25 de setembro de 2016

Minecraft de retrete

Uma cidade?
O meu sobrinho mais novo está numa fase de algum interesse escatológico - não, não me estou a referir ao Apocalipse, ao tempo das Revelações. Em simultâneo, adora Minecraft - um videogame de construção em 3D no qual tem de conseguir recursos, construir, manter e defender o mundo criado por si. 
Veio ter comigo a correr, segurou-me na mão:
- Depressa, depressa, venha ver!
Diante da urgência, largo texto que escrevia e fui. Para minha surpresa, levou-me à casa de banho. Apontou a retrete e disse com orgulho:
- Tanto! Fiz uma cidade...

23 de setembro de 2016

A princesa dança, tem sapo ou descansa?

Posso jurar que há un agent provocateur por aqui... A princesa dança, tem sapo ou descansa?








22 de setembro de 2016

Pró menino e prá menina


PRÓ MENINO E PRÁ MENINA
Teria doze anos quando a voz de Lena d’Água inundou rádio e rua com o refrão olha o robot, é pró menino e prá menina, olha. Nunca imaginei, foi viver no tempo em que poderia ter um robot. E não estou a falar do aspirador que circula pela casa a devorar pó e fios de tapete. Estou a falar de um senhor robot, um homem objecto, perdão, um andróide objecto, um robot sexual.
Lembra-se de Blade Runner? Pois bem, a empresa RealDolls ainda não lhe entregará à porta de casa a modelo básico de prazer que era a Darryl Hannah no filme, mas já despacha para todo mundo bonecas e bonecos de silicone com alto grau de realismo. Conto-lhe um detalhe, ou melhor, trinta. Trinta são as cores possíveis para os mamilos, trinta os tamanhos. Até a manicure é personalizada.
O passo seguinte é dotá-los de inteligência artificial. Como na letra da música: está pronto a ser programado, olha. Volto ao cinema.
Lembra-se do filme Her, em português Uma História de Amor entre um homem e o seu sistema operativo, aquela inteligência viva que falava com a voz de Scarlett Johansson?
Escolher um sexbot de qualquer natureza, à la carte, já não é ficção científica. E dizermos, ah, são bonecos, não são pessoas, em nada reduz a intensidade da relação possível. Basta ver a forma como nos relacionamos com os objectos: representam-nos. São extensões nossas. Olhe, como uma criança e a sua chucha. Nós e os nossos carros, carteiras, smartphones… são nós, não é?
O meu smartphone, pensamos, está ali, ao meu dispor, mas a verdade é que uma sms chega, um e-mail, uma chamada, e quem está ao dispor sou eu, somos nós, numa relação de co-dependência. Boa e má. Como todas as relações. Os nossos objectos inanimados estão vivíssimos. Tenho uma banda de fitness no pulso que me informa acerca de mim, dá-me os parabéns, solta foguetes quando atinjo os objectivos: é a minha cheerleader particular. Quando ela me faz a festa e eu lhe sorrio de volta, para quem estou eu a sorrir?
Agora imagine que conhece alguém dotado das características que mais a atraem: giro, culto, organizado, descontraído. Um pensamento que a desafia. E conversa, ri, alguém que a beija na boca e diz boa-noite, minha querida. Alguém por quem se apaixonasse. Não é assim tão difícil.
Quem é que nunca procurou um colega de escola no Facebook? É a tecnologia a facilitar e mediar o contacto social. No degrau seguinte a tecnologia cria e provê o contacto social. Agora, onde leu contacto social, leia sexual. Ou amoroso. Com alguém por quem se apaixonasse. Vê como está no advento da próxima revolução sexual? É a revolução sexual robótica, pró menino e pra menina, olha.

Publicado na Revista Epicur, Verão, 2016


19 de setembro de 2016

iRobot

Adeus colégio... Sou um robot!

Talvez não tenha tido ainda a oportunidade de contar que o meu sobrinho mais novo é, como direi, um tanto obcecado com o iPad, a carga do iPad, o carregador do iPad: ver a percentagem de bateria a descer, provoca-lhe vertigens - enfim, efeitos colaterais das liberdades ipádicas das férias de Verão que terminaram para seu grande desgosto. 
Todos os dias, desde o primeiro dia de aulas, pergunta se tem mesmo de ir para o colégio. Se não pode ir trabalhar com a mãe. Se não pode ficar em casa. Após uma semana de aulas, informou que já chegava e podiam ir de férias. Confrontado com a realidade, jogou as mãos ao rosto, e disse:
- Oh não...
Felizmente, chegou o fim-de-semana - este acabadinho de gastar. Sábado, às 07:02, portanto, dois minutos depois da hora a que se levanta para ir para o colégio, já em pleno acordo com a biologia escolar, pôs a cabeça dentro do quarto dos pais e sabendo que mãe tem um sono leve, disse baixinho:
- Mãe, porque é a noite dura tanto tempo? Já estou completamente carregado...
- Mas quem carrega são os robots!
- Uau, sou um robot?! Pensava que era um menino! Já não vou mais ao colégio...

17 de setembro de 2016

Os gatos querem dizer olá

OS GATOS QUEREM DIZER OLÁ

Saio de casa. Estou a abrir a porta do carro
e o gato no telhado baixo, em frente,
preto, olhos cinzentos, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem um ai de adivinha, 
imóvel, olha-me, aquela íris de fumo, 
e a pupila de fundo falso atrás de fundo falso:
onde acaba o ilusionismo começa a magia -
magia é amanhã da ciência, e ontem.
Chego ao quiosque. Estaciono. Saio do carro
e um gato no telhado baixo, o mesmo gato 
uns quilómetros abaixo? preto, olhos cinzentos
de fumo sem fundo, esguio e forte e jovem, 
fixa-me esfinge, e nem uma ai de adivinha, 
imóvel, olha-me. Ai o cabrão do gato, filho da ponte
Einstein–Rosen, mesmo ou outro, 
clone de si ou anti-matéria ao espelho.
Já não penso no Expresso. Nem na Magazine Littéraire.
Lixe-se a Le Point e o sábado impresso:
os gatos querem dizer olá.
Saio do quiosque, o saco de plástico do Expresso cheio, 
mas qual jornal ou provisões 
para o pensamento semanal decidido em editorial:
penso só no deserto do Arizona
a escorrer território Hopi e nas suas aldeias levantadas
e abandonadas, levantadas e abandonadas:
nómadas de Oríon, os índios, seguem a cintura de estrelas,
mapeiam o céu e no exacto ponto levantam casas de raízes de barro
e seguindo sempre as abandonam depois, fiéis às estrelas,
o céu primeiro, a terra, seu espelho, depois. 
Os índios Hopi esperam o regresso dos seus deuses siderais 
e enquanto isso assinalam com precisão de bordado 
portais nas suas janelas, telhados, quintais, 
wormholes por onde deslize a saudade, o tempo e 
a comunicação privilegiada, na primeira pessoa,
sem mediação de imprensa nem necessidade de carro ou felino.
Volto para casa. Desligo o motor. Mal ponho os pés no chão,
lá está ele, agora frente a frente, sem equívocos,
preto, olhos de fumo infinito. Pergunto-lhe:
que tal é viajar por um túnel de minhoca, 
menino gato mensageiro? Eu sei que estamos todos à espera.
Dos senhores de Oríon, como os Hopi,
ou da vinda de Cristo e da Parusia
em fogo e efeitos especiais de cinema, 
ou de Dom Sebastião, ou do Amor. 


Os gatos são mais espertos, não esperam, vão,
os gatos querem dizer olá.

10 de setembro de 2016

Setúbal, Coimbra e Freixo de Espada à Cinta

SETÚBAL, COIMBRA E FREIXO DE ESPADA À CINTA
Há dias maus,
tão maus, mas tão maus que, 
se não amasse a vida com gana, 
odiava-a.
Quem me dera chicotear aquele
grande cabrão que passa a tarde
a quitar o carro preto mate:
vidros pretos, jantes pretas,
um tubo de escape arrancado
a algum foguete de Cabo Canaveral,
e o paizinho reformado a assistir,
a assentir a bestialidade no passeio, 
os dois de tronco nu, um cheio de esteróides,
o outro cheio do filho. Depois vão para casa os dois.
Vejo cá de cima, o cabrão a urrar e a encher de porrada
o saco de boxe pendurado no limoeiro do quintal
e a encher de porrada e patada a cadela -
não sei como ainda não a matou. E puta da namorada,
cadela de outra espécie, faz o mesmo. Ó irmandade 
dos afectos… porra que só se consegue amar ao espelho!
Não sei o que é pior, se ser a cadela 
das bestas de carro preto quitado para o apocalipse futuro, 
ou ser o cavalo dum cigano que por aqui passa - qual cavalo?
pele a reboque de uns ossos, e vá de chicotada.
E era mesmo com esse chicote que eu os chicoteava de gosto,
ao filho, ao cigano e à cadela de duas patas.
Odeio não o fazer. Ou não fazer que não façam. 
E não o faço por falta de amor.
Não amo aquela trindade de filhos da puta.
Muito menos para os ensinar através do perdão – não há perdão.
Nem amo a cadela nem o cavalo o suficiente 
para chicotear a trindade de filhos da puta.
O amor vê-se. Eu podia roubar a cadela e o cavalo e fugir
com eles para Setúbal, Coimbra, e depois Freixo de Espada à Cinta. 
Mas não os amo, por muito que goste de pensar que sim.
O amor vê-se:
meu amor, minha querida, disseram-me os meus amores,
e puseram-me um par de cornos - é cá uma patada…
ou pior, uma chicotada de cigano, meu amor, minha querida, 
adoro-te, só gosto mais de mim e de um monte de gente antes de ti.
Ninguém me amou mais do que eu amo aquela cadela
ou aquele cavalo. Ninguém me amou e ponto final.
Talvez seja por isso que nunca fui a Setúbal nem a Coimbra.
Nem a lugar nenhum nem a Freixo de Espada à Cinta.

1 de setembro de 2016

Sagrado Coração, a vida é uma coisa, o amor é outra

E de ouro e prata cobrirei o seu manto...

SAGRADO CORAÇÃO, A VIDA É UMA COISA, O AMOR É OUTRA
O filho era alto, o filho era forte, o filho era seu. Desde o primeiro instante soubera que estava de esperanças e daria à luz aquele filho - no Alentejo de então, uma senhora não engravidava nem paria. E soubera de imediato que era um menino, e seria um rapaz, um belo homem, o seu contentamento.
Já tinha uma filha. Esguia e esperta. Porém com uma fraqueza que decerto fora buscar ao pai. Via-se à légua que um homem havia de fazer dela gato e sapato e por isso era preciso ataviar-lhe bem o pensamento, enchê-lo de tudo quanto a fortalecesse, a armasse para que nesse dia por vir, e viria, não se partisse como a vida – não se partiu.
Custou-lhe horrores separar-se daquela filha e enviá-la para fora, para um colégio em condições, mas tinha de ser e só Deus sabia o quanto lhe custava. Se uma mãe vê a fraqueza de um filho e nada faz, merece o filho que tem?
Para o pai a filha não tinha defeito. Podia ficar ali, ir com ele espreitar a madrugada nos campos.... Que orgulho tinha nela quando fazia dançar os cavalos, quando espreitava os curros e dizia, este é uma besta linda de força, ó touro preto. Podia ficar ali, dedicar-se à dressage, ou fazer-se veterinária, gestora, economista, enóloga, não casar nunca, ser o seu braço direito e o esquerdo, enfim, o que quisesse. Mas a mãe que não, não que ela era fraca, tinha uma moleza de coração que era preciso fechar ou havia de dar cabo dela.
O que é isto que as mães sabem? Que além conseguem ver?
E ele, está bem Maria Antónia. Nunca em tempo algum conseguira dizer não à mulher. Baixa, magra, elegante. Desprendia-se dela uma força que punha as criadas a chiar sem dizer um ai. Dava conta de tudo. Metia-se em tudo. Naquela altura ganhava-se uma miséria na apanha da azeitona, na cortiça... O campo ou era patrão ou era miséria. Homens e mulheres chegavam a pé, um quase nada no farnel, subiam para a camioneta, os capatazes de marmita e más palavras e aquilo revirava-lhe o juízo.
Pôs tudo a mexer. O padre, devota como era, com livro de cheques aberto, que sim, que sim, pois com certeza, a caridade era a obra do cristão. Qual caridade? É um dever! Que sim, precisamente, um dever e uma virtude. Qual virtude? O privilégio vem com a responsabilidade. Se não a conhecesse havia de julgar que o comunismo lhe andava no sangue. Qual comunismo? Benza-o Deus que só diz disparates. Era assim, atrevia-se a abençoar o padre. Fosse como fosse, um camião de caixa aberta passou a ir deixar os meninos à escola de lancheira cheia que ela não admitia que os filhos dos seus trabalhadores comessem a fome e a reguada destinada aos pobres. Nem que as meninas em vez de irem para a escola fossem para a costura. Isso é que era bom. Com os seus trabalhadores, não, que ela era mulher e sabia muito bem o que era ter por pai, um homem que não distingue uma mulher duma égua.
O marido bem lhe apontava este excesso de possessivos: os meus trabalhadores, as minhas crianças, a minha escola, o meu gado, o meu fruto. E ela arrematava, pois se Deus mos deu, quem os há-de cuidar? Não tos deu, emprestou-tos. Que nós morremos, Maria Antónia, e a terra fica.
O certo é que era adorada. Era mãe e era juiz e palavra de lei. Quem entrasse pelos portões da herdade, o que queria era não ter de sair, que pertencer a alguém assim parecia melhor do que ser livre. O que era lá isso de ser livre de barriga vazia e uma fila de filhos de boca aberta?
A ideia de reforma agrária ali não criava raízes. Nem quando apareceu por lá, ao calor de Agosto, José Augusto, ex-estudante de engenharia com passagem secreta por Moscovo, agora a caminho da clandestinidade pela via iniciática do Alto Alentejo.
Nessa altura, Ana, a filha mais velha, depois de anos de internamento na Suiça e do surpreendente curso de medicina, de onde lhe viera a veia? anunciara que pretendia especializar-se em psiquiatria. Aquela medicina sem Deus, sem vísceras, sem sangue, sem cabeceira de doente arrancado à morte à força de tubos e bisturis, parecia à mãe menos medicina. Para mais era uma medicina sem Deus: se a cruz de Cristo era nítida e limpa nas paredes das enfermarias, nos gabinetes dos psiquiatras não estava a imaginar que lá houvesse alguma. Ó mãe, mas onde é que vai buscar essas ideias? Então essa gente não é tudo judeus? Pensarás que não leio essas porcarias? Leio tudo. Tudo que o mundo não me passa ao lado. Isso é lodo, se aí entras não sais que não está feito para se sair, está feito para afundar.
A vastidão das planícies e o céu aberto sufocavam Ana. A mãe, aquela mulher pequenina, sufocava-a mais do que as planícies, estendia-se mais do que o céu sem fim. Era isso. A mãe era aquele céu sem fim e até ao chão. Nunca, nunca havia de voltar para Portugal. Se não fosse o pai nem nas férias viria. E o irmão. Adorava o irmão.
O irmão era piloto aviador. Na Força Aérea, pois claro. Tenente. O menino dos olhos da mãe. Fazia razias por cima da casa grande, de cabeça para baixo, um pássaro brincalhão, para dizer olá à mãe que sufocava de orgulho daquele filho todo igual a si, mas melhor, e dizia ao marido, João, diz ao teu filho que não quero loucuras, onde já se viu, arranca-me as telhas. Adorava. Tinha o grande oratório de casa todo em luz, velas, lamparinas noite e dia, um jardim aos pés dos anjos e Santos, Santos Apóstolos, e à cabeça, Nossa Senhora da Conceição, Rainha e Padroeira de Portugal. Era um móvel imenso, aquela cómoda-oratório oitocentista, uma coisa feia do tempo de Dom João V, ostensiva no seu rococó flamejante, entalhado, ricamente dourado nas quatro gavetas, na grade por cima, lacado e pintado nas portas, e outra vez dourado por dentro. Um monstro refulgente que cuspia luz e fogo nos olhos de quem entrasse na sala.
Na igreja da sua devoção Maria Antónia era igual. Nada faltava jamais no altar de Nossa Senhora da Conceição. E, para atestar a sua humildade, ela própria limpava com as suas mãos cada voluta entalhada de barroco dourado, e ai se do manto bordado a ouro e prata se desprendesse um fio, ela, era ela que o bordava. Para alguma coisa tinha servido a educação de égua a que o pai a obrigara: se quisesse desenharia, se quisesse bordaria, se quisesse tocaria piano e cantaria, comporia arranjos de flores de pasmar. Não queria nada disso, nada disso fazia. Só bordara a primeira roupa dos filhos para o primeiro dia sobre esta Terra, o primeiro lençol. O resto, só pelos anjos e Santos e Nossa Senhora da Conceição.
Nesse Verão tórrido, Ana conheceu José Augusto que andava numa acção de consciencialização mal sucedida na quinta. O povo resistia-lhe, não se sentia oprimido nem explorado pelo patronato por mais que ele lhes demonstrasse por a mais b que sim, e da pior maneira, eram escravos de boa-vontade.
Não inflamou os trabalhadores mas incendiou a filha dos opressores de tal maneira que lhe fez um filho que ela, moderna e socialista, havia de parir. Adeus psico-França, olá Portugal. Como eram ambos independentes e contra a exploração do homem pelo homem, só aceitaram de presente um apartamento amplo, arejado e bem mobilado na Avenida de Roma, seis assoalhadas, duas casas de banho, quarto independente para empregada ao lado da cozinha e uma mesada – o que ela ganhava no hospital ainda sem a especialidade era nada, e ele voltara à engenharia no Técnico por artes mágicas e sem a polícia nos calcanhares e vagamente cuspido pelos camaradas. O comunismo era o estado primitivo do socialismo. E pronto.
Infelizmente, conforme a mãe vira sabe-se lá como na infância da filha, aquele marido com uma mulher atrás de outra, era a sua fraqueza exposta à luz de Freud, Bion e Klein, a sua própria santíssima trindade, sem lamparinas nem velas e pelas estantes em lugar do oratório – cada um organiza o céu e a terra e os dias entre eles como pode e sabe. Mesmo assim, aceitando ela aquilo, porquê? três filhos e inúmeras amantes depois, o marido deixou-a por uma colega. Nem sequer mais nova. Estava farto da filha adolescente que o fizera avô antes de tempo, toxicodependente para além de qualquer psicomerda que a justificasse e os outros dois não precisavam dele, eram orientados. A mulher fizera-se avó porque não aceitara, por respeito à trindade, ser mãe do filho da filha. Se a mulher não se abalava, se a mulher era um pilar resistente a tudo e que tudo explicava, ele estava farto, farto, farto. Quem tinha razão era a velha. Era doida mas não era maluca. Devia ter encarcerado a filha até lhe sair do sangue e do pensamento a vontade da droga. Agora a andar de centro de desintoxicação em centro de desintoxicação, e nada, o pai do seu neto na alheta, outro drogado, não podia mais. Estava farto. Farto da superioridade da  mulher, farto dos filhos, do neto pequeno no berço a berrar a ressaca da mãe.
A velha doida era nem mais nem menos do que Maria Antónia.
Em 69 o filho fora para Angola. Contra a sua vontade de mãe. Dissera ao marido, vamos ficar sem ele. Cala-te. E foi a primeira vez que a mandou calar. Ele vai fazer uma guerra que não quer: não o ouviste dizer que a descolonização tinha de ser feita? Ouviste ou não ouviste? Não percebes que vai contra ele mesmo matar gente que está a lutar pelo que é seu? Não o ouviste dizer do embargo de armas da ONU? Não percebes que por causa disso os aviões que temos são uma merda e os russos não andam a brincar? Maria Antónia, acalma-te! As coisas não são assim tão simples… a mania que tu tens de simplificar tudo até ao osso. São exactamente assim. Faz qualquer coisa, estou-te a dizer para fazeres qualquer coisa.
Ele não fez. O ultramar também era dele. Fez ela. Gastou o genuflexório que tinha diante do oratório. Na igreja, o altar de nossa Senhora da Conceição luzia de ouro, de chamas, de flores.
Quando soube que o filho tinha sido abatido, não chorou uma lágrima. Mas foi um horror para uma assistência muda e imóvel. Tirou da parede os registos, mesmo os que herdara da sua avó, os da sua mãe, atirou-os ao chão, pisou-os. Arrastou ela mesma o oratório até ao alpendre e depois mais para diante. Atirou-o ao chão a gritos e pontapés. Pegou em cada Santo, anjo, Apóstolo, Nossa Senhora amada, e insultou-os de tudo quando sabia e até do que nem sabia conhecer. De traidores, desalmados, merdas, incapazes, filhos da puta amaldiçoados para todo o sempre. Pegou-lhes fogo. Ardam! Vestiu-se de preto e nunca mais dirigiu a palavra ao marido que comeu o desgosto com o silêncio, voltado cada vez mais para a filha e os netos.
Quando a filha lhe foi mostrar o bisneto, veja mãe, o menino, olhou-a nos olhos e disse-lhe: não aprendeste nada com a morte do teu irmão? Devias ter levado a tua filha a fazer um aborto, devias tê-la fechado até que o mal lhe saísse do sangue e da cabeça. Mãe, como é que é capaz de dizer isso? É uma vida. Não aprendeste nada: a vida é uma coisa, o amor é outra.

21 de agosto de 2016

Estranho mundo



A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro...


Estranho Mundo
Tenho rosas de plástico, bem, de pétalas de tecido, um tecido bera, uma fibra barata, mas caules e espinhos de puro plástico verde, numa jarra de vidro, na mesa-de-cabeceira. Estranho mundo. Desgosto tanto de flores artificiais que só eu sei. E no entanto.
O meu sobrinho, o mais novo, é um sedutor: agrada para se sentir amado. Entra no meu quarto, barra-se literalmente com os meus cremes, põe o hidratante de rosto nos pés - ah, sim, é verdade, gosto destas coisas à antigamente, como a minha avó fazia quando eu era pequena, não ponho os cremes na casa de banho. No quarto. Gosto do conforto da cadeira, espreito o espelho, enfim, privilégios de quem dorme sozinha no meio da bela cama de casal de lençóis tão bem esticados e almofadas de afundar. Três. Estou convencida, aliás, de que se me desse para ser endinheirada, o que comprava era uma cama Hästens – tive insónias durante mil anos, agora que já durmo, ó Deus, como gosto de dormir. O meu sobrinho mais novo, o sedutor terribilis, quando está de visita, entra-me no quarto, ao sábado, às sete da manhã com um avião Antonov que faz todos os barulhos de motores e acende mais luzes do que uma feira e diz-me: está um lindo dia de sol! Também pode ser: está um lindo dia de chuva! E o cabrão do Antonov a descolar, brrrrrmmmm, a piscar no escuro absoluto. Tenho sorte. Sempre tive bom acordar, até quando acordava de não dormir. Só uma coisa me faz acordar a meter medo ao diabo. Já contei. Martelos. Berbequins. Afins. Depois, vai à minha mesa-de- cabeceira, enfia o nariz nas rosas de plástico: hum… cheiram bem, que lindas! Não me desmancho, nem o desmancho: obrigada, meu querido, a tia adora estas rosas.
E adoro. Tanto quando as desgosto, e se as desgosto… Explico.
Sou católica. Sou divorciada, isso é um facto e por causa dele já ouvi dizer que não sou católica. Discordo. Sou uma católica que quis divorciar-se. Ámen. Também já me disseram que a comunhão me está proibida. Pois seja, mas sinto-me sempre bem-vinda e convidada para a ceia do Senhor. Poderei não ser digna de que Entreis em minha morada, porém, salva, fui de certeza, e depois disto digam quantos nãos quiserem. O único sim de que preciso, tenho-o. Sou católica, sou divorciada, e tenho rosas de plástico na mesa-de-cabeceira por causa de um sonho. Já me disseram, que horror, isso é uma superstição, um católico não faria isso. Tanto faria que eu fiz. A vida sempre se deu a conhecer por todos os meios. Mesmo sonhos, vozes, sarças ardentes, visões aladas, carros voadores. Silêncios. Imaginações. Sei lá. Coisas de internar gente por muito menos. Então.
Estava a dormir. Sonhei que estava numa loja desconhecida. E de repente era um corredor muito estreito e alto ladeado de roupa. Umas escadas. Ao cimo, à esquerda, um balde no chão cheio de rosas de todas as cores, e diante de mim infinitas prateleiras de louça. E ouvia. Sem palavras. Um entendimento. No sonho, claro. Leva as rosas vermelhas. Corta todos os botões e fica só com as rosas abertas. Põe junto à cama numa jarra de vidro transparente. E eu: e os espinhos, corto? Não os espinhos pertencem à natureza da rosa. E a seguir faço o quê? Nada. As rosas abriram.
O certo é que quando acordei, pensei: pelo sim, pelo não, vou à florista quando vier do ginásio. Levanto-me e tal e mais tal, e ginásio comigo. Estava no carro quando reparo, ao ver-me no retrovisor, que tenho o cabelo solto. Parece mentira. Nunca por nunca. Mas foi verdade naquele dia. Estaciono. Entro numa loja onde nunca estive – ia só comprar um elástico de cabelo, um daqueles fios de telefone para fazer um rabo-de-cavalo. Foi a primeira e única vez, até hoje, que entrei na loja dos chineses. Estou ao balcão da entrada. Há de um tudo. Até champô. Olho para a esquerda. O imenso corredor do sonho fez-me largar o elástico no balcão, à entrada, a carteira, as chaves do carro. Nem o incenso a que faço uma alergia tremenda me impediu ou impediria de avançar. Ao fundo, um lance de escadas. Quando estou a subi-las sinto cá uma irrealidade… Déjà vu do caraças que até mal disposta fiquei, e no chão, outra vez à esquerda, um balde cheio de rosas medonhas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas. Cada cor mais feia do que a outra.
Pego nas rosas vermelhas, todas, como se fossem o bem mais precioso do mundo - sei lá eu se não são. Se alguém me tentasse tirar uma delas que fosse, havia de ser um agarrem-me, senão eu mato. Olho em volta. Ai a puta da jarra também aqui está? Na posse do meu sonho, raspo-me dali. Chego ao balcão tão grata por este estranho mundo que levo meia dúzia de fitas para o cabelo, elásticos que jamais usarei e duas bandoletes de plástico feias como os cornos. Lixe-se o ginásio.
Sempre fui bem mandada. Talvez por ter sido educada por uma avó autoritária. Chego a casa. Pego na tesoura de peixe e vá de cortar as cabeças dos botões de rosas – sinto-me a rainha de copas. Quando estou a cortar os botões, percebo uma vírgula, umazinha só, do mistério: cortei tudo quanto não crescia. E de repente uma torrente, um rosário de vírgulas: rosa-cálice, taça da vida, rosa-sangue, rosácea, rosa mística, se até o burro de Apuleio se fez de novo homem… Lavo as rosas, lavo jarra, deixo secar. Ponho a jarra cheia de rosas na mesa-de-cabeceira.
Desde esse dia até hoje, um depois do outro dos sonhos que tive, um só de cada vez, um, dois, três, um dia dez? dos jamais acreditei ver realizados, quis acontecer e aconteceu. Estranho mundo amado, obrigada.

8 de agosto de 2016

Houry Gebeshian sabe um segredo

Fotografei a TV. É preciso dar provas a São Tomé,
perdão, a Thomas Bernhard, lá no além...

É domingo e está calor sem vento que nos salve.
De repente, percebo porque Thomas Bernhard, epítome do adulto de consumado desencanto, não conseguiu - não é preciso perguntar não conseguiu o quê? Ele escreveu num dos seus poemas Amanhã criarei/ algo de transitório para a imortalidade. Nada do que é transitório é imortal. Tudo quanto interessa à imortalidade é feito do que dura, do amor, da morte, do medo, da coragem disso tudo no pão nosso de cada dia.
Foi agora mesmo numa brisa fresquíssima.
Estava a ver, vejo sempre, assistia com o meu avô e não sei se ainda não é com ele que estou a assistir ao apuramento para as finais de ginástica nos Olímpicos.  E vem esta miúda, e zás, corrige o verso do Bernhard, e repõe o tempo na eternidade. Amor. Alegria. O que fica. Ninguém sorri nos exercícios de trave. Já vi morder os lábios, sorrir não. A arménia Houry Gebeshian sorriu. Várias vezes. É maravilhoso quando se sorri à vida só da alegria de saber que se está a viver. Difícil também é bom. É desafiador. É pulso e bate forte. E como se isso não bastasse, mal termina o exercício, abraça a trave e dá-lhe um beijo. Há lá melhor verso do que esta acção de graças?

Exhibit number 2, tio Thomas...

15 de julho de 2016

A minha gente


A MINHA GENTE
à minha gente
Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.
Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas - nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas - eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.
E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
- Foi ao Mariinski?
E ele:
- Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
- Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
- Fui, fui…
- Quem?
- A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
- Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.
Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.
O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.
Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.

17 de junho de 2016

Os anjos sentam-se connosco à mesa nas cadeiras vazias



Já aqui contei que saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Sei lá porquê, talvez pelo bem que fazem à gente quando usam a nossa fraqueza ao peito.
Hoje, esta noite, ainda há pouco, estava contar a mim mesma a história de como a vida me tem sido boa. É isso: além de coleccionar palavras, e frases que as pessoas dizem, música de ouvido para quem escreve, colecciono felicidades, bondades, sonhos que sonho à noite enquanto durmo, e outras mínimas criaturas, coisas pequeninas, um verso, que nascem no escuro e crescem, crescem sempre em direcção à luz.
A vida tem-me sido boa. Até quando não foi. Nunca me fez tropeçar no que não se revelasse depois um degrau, nem tive sofrimento que não fosse necessário - vá-se lá perceber isto, a gente a deitar contas, a procurar entendimentos, e a água a correr sozinha, sem ninguém lhe ensinar o caminho, em direcção à sede. É assim, são as perfeições que não se deixam explicar, chegam vestidas com outra roupa, até rasgada, mas o coração vê, e quando mais vê, mais vê.

14 de junho de 2016

Ela voltou, a minha andorinha

ELA VOLTOU, A MINHA ANDORINHA
Tenho uma andorinha. Não que ela seja minha. Ela, a ser de alguém, é dela. Mas nem por isso deixa de me visitar: é o terceiro ano em visita, e desta vez, fez como da segunda vez - contei tudo aqui, até a terrível primeira vez, e o mais que possa dizer é repetição, tirando a grandíssima interrogação que esta visita me faz por dentro, pois onde mais seria o avesso do pensamento, se não fosse no raio do sentimento?
Ó andorinha, és minha? Vens-me ver? Ou vens para que te veja?

E eu toda aflita de não ter aprendido ainda como receber esta linda visita alada, vá de ir escancarar janelas à madrugada - não porque queira pôr na rua uma pequenina menina andorinha, porém, e se se enganou, se se assustou, se sabe Deus o quê, a cabeça não me pára de pasmar de ter uma consecutiva andorinha a voar-me casa a dentro Primavera e Outono, às duas e pouco não é tempo de mais nada, se não da minha andorinha, à hora certa, certíssima, um ano após outro, ó mistério, ó ignorância ornitológica...
Depois fico muito quieta. Não quero que tenha medo. Nem que se arrependa da sua valentia. E a minha andorinha a voar cada vez mais perto, cada vez mais baixo. Olá, sussurro-lhe sem uma única palavra, e já ela voltou a fazer razias ao tecto da sala em velocidades alucinantes.
Ninguém acredita em ti andorinha. Só eu. Vou-te filmar como se fosse um turista chinês: faz pose, voo picado, um dois três!
E se é outra andorinha? Deu-lha a primeira o endereço ou uma razão? Quanto tempo vive uma andorinha? Oito anos, diz a pesquisa noctívaga, verdadeira ou falsa, bendita internet.
Sinto que é a mesma andorinha. Não sei porquê. Nem porque vem. Obrigada, andorinha.

5 de junho de 2016

É o que é

À medida que me vou apercebendo da dimensão das minhas fraquezas, também me apercebo que não tenho outro remédio senão integrá-las na minha força. Não sou, não somos, do tamanho dos nossos desejos. Nem das nossas vontades. A nossa medida exacta é a das nossas decisões.

Para que saibas que o mundo é vasto




Um blog também é um diário sem chave, deixado aberto em cima da secretária, quem passa lê, espreita, folheia sem ver, a pensar em sabe Deus o quê, a lista do supermercado, o fato esquecido na lavandaria, e segue adiante. É só um blog.
E até pode ser o tubo de ensaio dos pensamentos por haver, dos poemas por escrever, dos contos, dos romances. O rascunho na sebenta. Uma palavra esconde-se. Enfia-se na noite. E só nos resta segui-la. Aprendi cedo. Não por inteligência ou mérito, só por ter lido muitas vezes a história de João e Maria. Também eles saíram de casa para entrar na floresta e se viram aprisionados na casa da bruxa de onde é preciso fugir tantas vezes quantas ela nos prenda. E deixa-se o pão a marcar o caminho de volta, e os pássaros levam-no. E deixam-se seixos que lua transforma em olhos de gato, e é então que a noite se vê por dentro, e nenhuma bruxa nos prenderá jamais sem que possamos fugir porque a floresta vai connosco dentro do bolso, e o mundo por baixo das raízes sabe o nosso nome.
Isto para dizer, meu blog, Querido Diário:
A noite desta noite estava cheia noite por todos os lados, e do silêncio das coisas adormecidas em cem anos de sono profundo. E eu acordada pelo meu próprio eco - quando era pequena tive uma boneca avariada dos olhos, mesmo deitada, não os fechava, e aquele azul de longas pestanas pretas, ficava ali a furar o escuro até que eu lhe pegasse e dissesse bom-dia.
Quando não estou a escrever, avario dos olhos, Querido Diário, e começo a ouvir o silêncio a crescer devagar e, a mim que nada me falta, de repente, falta-me tudo quanto um dia pensei que me faltava e hoje são sombras de sombras de nadas sem futuro. Porque quando não estou a escrever, quando nem sequer estou a jogar à apanhada com um verso no corredor sem fim da casa da minha avó, não sei o que hei-de fazer das mãos - ainda por cima nem fumo para as ocupar com um cigarro. Não posso ler, estou à espera. Sou uma boneca avariada. Quando não sei escrever, não sei nada. Fico de olhos abertos a furar o escuro.
Querido Diário, ninguém me pegou e disse boa-noite, então, para escapar da bruxa, enfiei-me no Meo Video Clube Inside Llewyn Davise julguei que sim. Mas os pássaros levaram-no. Fui outra vez ao Meo Video Clube The Grandmaster. Voltei aos meus gatos por dentro dos seixos para atravessar a noite e regressar a casa.
Querido Diário, digo-te isto para que saibas que o mundo é vasto.

28 de maio de 2016

Formas improváveis




E então ela diz-me, decerto volta a casar. É só querer. E eu a pensar, querer? A pensar sem futurismos. Hoje. Nem considerei os mecanismos misteriosos da paixão nem a relojoaria amorosa. É só querer?
Eu quis. Quando era pequena era um míssil teleguiado. Não tinha vontade alguma de puzzles, Lego, carros. Nada. Só serviços de chá e bonecas, casas de bonecas, roupas de bonecas, baptizados de bonecas, o chorão, o carro do chorão, lindo, em tamanho real e lençóis bordados. E sapatos, carteiras, ganchos de cabelo, vestidos. E as bicicletas, as correrias, subir às árvores, as aulas de ballet, a música e os livros. Melhor do que isto só se já fosse crescida e casada, tivesse a minha própria casa e os meus próprios livros. Muitos livros. Estes eram os meus planos: ser escritora, casada, passear de bicicleta, ter uma casa-biblioteca, e viajar a reboque do meu marido, de máquina de escrever a tiracolo - não havia computadores quando eu era pequena, só a minha Hermes Baby.
É preciso entender que um casamento são pelo menos dois, em regra muitos mais, há família de um lado e família do outro, anos e anos de hábitos, de faz-se assim e assado e, de repente, há quem faça cozido e frito e nós não, não, não! Há quase sempre filhos de primeiros casamentos, e cães, gatos, manias.
Depois dos quarenta é tudo sinal verde, go, go, go, a morte já existe em todos os dias da vida, se não for agora é quando? Não se pode perder tempo com merdas e o que eu quero é escrever, e tenho vinte anos de atraso. Vinte.
Para quê iludir? O amor é uma presença. A companhia desejada. Para comer um gelado, ir ao cinema, passear de mãos dadas, treinar. Beijar na boca e ler junto. O amor é o melhor que há. Portanto, casar, casava, se fosse com a concretização da minha ideia de amor e casamento. E que homem terá a minha ideia, não a dele, de amor e casamento?
Então, não é querer. A ser alguma coisa é um milagre do santo Drummond: onde não há jardim, as flores nascem de um/secreto investimento em formas improváveis.
Ainda assim, sem milagres que amanheçam de novo as antigas manhãs, não é mau apesar de ser egoísta: posso andar de calças de yoga o dia todo, passar meia hora a fazer uma máscara ao cabelo. E levar uma semana a encontrar um verso.

19 de maio de 2016

Uma idéia chega

Não fumo, raramente bebo, não jogo. Não sou dada a lágrimas que a tristeza é um vício em que gente se põe. E fazer ninhos para lágrimas, acarinhar a tristeza, é fumar, beber, jogar, é a maternagem dos monstros que nos hão-de devorar como a fome que os devora, os cria.
Tive um tio-avô que jogou uma fortuna pelos buracos dos bolsos e bebeu o que apanhou enquanto jogou e perdeu, e jogou para perder três quartos duma vida, casas, mulher, filhos, fígado. Foi bem sucedido em perder. Era muito alto, magro, as maçãs do rosto encardido de tanto whisky altas também, marcadas. Um fantasma na sua própria existência, a sombra da sua sombra enquanto o sol ia lá fora. Velho, deixou de beber e de jogar, mas já foi tarde, a alma tinha-lhe fugido do corpo e sobrado aquilo, um moralista insuportável como todos os bêbados, como todas as putas, dão lições de virtude e pureza, condenam meio mundo enquanto a outra metade não chega.
Lembro-me de ser pequena, e ninguém o recebia, excepto a minha avó quando ele lhe aparecia depenado de tudo, enfiado pelo silêncio adentro, e aqueles olhos de buraco negro. Tinha tanta pena. Quase dois metros de homem e um sopro o levava pelo céu fora. E medo também tinha. Ainda tenho. Pena e medo. O desejo de perfeição corta a compaixão e cega a harmonia da vida. No melhor dos casos é uma fábrica de bêbados e jogadores, no pior, de donos da verdade, tiranetes, demagogos, que isto de não aceitar a fraqueza, a violência, a vileza, é viver de olhos fechados aos répteis que também nos habitam, e aos que nos espreitam e que é preciso afastar com o fogo - e nem assim vi um dia que não fosse de Glória.
Não tenho ilusões, posso não ser jogadora mas sei que pouco comando. Porém o carro dos meus pensamentos quem o conduz sou eu, e vigio - perder as rédeas é fácil, ganhá-las não, e eu não sou de entregar o que tanto trabalho me deu a conseguir.
Isto para dizer que não sei ser infeliz ainda que não seja estranha à dor. Mesmo aquela dor que nos leva céu fora, bonecos de papel, contra nossa vontade. Somos desejantes, não é? Ou pelo menos fomos, um dia. Os meus desejos sempre se riram de mim. Boneca de papel pelo ar. Os meus esforços também. O que vale é que lhes posso chamar sonhos e fazer a paz com a sua irrealidade, aceitar que falhei e pronto, uma pessoa abraça-se a essa realidade como a outra qualquer - nem é a pior delas, perde-se o mundo, ganha-se a vida, é assim. Por isso ponho-me na infelicidade como num campo de batalha, matas ou morres, e sem dó nem piedade, mato sempre, não posso morrer, tenho livros para escrever, e uma idéia que me leva adiante, leva tudo adiante, mata o que for preciso, nem eu sei como. Não é nada especial. É uma coisa aqui, no peito, uma coisa de carne e sentimento e instinto. Quem tem filhos, casamentos, carreiras sabe do que falo. É a mesma coisa, mas sem filhos, casamentos, carreiras e só uma idéia. Uma idéia chega.

5 de maio de 2016

Amor Cão

O melhor Cão do mundo. O meu Lindo Cão.

O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Lá fora a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.
Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube... Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão...
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!