A capa da New Yorker, os dois olhos do Manuel S. Fonseca, os meus dois olhos. Uma capa, quatro olhos, duas visões. E qual é a sua?
VISÃO, TENHA DUAS: O RATO STEINBERG
Podem dizer e escrever muito e tanto e bem sobre Saul Steinberg. E decerto aprenderei com quem o fizer - e com quem anteriormente o fez. Mas isso não retira uma vírgula ao preconceito, ao pré-conceito que tenho deste trabalho dele em particular e que para nosso benefício faz a capa de The New Yorker desta semana.
Em 1967 nasci entre tamanhos gritos que no jardim perto perguntavam quem grita assim, porquê. As horas foram demasiadas: as de dois terríveis dias para um bebé de antes do tempo – tinha a chegada prevista para o fim de Dezembro, princípio de Janeiro, e adiantei-me.
Com a experiência de nascer para a vida trouxe agarrada a ideia de morte que, pouco a pouco, mas feliz e significativamente, se afastava das salas de parto, da mãe, do filho. Acabou em bem para as duas, nenhum risco, apenas a sombra com que o medo escurece as paredes. Porém estou convencida de que, talvez por isso ou porque sim, vida e morte, essas duas forças presentes em toda e qualquer existência, essas duas serpentes pulsantes, em mim, bem se combateram e muito, até se descobrirem equilibradas em poder e se unirem em torno da árvore da vida, afinal, sobre o Caduceu de Hermes disse Homero na sua Ilíada: agarra a vara com a qual ele enfeitiça à sua vontade os olhos dos mortais, ou os desperta para a vida. Só assim a arte, pintura ou música ou poesia é possível.
(Sei o que está a pensar. Um cartoonista é um artista? Sim, às vezes. Steinberg era-o, quer para Nabokov quer para si mesmo; sabia-o, tanto que se descrevia como se pensava: a writer who draws - de vez em quando acontece. Não era Foucault quem afirmava: a relação da linguagem com a pintura é uma relação infinita? E noutros campos: há músicos só fazem matemática. E matemáticos que encontram a música, olhe, Bach – oh criatura maior da beleza organizada, je t´aime.)
Saul Steinberg, cujo centenário do nascimento se celebra, sabia disto ou, pelo menos, o seu desenho, as suas ilustrações, colagens, esculturas, sabiam-no. E isto é: a consciência e a luta pela dominância de uma das polaridades, ter pulso e tentar integrá-las e falhar, ou suceder. Este trabalho de 1967 sabe dizê-lo melhor.
Porquê?
Este rato híbrido de Mickey Mouse e terror diante do cavalete-espelho é um originalíssimo auto-retrato de maturidade. Ainda que digam que os seus auto-retratos são gatos do seu próprio gato, é rato também, é este Mickey Mouse persecutório. Explico.
Quantas vezes conseguimos ver no nosso rosto, o rosto que cindimos de nós e depositámos nos outros, aquele que não podemos nem suportar, e nos assusta até? E quantas vezes somos os agentes responsáveis pelo caos que nos cerca no mundo que prometemos recriar em melhor cosmologia e o fazemos pior do que era à nossa chegada? Quantas vezes deixamos que no corpo de amor a morte nos colha como só ela pode e como só o amor permite? Por fundo a folha de música por escrever. Não são necessárias as notas na pauta: penso que este auto-retrato é dança macabra de um.
La Danse Macabre é, formalmente, a representação de uma dança. De forma simplificada: esqueletos das quatro partidas do espectro social e moral dançam sobre as próprias campas, no cemitério. Mas, e mesmo em diferentes culturas, nesta dança, a imagem traz metaforicamente, ritualmente, gesto, e texto por vezes, para a desordem social, o pecado e o sexo e a morte articulados entre si como os próprios ossos dançantes para que os possamos ver e ler.

- Danse Macabre, Michael Wolgemut, 1493
Trazida do fim da Idade Média, qual Bela Adormecida, esta dança não terá acordado do seu sono para os olhos do grande público com a Silly Simphony, The Skeleton Danse, da Disney, de 1929? E não se terá feito parte do nosso quotidiano, e tão visível que nem se repara, quando Saul Steinberg, assim, ao espelho, com cabeça de Mickey perverso, na linha de perigo, nos devolveu o rosto de uma época, o nosso rosto no tempo, e o rosto que temos e os olhos não podem ver?










