20 de junho de 2014

O meu primeiro amor


O PRIMEIRO AMOR

O meu primeiro amor foi tudo quanto um primeiro amor deve ser, mas naquela altura eu não sabia nada de amor. Já o meu coração devia saber a potes porque só de ver o primeiro amor punha-se a pular-me do peito para a garganta, da garganta para o peito, um elevador desgovernado, parecia que o coitado queria falar, e eu que só o queria calar... Que nervos passei com o primeiro amor a fazer-me nonchalant para compensar o desatino cardio-elevatório. Desde a primeira hora, no primeiro dia. Pode dar-me lume, por favor? Não queria dizer não fumo para não parecer bebé. Não tenho isqueiro. Ofereceu-me um cigarro, não, muito obrigada. E zás. Passa-me o isqueiro para a mão. Acendi-lhe o cigarro. Foi assim. Bem, quase. Depois acompanhou-me e à minha amiga parte do caminho e, de repente, à frente da gelataria, atirou a carteira dele para dentro do meu saco e, num segundo, desata a fugir, e grita-me já longe, amanhã, aqui, às três, preciso dos documentos.
Fiquei petrificada. Nunca tinha visto nem ouvido nem sabido de ninguém assim. Fiz planos de lhe dizer poucas e boas no dia a seguir. Ao que parece os planos estavam a mentir.
Quando o primeiro amor me dava a mão, dava-me logo o céu inteiro e só quem nunca deu a mão ao primeiro amor é que pensa que andar nas nuvens é cliché ou metáfora. Eu andava com o primeiro amor, o primeiro amor andava comigo porque aos dezasseis anos namorar era andar e nós andávamos de facto: fazíamos quilómetros nós, os dezassete anos do primeiro amor e os meus dezasseis, a baixa toda para cima e para baixo, do alto ao jardim, tanta piscina, meu Deus. Só de mão dada que coragem para o primeiro beijo no primeiro amor, nada.
Os dezassete anos do meu primeiro amor eram tão giros que eu nem sabia do que havia de gostar mais. Tinha um cabelo muito fino e farto, acinzentado escuro de ter sido louro em pequenino e ainda ser loiro claríssimo na raiz do cabelo sempre despenteado e muito bem cortado, nas sobrancelhas, nas pestanas atrás dos óculos de lentes grossas bem disfarçadas, os olhos ficavam pequeninos e cresciam como os do lobo se os tirava para os limpar. Gostava dos olhos, do olhar e dos óculos do primeiro amor: os aros fininhos  em cor de prata ou de lata baça, nem sei, se vistos perto, pertinho à distância dos beijos que depois nos fartámos de dar, eram todos gravados em finíssimos arabescos, se estilizados ou vegetalistas, não posso dizer, o que sei é que ao perto até deixava de ver, era uma tontura que a falta de distância me dava, e nem o ar me chegava se ele me abraçava. E ele abraçava tão bem, beijos tão bons, que só me apetecia fechar os olhos e cair. Enfim, fechava os olhos. O primeiro amor andava sempre em braços mesmo com um frio de rachar, as mangas das camisas dobradas. Tinha uns braços fortes, bem desenhados, tinha força e estava-se lá tão bem: abraçados e de mãos dadas, apertadas, que exagero perfeito de primeiro amor, não apetecia nunca largar.
O meu primeiro amor sabia tudo de filosofia e de literatura, e eu aprendia com o meu primeiro amor. Ele até gostava de Eça, sabia Eça e uma coisa dessas é boa quase demais. E quando falava, sorria um sorriso, às vezes até ao riso. O meu primeiro amor era expressivo e tinha um humor corrosivo. Fazia-me rir. Usava calças de ganga. Sempre. E que bem que cabeça lhe assentava no pescoço, o tronco lhe assentava nas pernas, e aquele andar calculadamente descontraído tinha um nervoso escondido - que alegria era vê-lo a caminhar na minha direcção.
O meu primeiro amor e eu fazíamos esplanada, nem que fôssemos os únicos na sibéria gelada. Ele pedia uma bica e como gostava daqueles beijos com sabor a café, comecei a beber café também. Nunca mais parei de o beber.
Um fim de tarde, já era de noite, íamos de mão dada, ele ia levar-me à porta de casa. Foi então que o primeiro amor e eu tivemos uma mínima discussão: o primeiro amor tinha vício do rigor e da exactidão e eu disse uma patetice, por distracção, chamei Camilo ao Eça do Primo Basílio. E ele fez pouco de mim, era um tonto nestas coisas assim de ser dono da verdade e ter a última palavra – era importante para ele e eu não me importava.
Mas foi nessa altura que me disse a coisa mais bonita que um primeiro amor poderá alguma vez dizer, ainda por cima era verdade, pensou que ia morrer. O meu primeiro amor fumava, não cheguei a contar? De repente, calmo, mas de olhar muito aberto directamente no meu, pára, põe a mão no peito, a outra mão sempre na minha mão:
- Gosto tanto de ti que acho que vou ter um ataque de coração.
Os fósforos no bolso da camisa onde estavam também os cigarros tinham pegado fogo.
Depois do susto riu-se tanto do incêndio que o riso ainda hoje me ilumina.
Acabou porque tinha de acabar, porque era bom demais para durar. Fartei-me de chorar por causa deste primeiro amor. Ninguém teve um primeiro amor mais amor do que eu.

Visão, tenha duas: para começar, quero ser filha da minha mãe e do meu pai


Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

PARA COMEÇAR, QUERO SER FILHA DA MINHA MÃE E DO MEU PAI


Quando éramos pequeninas perguntavam-nos: então, a menina é filha de quem? Outra pergunta comum era: o que quer ser quando for grande? A resposta que ainda hoje recordo foi dada à segunda pergunta por uma colega minha de colégio: quando crescer quero ser filha da minha mãe. Todos queremos. A nossa mãe é a melhor do mundo e tão bom como ela só o nosso pai. Se tivermos sorte, muita sorte, isto acontece à grande sombra tutelar de frondosos avós.
O que é ser filho de pai desconhecido quando se conhece perfeitamente o pai? Não sei. Posso imaginar, mas não posso saber. O que é recusar a paternidade a um filho sabendo até ao osso que é filho? Até posso perceber as razões conjugais, paterno-filiais, económicas e sociais da negação, mas não posso saber.
Tudo de ser pai ou mãe me é estranho excepto na qualidade de filha, a única que exerci e exerço. Não sei o que é ter um filho, não sei o que é estar grávida, e de repente, uma criança, uma vida, uma pessoa inteira em si mesma. Posso compreender, mas não posso saber. Se quiser ser purista até posso acrescentar que sim, é verdade, ao longo do dia somos pais e mães tantas vezes, e logo de pequeninos com as nossas bonecas, chorões, irmãos, amigos, e até mesmo com os pais ensaiamos esse exercício.
Creio que esta questão não tem que ver com a inteireza da pessoa, é-se inteiro mesmo sem história de presépio que possa contar-se: a família pode reflectir-nos ou não. E nós a ela. Pode até ser um lugar de fuga para outro eu florescer – ser-se mãe e pai de si-mesmo. Também se negam pais. E nem é preciso ir tão longe nos actos. Negam-se até várias vezes por dia: separamo-nos e construímo-nos também pelas diferenças que elegemos. Não está em causa o inquestionável valor da pessoa. O está em causa, afinal?
Como se levanta uma comunidade, uma empresa, à imagem do quê, de quem? Da família e das monarquias. Sabêmo-lo de cor nesta Europa em que o poder tal como as grandes marcas, e fora da Europa, as marcas europeias, privilegiam um modelo claramente monárquico, dinástico, de corte, representado na família e nas alianças inter-familiares. Porquê? O que é a família se não for um útero alargado, o lugar da segurança, das inter-dependências e independências medidas pela trela extensora? Porém, comunidade ou empresa, são sempre pessoas que aprendem a ser pessoas por mimetismo e dissemelhança. É um modelo. Corresponde a uma necessidade. Há outros modelos. Porque há outras necessidades - por exemplo: sou republicana, e convicta, por isso prefiro as afinidades electivas, salvaguardando a família para relações de outra expressão. Todavia a primeira aprendizagem é aquela, a da dinâmica eu sou/faço como tu-eu sou/faço diferente de ti. Pode-se, ou não, ir além dela. Como em tudo: a satisfação de uma necessidade básica e funcional tem de estar garantida antes de qualquer outra.
Penso que uma questão deste fundo da natureza humana, do mais fundo da nossa natureza, deste fundo onde se replicam tanto quanto se reduzem à escala do eu as grandes questões quem sou, de onde venho, para onde vou, portanto, a procura de significado e sentido, tem de ser tratada legalmente, e de base.
O que quero dizer? Tão simplesmente que à partida a lei deve conceder-nos igualdade de direitos. Não diferença. A diferença deve constituir a excepção seja por mérito ou por demérito. Se não há um pai, ou uma mãe, identificados ou identificáveis, não cabe, não deve caber ao filho, nem a um dos progenitores, a confirmação ou a averiguação da paternidade ou maternidade em falta. Mas sim à lei. Logo. Imediata e automaticamente. O direito a uma mãe, o direito a um pai são do superior interesse de qualquer criança. Uma comunidade que não saiba isto, não merece os seus filhos.

Visão, tenha duas: o que é um pai?, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O QUE É UM PAI?
A beleza de um rosto de mulher, a esculpida beleza de uma actriz, está hoje a encher a capa da Visão. Essa mulher não é, ao contrário do que normal e logicamente acontece, filha do seu pai. Há um homem que recusa a paternidade que ela lhe atribui ou reclama. O que me obriga a perguntar, o que é um pai?
Um pai que se recusa a ser pai pode ainda ser um pai? Uma filha (ou um filho) aceita os seus pais, ainda que não possa ter a certeza de quem eles sejam. Esteve, por força das circunstâncias e de uma inapelável lei da causalidade, ausente desse momento em que um homem e uma mulher a conceberam. Então, como é que uma filha pode saber quem é um pai?
Um pai é essa presença que um filho – ou, no caso vertente, uma filha – reconhece por lhe ter cantado ao ouvido na primeira noite de choro e cólicas. Um pai é essa mão macia e firme que a segurou no banho enquanto a mãe lhe passava a esponja. Um pai é o tipo atrapalhadíssimo – a mãe a gritar da cozinha, tens de ser tu a mudar-lhe a fralda que eu estou a fritar batatas – que pela primeira vez, começando com toalhetes perfumados, dois dedos já sujos (ó meu Deus como aquilo se mete debaixo das unhas!), o lençol branquinho da cama em, que se lixe, último recurso, lhe limpou o rabo, soltando ahrrs e outras exclamações guturais de profundo horror, doido por ir afogar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de caracóis da esquina. Um pai é o ignorante em pânico que entra pelas urgências da Estefânia, a pôr a laringite estridulosa, com que ela dá show de bola, à frente de traumatismos e fosse lá o que o raio de tantos aflitos e febris filhos dos outros tivessem.
Uma filha sabe que tem um pai quando ele lhe fala interminável, profusa e veementemente de coisas horríveis de que ela não quer saber nem em sonhos: vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola, foras-de-jogo, clamorosos erros de arbitragem. E esse pai sabe que é um pai porque a ouve dizer, entre o desabafo, um começo de feminina fúria, um ponto de exclamação que é quase um juancarlista “porque no te callas”: “PAI!” O tipo que a seguir se cala, é, garanto-vos, um pai. E é um pai o tipo que já não sabe se há-de rir ou se há-de chorar, quando lhe oferece uma Barbie, e essa filha que já sabe muito bem, com um raio de um imenso carinho escondido, que ele é pai, lhe diz: “É a terceira Barbie africana que me dás.”
Um pai é um tipo que não tem jeito nenhum, factor essencial para uma filha reconhecer um pai. Pai é o terceiro excluído, o que ouve uma mulher dizer, “agora, vai lá para dentro que a tua filha e eu precisamos de conversar as duas.”
E apesar das incongruências, da canhestrice, do ostracismo de género a que é votado, um tipo sabe que é pai. Esse pequenino amor condescendente de um beijo na testa, de uma festinha mais à bruta que lhe faz cair os óculos, é uma forma feminino-filial de dizer: “Não és mau de todo, coitadinho, és meu pai.” É um amor do tamanho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.
É preciso ser-se um grande aborto jurídico para se recusar um amor de arroz-doce.

19 de junho de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - Caleidoscópio quer dizer amo-te

A day without laughter is a day wasted. Quem disse e estava certo?

Ps: não sei quem inventou o YouTube, mas, my friend inventor, caleidoscópio. E merci.

17 de junho de 2014

FLOR DE SANGUE

Um rico leitor perguntou por este post e vídeo. Fez bem, era mesmo o que me apetecia ouvir e nem sabia. Aqui tem o post, está em Março de 2013, ali na barra à direita. Qualquer coisa é só pôr umas palavrinhas chave na Caixa  Farejar que o Cão, zás, fareja... Mas este post também está aqui, ora veja. Merci


GIRLS ON FILM: MEIKO KAJI
FLOR DE SANGUE

Quando era pequena, todos os dias o mundo mudava: todos os dias havia um filme novo no cinema. Jerry Lewis. Bruce Lee. Marisol. John Wayne. Gene Kelly e Fred Astaire e só uma Cyd Charisse para os dois. Ninguém queria saber se o filme tinha vinte ou cinquenta anos, ou se tinha passado dois-fins-de-semana antes, ou saíra ontem: era sempre novinho em folha no tempo em que as heroínas do cinema indiano cantavam com a voz da minha Lata Mangeshkar. Os títulos? Como não há, creio mesmo, nunca houve, nem então. E as meninas dos filmes, tão lindas, de uma pessoa querer crescer durante a noite enquanto dormisse para acordar crescida assim. Mas melhor que tudo eram as tragédias e as vinganças… ó drama bom.



Lady Snowblood é um filme de Toshiya Fujita, dos anos setenta. Lady Snowblood, Meiko Kaji, é Yuki, uma assassina. A família foi dizimada e ela parte em busca da vingança que obterá. A música, tão bonita, Shura no Hana,  foi muito bem reposta nos nossos ouvidos quando Tarantino fez Kill Bill - e ele usou-se, também, de parte do imaginário de Lady Snowblood, e mesmo da imagética, basta olhar para a morte de O-Ren Ishii na neve. E agora, em Django, o sangue nas flores brancas vem de lá.
Esta é a inesquecível canção, ouça todinha. E em baixo, tem a letra contada, vá, fielmente, em português, a partir das traduções disponíveis, em espanhol e inglês, no YouTube, ao meu jeito, pois então - a linda mais que linda Meiko Kaji, que é também quem a canta, sim, bela e talentosa, não vai zangar-se comigo -, ela sabe que são tão boas estas histórias: têm o drama mais infantil, o da cor do sangue, o herói solitário contra o mundo, desprotegido como uma flor. São mais que boas estas histórias, sejam a oriente de olhinhos em bico ou a oeste de cowboy. E na tela voltamos à quase sempre impossível simplicidade do bem e do mal.


Shura no Hana - Flor de Sangue
A neve, branca de luto, cai sobre a manhã morta, e assim ela caminha com o peso dos céus sobre os ombros e abraçada à noite escura dentro de si. O barulho das sandálias, o latido de um cão longe, atravessam o vento de lâminas e a sombrinha de papel é tudo o que tem para o enfrentar. É o caminho que guia os passos de quem há muito desistiu das lágrimas. Eis o rio. As lanternas que alumiam os viajantes estão apagadas. Os grous imóveis: gelaram de frio. E o vento. A neve. O cabelo, que despenteado, e a sombrinha de papel reflectem-se na água fria, mas nem uma lágrima sua acrescerá ao leito das águas. Nada sente quem deixou o desgosto onde deixou o coração. Desejos. Sonhos. Ontem. Amanhã. Bondade. Justiça. Palavras sem significado para a vingança: esta mulher vai matar quem a matou, vai recuperar o seu tesouro de lágrimas.

You will be alone with the gods and the nights will flame with fire

Quando comecei a fazer yoga tive de aprender uma catrefada de nomes de posturas - nem sabia o que queriam dizer. Mas o pior nem era isso, nem sequer o sentimento de grupeta semi-religiosa-espiritual, nem a cantoria, nem ai o guru laru. O pior era a alergia que o incenso barato me provocava: olhos na maior miséria, vá de espirrar, e a respiração, coisa básica, porém fundamental, toda desgraçada. Assim que atingi o nível mínimo de independência daquela zona militar, e graças à bendita Amazon, mandei vir vídeos de diferentes escolas de yoga - as tais capelinhas. E pratiquei. E pratiquei. Até poder dizer, pronto, agora vou sozinha. Entretanto, e por acidente Amazónico, descobri o anti-estilo e nenhuma escola de Tara Stiles. De vez em quando, quando me apetece companhia, faço as aulas dela.


Yoga é buscar dentro a força que lá está. Bukowsky sabia-a toda e nunca precisou de tapete.

15 de junho de 2014

O Senhor Cão

O Senhor Cão ainda muito amachucado no dia em veio para casa, ó, desdentado... 


O Cão
foi muito valente:
operado de urgência,
todo entubado,
foi um resistente,

e ficou com um só dente
da frente.
Ó.
Tem todos os outros
e os lindos caninos,
mas para o ex-sorriso
faltam dentinhos.
Faz mal? Não.
Privilégios da canina idade:
é um belo e desdentado
Senhor Cão.






Em resposta às Tristes meninas, Maria João e Rita.

Visão, tenha duas: Quem nos roubou o prazer?


Meia-Noite na capa Visão. O Manuel S. Fonseca e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já se sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”




Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

QUEM NOS ROUBOU O PRAZER?
Quem/ nos roubou/ o prazer/ de existir?// Porque/ nos roubamos/ o prazer/ de existir? perguntou aqui há uma dezena de anos Adília Lopes.
Lembrei-me logo de Adília Lopes quando vi Rubens aqui plasmado, montado e opulento, cheio até às coxas do cavalo, transbordante no seio.
Engordei 43 kg
de 86 para cá
agora
gorda como estou
já caibo
num quadro de Rubens
(segundo o Osório Mateus
no meu caso
era mais fácil
entrar para o quadro
de um pintor
que para o quadro
de uma empresa).
O prazer anda na cama com a estética de um lado e com a ética do outro. É um triângulo amoroso clássico: ao meio, bem aconchegado entre as duas faces tão diferentes da bela mesma moeda deita-se o homem e abraça as duas - sim, sem dramas, onde diz homem pode ler mulher ou o que lhe der na telha de géneros fluídos, quero lá saber.
Mas antes. Faz amanhã uma semana que estive de esplanada com a minha mãe. A prestar atenção. As crianças engordaram muito. Os adolescentes. Mesmo os pés transbordam das sandálias e as mãos são papudas. E por outro lado, mas pelo buraco da agulha, o oposto disto: miúdas escanzeladas. Os corpos extremam-se em excesso e falta de peso, sendo que o excesso é penalizado e a falta recompensada.
Se à gordura atribuímos o valor da decadência, da doença e da morte, tal não se passa com a magreza. Notou como o magro, o Estica, o par do Bucha, desapareceu do anedotário? A Olívia Palito é, desde os anos sessenta, setenta, e na sua puberdade envelhecida com suplementos de silicone nas mamas e lábios, um dos anjos de Victoria´s Secret. Não me entenda mal, eu gosto do estereótipo destas meninas-mulheres de fantasia, tão bem despidinhas, umas bonequinhas. Para brincar. As medidas de uma mulher são outras. Ora, vá lá ver o site para encomendar umas gracinhas para confirmar que para a tia Vitória isto não é segredo nenhum.
O referente da juventude e da magreza aproxima o corpo feminino do corpo masculino. Já reparou como os pré-adolescentes se assemelham: as meninas mal têm maminhas e ancas, os meninos ainda não alargaram. Este é o corpo das passerelles. Então, pergunto, que desejo sexual é nosso? Na idade adulta, este corpo, e desejo de o possuir para si mesmo, ou de se apossar dele, não será narcísico? Se além de si mesmo, só contempla Eco, o eco de si mesmo, cristalizado, ainda mal pubescente... Incapaz de sair de si, não é um corpo de prazer. É um corpo de sacrifício à fantasia - e é aqui que começa o pesadelo: fonte da juventude, ausência doença e promessa de imortalidade.
A opulenta menina de pequena maminha, hoje com menos do que uma copa C, e um metro e setenta para cinquenta quilos de peso, não serviria a Rubens de modelo, ela que segura os louros enquanto sopra ao ouvido do rei memento mori para conter o eu insuflado como um balão pela glória do nascimento e das obras.
Há quanto tempo ninguém nos sussurra ao ouvido lembra-te de que morrerás?
O prazer deslocou-se para o corpo ao espelho ou para corpo na montra real e virtual - como nas fantasias de ser e ter?
E a alegria do corpo, o prazer lírico do corpo, o prazer lúbrico do corpo enquanto a morte, que pode esperar, ronda? Porque nos roubamos o prazer?

14 de junho de 2014

Gaja tansa...

POEMA DA MULHER MANSA
À mulher mansa, gaja tansa, dá-se música
e ela dança – a mulher mansa merece tanga.
Pode-se mentir que a bichinha nem ai nem ui,
pode dizer-se-lhe fui ali quando não, não fui.
Ninguém sabe desperceber melhor do que ela,
raio de manso mistério, luz escura de uma só vela.
À mulher mansa põe-se um par de cornos vezes cem,
e mesmo à frente dos olhos também, não é meu bem?
A mulher mansa não é só bailarina, não é só cega,
a mulher mansa tem uma coisa de puta, mulher, amante
ou amiga, filha ou irmã, nunca se nega,
ou será uma coisa de cão? Rola, deita no chão, dá a pata
linda menina, agora já chega, não seja chata.
A mulher mansa muito de quando em vez
faz drama para não deixar crescer a chama.
Se a mulher mansa se chateia, cuidado, incendeia.



13 de junho de 2014

Visão, tenha duas: o homem de cabelos brancos, o rapaz de calções, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O HOMEM DE CABELOS BRANCOS, O RAPAZ DE CALÇÕES
Do canto supe­rior direito da capa da Visão, Frei­tas do Ama­ral olha para Cris­ti­ano Ronaldo. “Nasci, como tu, a chei­rar o mar,” pensa. “Que dife­rença há, afi­nal, entre a Póvoa de Var­zim e Santo Antó­nio do Fun­chal? Não há nada que tenhas feito que me seja estra­nho”, sussurra-lhe.
O homem que está no canto direito da revista Visão, num peque­nino selo foto­grá­fico, um cromo quase, olha para baixo, para o per­feito atleta com a cami­sola das qui­nas, como quem olha para o colosso de Rodes. E pensa que a radi­osa máquina de mús­cu­los, esse corpo enxuto, rápido e efi­caz, é que sabe pouco. “Sabes lá o que era nes­ses anos de chumbo do pro­fes­sor Sala­zar (anda­vas tu a sal­tar de galác­tica nuvem para nuvem), licenciar-se um tipo na vetusta Facul­dade de Direito em Ciên­cias Político-Económicas e três anos depois, com os mais ino­cen­tes 26 anos, arran­car o dou­to­ra­mento em Ciên­cias Político-Jurídicas?!”
O homem de cabe­los bran­cos, rosto maciço, um travo amargo e baixo no olhar, sabe que fez o que era certo e era pre­ciso ser feito e, no entanto, há um lín­gua de silên­cio que o invade, um gomo de res­sen­ti­mento que o aniquila.
Tal­vez não acre­di­tes – e já é uma noc­turna maneira deste homem fechado num peque­nino qua­dro do canto supe­rior direito de uma revista, falar con­sigo mesmo –, mas era bem capaz de tro­car o meu reino, por um dos teus peque­nos sal­tos de cavalo. Os livros que li e os livros que escrevi, as minhas bata­lhas cons­ti­tu­ci­o­nais, as vitó­rias e as der­ro­tas polí­ti­cas, a Ordem Mili­tar de Sant’iago de Espada, a Ordem da Estrela Branca da Estó­nia, a pompa e cir­cuns­tân­cia dos meus palá­cios, o cal­ci­nado silên­cio dos meus ban­que­tes, a rede maligna dos com­pro­mis­sos, dei­xava tudo, de tudo abdi­ca­ria, pela ale­gria física de um golo, pela explo­são ful­mi­nante de um sprint, pela glo­ri­osa irre­ve­rên­cia de um dos teus slaloms.
Sei tudo sobre o con­ceito e natu­reza do recurso hie­rár­quico (que tu olim­pi­ca­mente igno­ras), conheço Maqui­a­vel e Erasmo, as linhas essen­ci­ais da reforma do con­ten­ci­oso admi­nis­tra­tivo e só me vem magoar-me a cabeça o verso do poeta: “Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.” O que eu que­ria, esse meu per­dido Rose­bud da Póvoa de Var­zim, era um golo, a des-ideológica mul­ti­dão num está­dio, o mer­gu­lho na relva, o embru­lhado e sin­cero abraço dos outros joga­do­res, a cabeça leve, o cora­ção puro.
Da pequena janela, canto supe­rior direito da capa de uma revista, o homem de cabe­los bran­cos con­fessa a um rapaz enxuto: “Tive tanto no meu cére­bro, tão pouco nos meus pulmões.”

Visão, tenha duas: os meus sete mandamentos diários



Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


OS MEUS SETE MANDAMENTOS DIÁRIOS
1. Deitada antes de levantar recitar de cor a síntese de um poema de Paul Flemming com dois Provérbios Bíblicos:
Do fruto da minha boca se fartará meu ventre, da novidade dos meus lábios se fartará, pois a morte e a vida estão no poder da língua e aquele que a ama comerá do seu fruto e eu amo-a: dou sem nada perder, não cedo à morte, de tudo quanto me for devido e negado, muito mais me será dado. O que me aflige, o que me encanta foi-me destinado. Faço o que tenho a fazer, venham lamentos ou louvores, sortes ou azares. Tudo está em mim, o meu nome é Vida, não há no vasto mundo sobre o que não decida.
2. Este é o dia que Vida fez. E estas cinco bênçãos estão na minha mão – partilho-as todas mas a ninguém digo quais são. E obrigada pelo Cão.
3. Em jejum uma chávena de água quente com limão. Um sumo verde a caminho da sala e o tapete debaixo do braço para yoga e meditação – a minha irmã diz que bebo relva, respondo-lhe, pois sim, sou Jane na selva, só me falta o Tarzan. Depois, café. Um. Dois. Expressos bem tirados. Três. Ou de cafeteira e o cheiro… ah! meu mundo bom. Comer todos os dias uma coisa vermelha e outra deliciosa: uma romã, framboesas, caril de camarão, ou sushi, um gelado ou húmus no pão. Ter a alegria da água, a do duche, a do mar, a da chuva, até a da piscina - com água toda a alegria rima.
4. Escrever um verso ou um poema. Um capítulo. Um texto. Ou uma linha qualquer que ela seja. Mesmo se para a rasgar.
5. Ouvir música. Ver dança. Saloios do Tennessse, talvez ballet, talvez Bach, talvez não, jazz ou blues a fingir que a mão na mão. E ler. Nem que seja um só poema, um ensaio, a caixa dos tampões. Ver o céu, o mar, o verde – um filme, ou uma cena feliz, Donald O´Connor em Make ´Em Laught, Gigi em The Night They Invented Champagne, um histórico Sinatra com Dean Martin, um espisódio de Friends. E repetir A Guerra dos Tronos. E dançar uma música que me faça rir de mim e da música. E andar de bicicleta. Ir ao ginásio. Ou fazer o NYCB Workout. Ou tudo. Depende da condição do esqueleto, nervos e musculatura. Ou não fazer nada se estiver em dia de ter a alma em miniatura. Mas nem assim deixar de pôr rímel nas pestanas e de ter bem pintadas as unhas de encarnado, fundamental ao bem estar geral e ao preto do teclado.
6. Falar ou estar com um amor – ou pensar nele: os sobrinhos, a mana, ou o amado, a amiga, dizer querido, querida.
7. Deitada antes de dormir. A pele hidratada. O cabelo penteado. E recordar uma, duas, três, quatro, cinco, dez coisas felizes de hoje e agradecer, obrigada. E explicitar um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para amanhã. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a semana. Ajustar, um, dois, três, nunca mais de três prazeres-deveres, para um mês. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para o ano. Adequar. Voltar a ajustar. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a vida. E um sonho. Impossível. Vê-lo. Minucioso. Realizado. Dizer: este foi o dia que tinha de ser para chegar onde era impossível: obrigada. Respirar por uma só narina, a esquerda, cinco tempos lentos, parassimpáticos, para relaxar. E por fim, dizer amote ao meu segredo.

12 de junho de 2014

Todas as minhas portas estão abertas

CONTROLDESINVESTE
Vamos falar de trabalho. Eu trabalho: leio, investigo, penso, escrevo, corrijo, reescrevo. Vivo entre o erro e outro erro melhor, na folha branca, a tentar chegar à boa palavra, à espera que por mim queira fluir, florir no acerto nas teclas. Durante 14 anos bati a todas as portas de todas as revistas, jornais, editoras, agências de publicidade – não recordo o nome de uma empresa onde escreviam telenovelas, mas a essa porta bati também.
Do muito que me chocou, nada me chocou tanto quanto a falta de uma resposta. A dignidade de um não. Não, não queremos. Diante do não podemos desenvolver uma estratégia para chegar ao sim. Refazer.
Só silêncio e aleatoriedade - e diante disto faz-se o quê a não ser resistir e insistir na expectativa de que o silêncio se abra e a aleatoriedade nos contemple? Nada me chocou tanto como não conseguir sequer uma entrevista numa revista, num jornal, numa editora, numa agência de publicidade, numa fábrica de telenovelas. Nem o mérito, nem a falta de mérito foram critérios.
Tinha a esperança mais canónica, uma esperança bíblica construída em cima do versículo de Lucas, bate e abrir-se-á. Perdia-a. E parei. Nem a mais uma porta. Foi quando compreendi o significado de religião. Foi quando percebi a diferença entre a esperança e a fé. A fé é uma certeza substancial. Não do que se quer, ou tem, mas de quem se é, de que matéria se é feito. E soube quem era. A própria Voz da Criação fala em mim: *And I say unto you, ask, and it shall be given you; seek, and ye shall find; knock, and it shall be opened unto you. For every one that asketh receiveth; and he that seeketh findeth; and to him that knocketh it shall be opened. Todas as minhas portas estão abertas.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, tenho assistido às movimentações do mundo dito cultural, artístico, editorial e dos seus agentes. Vi, entre o muito que vi, o efeito da maçonaria numa carreira para-poético-literária. E vi o efeito das relações de proximidade social, sexual, político-partidária nas instituições e pessoas culturais. Também encontrei valor, grande valor, extraordinário e inspirador. E todos os dias agradeço e pela gente morta, guias vivos na obra que deixaram.
E leitora que sempre fui, ouvinte, observadora das acções dos homens e dos discursos dos homens de decisão, vi a falta de coincidência entre umas e outros. Se um homem não é o que faz, se a sua palavra não tem o valor de uma acção, o que raio é um homem? Há quem remeta a justificação para tal décalage comportamental para a economia. Penso que não a encontraremos aí. Penso que tal justificação estará na ideia de pessoa e de comunidade que escolhemos ser.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, mas do lado de cá das portas fechadas, previa sem qualquer vidência, a queda: Alexandre Magno e o Cão, Diógenes, são um par antitético, um dos pares essenciais, dois dos pilares fundamentais de sustentação. Se um cai, o outro cairá, se não hoje, amanhã. Porque são duas manifestações de uma só realidade.
Sem filosofia não há política. Sem cultura não há erudição. E sem política, erudição, e sem criatividade, talento, técnica, não há arte. Sem diferença morre-se de consanguinidade e de homogeneidade. Assim fazem-se escravos em lugar de Homens.
Soube do despedimento colectivo na Controlinveste. 140 postos de trabalho afectam mais do que 140 profissionais, são 140 famílias. Gente que vivia directa ou indirectamente neste mundo feito de letras e nem por isso menos denso ou mais subtil. Ama-se da mesma forma, gasta-se água e luz e gás. Vai-se ao médico. Tem-se despesas fixas e flutuantes como as alegrias e as tristezas.
Só quem está do lado de cá sabe o que é estar do lado de cá. O lado de cá, do que quer que seja, é para muito poucos. Não há consolo e a esperança cansa-se. Só a certeza levanta os dias do chão.
Eu escrevo. Poesia, ensaio, e crónica. Agora um romance. Já publiquei e mais publicarei - ou não. Já tive um carro. Já tive uma casa. Mas porque escrevo e escreverei, já não tenho. Não interessa. Nem interessa que não interesse. Não peço nem a Alexandre que se desvie porque não é ele quem me faz sombra. Ponho tudo quanto tenho e sou nas palavras que escrevo: pelas palavras se morre, pelas palavras se vive. E todas as minhas portas estão abertas.

*Luke 11:9-10
King James Version (KJV)

11 de junho de 2014

Bonjour Mundo! Parabéns Cabeça de Cão! Viva!

Cabeça de Cão

Foi há dois anos. Foi assim. Eu não disse que with a little luck?... Sim, disse. Então, doutor leitor, para si: merci e kiss.

lailailailailai
can´t you see it´s possible
and oh oh so probable
lailailailai
with a little luck 
lailailai before
the day can turn to night
with a little luck lailailailai



Seja um homem, perdão, seja um lobo


E isto, meus filhos, é mais motivador do que dez sessões de coaching. Be a wolf - e não me refiro apenas ao literal ecolailailai. Mas ao amado, but you may contribute a verse, do grande lobo Whitman. Como agora já não se pode dizer seja um homem que nos cortam a língua, seja um lobo.

Aqui tem o artigo, de Março, no Guardian. E aqui o video. Enjoy.



Ps: não é o uivo que faz o lobo ainda que o lobo uive. Wolf up!

10 de junho de 2014

RASGADOS

Foto Grafias, fotografias de Maria João Cabrita com textos de Eugénia de Vasconcellos - aqui.

DEZ DE JUNHO DE 2014


Rasgados. Como só Camões, Pessoa, os Poetas. É ainda o Nevoeiro: "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, /Define com perfil e ser/ Este fulgor baço da terra/ Que é Portugal a entristecer" 

8 de junho de 2014

Bonjour Mundo! Corra e olhe o céu...


As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - o que é necessário é criar

Pompeu, general, precisava de fazer chegar a Roma o trigo e cereais recolhidos nas províncias. Mas o mar era só outro nome para uma tempestade dos diabos e os homens são carne e ossos, filhos de mães e pais, e pais de filhos. Então, quando afirmou navigare necesse, vivere non est necesse, não lhes pedia que embarcassem, exortava-os a atravessar o mar que é, todos sabem, cumprir: olhar no rosto as mortes todas que temos de viver para chegar ao fim do dia. Foi Plutarco quem contou deste navegar é preciso, viver não é preciso. Mas veio Pessoa e apossou-se do espírito que estava dentro da frase porque o reclamou para si porque era glorioso e bom: 

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.


6 de junho de 2014

When the dog bites, when the bee stings...

I simply remember my favorite things... Como esta Serenata que descobri dentro da Cantata de Mauro Bigonzetti, bailarino, coreógrafo e director artístico do Aterballetto, encomendada pelo extinto Ballet Gulbenkian, que a levou a cena em estreia absoluta em 2001.


Porque a Cantata assenta num maravilhoso suporte musical popular, da Italia dos séculos xviii e xix, pude conhecer esta Serenata napolitana como se fosse nossa. É nossa. Há quem atire esta peça de bailado para o neo-realismo, fala-se Fellini e Rossellini, ou rebusca-se a Comedia dell Arte, o diabo a quatro: a arte não opera a esse nível do discurso que serve, deve servir, apenas e chega porque é tanto e tão bom, a propósitos educativos, académicos ou criativos, não à alegria fresquinha da fruição que sempre pede olhos inocentes como acabadinhos de florir. Se arte não for coisa da nossa carne, então não é nada.



Nota: este meninos, Natalia Osipova e Ivan Vasiliev, que aqui vêm em reportório contemporâneo e de autor, são os mesmos virtuosos do reportório clássico que já aqui vieram com The Flames of Paris. Veja tudo tudinho e goste muito. E sim, claro que when the dog lailailai é da letra de My Favorite Things, do The Sound of Music.

DREAMS

Fotos Grafias, fotografias de Maria João Cabrita com textos de Eugénia de Vasconcellos - aqui

RAGE, RAGE, AGAINST THE DYING OF THE LIGHT

Sonhar não é proibido nem quando nos proíbem o sonho. Especialmente se nos proíbem sonho.


Visão, tenha duas: O Príncipe Seco e o Príncipe Molhado, por Manuel S. Fonseca


visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O PRÍNCIPE SECO E O PRÍNCIPE MOLHADO
A nossa cabeça é geográfica. A nossa alma também. A praia é um lençol azul marinho dobrado sobre a almofada de marfim que é a areia. A praia é a maré vazia da nossa cabeça. A praia é a maré cheia da nossa alma.
Até aos cinco anos, só tinha visto um rio. Um rio aperta-nos a cabeça entre as margens. Um rio são duas pernas geográficas que violentamente descem montanhas e atravessam vales. Depois, aos cinco anos, houve um dia em que acordei no mar. Vi o mar antes de ver a praia (há tanta gente que só vê a floresta, sem nunca ter visto uma árvore). Vi, então, o mar. O mundo desaparecera, substituído por um oceano sem fim, com o sol em cima. Era um barco, o Vera Cruz, e julguei que, por terem roubado a terra, viveria eternamente nele. Durou oito dias a minha eternidade. Manhãs de baleias, tardes de golfinhos, noites de zodíaco, como deve ser qualquer eternidade.
Foi em Luanda, onde o Vera Cruz me deixou, que vi pela primeira vez a praia. Aos cinco anos, nas calemas adamastoras da Praia do São Jorge, soube o que era ser um príncipe.  O verdadeiro príncipe, pilinha a abanar nos larguíssimos calções, corria de pés nus e nunca estava seco. Lá está ele, é guarda-redes em voos estilosos e brinca na areia, n’areia. O verdadeiro príncipe chora a ver o mar e não sabe nadar, yo, não sabe nadar, ye.
Na capa da Visão que me fez planar sobre estas coisas todas, há um príncipe de gravata às riscas, que acena entre as rochas. A gravata é bonita mas, talvez por causa da gravata, vai deixar de ser um príncipe e passar a ser um rei. Nenhum príncipe de praia quereria ceptro e coroa. O verdadeiro príncipe da praia abdicou, porque abdicar é a sua condição. Não se tira tudo da cabeça –a dívida ao Banco, o EBITDA ou o desemprego, a Ucrânia e mesmo a morte que saiu à rua na Síria, a mulher, os filhos e os filhos da mulher, a metafísica e a contabilidade, a inútil e agitada panóplia do incerto quotidiano – para depois se pôr na cabeça o ferro de uma coroa.
O príncipe, o geográfico príncipe da praia, tem a alma cheia, eróticas ondas da alegria de coisa nenhuma, na pele o poético sal de um tempo sem tempo, os olhos iluminados pela preguiça tórrida de uma tarde que não mexe nem o mais escondido pintelho.
Olho para esta capa da Visão e já vejo Filipe V a entrar en la Zarzuela. Portugal estremece. Não sei se por ouvir palácios a gritar por Filipes, se apenas por ser Verão e já há tanto tempo sabermos que um rei vem sempre nu morrer à praia.

Visão, tenha duas - Everything's alright



visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
EVERYTHING'S ALRIGHT
Só me apetece entrar no mar e sair do outro lado. E chegando lá, olhar para cá, e ver que fiz o poema de Adélia Prado: o caminho do céu.
Desde ontem que tenho na ponta da língua, sem saber porquê, sem querer sequer saber, a canção que, no filme Jesus Christ Superstar, ao perceberem a aproximação do fim, Maria Madalena primeiro, depois Pedro, e a terminar todos cantam, could we start again, please. E desde ontem que a resposta se me faz ouvir no mesmo filme quando Herodes canta e dança com os dedinhos das mãos o charleston onde diz a Cristo, prove to me that You´re no fool, walk across my swimming pool. E desde ontem que me digo, everything's alright, não tenhas preocupações de Judas.
É preciso recuar. Primeiro a Jesus Christ Superstar, um filme da minha infância que não sabia nada de ter sido adaptado de um musical, nem de controvérsias geradas. O que a minha infância sabia muito bem é que o cinema era praticamente lá na sala, não era preciso pagar bilhete, coisa muito boa porque a minha semanada era ínfima. Bastava enfiar-me à socapa na frisa e saía do outro lado. E ainda havia aquilo de poder desaparecer e aparecer calculada e dissimuladamente quando suspeitava que o filme não para era mim, expressão decalcada da minha avó, não, não pode, não é para si, para a sua idade. Porquê? Ora essa, porque eu disse. Pois eu também dizia, mas era com actos. Guerilha. Parti do princípio que tendo no título Jesus, não havia de ser bem querido naquela casa de ateus. Como vivia quase porta com porta com o cinema, fazia o ilusionismo de aparecer no intervalo em casa e ser notada e barulhenta para que o desaparecimento fosse uma bênção – há-de estar a ler no quarto, no quintal, no telhado.
Este filme fez-me abrir muito os olhos. Um guarda roupa de dois tostões e um monte de pedras por cenário. Tal qual aquela gente cheia de prodígios que aparecera do Verão Quente, os cabelos compridos, as calças desbotadas e desfiadas, todos vestidos como a minha Janis Joplin, e os panos pretos estendidos no chão onde se alinhavam anéis, pulseiras, colares, bugigangas que vendiam enquanto tocavam guitarra, fumavam, riam. O meu tio já era grande, estava no último ano do Liceu: deixou crescer o cabelo e os amigos que iam lá a casa pareciam do filme, todos em Pedros e Madalenas. Faziam lanches que duravam a tarde toda e dançavam na varanda. Eu também dançava. Desconfio que não eram apenas os lanches de sábado que duravam pelo tempo adentro, tenho quase a certeza de que saíam até tardíssimo de se fazer cedo porque, às vezes, de madrugada, mal o dia ganhava uma corzinha, o meu tio ia buscar-me à cama e levava-me no ronron da Honda preta até ao mar. Um segredo de pijama, robe e pantufas.
E é preciso recuar até Adélia Prado porque os bons poemas são as escadas da eternidade, está-se lá em cada degrau, não é preciso subir. Um corpo quer outro corpo./ Uma alma quer outra alma e seu corpo./ Este excesso de realidade me confunde./ Jonathan falando:/ parece que estou num filme./ Se eu lhe dissesse você é estúpido/ ele diria sou mesmo./ Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear/ eu iria./ As casas baixas, as pessoas pobres,/ e o sol da tarde,/ imaginai o que era o sol da tarde/ sobre a nossa fragilidade./ Vinha com Jonathan/ pela rua mais torta da cidade. / O Caminho do Céu.
Talvez a praia, o ecrã do cinema, o poema, sejam o escape, as férias, o lugar onde a vida pode morrer por um bocadinho para ser outra antes de voltar a ser a mesma. Mas talvez sejam a realidade ainda que eu não walk across your swimming pool, e talvez seja mesmo fool. E agora que já não tenho o cinema ao lado, e que Jonathan, esse trânsito entre a carne mística, crística, mas concreta e completa que qualquer mulher percebe o que é quando o digo, como Adélia a chamar-lhe estúpido, e os homens, hã?, agora que nem cinema nem Jonathan há, só me apetece entrar no mar e sair do outro lado, num multiverso qualquer que dê para um poema e onde se possa start again, please. Deste lado, everything's alright, mas para escrever não há nem uma linha de água. 

4 de junho de 2014

É o commlock!

Não quero cá saber de telemóveis, são para fazer chamadas. Nem de carros que é coisa para ir de um lado para o outro. Nem de computadores, logo sejam uma boa máquina de escrever, com um bom ecrã para muitas horas de, vá, contemplação da folha branca, e rápidos. 
E1999Agora o Skype saiu directamente do Espaço 1999, é o verdadeiro commlock!, e por causa disso quero saber de telemóveis e de computadores. Afinal de contas, sou a Helena Russel, o Alan Carter e a Maya.
E1999 2Inventem-me uma Eagle One para o asfalto que até eu me agarro ao volante.

3 de junho de 2014

Agora que penso nisto...

A Gulbenkian é em Lisboa o que o Vaticano é em Roma.

1 de junho de 2014

O Falcão


AÍ VEM O MEU FALCÃO
Ontem, ri muito ao telefone com a  minha prima. Conhecêmo-nos desde que nasci, e só não foi antes porque ela chegou com seis meses de avanço sobre mim. Muito naturalmente, temos um património de memórias que vão do mais pateta ao mais hilariante -  e muito choro pelo meio.
Se tivesse veleidades quanto à minha natureza anímica, ou pretendidas disposições elevadas de nascimento, tinham-me passado todas com a conversa. Explico.
Toda a gente que acredita na reencarnação foi alguém noutra vida. E quem não acredita, faz um exercício de imaginação, e acredita também. Quando digo foi alguém, não digo uma pessoa comum. Cleópatras pululam pelas nossas avenidas – não que estejam erradas, pois Cleópatra terá tido sósias que uma mulher não chega para tudo, que nervos, audiências na sala do trono, César, António, os escravos, os sacerdotes, construções e inaugurações, manter os palácios em condições, guerra, enfim, uma trabalheira. E quem diz Cleo diz qualquer rainha de uma dinastia menos ptolomaica do que aquela. Ah, fartura de Marias Antonietas sem amour ao rico pescoço... Os homens são diferentes, ponha-se-lhes uma espada na mão e foram logo um guerreiro qualquer – faz ó-ó, Freud, não sejas judgemental, que feitio, aposto que na outra encarnação foste rabi.
Pior. Há aí uma tendência transmigratória de “almas muito antigas”. E diz que se nota pois têm uma sabedoria eco-coiso-transcendental de nascença. Ora, é mesmo aqui que a porca torce o rabo. Porquê? Também queria ser isso. É bonito ter sido um monge no Nepal e lembrar a infância do mundo no cântico dos mantras. Ter dentro uma paz tipo Keanu Reeves a fazer de Buda. Eu gostava. Mais. Faço meditação, yogo me mucho, bebo uma fartura de legumes, como frutinha, sopa e salada - e em voz baixa, montes de peixe e outros animais marinhos: há-de haver aí um barco que trabalha só para mim. Isto para chegar onde? Aqui.
Se, quando anterior Dalai Lama morreu, tivessem ido lá a casa sacolejar-me os ossos infantis a ver se lhe encontravam o espírito nos objectos e hábitos, teriam tido um choque, como direi, cultural-religioso-evolutivo. Sei de fonte sabida, e a minha prima é testemunha, que, na melhor das hipóteses, a minha alma é semi-nova – a alternativa é ser nova a estrear: hei-de ter sido um lobo, ou outra bicheza caçadora que não fosse para pagodes.
Quando era muito pequenina, a minha comida preferida era… Bife Tártaro. À Americana, como então se dizia. Adorava. Tudo. Mesmo visualmente: a beleza veraneante do amarelo da gema, a frescura tão encarnada, o moinho de pimenta de madeira escura que surgia do altíssimo armário a anunciar com um ruído fino de esforço, coisa irritativa, do uso, que o senhor bife estava pronto para ser comido. Tinha de ter aquela medida perfeita, definida para o equilíbrio do ovo, e ser sobre o redondo - nada daqueles monstros deselegantes e esparramados. Até o nome era aperitivo: Tártaro. Ai que fome.
E, para perder de todo as esperanças transcendentais, se me apetecia petiscar qualquer coisa entre as refeições, era uma linda carninha crua, cortada em bocadinhos. Dizia a minha prima ontem: lembras-te, quando tinhas três, quatro anos e a tua avó dizia: aí vem o meu falcão...