moura Pereira.

Há um rasgo de medo quando um texto que é um desejo vem na nossa direcção, porque o amamos e queremos fazer-lhe justiça, é um e se, e mais outro, e se for antes assim… Mas o trabalho poético, e o de uma versão poética, também é a aceitação amorosa de que ficamos aquém do além tão desejado e perseguido. Que os leitores possam amar o Poema como amamos o Amor, com as suas imperfeições.



5 de Setembro de 2016
Eugénia de Vasconcellos


Amanhã, nas livrarias


"Este Livro Amarelo junta o Cântico dos Cânticos, de Salomão, e o Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Louÿs. O que faz, no mesmo livro, um texto canónico da Bíblia, escrito talvez 500 anos antes de Cristo, ao pé de um texto obsceno desde a primeira linha, escrito na segunda década do século XX por um irrecomendável erotómano francês? Juntos, constituem uma obra de exaltação e exacerbação erótica únicas.

Diga-se: o Cântico dos Cânticos de Salomão lê-se e é, se nos deixarmos arrebatar pelo belíssimo pé da sua letra, uma sensualíssima celebração lírica do amor. Encostados ao pé da sua letra vemos que é clara e distinta a primeira imagem desse livro breve. Revela-nos uma boca de mulher que se abre e, macia, pede: «Beija-me com os beijos da tua boca, /amor melhor do que o vinho.»
O luminoso lirismo do Cântico dos Cânticos é a apologia de um desejo sexual indissociável do impulso amoroso, a apologia de uma plenitude amorosa e sexual, espiritual e física, vivida com intencionalidade social e pessoal. 

O Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, escrito em 1915, na sua hiperbólica regulamentação da sexualidade – da cozinha ao quarto, da igreja ao museu, da cama do amante ao Senhor Presidente da República – ataca com dor e raiva o que Pierre Louÿs entendia ser a hipocrisia amorosa e sexual do seu tempo. A irrisão iconoclasta dos seus conselhos é a sua forma de se insurgir contra as convenções e os costumes que sufocam e castram ab ovo a paixão pura e o desejo inocente que, como matéria dos solilóquios da amada, do amado, e das filhas de Jerusalém, nos exaltam e consolam no Cântico dos Cânticos. 

A abjecção do Manual e os seus extremos escatológicos, essa linguagem obscena e a sua desbragada violência, expressam a revolta de quem não encontra no seu mundo e no seu tempo lugar para a expressão lírica do impulso amoroso ou para a celebração do Belo na catedral íntima do seu corpo ou do corpo amado.

A Guerra e Paz juntou estes dois textos. O Cântico dos Cânticos, de Salomão, surge numa versão poética de Eugénia de Vasconcellos. Segue-se o Manual de Civilidade para Meninas, texto de linguagem crua e revoltada que Pierre-Félix Louÿs escreveu há pouco mais de cem anos e que Manuel S. Fonseca traduziu para esta edição sem tabus. E é também Manuel S. Fonseca que justifica, num longo texto, e num grafismo inesperado, porque é que estas duas criações literárias devem estar juntas.

Um livro para ler onde? Em praça pública? No museu? Em silêncio ou em gritada euforia? Para já estão no recato de um livro de capa rasgada e amarela, como de amarelo estão pintadas todas as faces do miolo."


23 de outubro de 2016

O escaravelho e a via láctea

Às vezes não consigo escrever: a folha põe-se a olhar para mim com uma brancura acusadora e eu, de consciência pesada e sem vontade de acusações e inquirições, fecho-a. E ai dela se protestar, desligo-a. Belos tempos, estes em que escrevemos em folhas ligadas à electricidade. Entre isto e a Siri, já me sinto menos na proto-história da psico-história, meu rico Hari Seldon - a adolescência não há meio de me passar...
De tanto não conseguir escrever, peguei no meu Pamuk, O Museu da Inocência, e sentei-me a ler. Às vezes não consigo ler. Felizmente, o peso dos livros é o de uma pluma quando são fechados.
Às vezes não consigo sequer ligar a televisão para não ver um filme. Preta e muda, nem um ai, nada, calada. Música? Não, nem no meu coração de von Trapp em plenos pulmões de Maria. Para quê pô-la se não a ouviria?
É quando estou cheia de pensamentos vagos, ainda longe da razão, aqueles que, não sendo já da matéria dos sonhos de enquanto durmo no lado mais fundo do sono, aqueles de que nem me lembro, também ainda não são da matéria da razão. Há um trânsito de pensamentos. E quando há muito tráfego, não há espaço para mais nada a não ser para aquela coisa nenhuma.
Não faz mal. Depois, direi que tive uma ideia não sei como. Ou que um verso me apareceu feito, ou três páginas sem uma rasura, e tudo isso sendo verdade, é mentira: houve antes o tempo vago, o dia peripatético pela casa, estes nadas, mais finos do que teias de aranha, depositados um sobre o outro numa trama de dessentido a tomar conta das horas todas.
E conforme começa, acaba. Sem saber porquê, lembrei-me de um artigo que li há dois ou três anos: o escaravelho, sim, esse bicharoco mínimo de vinte ou trinta milímetros, anda em linha recta guiado pelo sol, pela lua, e pasme-se, se sol e lua faltam, pela via láctea. É isto: levanta o olhar para o céu e faz o caminho mais curto de volta a casa. De que mais preciso eu para escrever?

21 de outubro de 2016

Perfume

PERFUME

O céu, cinzento desta maneira,
tampa de tacho,
cai sobre nós e um dia…
Hoje não. Hoje armou-se-me
o Amor em Primavera e fui
cheirar-te. Não a ti, propriamente dito.
Ao teu perfume. Avancei clara
mais que o sol perfumaria adentro,
a direito, um raio de luz igual ao fundo,
o teu perfume – ah cacete, isto de ser mulher
é encontrar o Graal num tester!
Na verdade, odeio-te. Mas sou
como Pessoa me escreveu,
a maior indisciplina interior
junta à máxima disciplina exterior,

e por isso nunca os meus lábios abririam
no seu botão de rosa, calão,
toda a liberdade é do intelecto,
é do verso, o poema é a inclusão
da vida, de todas as formas de vida,
e das palavras que a vida pariu, umas e outras,
e as que ficam a meia geografia.
Selecta, o nome adulto para bem comportada,
porte-se bem, ouviu, seja sempre uma senhora,
borrifo o cartão, as gotas de perfume no ar…
Não estás no perfume, essa volatilização sublimada
do corpo.
E não estás nas tuas palavras, esse espelho do pensamento
processado.
Não estás e eu odeio-te no verbo não.
Respirei bem aquele pedaço de papel. E joguei-o fora.
Não gostou? Quer testar outro?
Como se isso fosse possível,
testar outro… pois sim. Como?
Não é o coração um cabrão de um animal
doméstico, fiel, um cão?

11 de outubro de 2016

Impedido

IMPEDIDO

- Não me sinto lá muito bem... Sabes, quando não é nada de concreto, mas percebes que alguma coisa está mal? Sinto, pronto, é mesmo aqui, no peito.
- Marca uma consulta no cardiologista - o que é que custa? E explicas-lhe, dentro do possível...
- Queres que lhe explique que tenho um problema de coração? Digo-lhe o quê? Que está impedido? Que por mais liguem, o diabo não atende?!