21 de agosto de 2016

Estranho mundo



A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro...


Estranho Mundo
Tenho rosas de plástico, bem, de pétalas de tecido, um tecido bera, uma fibra barata, mas caules e espinhos de puro plástico verde, numa jarra de vidro, na mesa-de-cabeceira. Estranho mundo. Desgosto tanto de flores artificiais que só eu sei. E no entanto.
O meu sobrinho, o mais novo, é um sedutor: agrada para se sentir amado. Entra no meu quarto, barra-se literalmente com os meus cremes, põe o hidratante de rosto nos pés - ah, sim, é verdade, gosto destas coisas à antigamente, como a minha avó fazia quando eu era pequena, não ponho os cremes na casa de banho. No quarto. Gosto do conforto da cadeira, espreito o espelho, enfim, privilégios de quem dorme sozinha no meio da bela cama de casal de lençóis tão bem esticados e almofadas de afundar. Três. Estou convencida, aliás, de que se me desse para ser endinheirada, o que comprava era uma cama Hästens – tive insónias durante mil anos, agora que já durmo, ó Deus, como gosto de dormir. O meu sobrinho mais novo, o sedutor terribilis, quando está de visita, entra-me no quarto, ao sábado, às sete da manhã com um avião Antonov que faz todos os barulhos de motores e acende mais luzes do que uma feira e diz-me: está um lindo dia de sol! Também pode ser: está um lindo dia de chuva! E o cabrão do Antonov a descolar, brrrrrmmmm, a piscar no escuro absoluto. Tenho sorte. Sempre tive bom acordar, até quando acordava de não dormir. Só uma coisa me faz acordar a meter medo ao diabo. Já contei. Martelos. Berbequins. Afins. Depois, vai à minha mesa-de- cabeceira, enfia o nariz nas rosas de plástico: hum… cheiram bem, que lindas! Não me desmancho, nem o desmancho: obrigada, meu querido, a tia adora estas rosas.
E adoro. Tanto quando as desgosto, e se as desgosto… Explico.
Sou católica. Sou divorciada, isso é um facto e por causa dele já ouvi dizer que não sou católica. Discordo. Sou uma católica que quis divorciar-se. Ámen. Também já me disseram que a comunhão me está proibida. Pois seja, mas sinto-me sempre bem-vinda e convidada para a ceia do Senhor. Poderei não ser digna de que Entreis em minha morada, porém, salva, fui de certeza, e depois disto digam quantos nãos quiserem. O único sim de que preciso, tenho-o. Sou católica, sou divorciada, e tenho rosas de plástico na mesa-de-cabeceira por causa de um sonho. Já me disseram, que horror, isso é uma superstição, um católico não faria isso. Tanto faria que eu fiz. A vida sempre se deu a conhecer por todos os meios. Mesmo sonhos, vozes, sarças ardentes, visões aladas, carros voadores. Silêncios. Imaginações. Sei lá. Coisas de internar gente por muito menos. Então.
Estava a dormir. Sonhei que estava numa loja desconhecida. E de repente era um corredor muito estreito e alto ladeado de roupa. Umas escadas. Ao cimo, à esquerda, um balde no chão cheio de rosas de todas as cores, e diante de mim infinitas prateleiras de louça. E ouvia. Sem palavras. Um entendimento. No sonho, claro. Leva as rosas vermelhas. Corta todos os botões e fica só com as rosas abertas. Põe junto à cama numa jarra de vidro transparente. E eu: e os espinhos, corto? Não os espinhos pertencem à natureza da rosa. E a seguir faço o quê? Nada. As rosas abriram.
O certo é que quando acordei, pensei: pelo sim, pelo não, vou à florista quando vier do ginásio. Levanto-me e tal e mais tal, e ginásio comigo. Estava no carro quando reparo, ao ver-me no retrovisor, que tenho o cabelo solto. Parece mentira. Nunca por nunca. Mas foi verdade naquele dia. Estaciono. Entro numa loja onde nunca estive – ia só comprar um elástico de cabelo, um daqueles fios de telefone para fazer um rabo-de-cavalo. Foi a primeira e única vez, até hoje, que entrei na loja dos chineses. Estou ao balcão da entrada. Há de um tudo. Até champô. Olho para a esquerda. O imenso corredor do sonho fez-me largar o elástico no balcão, à entrada, a carteira, as chaves do carro. Nem o incenso a que faço uma alergia tremenda me impediu ou impediria de avançar. Ao fundo, um lance de escadas. Quando estou a subi-las sinto cá uma irrealidade… Déjà vu do caraças que até mal disposta fiquei, e no chão, outra vez à esquerda, um balde cheio de rosas medonhas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas. Cada cor mais feia do que a outra.
Pego nas rosas vermelhas, todas, como se fossem o bem mais precioso do mundo - sei lá eu se não são. Se alguém me tentasse tirar uma delas que fosse, havia de ser um agarrem-me, senão eu mato. Olho em volta. Ai a puta da jarra também aqui está? Na posse do meu sonho, raspo-me dali. Chego ao balcão tão grata por este estranho mundo que levo meia dúzia de fitas para o cabelo, elásticos que jamais usarei e duas bandoletes de plástico feias como os cornos. Lixe-se o ginásio.
Sempre fui bem mandada. Talvez por ter sido educada por uma avó autoritária. Chego a casa. Pego na tesoura de peixe e vá de cortar as cabeças dos botões de rosas – sinto-me a rainha de copas. Quando estou a cortar os botões, percebo uma vírgula, umazinha só, do mistério: cortei tudo quanto não crescia. E de repente uma torrente, um rosário de vírgulas: rosa-cálice, taça da vida, rosa-sangue, rosácea, rosa mística, se até o burro de Apuleio se fez de novo homem… Lavo as rosas, lavo jarra, deixo secar. Ponho a jarra cheia de rosas na mesa-de-cabeceira.
Desde esse dia até hoje, um depois do outro dos sonhos que tive, um só de cada vez, um, dois, três, um dia dez? dos jamais acreditei ver realizados, quis acontecer e aconteceu. Estranho mundo amado, obrigada.

8 de agosto de 2016

Houry Gebeshian sabe um segredo

Fotografei a TV. É preciso dar provas a São Tomé,
perdão, a Thomas Bernhard, lá no além...

É domingo e está calor sem vento que nos salve.
De repente, percebo porque Thomas Bernhard, epítome do adulto de consumado desencanto, não conseguiu - não é preciso perguntar não conseguiu o quê? Ele escreveu num dos seus poemas Amanhã criarei/ algo de transitório para a imortalidade. Nada do que é transitório é imortal. Tudo quanto interessa à imortalidade é feito do que dura, do amor, da morte, do medo, da coragem disso tudo no pão nosso de cada dia.
Foi agora mesmo numa brisa fresquíssima.
Estava a ver, vejo sempre, assistia com o meu avô e não sei se ainda não é com ele que estou a assistir ao apuramento para as finais de ginástica nos Olímpicos.  E vem esta miúda, e zás, corrige o verso do Bernhard, e repõe o tempo na eternidade. Amor. Alegria. O que fica. Ninguém sorri nos exercícios de trave. Já vi morder os lábios, sorrir não. A arménia Houry Gebeshian sorriu. Várias vezes. É maravilhoso quando se sorri à vida só da alegria de saber que se está a viver. Difícil também é bom. É desafiador. É pulso e bate forte. E como se isso não bastasse, mal termina o exercício, abraça a trave e dá-lhe um beijo. Há lá melhor verso do que esta acção de graças?

Exhibit number 2, tio Thomas...

15 de julho de 2016

A minha gente


A MINHA GENTE
à minha gente
Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.
Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas - nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas - eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.
E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
- Foi ao Mariinski?
E ele:
- Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
- Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
- Fui, fui…
- Quem?
- A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
- Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.
Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.
O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.
Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

1 de julho de 2016

Clarinha

CLARINHA
Quando a Clarinha deu brado nos jornais, para mim, era apenas e ainda uma tal Clara Mendes Rebelo. Jamais a vira, tão bonita quando era pequenina, ou ouvira falar dela até àquele boom na imprensa e redes sociais, de Lisboa a Moscovo – dir-se-ia que inventara algo de novo.
Depois, como toda a gente, fui desfiando novelo Clara Mendes Rebelo. E quando cheguei ao fim, já era a Clarinha.
Clara Mendes Rebelo, divorciada, sem filhos, encontra em Lisboa o seu emprego de sonho. Não é apenas o que sabe fazer, é que gosta de fazer e quer e desejou a vida inteira: vestidos de noiva. Uma das grandes marcas propôs-lhe o atelier de Lisboa, o terceiro da Europa, e o quinto no mundo. E isto seria bom, se a oferta não tivesse por junto um nó para desfazer. A proposta fora apresentada a três estilistas de nacionalidades diferentes, pelo período de um ano, findo o qual, seleccionariam a que considerassem de perfil adequado. Sabia-se que em dez, doze anos, quem fosse escolhida, faria o percurso do costume e seria a directora criativa da marca. Não era um emprego. Era o futuro de uma das grandes marcas. Era fazer o nome. Em abono da verdade é preciso dizer: eram as três mais do que competentes, tinham diferentes visões criativas, só isso.
Este nó não preocupou Clara Mendes Rebelo. Não era o género de mulher de correr a corrida dos outros, nem de perder tempo e energia a olhar para o lado. Tinha esta ideia de que a competição era um cenário sem qualquer correspondência com a realidade. Ninguém podia ser ela, nem ela poderia ser quem quer que fosse senão quem era, portanto, em frente.
O nó, para ela, era outro. Depois do divórcio, e porque ela e o ex-marido tinham vendido a casa onde haviam vivido, Clara estava no limite do tempo para reinvestir o dinheiro dessa venda numa habitação própria e permanente - para não se ir tudo em rendas e impostos, e depois ficar sem casa, sem dinheiro, sem nada. A questão era, pois, imobiliária. A questão era, definitivamente, Lisboa. Ora, casas em Lisboa, todos sabemos, estão pela hora morte, que é como quem diz, pela hora do short rental e do estrangeiro investidor ou reformado.
Se Clarinha ao menos pudesse fazer um fast forward de um ano, estar com o contrato na mão, a dirigir o atelier, aí sim, pagaria preços franceses, norte-americanos, enfim, o que fosse. Mas e por enquanto? E a data de entrega do IRS à porta, o anexo G a acenar-lhe e ela, nada, nem uma casa à vista.
Fez contas e mais e mais contas para aquele ano. Não era a possibilidade de perder o atelier que a preocupava. Isso não aconteceria. A preocupação era viver o ano inteiro.
Estava certa. Ser divorciado é caro. É tudo para um: EDP para um; internet, telemóvel, televisão para um, e água, gasolina, condomínio, supermercado e o diabo. E a solidão? Solidão? Qual solidão? Isso é conversa de gente casada que tem quem lhe leve os sacos de compras.
Foi nessa altura que viu o anúncio que a salvaria. Um estúdio num condomínio fechado. Não era perfeito - e o que é perfeito neste mundo? Tinha algumas coisas de estúdio em Tóquio, área mínima, casa de banho e cozinha com sala de refeições partilhadas… Mas que interessava isso? A construção era muitíssimo boa, materiais de primeira qualidade, as áreas comuns ajardinadas, e não se podia desejar vizinhança mais selecta, para o que colaboravam os portões altos e vigiados e as regras estritas como a proibição de ruído.
Clarinha sentia-se um peixinho na água. Os portões fechados davam-lhe segurança. Os vizinhos do lado, uma paz de gente. O silêncio permitia-lhe um sono profundo. De manhã, era a primeira a sair. Acordava fresca, nem tomava o pequeno-almoço na cozinha comunitária, comia uma maçã no jardim e lá ia ela para o ginásio. A seguir, um duche rápido, e às sete meia já estava a trabalhar.
Não poderia estar a correr melhor. Ainda nem tinham passado seis meses e já era evidente que o cargo seria seu.
Até que numa manhã de pleno Junho não foi para o atelier. Nem na manhã seguinte. Ainda por cima, tinha o estranho hábito de deixar o telemóvel a carregar no escritório. Dizia que se desligava da tecnologia assim que saía pela porta. Ao terceiro dia chamaram a polícia pois ninguém tinha o endereço dela. Nem qualquer contacto fora do trabalho. Era extrovertida, isso era um facto, mas reservada. Foi alguém da contabilidade que se lembrou: eu sei que quando ela começou a trabalhar aqui, tinha acabado de comprar casa.
Foram feitas as diligências.
Clara Mendes Rebelo tinha comprado casa, habitação própria e permanente, reinvestindo a totalidade das mais-valias nessa compra e numa pequeníssima obra, conforme declarara às finanças. Um espaçoso jazigo, no Cemitério dos Prazeres, debaixo do qual foi desenterrada, cadáver em mau estado, ou bom, do ponto de vista dos vermes, após um aluimento de terra, que além do seu, tinha destruído parcialmente o jazigo da tranquila família do lado.

17 de junho de 2016

Os anjos sentam-se connosco à mesa nas cadeiras vazias



Já aqui contei que saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Sei lá porquê, talvez pelo bem que fazem à gente quando usam a nossa fraqueza ao peito.
Hoje, esta noite, ainda há pouco, estava contar a mim mesma a história de como a vida me tem sido boa. É isso: além de coleccionar palavras, e frases que as pessoas dizem, música de ouvido para quem escreve, colecciono felicidades, bondades, sonhos que sonho à noite enquanto durmo, e outras mínimas criaturas, coisas pequeninas, um verso, que nascem no escuro e crescem, crescem sempre em direcção à luz.
A vida tem-me sido boa. Até quando não foi. Nunca me fez tropeçar no que não se revelasse depois um degrau, nem tive sofrimento que não fosse necessário - vá-se lá perceber isto, a gente a deitar contas, a procurar entendimentos, e a água a correr sozinha, sem ninguém lhe ensinar o caminho, em direcção à sede. É assim, são as perfeições que não se deixam explicar, chegam vestidas com outra roupa, até rasgada, mas o coração vê, e quando mais vê, mais vê.

14 de junho de 2016

Ela voltou, a minha andorinha

ELA VOLTOU, A MINHA ANDORINHA
Tenho uma andorinha. Não que ela seja minha. Ela, a ser de alguém, é dela. Mas nem por isso deixa de me visitar: é o terceiro ano em visita, e desta vez, fez como da segunda vez - contei tudo aqui, até a terrível primeira vez, e o mais que possa dizer é repetição, tirando a grandíssima interrogação que esta visita me faz por dentro, pois onde mais seria o avesso do pensamento, se não fosse no raio do sentimento?
Ó andorinha, és minha? Vens-me ver? Ou vens para que te veja?

E eu toda aflita de não ter aprendido ainda como receber esta linda visita alada, vá de ir escancarar janelas à madrugada - não porque queira pôr na rua uma pequenina menina andorinha, porém, e se se enganou, se se assustou, se sabe Deus o quê, a cabeça não me pára de pasmar de ter uma consecutiva andorinha a voar-me casa a dentro Primavera e Outono, às duas e pouco não é tempo de mais nada, se não da minha andorinha, à hora certa, certíssima, um ano após outro, ó mistério, ó ignorância ornitológica...
Depois fico muito quieta. Não quero que tenha medo. Nem que se arrependa da sua valentia. E a minha andorinha a voar cada vez mais perto, cada vez mais baixo. Olá, sussurro-lhe sem uma única palavra, e já ela voltou a fazer razias ao tecto da sala em velocidades alucinantes.
Ninguém acredita em ti andorinha. Só eu. Vou-te filmar como se fosse um turista chinês: faz pose, voo picado, um dois três!
E se é outra andorinha? Deu-lha a primeira o endereço ou uma razão? Quanto tempo vive uma andorinha? Oito anos, diz a pesquisa noctívaga, verdadeira ou falsa, bendita internet.
Sinto que é a mesma andorinha. Não sei porquê. Nem porque vem. Obrigada, andorinha.

5 de junho de 2016

É o que é

À medida que me vou apercebendo da dimensão das minhas fraquezas, também me apercebo que não tenho outro remédio senão integrá-las na minha força. Não sou, não somos, do tamanho dos nossos desejos. Nem das nossas vontades. A nossa medida exacta é a das nossas decisões.

Para que saibas que o mundo é vasto




Um blog também é um diário sem chave, deixado aberto em cima da secretária, quem passa lê, espreita, folheia sem ver, a pensar em sabe Deus o quê, a lista do supermercado, o fato esquecido na lavandaria, e segue adiante. É só um blog.
E até pode ser o tubo de ensaio dos pensamentos por haver, dos poemas por escrever, dos contos, dos romances. O rascunho na sebenta. Uma palavra esconde-se. Enfia-se na noite. E só nos resta segui-la. Aprendi cedo. Não por inteligência ou mérito, só por ter lido muitas vezes a história de João e Maria. Também eles saíram de casa para entrar na floresta e se viram aprisionados na casa da bruxa de onde é preciso fugir tantas vezes quantas ela nos prenda. E deixa-se o pão a marcar o caminho de volta, e os pássaros levam-no. E deixam-se seixos que lua transforma em olhos de gato, e é então que a noite se vê por dentro, e nenhuma bruxa nos prenderá jamais sem que possamos fugir porque a floresta vai connosco dentro do bolso, e o mundo por baixo das raízes sabe o nosso nome.
Isto para dizer, meu blog, Querido Diário:
A noite desta noite estava cheia noite por todos os lados, e do silêncio das coisas adormecidas em cem anos de sono profundo. E eu acordada pelo meu próprio eco - quando era pequena tive uma boneca avariada dos olhos, mesmo deitada, não os fechava, e aquele azul de longas pestanas pretas, ficava ali a furar o escuro até que eu lhe pegasse e dissesse bom-dia.
Quando não estou a escrever, avario dos olhos, Querido Diário, e começo a ouvir o silêncio a crescer devagar e, a mim que nada me falta, de repente, falta-me tudo quanto um dia pensei que me faltava e hoje são sombras de sombras de nadas sem futuro. Porque quando não estou a escrever, quando nem sequer estou a jogar à apanhada com um verso no corredor sem fim da casa da minha avó, não sei o que hei-de fazer das mãos - ainda por cima nem fumo para as ocupar com um cigarro. Não posso ler, estou à espera. Sou uma boneca avariada. Quando não sei escrever, não sei nada. Fico de olhos abertos a furar o escuro.
Querido Diário, ninguém me pegou e disse boa-noite, então, para escapar da bruxa, enfiei-me no Meo Video Clube Inside Llewyn Davise julguei que sim. Mas os pássaros levaram-no. Fui outra vez ao Meo Video Clube The Grandmaster. Voltei aos meus gatos por dentro dos seixos para atravessar a noite e regressar a casa.
Querido Diário, digo-te isto para que saibas que o mundo é vasto.

28 de maio de 2016

Formas improváveis




E então ela diz-me, decerto volta a casar. É só querer. E eu a pensar, querer? A pensar sem futurismos. Hoje. Nem considerei os mecanismos misteriosos da paixão nem a relojoaria amorosa. É só querer?
Eu quis. Quando era pequena era um míssil teleguiado. Não tinha vontade alguma de puzzles, Lego, carros. Nada. Só serviços de chá e bonecas, casas de bonecas, roupas de bonecas, baptizados de bonecas, o chorão, o carro do chorão, lindo, em tamanho real e lençóis bordados. E sapatos, carteiras, ganchos de cabelo, vestidos. E as bicicletas, as correrias, subir às árvores, as aulas de ballet, a música e os livros. Melhor do que isto só se já fosse crescida e casada, tivesse a minha própria casa e os meus próprios livros. Muitos livros. Estes eram os meus planos: ser escritora, casada, passear de bicicleta, ter uma casa-biblioteca, e viajar a reboque do meu marido, de máquina de escrever a tiracolo - não havia computadores quando eu era pequena, só a minha Hermes Baby.
É preciso entender que um casamento são pelo menos dois, em regra muitos mais, há família de um lado e família do outro, anos e anos de hábitos, de faz-se assim e assado e, de repente, há quem faça cozido e frito e nós não, não, não! Há quase sempre filhos de primeiros casamentos, e cães, gatos, manias.
Depois dos quarenta é tudo sinal verde, go, go, go, a morte já existe em todos os dias da vida, se não for agora é quando? Não se pode perder tempo com merdas e o que eu quero é escrever, e tenho vinte anos de atraso. Vinte.
Para quê iludir? O amor é uma presença. A companhia desejada. Para comer um gelado, ir ao cinema, passear de mãos dadas, treinar. Beijar na boca e ler junto. O amor é o melhor que há. Portanto, casar, casava, se fosse com a concretização da minha ideia de amor e casamento. E que homem terá a minha ideia, não a dele, de amor e casamento?
Então, não é querer. A ser alguma coisa é um milagre do santo Drummond: onde não há jardim, as flores nascem de um/secreto investimento em formas improváveis.
Ainda assim, sem milagres que amanheçam de novo as antigas manhãs, não é mau apesar de ser egoísta: posso andar de calças de yoga o dia todo, passar meia hora a fazer uma máscara ao cabelo. E levar uma semana a encontrar um verso.

19 de maio de 2016

Uma idéia chega

Não fumo, raramente bebo, não jogo. Não sou dada a lágrimas que a tristeza é um vício em que gente se põe. E fazer ninhos para lágrimas, acarinhar a tristeza, é fumar, beber, jogar, é a maternagem dos monstros que nos hão-de devorar como a fome que os devora, os cria.
Tive um tio-avô que jogou uma fortuna pelos buracos dos bolsos e bebeu o que apanhou enquanto jogou e perdeu, e jogou para perder três quartos duma vida, casas, mulher, filhos, fígado. Foi bem sucedido em perder. Era muito alto, magro, as maçãs do rosto encardido de tanto whisky altas também, marcadas. Um fantasma na sua própria existência, a sombra da sua sombra enquanto o sol ia lá fora. Velho, deixou de beber e de jogar, mas já foi tarde, a alma tinha-lhe fugido do corpo e sobrado aquilo, um moralista insuportável como todos os bêbados, como todas as putas, dão lições de virtude e pureza, condenam meio mundo enquanto a outra metade não chega.
Lembro-me de ser pequena, e ninguém o recebia, excepto a minha avó quando ele lhe aparecia depenado de tudo, enfiado pelo silêncio adentro, e aqueles olhos de buraco negro. Tinha tanta pena. Quase dois metros de homem e um sopro o levava pelo céu fora. E medo também tinha. Ainda tenho. Pena e medo. O desejo de perfeição corta a compaixão e cega a harmonia da vida. No melhor dos casos é uma fábrica de bêbados e jogadores, no pior, de donos da verdade, tiranetes, demagogos, que isto de não aceitar a fraqueza, a violência, a vileza, é viver de olhos fechados aos répteis que também nos habitam, e aos que nos espreitam e que é preciso afastar com o fogo - e nem assim vi um dia que não fosse de Glória.
Não tenho ilusões, posso não ser jogadora mas sei que pouco comando. Porém o carro dos meus pensamentos quem o conduz sou eu, e vigio - perder as rédeas é fácil, ganhá-las não, e eu não sou de entregar o que tanto trabalho me deu a conseguir.
Isto para dizer que não sei ser infeliz ainda que não seja estranha à dor. Mesmo aquela dor que nos leva céu fora, bonecos de papel, contra nossa vontade. Somos desejantes, não é? Ou pelo menos fomos, um dia. Os meus desejos sempre se riram de mim. Boneca de papel pelo ar. Os meus esforços também. O que vale é que lhes posso chamar sonhos e fazer a paz com a sua irrealidade, aceitar que falhei e pronto, uma pessoa abraça-se a essa realidade como a outra qualquer - nem é a pior delas, perde-se o mundo, ganha-se a vida, é assim. Por isso ponho-me na infelicidade como num campo de batalha, matas ou morres, e sem dó nem piedade, mato sempre, não posso morrer, tenho livros para escrever, e uma idéia que me leva adiante, leva tudo adiante, mata o que for preciso, nem eu sei como. Não é nada especial. É uma coisa aqui, no peito, uma coisa de carne e sentimento e instinto. Quem tem filhos, casamentos, carreiras sabe do que falo. É a mesma coisa, mas sem filhos, casamentos, carreiras e só uma idéia. Uma idéia chega.

5 de maio de 2016

Amor Cão

O melhor Cão do mundo. O meu Lindo Cão.

O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Lá fora a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.
Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.
A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube... Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão...
Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!

25 de abril de 2016

O meu 25 de Abril


A seguir ao 25 de Abril a minha rua mudou. Num passe de mágica, proletária talvez, ao lado de uma mercearia que hoje faria surgir abaixo-assinados para a sua preservação, abriu uma livraria que, segundo a minha avó, era de umas miúdas comunistas giríssimas. 
Nem era bem uma livraria… era um corredor com a parede esquerda, conveniente não é?,  totalmente coberta de estantes cheias de livros. Ao fundo, havia uma mesa com gira-discos e, a meu ver, não duas raparigas, mas duas senhoras simpáticas e conversadoras. Gostava muito de falar com elas, achava-as indefinidamente diferentes: tratavam-me de igual para igual, tu cá-tu lá e muito pá. Tinham imensos livros, pouquíssimos clientes, muita música portuguesa que desconhecia, e não se importavam nada de responder a intermináveis perguntas. 
- E este? 
Perguntava com o dedo na lombada. Só em caso de interesse e grande valor o retirava da prateleira.
- São poemas. 
- Como os de Fernando Pessoa? 
- Não, estes são de um camarada, o José Saramago. 
- O Fernando Pessoa não é um camarada? E esta quem é? 
- É a Ermelinda Duarte. 
Ermelinda no gira-discos. 
- Gostas? 
Se gostava!... Ninguém me calou um Verão inteiro, já não se podiam ver mais gaivotas de asas vento e coração de mar e toda a gente, de uma ponta à outra da rua, sabia que era livre de dizer, e em voz bem alta, cantada à janela para desespero da minha avó e dos passantes.
A bem da verdade, o meu coração andava dividido: em portas contíguas, o passado e o presente em versão mercearia-livraria.
A minha credibilidade, do lado do passado, na mercearia, estava em baixa: anos de actos continuados de rebeldia frustrados pela entidade no poder, tinham levado a observações como: a menina tem a certeza que a avozinha sabe que está aqui e a mandou comprar dois quilos de grão, três bacalhaus, uma barra de sabão de Marselha? Esta gente não sabia o que dizia. Avozinha era a velhinha indefesa que o Lobo do Capuchinho Vermelho comia. A minha avó era toda poderosa, nem o Lobo se atreveria a mostrar-lhe os dentes. Enfim. A pergunta crucificava-me. Adorava aquelas maravilhas de gruta de Ali-Babá e estar ali entre aqueles tesouros, mesmo sabendo que mais minuto menos minuto seria apanhada. Como é que ninguém via que aquele grão a cantar na medida de metal ou os glutões do detergente eram uma maravilha de arrepiar? Não eram apenas duas ou três coisinhas que me seduziam: desde o armário dos cereais até ao balcão onde os autoritários chocolates Coma com Pão se encostavam à manteiga vendida a peso, o tempo perdia a razão de existir. E as conversas? Como as crianças não ouvem, ouvia tudo. Só prodígios. Incendiavam-me a imaginação: uma mãe tinha posto a filha na rua e não sei quantos tinha feito um desfalque no banco, ora bem, desfalque havia de ser, vá, uma espécie de roubo mas por gente da casa. De vez em quando não me caçavam - haviam de pensar que estava no quarto a ouvir até gastar a agulha do gira-discos as minhas ricas histórias – e chegava, de repente, carregada com estas surpresas, latas de conserva e notícias do mundo para extasiar a força feminina no poder e zás, qual o quê? Castigo.
Ó drama, indignação e desgosto, mas render-me, ser a voz sufocada de um povo, o bobo da rainha, isso nunca. Afinal era livre de voar e de dizer e não voltaria atrás. As conversas e músicas da livraria davam o seu fruto.

11 de abril de 2016

A Outra

Um belo par de opostos complementares...



A OUTRA
N’ O Livro dos Seres Imaginários, de Borges, há uma entrada para O Duplo. O duplo é o outro eu quando se encontra consigo mesmo. E o significado desse encontro será diferente para cada cultura – e para cada eu. Será prenúncio de morte ou de iluminação, ou será o nosso oposto complementar. O que este livro de Borges não conta, é do encontro com o seu duplo, em Cambridge, Boston, na margem do rio Charles. Mas fá-lo noutro livro, e a esse conto chama O Outro. Este acontecimento, este espelho, não é, no entanto, incomum ou coisa de ficcionista, sem mais. É um facto da vida. Não sei porque razões se dá. As razões podem ser magnéticas ou geográficas. Climáticas. Uma estranheza ou mesmo uma regularidade da física. Não sei. Porém passou-se comigo. Foi assim.

Calhou muito bem que nunca estivesse estado em Cambridge, na outra, a de Inglaterra, até lá ter chegado em estado de perfeitíssima ignorância. Foi em 2012 e por um período curto. Não lhe conhecia a arquitectura, nem o urbanismo, nem o ambiente colegial, nem a divisão social e cultural que os dois lados do parque marcavam.

Entrei na cidade pelas ruas largas dos arredores de casas ajardinadas, de árvores frondosas de chuva e sebes de intimidade - e a espreitar os passeios não fosse o meu Steiner andar por ali naquela hora.
Quando cheguei ao centro pensei: então foi também aqui que a madame do Harry Potter, como raio se chama ela?, veio buscar inspiração: edifícios quinhentistas convivem pacificamente com prédios neoclássicos, e a agudeza dos telhados, as pesadas madeiras envelhecidas lançam sombras, não sobre a terra, mas sobre a gente, e nada podem as grécias e as romas de empréstimo, nem a claridade das suas linhas direitas, nem as suas colunas altas contra isto, nada. Ou talvez seja a minha embirração de sulista com os céus de chumbo daquela terra: não há verde que pague tanta escuridão, nem a densidade de livrarias por metro quadrado, nem os sei lá quantos espectáculos de música de câmara por semana, nem o jazz nem o diabo a quatro: sou uma criatura da luz. E depois há a questão do café: foi a primeiríssima vez que bendisse a Nespresso.

Apesar das advertências, resolvi atravessar o parque logo no primeiro dia para perceber o que haveria de tão dissonante do lado autóctone de Cambridge.

A poucos passos do lado de lá, um centro comercial de lojas populares num edifício de gaveto. Cheio. A rua igualmente cheia de miúdos aí pelos quinze, dezoito anos, e o ar que tem qualquer miúdo em qualquer lugar do mundo quando está desertinho por um arraial de porrada daqueles em que enfia nos punhos a zanga que lhe vai na alma. A música altíssima. Já não via rádios monstros portáteis desde os anos oitenta. E polícia. Acho que brincavam ao Bronx, os miúdos e a polícia… Fiquei advertida com a advertência: os operários e sua descendência eram da casta dos intocáveis, valha-me Deus, no século xxi, e manda uma pessoa Vasco da Gama a caminho da Índia para isto – para isto e Nespresso Ristretto India Origin.

Dei uma enorme volta a pé, regressei, continuei a andar e quando me cansei de tantos turistas, tanta fotografia, tanta bicicleta, tantos chineses de iPhone na mão, sentei-me na esplanada de um pub com vista para os chorões dobrados sobre o seu reflexo no rio Cam, e uma família de cisnes idilicamente enquadrada por juncos – a verdade, por vezes, parece mesmo mentira, e a realidade uma paisagem kitsch de caixa de bombons. Estava a ementa sobre a mesa quando uma brisa mais forte a fez voar e cair na água. Vi-a boiar primeiro, afundar-se depois. Quando me voltei de novo para a frente, as nuvens abriram e o sol  inundou-me os olhos - por um segundo senti-me em casa. Foi então que percebi: alguém se sentara na minha mesa, defronte, mas com o breve sol ainda nos olhos, não percebi quem era.

- É só uma ementa, deixa lá. E não peças a empadinha, é demasiado salgada, e a massa tem muita gordura, não vais gostar.
- Não?
- Não. Mas suponho que isso seja inevitável como a ementa ter voado.
Ela falava português. A voz, familiar. Apesar de ser muito parecida comigo, era diferente.
- Deves imaginar que sei exactamente o que estás a pensar já que eu sou tu.
- Se fosses eu seríamos exactamente iguais.
- Estamos em tempos diferentes. Eu sou tu depois.
- Não pareces mais velha.
- Temos poucos anos de diferença, três.
- Penso que não se pode voltar ao passado nem estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- Não és tu que adoras as famosas discussões entre Bohr e Einstein?
- Não estamos a falar de partículas. Este encontro, a ser alguma coisa mais do que imaginação, será uma experiência borgesiana, ou inteiramente literária. Não como a de Dorian Gray, ou do infame Jeckyl e Hyde, ali mais para o lado de Hesse em Narciso e Goldmund, Ele e o Outro, a alteridade de Plínio e do Mestre do Jogo, omnipresente enfim, a dualidade, oposta e complementar, os pares antitéticos fundamentais…
- Lailailai…já sei! Estava contigo na cama enquanto lias os Símbolos de Totalidade na obra de Hermann Hesse, de Yvette Centeno. Tínhamos o quê, dezanove anos quando andávamos a comprar a obra completa de Jung um volume de cada vez e planeávamos ir à Nova conversar com Yvette Centeno e Stephen Reckert?
- Ó… as tardes passadas na 111 e na
Buchholz com os catálogos de quilos ao colo, a devorar títulos para a biblioteca futura e ir à Nova, nada, sempre fui mais tímida do que os meus planos.
- Nossos.
- Sim, nossos - o que anula a antítese… portanto, se não estás aqui para sermos duas, estamos aqui para sermos uma?
- Suponho que me ficaria bem dizer-te sim, claro, e discorrer um bocadinho sobre a cisão fundamental do humano em homem e mulher, no Paraíso bíblico ou pelas mãos de Zeus no Banquete de Platão, e sobre o golpe final e definitivo de Descartes: depois de deixarmos de estar no centro do universo e passarmos a duvidar: somos agora a medida de todas as coisas, mas já não somos da medida de Deus. E se não somos dessa medida, nem dessa matéria divina, feita à sua imagem e semelhança, pois entre o corpo, natureza, e o espírito, consciência, abriu-se o mar em dois, quem somos? Somos aquele que procura quem é. E estamos de volta ao teu Hesse que o nosso Borges são contas de um rosário mise-en-abîme onde o tempo pára de correr. Todavia não é nada disto o que queria dizer-te.
- O que queres dizer-me, então?
- Daqui a uns meses voltas a escrever, quando já não estiveres em Inglaterra.
- Vim para ficar.
- Disparate.
- E mais tarde, quando vires o Interstellar e te lembrares desta conversa, a resistência entre ti e a escrita terminará.
- O que é o Interstellar? Sou muito pouco dada a epifanias e quanto a escritas estamos conversadas.
- É um filme, ou somos nós aqui, a memória de nós aqui, hoje, se preferires.
- Não volto a escrever uma linha que seja. Essa vida acabou, não posso mais.
- Essa vida ainda nem começou, garanto-te. Mas está prestes a começar. Eu vi os livros. Li-os. Escrevi-os.
- Não volto a escrever! Para quê?
- Não há para quê. Escrever é a própria razão da escrita. E quando o descobrires, quando experimentares essa liberdade sem apego a resultados que não sejam aproximares-te tanto quanto possível daquilo que queres dizer, voltas a escrever. Em casa. Até porque esta luz não combina contigo.
- Finalmente alguém vem tirar o pedido… Ah, uma nesga de sol outra vez, que bom, não é?
Contudo, diante de mim e sem perceber patavina de português solar, só a empregada.
- A shepherd's pie and a lemon iced tea, please.


28 de março de 2016

Idiota útil

O IDIOTA ÚTIL
O idiota útil, institucional,
de uns é corrimão,
upa upa promoção,
nas páginas do seu jornal;  
de outros é negativa, adversativa,
não sabe e isso é lenha criativa,
em cada omissão, em cada não,
não sabe e é o bem que faz,
ou não calava ou não diria,
mas porém contudo todavia.
Pela parte que me toca, ó idiota, obrigada.
O idiota útil, institucional,
tem este poder todo,
nas páginas do seu jornal,
é tapete e é muro,
é o fraco e é um duro,
bem nos lixaria se déssemos crédito
à sua grandíssima falta de mérito.
O idiota útil, institucional,
tem valor papal
nas páginas cativas do seu jornal,
e pela parte que me toca, ó idiota, obrigada,
antes tu que eu: esse exercício papal
a qualquer tenrinho seduziria  
para as páginas do teu jornal.

25 de março de 2016

Entre os mundos

ENTRE OS MUNDOS
Sobre esta terra dei
mil passos de sombra
para dar mil passos de luz.
Coube-me esta vista,
panorâmica,
ao perto, não se a tem,
não se pode ter,
conhecer é perder 
em vida
quanto se ganhe 
em compreensão da mecânica da vida,
porque há mundos que não se tocam,
jamais,
nem todos deixamos pai e mãe
para nos unirmos e sermos
pai e mãe no ciclo perpétuo
da criação, alguns de nós
dão mil passos de sombra
e depois mil passos de luz,
- e se a sombra anda sempre na luz de alguém…-
e habitamos entre os mundos que
não se tocam, jamais. 

13 de março de 2016

Nossa Senhora, Ámen

Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Surpresa! Tenho um presente: uma linda fita cor-de-rosa...
Tenho vivido nos últimos tempos numa casa de empréstimo. Uma casa de empréstimo é como um hotel. Quando chegamos, está feita. Não interessa o que lhe acrescentamos para a fazer um bocadinho nossa, uma pintura, uma cadeira, um computador, três caixotes de livros, uma televisão.
À minha esquerda, à esquerda desta secretária que enfiei na sala onde agora trabalho, tenho uma meia cómoda espanhola que veio da casa da minha avó - lembro-me das gavetas de barriga escaqueiradas, a pele que as forrava comida pelo uso dos anos pelos anos, sem fim, dos pregos gordos em falta, e nunca por nunca pensei que tivesse salvação. E teve.
Em cima daquele escuro de quaresma está um oratório de dar gosto ao qual dei um desgosto que não foi brinquedo: alguém, no correr de tantos dias, há-de ter decidido pintá-lo mal e porcamente antes de ter ido parar à arrecadação. Pois quando voltou a ver a luz pela mão da minha mãe, nem eu sonhava viver de empréstimo, já que andava a dourar umas bases de candeeiro, ofereci-me para o deixar em condições. Zás! não é que o deixo cair estatelado no chão? Vá lá, não o destruí completamente. Dei-lhe um banho de mangueira, esfreguei-o, lavei-o bem, secou, levou decapante, e menos duas camadas de má pintura, ia começar a lixá-lo e a minha mãe, gosto dele assim, nem parece o mesmo - foi uma fase décapé que a minha mãe passou há uns anos, ora, nem de propósito... Por sorte, a minha irmã tinha trazido do México uma Nossa Senhora de papier mâché que veio mesmo a calhar, e lá foi o oratório iluminar o escuro da meia cómoda, até hoje. Agora tem uma fita cor-de-rosa a enfeitá-lo, foi o meu sobrinho quem lho pôs, de presente de Natal. O mais novo. Ensino-lhe muitas coisas inúteis. Por exemplo, ensinei-lhe o sinal da cruz. E disse: em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Ámen.
A minha tia beatorra, cunhada da minha avó ateia como ela só, se alguém bocejasse vinha logo de dedo em riste e por cima de uma pessoa para que o Santo Espírito, que todos sabem, tem asas de pomba, não nos voasse da gaiola do corpo para fora, fazia o sinal da cruz e rezava-nos na sua voz de furar paredes: que Dios te benediga! E aquilo devia causar tremor aos anjos, um arrepio de asas, pois eu que não tinha medo de nada, esta miúda é destemida, sentia um friozinho, uma coisa de sombra inesperada no meio da luz. Mas a palavra medo também acrescenta mundo ao mundo...
Nesta altura do ano, nesta casa de empréstimo, e como nos descobrimos numa casa de empréstimo, numa vida que é outra diferente da que antes se teve, por volta das cinco e meia, o sol bate no oratório, nem mil velas, e até às seis bate em cheio, e eu páro tudo naquela meia hora plena só para ver tanta luz a derramar brancura.
O meu sobrinho não aprendeu a dizer em nome do Pai, nem em nome do Filho. O Espírito Santo também não o convenceu. Como o ensinei diante deste oratório, faz o sinal da cruz e diz, Nossa Senhora, Ámen. Não o corrijo. A mim parece-me bem que um homem, mesmo em criança, saúde a Deus numa mulher.

8 de março de 2016

À Secretária

À SECRETÁRIA
Quando eu era pequena
o mundo era maior
e eu estava à porta do mundo
para entrar e ser maior:
ficava sentada a escrever,
sentada a crescer,
à secretária do meu avô,
na cadeira do meu avô,
o monte de folhas A4 a crescer
cheio de caligrafia bem comportada,
redondinha, fechada
como o pensamento dentro das letras:
maus poemas, maus contos, maus ensaios
e até os maus textos fundamentais - inspirados
nas reuniões das nossas cortes medievais -
do Partido Municipalista Português,
do qual fui fundadora-presidente 
um Verão inteiro, 
e um outro passado a completar
os contos inacabados de Karen Blixen,
uma experiência transcontinental-transtemporal
de aspirações pessoanas mediúnicas sem sorte nenhuma,
tive de os acabar sozinha. Bolas, Karen,
podias ter aparecido para escreveres com tua mão na minha!
Lá em casa não me compravam a Colóquio,
nem a de Artes nem de a Letras,
e parecia-me que perdia uma bula fundamental,
então, lá ia enfiar-me na biblioteca municipal
a tentar apanhar o pensamento em Portugal,
mas com atraso regional.
Na Páscoa dos meus treze anos 
veio o Jornal de Letras, mais em conta,
e eu fazia de conta que era naquelas duas redacções que escrevia
com toda aquela gente, pareciam-me… GRANDES.
Sabiam tudo, liam tudo, escreviam tudo –
admiráveis vidas maravilhosas, alfabéticas, misteriosas, sérias, institucionais,
e eu ali à espera de começar a viver e nunca mais.
Cresci. Nunca pus os pés numa redacção.
Já não compro a Colóquio nem o Jornal de Letras -
com raras excepções, é sempre a mesma história
hoje és a Branca de Neve, amanhã um dos Sete Anões,
e vão rodando e cantando os mesmos oito de sempre.
Logo eu que encontro uma flor para cada pessoa,
não ponho flores a quase ninguém.
Os meus deuses do oeste são Dickinson, Whitman, Borges e McCarthy,
e Coppola e Malick que nunca escreveu um livro.
O oriente continua a dar cabo de mim,
é um sonho onde se cai sem nunca acabar de cair.
Dos europeus amados quem mais me interessa é Caravaggio.
Talvez tenha sido pintor, mas nunca li poesia melhor.
E continuo à secretária.