30 de outubro de 2016

A sunday kind of love

A SUNDAY KIND OF LOVE

Se amanhã fôssemos domingo,
passeávamos de mão dada
na Gulbenkian,
beijávamos na boca,
no jardim, esse sunday kind of love. 
Mas tão pouco somos das 9 às 5,
com ou sem horário para almoço -
expediente? nem de hotel.
Inocente ficção e verso de Al Berto 
somos nós:
uma existência de papel.

26 de outubro de 2016

Bonjour Mundo!

[...]
twenty four karat magic in the air
head to toe soul player
[...]


25 de outubro de 2016

Em todo o esplendor da sua Glória

Oh que lindo Livro Amarelo!...



EM TODO O ESPLENDOR DA SUA GLÓRIA

O que há no Cântico dos Cânticos que atravessa os séculos e sendo tão de ontem se faz de hoje? Penso que seja a ideia do tempo dos inícios e a sua matriz amorosa onde as fronteiras se desfazem ou transpõem diante da urgência dos amantes: a de serem amados e se darem e se pertencerem. Aliás, neste poema dialógico, o coro, os guardas, enfim, quaisquer terceiros se diluem diante destes amantes que encerram em si, no amor que se têm e no que se desejam, as propriedades intemporais do próprio amor.

A Amada e o Amado são o casal primeiro e último, são quem somos quando primeiro amamos e quem desejamos ser depois da utopia amorosa que a paixão constrói e o dia-a-dia destrói, quando já o mundo deixou de ser dual e os terceiros, pessoas, trabalhos, dias nos são igualmente essenciais. Talvez também por isso, no poema, se recupere o tema do jardim como o vimos desde a poesia do antigo Egipto, e onde regressa o jardim edénico, o mesmo que encontramos depois na Ilha dos Amores camoniana, onde a paixão se deixa colher e de onde, obrigatoriamente, sempre seremos expulsos e para onde, obrigatoriamente, sempre faremos o caminho de volta.

Então, o que há no Cântico dos Cânticos que luz sobre o tempo, é a expressão da natureza do amor no que ele tem de perene, de para sempre, em todo o esplendor da sua glória.

Quem é o autor deste Cântico superlativo entre todos, desde o seu título? Será Salomão e por ele será a Amada, Sulamita, a de Salomão?

Salomão terá tido oitocentas esposas e concubinas, casamentos políticos e camas de desejo, mulheres com quem terá partilhado a sua sabedoria, o seu poder, os seus aposentos, o seu declínio e por fim, até perda da Graça Divina com a entrega aos muitos deuses das suas tantas esposas e concubinas. Terá sido uma entre as oitocentas, esta mulher primordial? E terá sido a filha do Faraó com quem casou e num verso com a clareza dessa proveniência lhe refere a beleza? Será o Cântico dos Cânticos um dos registos das festas desse casamento? Terá a sua encenação feito parte das celebrações?

Não sabemos. Sabemos que há matéria poética comum entre o Cântico dos Cânticos e as outras poéticas vizinhas, mais e menos próximas.

Receber o convite de Manuel S. Fonseca para fazer uma versão do Cântico dos Cânticos, foi nada menos do que um susto e uma alegria. Penso que todos temos, de pequenos, planos secretos de almas infantis que crescem connosco mas só têm lugar nos nossos desejos e nos nossos silêncios. São inconfessáveis pelas suas próprias misteriosas razões. Um dos meus desejos, agora realizado, era este, o de fazer uma versão do Cântico dos Cânticos. Para o concretizar, apoiei-me nas seguintes versões inglesas, francesas e portuguesas do Cântico: New International Version (NIV); King James Version (KJV); New Living Translation (NLT); Orthodox Jewish Bible (OJB); La Bible de Jérusalem (BJ); Cântico dos Cânticos de Salomão, segundo a edição de 1821, tradução de Padre António Pereira de Figueiredo; Cântico dos Cânticos, tradução, introdução e notas de José Tolentino Mendonça. Também no Bebedor Nocturno, Poemas Mudados para o Português, de Herberto Helder e nos Poemas de Amor do Antigo Egipto traduzidos por Hélder Moura Pereira.

Há um rasgo de medo quando um texto que é um desejo vem na nossa direcção, porque o amamos e queremos fazer-lhe justiça, é um e se, e mais outro, e se for antes assim… Mas o trabalho poético, e o de uma versão poética, também é a aceitação amorosa de que ficamos aquém do além tão desejado e perseguido. Que os leitores possam amar o Poema como amamos o Amor, com as suas imperfeições.



5 de Setembro de 2016
Eugénia de Vasconcellos


Amanhã, nas livrarias


"Este Livro Amarelo junta o Cântico dos Cânticos, de Salomão, e o Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Louÿs. O que faz, no mesmo livro, um texto canónico da Bíblia, escrito talvez 500 anos antes de Cristo, ao pé de um texto obsceno desde a primeira linha, escrito na segunda década do século XX por um irrecomendável erotómano francês? Juntos, constituem uma obra de exaltação e exacerbação erótica únicas.

Diga-se: o Cântico dos Cânticos de Salomão lê-se e é, se nos deixarmos arrebatar pelo belíssimo pé da sua letra, uma sensualíssima celebração lírica do amor. Encostados ao pé da sua letra vemos que é clara e distinta a primeira imagem desse livro breve. Revela-nos uma boca de mulher que se abre e, macia, pede: «Beija-me com os beijos da tua boca, /amor melhor do que o vinho.»
O luminoso lirismo do Cântico dos Cânticos é a apologia de um desejo sexual indissociável do impulso amoroso, a apologia de uma plenitude amorosa e sexual, espiritual e física, vivida com intencionalidade social e pessoal. 

O Manual de Civilidade para Meninas de Pierre-Félix Louÿs, escrito em 1915, na sua hiperbólica regulamentação da sexualidade – da cozinha ao quarto, da igreja ao museu, da cama do amante ao Senhor Presidente da República – ataca com dor e raiva o que Pierre Louÿs entendia ser a hipocrisia amorosa e sexual do seu tempo. A irrisão iconoclasta dos seus conselhos é a sua forma de se insurgir contra as convenções e os costumes que sufocam e castram ab ovo a paixão pura e o desejo inocente que, como matéria dos solilóquios da amada, do amado, e das filhas de Jerusalém, nos exaltam e consolam no Cântico dos Cânticos. 

A abjecção do Manual e os seus extremos escatológicos, essa linguagem obscena e a sua desbragada violência, expressam a revolta de quem não encontra no seu mundo e no seu tempo lugar para a expressão lírica do impulso amoroso ou para a celebração do Belo na catedral íntima do seu corpo ou do corpo amado.

A Guerra e Paz juntou estes dois textos. O Cântico dos Cânticos, de Salomão, surge numa versão poética de Eugénia de Vasconcellos. Segue-se o Manual de Civilidade para Meninas, texto de linguagem crua e revoltada que Pierre-Félix Louÿs escreveu há pouco mais de cem anos e que Manuel S. Fonseca traduziu para esta edição sem tabus. E é também Manuel S. Fonseca que justifica, num longo texto, e num grafismo inesperado, porque é que estas duas criações literárias devem estar juntas.

Um livro para ler onde? Em praça pública? No museu? Em silêncio ou em gritada euforia? Para já estão no recato de um livro de capa rasgada e amarela, como de amarelo estão pintadas todas as faces do miolo."


23 de outubro de 2016

O escaravelho e a via láctea

Às vezes não consigo escrever: a folha põe-se a olhar para mim com uma brancura acusadora e eu, de consciência pesada e sem vontade de acusações e inquirições, fecho-a. E ai dela se protestar, desligo-a. Belos tempos, estes em que escrevemos em folhas ligadas à electricidade. Entre isto e a Siri, já me sinto menos na proto-história da psico-história, meu rico Hari Seldon - a adolescência não há meio de me passar...
De tanto não conseguir escrever, peguei no meu Pamuk, O Museu da Inocência, e sentei-me a ler. Às vezes não consigo ler. Felizmente, o peso dos livros é o de uma pluma quando são fechados.
Às vezes não consigo sequer ligar a televisão para não ver um filme. Preta e muda, nem um ai, nada, calada. Música? Não, nem no meu coração de von Trapp em plenos pulmões de Maria. Para quê pô-la se não a ouviria?
É quando estou cheia de pensamentos vagos, ainda longe da razão, aqueles que, não sendo já da matéria dos sonhos de enquanto durmo no lado mais fundo do sono, aqueles de que nem me lembro, também ainda não são da matéria da razão. Há um trânsito de pensamentos. E quando há muito tráfego, não há espaço para mais nada a não ser para aquela coisa nenhuma.
Não faz mal. Depois, direi que tive uma ideia não sei como. Ou que um verso me apareceu feito, ou três páginas sem uma rasura, e tudo isso sendo verdade, é mentira: houve antes o tempo vago, o dia peripatético pela casa, estes nadas, mais finos do que teias de aranha, depositados um sobre o outro numa trama de dessentido a tomar conta das horas todas.
E conforme começa, acaba. Sem saber porquê, lembrei-me de um artigo que li há dois ou três anos: o escaravelho, sim, esse bicharoco mínimo de vinte ou trinta milímetros, anda em linha recta guiado pelo sol, pela lua, e pasme-se, se sol e lua faltam, pela via láctea. É isto: levanta o olhar para o céu e faz o caminho mais curto de volta a casa. De que mais preciso eu para escrever?

21 de outubro de 2016

Perfume

PERFUME

O céu, cinzento desta maneira,
tampa de tacho,
cai sobre nós e um dia…
Hoje não. Hoje armou-se-me
o Amor em Primavera e fui
cheirar-te. Não a ti, propriamente dito.
Ao teu perfume. Avancei clara
mais que o sol perfumaria adentro,
a direito, um raio de luz igual ao fundo,
o teu perfume – ah cacete, isto de ser mulher
é encontrar o Graal num tester!
Na verdade, odeio-te. Mas sou
como Pessoa me escreveu,
a maior indisciplina interior
junta à máxima disciplina exterior,

e por isso nunca os meus lábios abririam
no seu botão de rosa, calão,
toda a liberdade é do intelecto,
é do verso, o poema é a inclusão
da vida, de todas as formas de vida,
e das palavras que a vida pariu, umas e outras,
e as que ficam a meia geografia.
Selecta, o nome adulto para bem comportada,
porte-se bem, ouviu, seja sempre uma senhora,
borrifo o cartão, as gotas de perfume no ar…
Não estás no perfume, essa volatilização sublimada
do corpo.
E não estás nas tuas palavras, esse espelho do pensamento
processado.
Não estás e eu odeio-te no verbo não.
Respirei bem aquele pedaço de papel. E joguei-o fora.
Não gostou? Quer testar outro?
Como se isso fosse possível,
testar outro… pois sim. Como?
Não é o coração um cabrão de um animal
doméstico, fiel, um cão?

11 de outubro de 2016

Impedido

IMPEDIDO

- Não me sinto lá muito bem... Sabes, quando não é nada de concreto, mas percebes que alguma coisa está mal? Sinto, pronto, é mesmo aqui, no peito.
- Marca uma consulta no cardiologista - o que é que custa? E explicas-lhe, dentro do possível...
- Queres que lhe explique que tenho um problema de coração? Digo-lhe o quê? Que está impedido? Que por mais liguem, o diabo não atende?!

7 de outubro de 2016

É uma inocência poética, perdão, uma verdade poética, Mrs. Stedman...

Sempre acho a engenharia aeronáutica uma forma melhor de viver nas nuvens...

O meu sobrinho trouxe hoje para casa um trabalho que fez na sala de aula o ano passado, quando estava no terceiro ano. Foi pedido um texto, tema livre. O meu sobrinho perguntou se podia fazer um poema. A professora do meu sobrinho, Mrs. Stedman, disse sim. 
A minha irmã, mãe do meu sobrinho, contou-me isto ainda há pouco. A seguir leu. Disse-lhe logo: 
- Não quero cá mais poetas na família, só escrevedores de best-sellers, page-turners, chamem-lhe o que quiserem! 
E ela, zás, armada em liberal: 
- Ora essa, porquê? Se for poeta, é poeta.
E a minha indignação:
- Isso diz-se? É que já não há pais à antiga portuguesa...
Depois, mandou-me a photo do trabalho por email. Retiro o que que disse, pronto, pode ser poeta à vontade - até porque ele quer ser engenheiro aeronáutico. Posto isto, transcrevo.
Mrs. Stedman thinks I'm listening,
but I'm thinking about planes,
in the sky.
She thinks I'm listening,
but I'm thinking about dolphins,
in the sea.
Mrs. Stedman thinks I'm listening,
but I'm thinking about ships,
in the ocean.
(É preciso não esquecer: quando o meu sobrinho escreveu isto, só tinha sete anos, agora, agora é muito mais crescido, uma loucura, já diz quando eu era pequeno, uff... oito anos, senhores, oito anos é muita fruta!)

3 de outubro de 2016

Lembra

LEMBRA

Digo-te isto para que saibas quem és,
às vezes,
esquecemos, confundimos,
desconseguimos e ao fim, desacreditamos,
colam-se-nos os fantasmas
dos vivos e as memórias dos mortos
e da voz faz-se um fio à míngua de palavras -
e onde a palavra não chega, o pensamento
não cria o acto e morre-se, morre-se, morre-se
um dia de cada vez de tanto não ser. Então
digo-te isto para que saibas quem és:
és um ponto suspenso no infinito, e
lembra: o infinito cabe num ponto.

25 de setembro de 2016

Minecraft de retrete

Uma cidade?
O meu sobrinho mais novo está numa fase de algum interesse escatológico - não, não me estou a referir ao Apocalipse, ao tempo das Revelações. Em simultâneo, adora Minecraft - um videogame de construção em 3D no qual tem de conseguir recursos, construir, manter e defender o mundo criado por si. 
Veio ter comigo a correr, segurou-me na mão:
- Depressa, depressa, venha ver!
Diante da urgência, largo texto que escrevia e fui. Para minha surpresa, levou-me à casa de banho. Apontou a retrete e disse com orgulho:
- Tanto! Fiz uma cidade...

23 de setembro de 2016

A princesa dança, tem sapo ou descansa?

Posso jurar que há un agent provocateur por aqui... A princesa dança, tem sapo ou descansa?








22 de setembro de 2016

Pró menino e prá menina


PRÓ MENINO E PRÁ MENINA
Teria doze anos quando a voz de Lena d’Água inundou rádio e rua com o refrão olha o robot, é pró menino e prá menina, olha. Nunca imaginei, foi viver no tempo em que poderia ter um robot. E não estou a falar do aspirador que circula pela casa a devorar pó e fios de tapete. Estou a falar de um senhor robot, um homem objecto, perdão, um andróide objecto, um robot sexual.
Lembra-se de Blade Runner? Pois bem, a empresa RealDolls ainda não lhe entregará à porta de casa a modelo básico de prazer que era a Darryl Hannah no filme, mas já despacha para todo mundo bonecas e bonecos de silicone com alto grau de realismo. Conto-lhe um detalhe, ou melhor, trinta. Trinta são as cores possíveis para os mamilos, trinta os tamanhos. Até a manicure é personalizada.
O passo seguinte é dotá-los de inteligência artificial. Como na letra da música: está pronto a ser programado, olha. Volto ao cinema.
Lembra-se do filme Her, em português Uma História de Amor entre um homem e o seu sistema operativo, aquela inteligência viva que falava com a voz de Scarlett Johansson?
Escolher um sexbot de qualquer natureza, à la carte, já não é ficção científica. E dizermos, ah, são bonecos, não são pessoas, em nada reduz a intensidade da relação possível. Basta ver a forma como nos relacionamos com os objectos: representam-nos. São extensões nossas. Olhe, como uma criança e a sua chucha. Nós e os nossos carros, carteiras, smartphones… são nós, não é?
O meu smartphone, pensamos, está ali, ao meu dispor, mas a verdade é que uma sms chega, um e-mail, uma chamada, e quem está ao dispor sou eu, somos nós, numa relação de co-dependência. Boa e má. Como todas as relações. Os nossos objectos inanimados estão vivíssimos. Tenho uma banda de fitness no pulso que me informa acerca de mim, dá-me os parabéns, solta foguetes quando atinjo os objectivos: é a minha cheerleader particular. Quando ela me faz a festa e eu lhe sorrio de volta, para quem estou eu a sorrir?
Agora imagine que conhece alguém dotado das características que mais a atraem: giro, culto, organizado, descontraído. Um pensamento que a desafia. E conversa, ri, alguém que a beija na boca e diz boa-noite, minha querida. Alguém por quem se apaixonasse. Não é assim tão difícil.
Quem é que nunca procurou um colega de escola no Facebook? É a tecnologia a facilitar e mediar o contacto social. No degrau seguinte a tecnologia cria e provê o contacto social. Agora, onde leu contacto social, leia sexual. Ou amoroso. Com alguém por quem se apaixonasse. Vê como está no advento da próxima revolução sexual? É a revolução sexual robótica, pró menino e pra menina, olha.

Publicado na Revista Epicur, Verão, 2016


19 de setembro de 2016

iRobot

Adeus colégio... Sou um robot!

Talvez não tenha tido ainda a oportunidade de contar que o meu sobrinho mais novo é, como direi, um tanto obcecado com o iPad, a carga do iPad, o carregador do iPad: ver a percentagem de bateria a descer, provoca-lhe vertigens - enfim, efeitos colaterais das liberdades ipádicas das férias de Verão que terminaram para seu grande desgosto. 
Todos os dias, desde o primeiro dia de aulas, pergunta se tem mesmo de ir para o colégio. Se não pode ir trabalhar com a mãe. Se não pode ficar em casa. Após uma semana de aulas, informou que já chegava e podiam ir de férias. Confrontado com a realidade, jogou as mãos ao rosto, e disse:
- Oh não...
Felizmente, chegou o fim-de-semana - este acabadinho de gastar. Sábado, às 07:02, portanto, dois minutos depois da hora a que se levanta para ir para o colégio, já em pleno acordo com a biologia escolar, pôs a cabeça dentro do quarto dos pais e sabendo que mãe tem um sono leve, disse baixinho:
- Mãe, porque é a noite dura tanto tempo? Já estou completamente carregado...
- Mas quem carrega são os robots!
- Uau, sou um robot?! Pensava que era um menino! Já não vou mais ao colégio...

17 de setembro de 2016

Os gatos querem dizer olá

OS GATOS QUEREM DIZER OLÁ

Saio de casa. Estou a abrir a porta do carro
e o gato no telhado baixo, em frente,
preto, olhos cinzentos, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem um ai de adivinha, 
imóvel, olha-me, aquela íris de fumo, 
e a pupila de fundo falso atrás de fundo falso:
onde acaba o ilusionismo começa a magia -
magia é amanhã da ciência, e ontem.
Chego ao quiosque. Estaciono. Saio do carro
e um gato no telhado baixo, o mesmo gato 
uns quilómetros abaixo? preto, olhos cinzentos
de fumo sem fundo, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem uma ai de adivinha, 
imóvel, olha-me. Ai o cabrão do gato, filho da ponte
Einstein–Rosen, mesmo ou outro, 
clone de si ou anti-matéria ao espelho.
Já não penso no Expresso. Nem na Magazine Littéraire.
Lixe-se a Le Point e o sábado impresso:
os gatos querem dizer olá.
Saio do quiosque, o saco de plástico do Expresso cheio, 
mas qual jornal ou provisões 
para o pensamento semanal decidido em editorial:
penso só no deserto do Arizona
a escorrer território Hopi e nas suas aldeias levantadas
e abandonadas, levantadas e abandonadas:
nómadas de Oríon, os índios, seguem a cintura de estrelas,
mapeiam o céu e no exacto ponto levantam casas de raízes de barro
e seguindo sempre as abandonam depois, fiéis às estrelas,
o céu primeiro, a terra, seu espelho, depois. 
Os índios Hopi esperam o regresso dos seus deuses siderais 
e enquanto isso assinalam com precisão de bordado 
portais nas suas janelas, telhados, quintais, 
wormholes por onde deslize a saudade, o tempo e 
a comunicação privilegiada, na primeira pessoa,
sem mediação de imprensa nem necessidade de carro ou felino.
Volto para casa. Desligo o motor. Mal ponho os pés no chão,
lá está ele, agora frente a frente, sem equívocos,
preto, olhos de fumo infinito. Pergunto-lhe:
que tal é viajar por um túnel de minhoca, 
menino gato mensageiro? Eu sei que estamos todos à espera.
Dos senhores de Oríon, como os Hopi,
ou da vinda de Cristo e da Parusia
em fogo e efeitos especiais de cinema, 
ou de Dom Sebastião, ou do Amor. 


Os gatos são mais espertos, não esperam, vão,
os gatos querem dizer olá.

10 de setembro de 2016

Setúbal, Coimbra e Freixo de Espada à Cinta

SETÚBAL, COIMBRA E FREIXO DE ESPADA À CINTA
Há dias maus,
tão maus, mas tão maus que, 
se não amasse a vida com gana, 
odiava-a.
Quem me dera chicotear aquele
grande cabrão que passa a tarde
a quitar o carro preto mate:
vidros pretos, jantes pretas,
um tubo de escape arrancado
a algum foguete de Cabo Canaveral,
e o paizinho reformado a assistir,
a assentir a bestialidade no passeio, 
os dois de tronco nu, um cheio de esteróides,
o outro cheio do filho. Depois vão para casa os dois.
Vejo cá de cima, o cabrão a urrar e a encher de porrada
o saco de boxe pendurado no limoeiro do quintal
e a encher de porrada e patada a cadela -
não sei como ainda não a matou. E puta da namorada,
cadela de outra espécie, faz o mesmo. Ó irmandade 
dos afectos… porra que só se consegue amar ao espelho!
Não sei o que é pior, se ser a cadela 
das bestas de carro preto quitado para o apocalipse futuro, 
ou ser o cavalo dum cigano que por aqui passa - qual cavalo?
pele a reboque de uns ossos, e vá de chicotada.
E era mesmo com esse chicote que eu os chicoteava de gosto,
ao filho, ao cigano e à cadela de duas patas.
Odeio não o fazer. Ou não fazer que não façam. 
E não o faço por falta de amor.
Não amo aquela trindade de filhos da puta.
Muito menos para os ensinar através do perdão – não há perdão.
Nem amo a cadela nem o cavalo o suficiente 
para chicotear a trindade de filhos da puta.
O amor vê-se. Eu podia roubar a cadela e o cavalo e fugir
com eles para Setúbal, Coimbra, e depois Freixo de Espada à Cinta. 
Mas não os amo, por muito que goste de pensar que sim.
O amor vê-se:
meu amor, minha querida, disseram-me os meus amores,
e puseram-me um par de cornos - é cá uma patada…
ou pior, uma chicotada de cigano, meu amor, minha querida, 
adoro-te, só gosto mais de mim e de um monte de gente antes de ti.
Ninguém me amou mais do que eu amo aquela cadela
ou aquele cavalo. Ninguém me amou e ponto final.
Talvez seja por isso que nunca fui a Setúbal nem a Coimbra.
Nem a lugar nenhum nem a Freixo de Espada à Cinta.

1 de setembro de 2016

Sagrado Coração, a vida é uma coisa, o amor é outra

E de ouro e prata cobrirei o seu manto...

SAGRADO CORAÇÃO, A VIDA É UMA COISA, O AMOR É OUTRA
O filho era alto, o filho era forte, o filho era seu. Desde o primeiro instante soubera que estava de esperanças e daria à luz aquele filho - no Alentejo de então, uma senhora não engravidava nem paria. E soubera de imediato que era um menino, e seria um rapaz, um belo homem, o seu contentamento.
Já tinha uma filha. Esguia e esperta. Porém com uma fraqueza que decerto fora buscar ao pai. Via-se à légua que um homem havia de fazer dela gato e sapato e por isso era preciso ataviar-lhe bem o pensamento, enchê-lo de tudo quanto a fortalecesse, a armasse para que nesse dia por vir, e viria, não se partisse como a vida – não se partiu.
Custou-lhe horrores separar-se daquela filha e enviá-la para fora, para um colégio em condições, mas tinha de ser e só Deus sabia o quanto lhe custava. Se uma mãe vê a fraqueza de um filho e nada faz, merece o filho que tem?
Para o pai a filha não tinha defeito. Podia ficar ali, ir com ele espreitar a madrugada nos campos.... Que orgulho tinha nela quando fazia dançar os cavalos, quando espreitava os curros e dizia, este é uma besta linda de força, ó touro preto. Podia ficar ali, dedicar-se à dressage, ou fazer-se veterinária, gestora, economista, enóloga, não casar nunca, ser o seu braço direito e o esquerdo, enfim, o que quisesse. Mas a mãe que não, não que ela era fraca, tinha uma moleza de coração que era preciso fechar ou havia de dar cabo dela.
O que é isto que as mães sabem? Que além conseguem ver?
E ele, está bem Maria Antónia. Nunca em tempo algum conseguira dizer não à mulher. Baixa, magra, elegante. Desprendia-se dela uma força que punha as criadas a chiar sem dizer um ai. Dava conta de tudo. Metia-se em tudo. Naquela altura ganhava-se uma miséria na apanha da azeitona, na cortiça... O campo ou era patrão ou era miséria. Homens e mulheres chegavam a pé, um quase nada no farnel, subiam para a camioneta, os capatazes de marmita e más palavras e aquilo revirava-lhe o juízo.
Pôs tudo a mexer. O padre, devota como era, com livro de cheques aberto, que sim, que sim, pois com certeza, a caridade era a obra do cristão. Qual caridade? É um dever! Que sim, precisamente, um dever e uma virtude. Qual virtude? O privilégio vem com a responsabilidade. Se não a conhecesse havia de julgar que o comunismo lhe andava no sangue. Qual comunismo? Benza-o Deus que só diz disparates. Era assim, atrevia-se a abençoar o padre. Fosse como fosse, um camião de caixa aberta passou a ir deixar os meninos à escola de lancheira cheia que ela não admitia que os filhos dos seus trabalhadores comessem a fome e a reguada destinada aos pobres. Nem que as meninas em vez de irem para a escola fossem para a costura. Isso é que era bom. Com os seus trabalhadores, não, que ela era mulher e sabia muito bem o que era ter por pai, um homem que não distingue uma mulher duma égua.
O marido bem lhe apontava este excesso de possessivos: os meus trabalhadores, as minhas crianças, a minha escola, o meu gado, o meu fruto. E ela arrematava, pois se Deus mos deu, quem os há-de cuidar? Não tos deu, emprestou-tos. Que nós morremos, Maria Antónia, e a terra fica.
O certo é que era adorada. Era mãe e era juiz e palavra de lei. Quem entrasse pelos portões da herdade, o que queria era não ter de sair, que pertencer a alguém assim parecia melhor do que ser livre. O que era lá isso de ser livre de barriga vazia e uma fila de filhos de boca aberta?
A ideia de reforma agrária ali não criava raízes. Nem quando apareceu por lá, ao calor de Agosto, José Augusto, ex-estudante de engenharia com passagem secreta por Moscovo, agora a caminho da clandestinidade pela via iniciática do Alto Alentejo.
Nessa altura, Ana, a filha mais velha, depois de anos de internamento na Suiça e do surpreendente curso de medicina, de onde lhe viera a veia? anunciara que pretendia especializar-se em psiquiatria. Aquela medicina sem Deus, sem vísceras, sem sangue, sem cabeceira de doente arrancado à morte à força de tubos e bisturis, parecia à mãe menos medicina. Para mais era uma medicina sem Deus: se a cruz de Cristo era nítida e limpa nas paredes das enfermarias, nos gabinetes dos psiquiatras não estava a imaginar que lá houvesse alguma. Ó mãe, mas onde é que vai buscar essas ideias? Então essa gente não é tudo judeus? Pensarás que não leio essas porcarias? Leio tudo. Tudo que o mundo não me passa ao lado. Isso é lodo, se aí entras não sais que não está feito para se sair, está feito para afundar.
A vastidão das planícies e o céu aberto sufocavam Ana. A mãe, aquela mulher pequenina, sufocava-a mais do que as planícies, estendia-se mais do que o céu sem fim. Era isso. A mãe era aquele céu sem fim e até ao chão. Nunca, nunca havia de voltar para Portugal. Se não fosse o pai nem nas férias viria. E o irmão. Adorava o irmão.
O irmão era piloto aviador. Na Força Aérea, pois claro. Tenente. O menino dos olhos da mãe. Fazia razias por cima da casa grande, de cabeça para baixo, um pássaro brincalhão, para dizer olá à mãe que sufocava de orgulho daquele filho todo igual a si, mas melhor, e dizia ao marido, João, diz ao teu filho que não quero loucuras, onde já se viu, arranca-me as telhas. Adorava. Tinha o grande oratório de casa todo em luz, velas, lamparinas noite e dia, um jardim aos pés dos anjos e Santos, Santos Apóstolos, e à cabeça, Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Era um móvel imenso, aquela cómoda-oratório oitocentista, uma coisa feia do tempo de Dom João V, ostensiva no seu rococó flamejante, entalhado, ricamente dourado nas quatro gavetas, na grade por cima, lacado e pintado nas portas, e outra vez dourado por dentro. Um monstro refulgente que cuspia luz e fogo nos olhos de quem entrasse na sala.
Na igreja da sua devoção Maria Antónia era igual. Nada faltava jamais no altar de Nossa Senhora da Conceição. E, para atestar a sua humildade, ela própria limpava com as suas mãos cada voluta entalhada de barroco dourado, e ai se do manto bordado a ouro e prata se desprendesse um fio, ela, era ela que o bordava. Para alguma coisa tinha servido a educação de égua a que o pai a obrigara: se quisesse desenharia, se quisesse bordaria, se quisesse tocaria piano e cantaria, comporia arranjos de flores de pasmar. Não queria nada disso, nada disso fazia. Só bordara a primeira roupa dos filhos para o primeiro dia sobre esta Terra, o primeiro lençol. O resto, só pelos anjos e Santos e Nossa Senhora da Conceição.
Nesse Verão tórrido, Ana conheceu José Augusto que andava numa acção de consciencialização mal sucedida na quinta. O povo resistia-lhe, não se sentia oprimido nem explorado pelo patronato por mais que ele lhes demonstrasse por a mais b que sim, e da pior maneira, eram escravos de boa-vontade.
Não inflamou os trabalhadores mas incendiou a filha dos opressores de tal maneira que lhe fez um filho que ela, moderna e socialista, havia de parir. Adeus psico-França, olá Portugal. Como eram ambos independentes e contra a exploração do homem pelo homem, só aceitaram de presente um apartamento amplo, arejado e bem mobilado na Avenida de Roma, seis assoalhadas, duas casas de banho, quarto independente para empregada ao lado da cozinha e uma mesada – o que ela ganhava no hospital ainda sem a especialidade era nada, e ele voltara à engenharia no Técnico por artes mágicas e sem a polícia nos calcanhares e vagamente cuspido pelos camaradas. O comunismo era o estado primitivo do socialismo. E pronto.
Infelizmente, conforme a mãe vira sabe-se lá como na infância da filha, aquele marido com uma mulher atrás de outra, era a sua fraqueza exposta à luz de Freud, Bion e Klein, a sua própria santíssima trindade, sem lamparinas nem velas e pelas estantes em lugar do oratório – cada um organiza o céu e a terra e os dias entre eles como pode e sabe. Mesmo assim, aceitando ela aquilo, porquê? três filhos e inúmeras amantes depois, o marido deixou-a por uma colega. Nem sequer mais nova. Estava farto da filha adolescente que o fizera avô antes de tempo, toxicodependente para além de qualquer psicomerda que a justificasse e os outros dois não precisavam dele, eram orientados. A mulher fizera-se avó porque não aceitara, por respeito à trindade, ser mãe do filho da filha. Se a mulher não se abalava, se a mulher era um pilar resistente a tudo e que tudo explicava, ele estava farto, farto, farto. Quem tinha razão era a velha. Era doida mas não era maluca. Devia ter encarcerado a filha até lhe sair do sangue e do pensamento a vontade da droga. Agora a andar de centro de desintoxicação em centro de desintoxicação, e nada, o pai do seu neto na alheta, outro drogado, não podia mais. Estava farto. Farto da superioridade da  mulher, farto dos filhos, do neto pequeno no berço a berrar a ressaca da mãe.
A velha doida era nem mais nem menos do que Maria Antónia.
Em 69 o filho fora para Angola. Contra a sua vontade de mãe. Dissera ao marido, vamos ficar sem ele. Cala-te. E foi a primeira vez que a mandou calar. Ele vai fazer uma guerra que não quer: não o ouviste dizer que a descolonização tinha de ser feita? Ouviste ou não ouviste? Não percebes que vai contra ele mesmo matar gente que está a lutar pelo que é seu? Não o ouviste dizer do embargo de armas da ONU? Não percebes que por causa disso os aviões que temos são uma merda e os russos não andam a brincar? Maria Antónia, acalma-te! As coisas não são assim tão simples… a mania que tu tens de simplificar tudo até ao osso. São exactamente assim. Faz qualquer coisa, estou-te a dizer para fazeres qualquer coisa.
Ele não fez. O ultramar também era dele. Fez ela. Gastou o genuflexório que tinha diante do oratório. Na igreja, o altar de nossa Senhora da Conceição luzia de ouro, de chamas, de flores.
Quando soube que o filho tinha sido abatido, não chorou uma lágrima. Mas foi um horror para uma assistência muda e imóvel. Tirou da parede os registos, mesmo os que herdara da sua avó, os da sua mãe, atirou-os ao chão, pisou-os. Arrastou ela mesma o oratório até ao alpendre e depois mais para diante. Atirou-o ao chão a gritos e pontapés. Pegou em cada Santo, anjo, Apóstolo, Nossa Senhora amada, e insultou-os de tudo quando sabia e até do que nem sabia conhecer. De traidores, desalmados, merdas, incapazes, filhos da puta amaldiçoados para todo o sempre. Pegou-lhes fogo. Ardam! Vestiu-se de preto e nunca mais dirigiu a palavra ao marido que comeu o desgosto com o silêncio, voltado cada vez mais para a filha e os netos.
Quando a filha lhe foi mostrar o bisneto, veja mãe, o menino, olhou-a nos olhos e disse-lhe: não aprendeste nada com a morte do teu irmão? Devias ter levado a tua filha a fazer um aborto, devias tê-la fechado até que o mal lhe saísse do sangue e da cabeça. Mãe, como é que é capaz de dizer isso? É uma vida. Não aprendeste nada: a vida é uma coisa, o amor é outra.

21 de agosto de 2016

Estranho mundo



A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro...


Estranho Mundo
Tenho rosas de plástico, bem, de pétalas de tecido, um tecido bera, uma fibra barata, mas caules e espinhos de puro plástico verde, numa jarra de vidro, na mesa-de-cabeceira. Estranho mundo. Desgosto tanto de flores artificiais que só eu sei. E no entanto.
O meu sobrinho, o mais novo, é um sedutor: agrada para se sentir amado. Entra no meu quarto, barra-se literalmente com os meus cremes, põe o hidratante de rosto nos pés - ah, sim, é verdade, gosto destas coisas à antigamente, como a minha avó fazia quando eu era pequena, não ponho os cremes na casa de banho. No quarto. Gosto do conforto da cadeira, espreito o espelho, enfim, privilégios de quem dorme sozinha no meio da bela cama de casal de lençóis tão bem esticados e almofadas de afundar. Três. Estou convencida, aliás, de que se me desse para ser endinheirada, o que comprava era uma cama Hästens – tive insónias durante mil anos, agora que já durmo, ó Deus, como gosto de dormir. O meu sobrinho mais novo, o sedutor terribilis, quando está de visita, entra-me no quarto, ao sábado, às sete da manhã com um avião Antonov que faz todos os barulhos de motores e acende mais luzes do que uma feira e diz-me: está um lindo dia de sol! Também pode ser: está um lindo dia de chuva! E o cabrão do Antonov a descolar, brrrrrmmmm, a piscar no escuro absoluto. Tenho sorte. Sempre tive bom acordar, até quando acordava de não dormir. Só uma coisa me faz acordar a meter medo ao diabo. Já contei. Martelos. Berbequins. Afins. Depois, vai à minha mesa-de- cabeceira, enfia o nariz nas rosas de plástico: hum… cheiram bem, que lindas! Não me desmancho, nem o desmancho: obrigada, meu querido, a tia adora estas rosas.
E adoro. Tanto quando as desgosto, e se as desgosto… Explico.
Sou católica. Sou divorciada, isso é um facto e por causa dele já ouvi dizer que não sou católica. Discordo. Sou uma católica que quis divorciar-se. Ámen. Também já me disseram que a comunhão me está proibida. Pois seja, mas sinto-me sempre bem-vinda e convidada para a ceia do Senhor. Poderei não ser digna de que Entreis em minha morada, porém, salva, fui de certeza, e depois disto digam quantos nãos quiserem. O único sim de que preciso, tenho-o. Sou católica, sou divorciada, e tenho rosas de plástico na mesa-de-cabeceira por causa de um sonho. Já me disseram, que horror, isso é uma superstição, um católico não faria isso. Tanto faria que eu fiz. A vida sempre se deu a conhecer por todos os meios. Mesmo sonhos, vozes, sarças ardentes, visões aladas, carros voadores. Silêncios. Imaginações. Sei lá. Coisas de internar gente por muito menos. Então.
Estava a dormir. Sonhei que estava numa loja desconhecida. E de repente era um corredor muito estreito e alto ladeado de roupa. Umas escadas. Ao cimo, à esquerda, um balde no chão cheio de rosas de todas as cores, e diante de mim infinitas prateleiras de louça. E ouvia. Sem palavras. Um entendimento. No sonho, claro. Leva as rosas vermelhas. Corta todos os botões e fica só com as rosas abertas. Põe junto à cama numa jarra de vidro transparente. E eu: e os espinhos, corto? Não os espinhos pertencem à natureza da rosa. E a seguir faço o quê? Nada. As rosas abriram.
O certo é que quando acordei, pensei: pelo sim, pelo não, vou à florista quando vier do ginásio. Levanto-me e tal e mais tal, e ginásio comigo. Estava no carro quando reparo, ao ver-me no retrovisor, que tenho o cabelo solto. Parece mentira. Nunca por nunca. Mas foi verdade naquele dia. Estaciono. Entro numa loja onde nunca estive – ia só comprar um elástico de cabelo, um daqueles fios de telefone para fazer um rabo-de-cavalo. Foi a primeira e única vez, até hoje, que entrei na loja dos chineses. Estou ao balcão da entrada. Há de um tudo. Até champô. Olho para a esquerda. O imenso corredor do sonho fez-me largar o elástico no balcão, à entrada, a carteira, as chaves do carro. Nem o incenso a que faço uma alergia tremenda me impediu ou impediria de avançar. Ao fundo, um lance de escadas. Quando estou a subi-las sinto cá uma irrealidade… Déjà vu do caraças que até mal disposta fiquei, e no chão, outra vez à esquerda, um balde cheio de rosas medonhas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas. Cada cor mais feia do que a outra.
Pego nas rosas vermelhas, todas, como se fossem o bem mais precioso do mundo - sei lá eu se não são. Se alguém me tentasse tirar uma delas que fosse, havia de ser um agarrem-me, senão eu mato. Olho em volta. Ai a puta da jarra também aqui está? Na posse do meu sonho, raspo-me dali. Chego ao balcão tão grata por este estranho mundo que levo meia dúzia de fitas para o cabelo, elásticos que jamais usarei e duas bandoletes de plástico feias como os cornos. Lixe-se o ginásio.
Sempre fui bem mandada. Talvez por ter sido educada por uma avó autoritária. Chego a casa. Pego na tesoura de peixe e vá de cortar as cabeças dos botões de rosas – sinto-me a rainha de copas. Quando estou a cortar os botões, percebo uma vírgula, umazinha só, do mistério: cortei tudo quanto não crescia. E de repente uma torrente, um rosário de vírgulas: rosa-cálice, taça da vida, rosa-sangue, rosácea, rosa mística, se até o burro de Apuleio se fez de novo homem… Lavo as rosas, lavo jarra, deixo secar. Ponho a jarra cheia de rosas na mesa-de-cabeceira.
Desde esse dia até hoje, um depois do outro dos sonhos que tive, um só de cada vez, um, dois, três, um dia dez? dos jamais acreditei ver realizados, quis acontecer e aconteceu. Estranho mundo amado, obrigada.

8 de agosto de 2016

Houry Gebeshian sabe um segredo

Fotografei a TV. É preciso dar provas a São Tomé,
perdão, a Thomas Bernhard, lá no além...

É domingo e está calor sem vento que nos salve.
De repente, percebo porque Thomas Bernhard, epítome do adulto de consumado desencanto, não conseguiu - não é preciso perguntar não conseguiu o quê? Ele escreveu num dos seus poemas Amanhã criarei/ algo de transitório para a imortalidade. Nada do que é transitório é imortal. Tudo quanto interessa à imortalidade é feito do que dura, do amor, da morte, do medo, da coragem disso tudo no pão nosso de cada dia.
Foi agora mesmo numa brisa fresquíssima.
Estava a ver, vejo sempre, assistia com o meu avô e não sei se ainda não é com ele que estou a assistir ao apuramento para as finais de ginástica nos Olímpicos.  E vem esta miúda, e zás, corrige o verso do Bernhard, e repõe o tempo na eternidade. Amor. Alegria. O que fica. Ninguém sorri nos exercícios de trave. Já vi morder os lábios, sorrir não. A arménia Houry Gebeshian sorriu. Várias vezes. É maravilhoso quando se sorri à vida só da alegria de saber que se está a viver. Difícil também é bom. É desafiador. É pulso e bate forte. E como se isso não bastasse, mal termina o exercício, abraça a trave e dá-lhe um beijo. Há lá melhor verso do que esta acção de graças?

Exhibit number 2, tio Thomas...

15 de julho de 2016

A minha gente


A MINHA GENTE
à minha gente
Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.
Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas - nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas - eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.
E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
- Foi ao Mariinski?
E ele:
- Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
- Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
- Fui, fui…
- Quem?
- A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
- Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.
Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.
O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.
Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.