17 de maio de 2014

O Cão e eu e eu e o Cão


VAI-TE CASAR, VAGABUNDO…
Gostei de beber o belo tinto, de saborear a rica mousse de chocolate que um dia, sem aviso, desgostei. Muito completamente. Nem fui eu, na realidade, foi o meu corpo quem desgostou, caiu-lhe mal e não voltou a cair-lhe bem. Confesso que a ditadura do gosto imposta pelo meu corpo me chateou - então, afinal, quem manda aqui? Desiludam-se: não há cá mind over matter. O mais que consegui foi esta aliança mind & matter Lda, mas de vez em quando ainda nos pegamos. Isto para dizer o quê?
A minha memória ainda gosta de chocolate, de leite, de iogurte, de leitão assado, de batatas fritas. O meu corpo é que não os suporta. Mal comparado é como as pessoas que fizeram parte da nossa vida e foram tão importantes para nós: a melhor amiga e o primeiro amor que eram para sempre. A nossa memória ainda os ama quando voltamos a ter aquela idade, de olhos fechados, ai que felicidade. Mas cada um cresceu na direcção de ser quem é e agora nada temos a dizer, não há o que possamos fazer juntos, nem queremos. Parece mentira e é verdade. Voltando ao chocolate.
A minha irmã ia muito a São Tomé, numa dada altura, a trabalho. E trouxe-me um chocolate preto com mínimos, ínfimos, cristais de açúcar. Outro tão negro quanto aquele, mas com uma pitada de sal, e outro ainda com uma leveza picante e aromática de gengibre. Artesanais e todos com mais de 75% cacau. O meu corpo e a minha memória fizeram as pazes. Azarucho do caneco, não há o tal do chocolate em Portugal, ou se há não descobri onde, ainda que seja todo para exportação. Aqui há uns anos, o pai de uma querida amiga ofereceu-me umas colheitas tardias. Mais acordos de paz. Voltei a provar o vinho. E o bem que me sabe? E descobri um leite de soja saboroso, coisa quase inacreditável, para substituir o meu velho Vigor. Isto para dizer o quê?
Hoje é um dia importante. O Cão teve alta – foi internado e fez uma cirurgia grande, é um valente. Para estarmos descansados, os dois, antes de o ir buscar, tratei de ir comprar os jornais do costume, e o recomendado extra que sou bem mandadatenho uma pilha de livros já enfileirados, uma fartura de música com a direcção do meu Antonino Votto à cabeça que isto não pode ser só blues, indie, jazz e pop, nem andar pela casa a fazer macacada a fingir que sou uma estrela de Bollywood. E trouxe três, sim, três chocolates negros-nigérrimos para os experimentar a ver se me dou bem com algum. Tahini já preparado que não estou para trabalhos com o hummus. E café! Tudo quanto faz falta num bunker de fim-de-semana-forçado-prolongado. Voltando ao chocolate.
É bom quando alguém nos traz chocolate, escolhe livros por nos adivinhar os autores desconhecidos, nos descobre a música que temos dentro e nem sabíamos, se interessa pelo Cão. Faz coisinhas. É muito bom aquilo de que as pessoas casadas se queixam quando olham para a liberdade das solteiras: isto já não é casamento, é família. É bom que alguém cresça connosco na mesma direcção. Um laço é bom. Mas um nó é melhor.

Faz a fama e deita-te na cama


O meu sobrinho mais velho tem cinco anos e está no primeiro ano. Os colegas quase todos têm seis anos, um ou outro, sete.
O meu sobrinho mais velho usa botas ortopédicas – eu também usei. 
O meu sobrinho mais velho todas as noites faz a bomba, tem asma. E, apesar de muito alto, é escanzelado.
O meu sobrinho mais velho colou folhas e fez um livro: em cada página uma história com título e um desenho. Sozinho.
O meu sobrinho mais velho preocupa-me. 
O meu sobrinho mais velho tem uma ideia muito particular do que é um jogo de futebol: se a equipa dele marca, fica feliz; se a equipa adversária marca também, ou seja, qualquer das duas equipas não o quer na equipa. 
O meu sobrinho mais velho quis participar na corrida obrigatória do colégio, apesar de poder não o fazer – a tal da asma. 
O meu sobrinho mais velho tem pais pedagógicos que lhe disseram: o importante é participar e acabar a corrida. 
O meu sobrinho mais velho acreditou, chegou em último e feliz da vida – há photos que o comprovam. 
O meu sobrinho mais velho ficou muito triste quando os meninos gozaram com ele por chegar em último. 
O meu sobrinho mais velho é… diferente: muito bonito, muito bebé, nada competitivo, um estranho bom aluno, foge para a sala do segundo ano, mas só se interessa pelas coisas lá dele e, zás, gosta muito de todos os meninos e meninas. 
O meu sobrinho mais velho levou uns pontapés dos meninos de quem gosta. 
O meu sobrinho mais velho, repito, tem pais pedagógicos que lhe disseram: defende-te mas não ataques.
O meu sobrinho mais velho e eu tivemos uma conversa de tu cá-tu lá, não há pão para malucos: nós somos privilegiados, nós somos bons, queremos sê-lo, devemos. Os meninos pequenos e as pessoas grandes, às vezes, confundem ser bom com ser parvo. Não percebem, não têm sorte como nós. Nós não somos parvos, somos bons. Para continuarmos a sermos bons, agora, é preciso fingirmos que somos maus. Fixa: faz a fama e deita-te na cama. Faz de conta que somos maus. Boa? Quem tem botas ortopédicas? Quando te derem um pontapé tu dás outro. Com força, sim? E amanhã, mas só amanhã, tá?, porta-te muito mal na sala: fala alto, não faças os trabalhos. O professor vai mandar-te sair – e isso está certo, enfias-te no segundo ano e não dizes nada a ninguém. E leva os bichinhos no bolso.
O meu sobrinho hoje teve dois erros no ditado: plain/plane. Ó. 
O meu sobrinho mais velho levou bichos de conta, tão lindos, para a mesa de trabalho.
O meu sobrinho mais velho pregou dois valentes pontapés em dois meninos que lhe deram pontapés mais uma vez. 
O meu sobrinho mais velho conseguiu ir para a rua não uma, mas duas vezes. 
O meu sobrinho mais velho se, azarucho do caneco, der em escritor, será de best-sellers.

16 de maio de 2014

Visão, tenha duas - I Love Portugal

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO: TENHA DUAS

VISÃO, TENHA DUAS
I LOVE PORTUGAL


Meu Amor de i love u,

então, o que é isto, agora, de andar nas bocas do mundo? Ser amor de i love you, de te quiero, amor de je t'aime? E de ser um amor lindo, ai tão lindo na volta perfeita do 28? E na decadência vagarosa e lírica das paredes meias, meias desfeitas, que sobem até ao Castelo em guitarradas nocturnas para audiências estrangeiradas e locais paredes grafitadas? E lindo no cliché da luz diurna e do Pessoa, coitado, eternamente sentado, imobilizado em metálico bronzeado no… Chiado. Também o eléctrico chia uma aflição de carris acima travões abaixo. E sabe o meu amor tão lindo que, quando se respira mal, também há um chiado, um sibilo, aqui mesmo na base do pescoço onde o ar todo se afunda? Meu amor: afundo-me de tanto i love u em português pré-acordado.

Já aluguei a minha casa aos turistas do 28 da Carris para pagar a hipoteca e vivo debaixo de um telhado de empréstimo. Não é uma queixa, é uma gueixa: sou eu a fazer ao meu amor as vontadinhas todas, até as que ele não sabe que tem, de meias imaculadas, silenciosas e branquinhas, e corações desenhados a baton nas boquinhas de beijos assim, ouviu?, mandados pela distância como as cartas de antes - pois se tu love me, meu amor, eu love u more.

Mas às vezes... às vezes duvido-te, amor, desta dádiva, e não é só porque tenha a duvidávida herdada de David Mourão-Ferreira – também ele te amou de forma inteira e em sílabas métricas e nas voltas eléctricas das letras acústicas do fado. E que fardo tão leve, e o tempo, ai tão breve, para cantar-te, que uma vida nem chega, nem a tristeza tem peso, nem quando é já tarde. É tarde?

Duvido-te, amor: amas-me? E deixas-me assim tão solta como diz o velho Mano Caetano, a contares com a minha sempre fidelidade e o Deus me dará? E mais. Sabe: penso mal de ti, à noite, em voz baixa quando ninguém ouve: que amor é este capaz de desprezar o amor que lhe tenho? Talvez seja só um oportunista desses que por aí andam a fazer a pequena notícia e os grandes estragos. Ai, e se o meu amor é só mais um “Comandante” Perestrelo, explorador de corações solitários, fechados em armários, desejosos de sair para sorrir um riso bem passeado de mão na mão e beijos na boca à sombra de um lampião enfeitado de corvos recortados contra a lua? Coitadas das noivas roubadas nas carteiras e nos futuros planeados em cama de casal, e em sonhadas fardas falsas penduradas no estendal…

Pronto, já passou. Tem de perdoar estes maus pensamentos, o meu amor, sim?

E de seguida perdoar a super-abundância referencial. Mas fazer o quê, se tal como somos barro de pai e mãe, da carne de pai e mãe, somos feitos da matéria do espírito?  O meu amor lembra-se de quando Zara, não é essa!, amor maluco, a de William Congreve diz heaven has no rage like love to hatred turned, nor hell a fury like a woman scorned? Não, não é uma ameaça. É uma advertência. Olhe, a outra referência é em The Godfather iii, quando o cardeal Lamberto retira um seixo da fonte ao centro do claustro e diz a Michael Corleone, mais coisa menos coisa, cito de cor, meu amor, veja, está na água há tanto tempo e ela não penetrou nele, depois parte-o e acrescenta, seco, perfeitamente seco. Já lhe ocorreu que um dia, meu amor, seja eu o lindo amor de outro amor?

Visão, tenha duas: O 28 da Carris, por Manuel S. Fonseca

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO, TENHA DUAS
O 28 DA CARRIS
A pri­meira vez foi numa loco­mo­tiva. O com­boio estava parado onde os com­boios para­vam e o Fer­ro­viá­rio trei­nava. Entrá­mos à sur­relfa na loco­mo­tiva e con­du­zi­mos um com­boio que não saía do sítio. Fize­mos fotos a fin­gir de maqui­nis­tas. E a loco­mo­tiva não tugia nem mugia: nem um apito, nem uma nuvem de vapor.
A segunda foi no Aero­porto que hoje é 4 de Feve­reiro. Phi­lip K. Dick nunca adi­vi­nha­ria, e muito menos H.G. Wells, que um dia se faria ter­ro­rismo de avião. Numa noite des­ses tem­pos lon­gín­quos, entrá­mos num avião par­que­ado bem den­tro do han­gar. E que me caia já um braço se não era um Fri­endship. Era­mos uns miú­dos de 15 anos e tínha­mos um amigo que tra­ba­lhava na manu­ten­ção. O Fri­endship estava por nossa conta e avan­çá­mos para o que inte­res­sava, o cock­pit. Sentámo-nos onde se sen­tam os pilo­tos e mexe­mos em tudo o que os pilo­tos mexem. Ao con­trá­rio do imó­vel e silen­ci­oso com­boio, o avião, ofen­dido, respondeu-nos. Res­fo­le­gou como um  cavalo e tive­mos a sen­sa­ção de que o foci­nho ia tom­bar e furar o alca­trão. Per­nas para que te quero, fugi­mos cobar­de­mente ao desa­fio, sal­tando da montada.
A olhar para esta capa da “Visão”, para este ama­relo da Car­ris, foi isso que eu vi. Mostram-me Lis­boa e eu vejo Luanda. A car­reira 28, que vai do Mar­tim Moniz aos Pra­ze­res, tem mais graça do que um com­boio parado, tem mais vida do que um avião que bufa. A car­reira 28, que corre à des­fi­lada pelos car­ris de Lis­boa, é um Fri­endship dos trans­por­tes públi­cos. Sobe coli­nas, desce coli­nas. Passeia-se por igre­jas, mira­dou­ros e cemi­té­rios e quando, ven­cido o Largo das Por­tas do Sol, quer intes­ti­na­mente che­gar às Esco­las Gerais, as ruas são tão estrei­tas, tão vizi­nhas e che­ga­das as varan­das e as por­tas mais os vasos de man­je­ri­cos, que as casas enco­lhem as bar­ri­gas para que o velho eléc­trico, ama­relo ou cor de turista, passe entre elas. Eléc­trico, cavalo de ferro, passa então, roçando-se com a dis­cri­ção de um cava­lheiro ten­tado pela sau­dade que é sem­pre a beleza de uma velha dama.
Maqui­nista do mais hirto dos com­boios, piloto de um avião com gases, a capa da “Visão” acordou-me sonhos de menino: para tro­car defi­ni­ti­va­mente o quanto gosto de Luanda pelo quanto gosto de Lis­boa, só que­ria que Antó­nio Costa me dei­xasse ser, por um dia, o con­du­tor do 28 da Carris.

10 de maio de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - ain't got a clue



Esta menina é Rachel Price, a outra menina atrás dela é Bridget Kearney. Os rapazes são Mike "McDuck" Olson e Mike Calabrese. Juntos são Lake Street Dive. Ou como eles dizem: two girls, two guys, and a whole lotta feelings. Conheceram-se na escola. E ainda dizem que não se aprende nada... 



8 de maio de 2014

Plano A

PLANO A
- sobre o salmo 90 de Moisés -

Na vigília de uma só das minhas noites
mil anos passam e por isso sei, 
Deus de Moisés, que o homem amado
não é barro nem será pó,
é matéria da Tua matéria:
para mim foi ontem,
para ele, carne do Teu espírito, mil anos 
numa mínima volta do relógio.
E também eu Te pedi, Deus de Moisés,
que me ensinasses a contar o tempo
na Tua língua, que é de sempre e para sempre,
para abrir as portas à sabedoria e dar o mesmo
descanso ao coração: a erva crescida de manhã,
de tarde seca, depois se corta.

Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar:
fiz um poema, estudei versos numa língua, 
e já ninguém a lê, para escrever, para quê?, um livro inteiro 
em folhas de pó. Ninguém.
Não aprendi nada. Não tenho um plano b.
Toma, entrego o meu segredo à Tua Luz:
é o plano A.

O sol declina
e o esplendor não veio a derramar doçura.
Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar.

6 de maio de 2014

Flash Mob para um!

Bem sei, bem sei, a menina cresceu e até se enfiou numa piscina com tubarões, e em cima de umas tamancas que se desanda vai desta para melhor enquanto manda as B**ch work de chicote na mão - já isto não me parece completamente mal, também era capaz de amaciar uns lombinhos, outros porém. Mas prefiro-a assim, o look é timeless, tem quelque chose do meu rico Araki. Além de que não troco os tops e as calças de fato de treino e as coreografias exequíveis por Bugatti nenhum, quero que o Bugatti se lixe!, não bebo Martini e só gosto de trikini. Flash Mob no Cabeça de Cão agora mesmo!


5 de maio de 2014

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!...

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!

3 de maio de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - As portas da noite

Le Rendez-vous é um ballet concebido no fim da Segunda Grande Guerra. Duas vezes rendez-vous porque resultou de um encontro: nas traseiras da cozinha do café do pai de Roland Petit, coreógrafo então com vinte um anos, encontraram-se, para além deste, Jacques Prèvert, poeta, Brassai cenógrafo e fotógrafo, e Joseph Kosma, compositor, anteriormente aluno de Bartók. Até Picasso entrou ao barulho no meio do entusiasmo para desenhar a negro, perdão, emprestar a negro o negro pano de fundo.

O pas de deux veio depois a ser conhecido e reconhecido em mil versões de Les Feuilles Mortes e em mais mil e uma de Autumn Leaves.



Este encontro, ao contrário do outro, trata de um impossível engano. É noite numa Paris que já deixou de existir, a que Brassai criou. Lá dentro dançava-se. Ele, le jeune homme, é o escolhido pela morte - pelo destino, talvez. Mas é jovem, unbelievaly young como no poema de Bukowsky fora ele escrito no presente. Não pode morrer. Pensa que ilude a morte e mente ao destino: ama  la plus belle fillle du monde. E consegue um encontro com la plus belle fillle du monde. É sempre com la plus belle. Tudo se passa na rua. Cá fora. Com a tal inacreditável juventude Bukowsky. Tudo do coração é juventude pois é músculo desconhecido do tempo. Mas ela é o destino e mata-o. Pela simples razão de que a juventude tem de morrer, ou sonho - ou o sonhador. Como na vida. Não sei porque chamam expressionismo ao realismo.


Está uma noite perfeita e serpentina cheia de bem e de mal

O que terá acontecido, se o jazz era a melhor das músicas para dançar? Começo a convencer-me de que não foi o Homem quem caiu do Paraíso. Foi o Casal. Ou isso ou a Serpente já não gosta de música.

1 de maio de 2014

Eros depois

Sei sempre quando me vou calar. O silêncio desce primeiro, depois vem a falta de desejo de dizer, não a falta de palavras, antes uma grande vontade delas: então, leio, leio. E leio. Sempre, também, dois ou três poemas à espera, o livro que se prolonga, as crónicas, o romance, o ensaio. E, de repente, a casa habitada pelos autores, gente com quem se pode estar como se é, sem cerimónia. São a companhia que escolho. Tenho este defeito: gosto de ser eu a escolher. Não me faz diferença a ausência de concretos ossos e carne que os cubra. Esse amor tangível é outro amor, familiar, ou conjugado no dia-a-dia profissional, ou numa mesa de amigos, ou numa cama de amantes. A mim basta-me o das páginas.
Do abismo caiu Psyche. Não nos braços de Eros, isso é depois, mas nos do vento. De Zéfiro. É o vento quem a sustém, é ele quem navega a queda, que mentira, a queda é um caminho até ao chão seguro. Descobre-se muito no vento. Diz-se até da fecundidade do vento, do sopro, ou do Espírito mais ou menos Santo. O vento é respiração do mundo e a nossa, em uníssono, quando caímos como o silêncio cai sobre nós. O que é preciso é deixar-se cair nos braços de Zéfiro. O que são as palavras senão vento? Em cada inspiração a viagem é para dentro, é uma viagem de regresso ao centro. E a expiração é a vida cá fora. Por isso a calma alegria. Eu somos estes todos que andamos aqui pela casa. 

Atchim!...


29 de abril de 2014

No trânsito

ENGARRAFAMENTO
Há quem ame à esquerda
e à direita e no vermelho
dos semáforos, assim, de asas
cardíacas em voos rápidos: é
o amor à velocidade do
olhar, à esquerda, à direita, e
no vermelho dos semáforos.

Não sei esse amor alado;
o meu vai num veículo lento,
à velocidade do tacto
para aprender de cor
o mesmo caminho de sempre.

INTERMEZZO, já! Dançar é preciso...


Amor em telhados de vidro

AMOR EM TELHADOS DE VIDRO
Apaixonei-me. Não, não, nada disso. Apaixonei-me por Lisboa. Foi há muito tempo atrás, aí pelos meus dezoito anos. Agora posso dizer que a amo. Exagero como todos os apaixonados. Amo alguns bairros de Lisboa. Desde 2011 que ando a rondar-lhes as casas e nada. Por isto ou por aquilo, quase sempre por aquilo, nada.
Pode-se ser stalker de casas? Os imoproprietários virtuais poderão americanamente pedir uma restraining order que me evite bisbilhotar-lhes as paredes? Tenho ali uma perdição em São Cristovão, rés-vés com o Castelo. Mas a barulheira preocupa-me. E se desatam a dar concertos no Verão?, aquela engenharia de som que faz tremer o chão, tal qual como quando passam os carros todos quitados e com hiper-mega-bué colunas de atirar o coração contra a garganta? E tenho uma fraqueza pelo Jardim da Estrela não sei porquê, por isso a casa ali ao Príncipe Real e a da Lapa assentam-me bem. E encontrei perto um estúdio com uma área maluca, uma coisa pombalina, um lugar mesmo bom para o empreendedorismo - quando descobrir onde o enfiei. 
Tenho sorte. Das minhas propriedades, nestes três anos, só perdi uma. Cabra infiel. Já não se pode estar longe do objecto amado, já não há índias de ida e volta em fidelidade expectante: desde que o futuro é agora a frustração resiste pouco.
Seja como for, acho que já me decidi. Desta vê-se o céu sem abrir uma única janela. Amanhã vou jogar no Euromilhões.


27 de abril de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - o esplendor dos pixels

PAUL CELAN, O ZOHAR, E EU
- técnica mista com colagem de versos de todos sobre o esplendor dos pixels -
Se sete noites mais alto 
muda o vermelho para vermelho, 
se sete corações mais fundo 
bate a mão à porta, 
com que voz espero 
as sete rosas mais tarde 
onde rumoreja a fonte 
se não for com a voz do silêncio? 
Dorme o sopro do incriado 
até que o desejo abra os olhos: 
as árvores crescem do céu para terra 
à procura da sua raiz.
Tudo o resto é 
o que os ouvidos não ouvem 
porque a boca não diz.

25 de abril de 2014

EV Phone Home

CASA
Enfiei três livros, um caderno de notas e o portátil num saco. Ainda passei Isdin no rosto, no decote, nas mãos: sol a pique e vento forte - mesmo bom para secar o cabelo enquanto conduzia. Hoje gostei de conduzir: o céu estava azul até ao alcatrão e cheirava a flor de laranjeira.
Sentei-me na esplanada em frente ao mar a comer o eterno gelado - um prodígio. Os livros e o caderno a dormirem no saco o meu sono. O fumo branco de um avião já invisível subia cada vez mais alto. Na mesa do lado uma menina muito pequenina, três anos, não mais, pôs-se a apontar feliz da vida: é uma estela candente, olha, mãe, uma estela candente! E a mãe, não é estela, é estrela, es-tre-la, es-tre-la, e não é candente, é cadente, e é um avião, estúpida. És estúpida como o teu pai, não vês que é um avião. Depois um grande silêncio. Não se podia ver que era um avião porque o avião não estava à vista. Sei bem do que falo porque tinha as lentes de contacto por baixo dos óculos escuros, portanto, a miopia tinha-me fugido toda.
O cabelo estava seco, o gelado comido, dos livros, do caderno e do portátil nem um ai, a esplanada cheia. Levantei-me e fui passear entre as túnicas e os vestidos à venda, quinze eurinhos, deixo-lho por doze, leve por dez. Não o levo por nada deste mundo e se ela me conhecesse saberia, é 100% fibra e o meu pavor de entrar em combustão espontânea não precisa de ajuda.
Já de volta, vinha a pensar, queria tanto ir para casa. Onde estás tu, casa? Quando era acabada de nascer a minha casa era a dos meus pais. Depois, minha foi a casa dos meus avós. Seguida da casa do meu então marido. Ex. Agora, há dezasseis anos quase, tenho esta, parece minha, mas não é, é do banco porque lhe pago, e onde o tempo de lá viver se esgotou. Porquê? Não sei. Vê-se o mar ao perto e a serra ao fundo na direcção oposta – moro em azul e verde. Tenho a janela do lava loiça com vista para o jardim – e isto, quem havia de dizer, é uma coisa importante. A buganvília cresceu tanto que é uma sombra em meio ao calor. Nenhum vizinho por cima me sapateia o juízo, é o último intencional andar. É um apartamento, é certo… será isso a desgostar-me, a mim que prefiro casas velhas, tectos altos, ou uma modernice aberta e bem respirada nas linhas direitas? Não sei. Mas sei que hoje gostei de conduzir e vinha a pensar, quero ir para casa.

Liberdade

47. LIBERDADE

Não há liberdade sem sombra: permiti-la é da própria natureza da liberdade.

FOTOS GRAFIAS AQUI - fotografias de Maria João Cabrita; textos de Eugénia de Vasconcellos

Wann kommt der wind

CORPO
As nossas razões mais fundas, ao contrário do que pretendemos, não são assunções mentais, não são conceptuais, as nossas razões mais fundas são viscerais. O amor, radique-se ele lá onde quer que seja, no céu ou na terra, manifesta-se no corpo: do amor mais maternal ao amor mais carnal. É com o corpo que se o sente, é o corpo que se alegra, é o corpo que na perda se revolta. O sofrimento não existe num corpo feliz. Com o corpo se vive e nele se morre.


21 de abril de 2014

The Grandmaster

À DISTÂNCIA DE UM BOTÃO

A maior parte das pessoas que conheço não gosta de Wong Kar Wai. Aliás, não sei de umazinha só. Alguma da crítica que diz gostar, penso que lá fundo, ou mesmo logo à superfície, não gosta também, ou não escreveria aquelas merdas intelectualóides e mais não sei quê que para perceber são precisos dez dicionários de cinema que só à porrada - os mestres egípcios de outros tempos, na escola de escribas, usavam uma vara: diziam servir para abrir a orelha que há nas costas.

O cinema começou por ser imagem e movimento. Uma coisa de deixar o que acontecia no escuro entrar pelos olhos adentro e o espectador hipnotizado como um coelho prestes a ser engolido por uma serpente. Assim uma espécie de jogo: ser-se devorado pelo que devoramos – isto é capaz de ser um bocado oral, mas enfim… não vem mal ao mundo, o cinema também é uma escola de erotismo e sexualidade. Adiante.

O cinema de Wong Kar Wai é primitivo. Penso que é isso que aflige as inteligências. Vive da imagem. Parece-me tão razoável como o texto viver da frase. E é exibicionista como o luxo da marquesa de Guermantes sem nenhuma da sua inadequação, e proustiano no detalhe sempre sumptuário. Para nos deslumbrar como aos índios, aos miúdos ou os primeiros espectadores. E pede-nos inocência no tempo do cinismo.

(Há documentários sobre a natureza assim: aumentam, reduzem, aceleram o mundo ou fazem lento o que é demasiado rápido para a velocidade do olho, para o fascinar.)

Wong kar Wai equilibra exuberância visual com a contenção da expressão dos personagens. Porque a música, tal como a cor, as texturas, a velocidade, oferecem as legendas para o que não é dito - talvez até para o que não se deva dizer pela simples razão de ser a pedra de fecho da alma. Também era assim cheio de música explicativa quando o cinema era mudo, não era? E a economia de palavras trocadas tem pouco de aforística: a imagem fala, a música conta. E há o peso do discurso: tanto silêncio abre a atenção à palavra. Os filmes cada vez mais transbordam de palavras, não sei se serão precisas tantas. Quantos são os actores que em silêncio ainda dominam uma sala cheia? Os realizadores?

Wong Kar Wai  não traz novidades temáticas. Imagino que isso seja outra chatice: a morte, o amor, o desejo, a solidão, o lugar do homem na sua árvore da vida particular a lidar com isto sabe-se lá como. E para quê saber se o espelho não é fácil.

Tive muita sorte. O primeiro filme de Wong Kar Wai que assisti, nem sabia quem era o homem, foi In The Mood For Love. E foi amor à primeira vista: nos corredores estreitos demais do prédio, com as paredes finas demais dos apartamentos pequenos demais e em número demasiado, a proximidade é um excesso inevitável e a privacidade é só o modo de estar, não uma realidade neste filme passado nos anos sessenta em que dois vizinhos, um jornalista e uma secretária, são ambos traídos no casamento, enquanto entre eles, e no espaço que aquela rejeição deixou em branco, se cria a uma tensão amorosa e a sua suspensão, talvez, talvez, talvez, na voz de Nat King Cole. Há um par de olhos a espreitar-lhes os passos todos, e são os nossos, ou melhor, os da câmara, inteligente como um bicho que fareja a presa. Segue-lhes a solidão e cheira-lhes a melancolia no tema de Yumeji e em tudo quanto se perde pelo caminho. Quando saí da sala apontei num guardanapo de papel o nome do realizador. Não vou dizer mais sobre o filme. Deixo para que vejam, se quiserem.


Mas depois daquele vi 2046, creio que um filme incompreendido e mal amado – um dia escreverei sobre ele. Ashes of Time (Redux) que apetece deseditar e plasmar em fotografias pelas paredes. E mais.

E este The Grandmaster, sobre Ip Man, mestre de Bruce Lee. É um filme com antes e depois da invasão japonesa da China em 1937. Sobre como os futuros pessoais se alteram, a vida se interrompe e submete ao curso daquilo que é maior do que nós, seja a guerra ou a morte de um pai pelo seu discípulo. Outra vez com a perfeição comovedora de Ziyi Zhang, aqui Gong Er, filha de um incontestado mestre das artes marciais do norte, num memorável combate, talvez uma coreografia para a sedução, com Tony Leung, Ip Man, um pequeno mestre do sul. Sobre isto e sobre tudo quanto da vida fica à distância de um botão.


20 de abril de 2014

Pronto, já ressuscitei, perdão, renasci...

... e que sorte!, sou a Laetitia Casta e ladro um bocadinho para brincar com o Cão.
ding ding ding ding ding ding ding ding ding
ão ão ão ão ão ão
lailailailai lailailai
ai ai ai ei eia
lailailailailailailailai
ding ding ding ding ding ding ding ding ding 
ão ão ão ão ão
lailailailai
ai ai ai ei eia
lailailai lailai


19 de abril de 2014

Vígila, vá, praticamente pascal...

É por estas e outras como estas em forma de letras e saberá Deus o que mais que dei em escritora. Podia ser advogada, engenheira e estar a dormir a esta hora, mas não... Enfim. Partilho. Não era capaz de esconder o meu rico Wong Kar Wai.

18 de abril de 2014

Sessão da Tarde



Poema de Sexta-Feira Santa

DAS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ
Tenho estado só como quem acredita
na companhia do Amor.
E isto por culpa da maldita
Paixão de Cristo e da Procissão do Enterro do Senhor,
cadáver à frente, a abrir com a sola dos pés
caminho aos anjos disfarçados de meninos
com asas de feira e luz de purpurina,
ao desfile das nossas senhoras pré-menstruais
sem idade para faça-se a tua vontade,
e a um escuro terrível de velas a abrasar a noite
pois só nas chamas negras os andores levitam
sem a escravidão do corpo avenida acima,
e ao alto a igreja e o bispo a vociferar:
no Enterro estão todos aqui
mas na Ressurreição quero ver quem estará.
Fera a rugir à solta pela acústica perfeita.
Não ensinaram a teologia dos homens
aos padres de quando eu era pequena
e o ar tinha a cor do frio quando respirávamos
e em redor dos círios de má parafina queimavam-se 
os cartuchos de papel - peguei fogo à mantilha
da senhora da frente e ardi logo no inferno porque
os santos também tinham cabelo de gente e roupa
tenebrosa em veludo roxo mortuário igual ao faqueiro
de estimação da minha avó, um monstro com pega
em pele de cação como o da sopa -
um jazigo para soldadinhos de chumbo derretidos
sem as suas bailarinas, que miséria de destino,
nascer soldado para acabar numa daquelas facas medonhas, 
num garfo, numa colher,
sem ninguém que dançasse para eles que nem
para comer serviam, só para enfeitar de susto e noite
o móvel de si já tão preto como a mantilha em fogo, 
tão preto como o cabelo de Maria Madalena, verdadeiro.
Jesus enterrava-se no cimo da avenida quando
a procissão dava em missa
e os pequenos jesuses com as suas cruzes de esferovite
forradas a tafetá castanho corriam a bater com elas nas costas
pelas naves laterais, prematuros ressuscitados.
Eu usava carteira, ganchos no cabelo, muito composta,
talvez Deus me perdoasse do incêndio da mantilha
e me transformasse as botas ortopédicas em sapatos de verniz,
talvez, se ao menos fosse como a Anita Dona de Casa...
mas minha avó afligia-se das donas de casa, benzia-se só de ouvir
água benta, padre, santos, era tudo Deus me livre, Deus livrava-a
pois ali estava ele morto e bem morto de obediência ao Pai
até à missa de domingo de manhã.
Das sete palavras de Cristo na cruz, antes de morrer
e de o enterrarmos,
a mim que tenho estado só 
como quem acredita na companhia do Amor,
serve-me esta: está consumado.
Prefiro estar só como quem acredita na solidão.

17 de abril de 2014

Ó-Ó BEBÉS! Shhh...

Eu durmo, graças a Deus!, tu dormes se quiseres, se não quiseres não durmas, azarucho, ele dorme sabe lá como, nós dormimos, cada um na sua cama que não quero cá confusões, vós dormis, eles dormem onde quiserem e com quem quiserem, não tenho nada a ver com isso. 

13 de abril de 2014

Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és...


E se, como Pessoa em Um Jantar Muito Original, lhe segredar ao ouvido: diz-me o que comes e dir-te-ei quem és, o que me responderá? Não vale armar-se em Léon Bloy em La Fève e responder, hum… uma deliciosa Clementina.
Este é um livro sobre alimentação que partiu de um estudo, uma investigação conhecida por Projecto China-Cornell-Oxford, cujo título é The China Study. De que trata?
Muito grosseiramente. Nos Estados Unidos, entre o fim dos anos setenta e o início dos anos oitenta, suspeitou-se de uma ligação entre a dieta alimentar e a incidência de cancro quando se verificou uma correlação entre o consumo elevado de carne e gorduras e o baixo consumo de fibras e a incidência do cancro do cólon e da mama. Mais. Quando os imigrantes mudavam de país para determinadas zonas onde determinados cancros eram prevalentes, qualquer que fosse a sua etnia, ficavam expostos ao mesmo risco de contrair cancro do que os autóctones - adquiriam os hábitos alimentares locais?
Enquanto isto, do outro lado do mundo, em 1981, a Academia Chinesa de Ciências Médicas publicava o Atlas da Mortalidade Por Cancro - sim, leu bem. O índice de mortalidade de mais de doze diferentes tipos de cancro em mais de 2400 distritos, onde os habitantes tendiam a estar fixados nas localidades e a manter os mesmos hábitos alimentares durante a vida. Do lado chinês verificava-se o oposto: ingestão de pouca gordura animal, elevado consumo de fibras e vegetais.
Em 1981, o dr. Chen Junshi, do Instituto de Nutrição e Higiene Alimentar e da Academia Chinesa de Medicina Preventiva, durante a sua sabática, visitou o laboratório do Departamento de Ciências da Nutrição da Universidade de Cornell. O prof. dr. T. Colin Campbell, especialista em bioquímica nutricional dessa mesma universidade, e o dr. Chen Junshi conceberam então um projecto. Breve se lhes juntou o professor Richard Peto da inglesa Universidade de Oxford. E mais colegas da China, de França, do Canadá.
E passou-se assim. Em 1983-84 daqueles dois mil e quatrocentos distritos foram seleccionados sessenta e nove para o estudo. E deles duas cidades. De cada cidade sessenta famílias escolhidas aleatoriamente, um adulto por cada núcleo habitacional, metade homens, metade mulheres, num total de oito mil participantes. Foram recolhidas amostras de sangue, urina a cada um deles. Foram recolhidas amostras alimentares para análise. Foi preenchido um questionário sobre os hábitos alimentares e registada presencialmente, ao longo de três dias, toda a informação sobre a dieta de cada participante. Deste mar de informação, mais de seiscentas variáveis foram tratadas e mais de trezentas correlações estabelecidas.
Em 1989-1990 as mesmas pessoas foram reavaliadas. E a elas juntaram-se mais cerca de quatro mil de outros distritos. A informação resultante foi tratada quer pela Classificação Internacional de Doenças, quer para aferir as causas de morte.
O autor deste livro é T. Colin Campbell e o co-autor o seu filho. E explicam-nos, numa linguagem acessível, o supra referido estudo e como podemos beneficiar dele para prevenir doenças cardíacas, alguns tipos de cancro – da próstata, cólon-rectal, da mama -, tratar a obesidade, prevenir e em alguns casos tratar a diabetes do tipo ii e as doenças auto-imunes e, ao fim, oferece-nos alguns capítulos de considerações sobre a ciência alimentar e a indústria alimentar, e as políticas governamentais a propósito.
Trago este livro por duas razões.
A primeira. Anda aí uma onda de loucura detox, o que quer que isso seja. Bebem sumos de vegetais e de frutas como se fossem água. Substituem refeições por estes sumos. O Verão está à porta e a filha de Geldof, de vinte e cinco anos, morta. Chegou a afirmar publicamente que fazia esta alimentação, sumos apenas, durante um mês. A alimentação deve servir o corpo na saúde e no prazer. Mas o que é a alimentação? Não ingerimos só o que comemos. Ingerimos pensamentos e ideias. E quando não sabemos quem somos que comida, pensamentos e ideias engolimos? Vinte e cinco anos?
E lembro-me de uma loucura parecida com esta, ainda que seja o seu oposto em termos nutricionais, há uns anos, com a Atkins.
A segunda. Não sou vegan. Não quero ser. Não bebo leite. E como poucos lacticínios. Peixe e marisco, sim. Carne vermelha raramente. Mas quando a como é de gosto. Ah! o belo lombo de porco preto recheado com farinheira. Evito as gorduras animais ainda que, uma vez por outra, viva o senhor pâté. Mesmo carne de aves só se for por um bom motivo, a bela empada ou lailailai. E sou das que bebe sumo de legumes todos os dias, até tenho uma super-máquina para aproveitar tanto da fibra quanto possível. Não é por moda, é de facto. Não excluo, no entanto, as minhas colheitas tardias. Não quero cá farinha branca, controlo o sal, mas semanalmente faço só o que me apetece por uma refeição, se for uma pizza e um éclair de baunilha e um batido, não me assusta a bomba de açúcar - nem sequer os fritos do Natal. Se a comida vem numa caixa e é para o micro-ondas, não é para mim: gosto de a fazer – pelos deuses, até faço o pão.
Enfim, não é difícil. Não mais do que uma dose de proteína animal por dia e ponto final. Se não comer o meu rico peixinho-marisquinho, vingo-me no feijão que também tem umas belas proteínas. Benefícios? Já estou a colhê-los. O meu sistema imunitário estava contra mim, agora está alcalinamente a meu favor. Até já voltei a comer morangos.
E isto quer dizer o quê? Nada. A minha mãe mantém-se elegante e saudável com Atkins. Leite, queijo, manteiga, carne...
Não gosto nada de ser indicativa. Todavia. As alterações alimentares de fundo, tornar-se vegetarino, ou vegan, ou seguir a Atkins, fazem-se na companhia do médico. A vida é tão mais feliz quando a podemos gozar.

11 de abril de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - make believe i´m the one to save you now

Então, é isto. Continua a minha estação das insónias. Escrevo esta folha de pixels nesta frequência alfabética: is there anybody out there? O funcionário da bomba de gasolina fechado na gaiola da sua loja de conveniência talvez sintonize este canal - boa noite, se só agora chegou, estamos a ouvir I Ain´t  Movin`, you can push me all you dare, bem-vindo às Orelhas de Gato do Cabeça de Cão.

Se fosse faroleiro poderia esquecer os navios no sono e acordado dizer, estou a vigiar o mar, suspeito daquela onda que ainda não vejo. Mas mentiria. Não espero apocalipses de pequena ou grande dimensão, geo-climáticos ou de natureza insubstanciada. Vou fazer uma pausa a ver se percebo.

Não percebi. Confirmo: nada me impede de dormir a não ser a insónia. Se o mundo, ou o meu mundo desabar apanha-me de surpresa, estou tranquila.

Aqui, nas suas Orelhas de Gato, continuamos com Micah P. Hinson e o seu mais recente trabalho homónimo - somos todos Nothing. Dorme, Lisboa, enquanto ele me explica, neste exacto instante, que Jesus já não precisa dele, ou será de mim, e o amor já não precisa dele, ou de mim?, porém os livros continuam a dizer que Deus é bom e será bom entre as mortes dos sem abrigo. Não sei se ele, o Micah, dorme bem como a cidade, seja como for mudou de música, chama-me amor, pede que o espere, diz que está a voltar para casa. Está bem. Não vou sair a esta hora.


10 de abril de 2014

Vê-se a aproximação do fim

AS CARIÁTIDES DOS DIAS
O momento é da eternidade
O tempo pertence à mortalidade
E assim nós em tudo iguais 
ao divino e ao humano abandonos,
penélopes todos a fazer e a desfazer o sentido
pois não é ulisses quem à noite dorme contigo,
nem comigo, mas a manhã chega a cada um de nós,
e o sol,
para iluminados dizermos da hora que fica,
dos fios tecidos, dos mil sentidos, da memória 
- as cariátides dos dias

Nada fica:
o passado é só uma régua para medir a maré 
mais vazia em cada dia
E está certo. Como nos despediríamos
se os gestos e as palavras ainda fossem de amor?

A minha editora faz anos hoje: Parabéns!


PARABÉNS!
Hoje é o oitavo aniversário da Guerra & Paz Editores. Parabéns! A editora não é minha, mas é a minha editora. Pensa que é por isso que lhe estou a desejar Feliz Aniversário? Pois pensa bem. Mas pouco. Há mais. Conto tudo.
A primeira coisa que a Guerra & Paz me deu foi uma tampa. E foi quando se chamava Três Sinais. Enviei um conjunto de poemas, pouquinhos, para muiiitaaassss editoras. Todas, quase. Duas responderam. A declinar, é certo, mas com bons modos. A minha editora escreveu-me uma carta em papel e tudo: não publicamos poesia. Está bem, pensei, perdoo-te. Hoje. O futuro a Deus pertence, eu sou filha de Deus, lailailai - é a minha amiga, a propriedade transitiva.

A segunda coisa que a Guerra & Paz me deu foram meninas. Na realidade, As Meninas. Foi um presente de aniversário, mas no meu aniversário, oferecido por outra minha amiga, a Maria João, a das photos. Porque ela sabia que eu queria o livro, andava a comê-lo com os olhos, gostava dele mesmo analfabeticamente: só pela capa, tão bonita, e os bonecos. Era a thing of beauty ainda antes de ser lido. Depois de lido e relido continua a ser a joy forever. É um dos meus objectos pessoais.
Mas antes deixo agora a mão das meninas.

Sabia muito bem quem era o Manuel S. Fonseca, ainda que ele não fizesse a menor ideia da existência desta sua autora – que falta de futurologia, parece mentira tanta ingratidão, senhor editor!
Posso afirmar que o conhecia de ginjeira: comecei a ler o Expresso aos dezoito anos. Façam as contas. Depois no Semanário. Na Marie Claire – lembram da Marie Claire, foi a primeira revista em português do género, acho, e bendito entre mulheres e gracinhas femininas, sandálias, vestidos e batons, lá estava o meu senhor editor. Na altura da SIC, confesso, quase perdemos o contacto, mas algumas coisinhas ficaram-me: a ficção portuguesa foi uma delas. Os telefilmes! Amo-te, Teresa e tal. Não estou enganada, pois não? Foi um tempo de esperança em português, claramente pré-acordo-subserviente-ortográfico. 

De repente, um dia, ligo a televisão e zás, lá estava a editora, quero dizer, o Manuel S. Fonseca estava a dizer na televisão que tinha deslargado a televisão para se atirar aos livros. Pensei: a escrita deste homem enganou-me, quem havia de dizer, afinal é um maluco, um para-suicidário. E foi assim que toma lá poemas, não quero cá poemas.

O resto, veio depois. E mais virá, espero.
Parabéns a Você, G&P.
Merci.

9 de abril de 2014

Anda cá que és meu


CABOVISÃO? NÃO. ANDA CÁ QUE ÉS MEO...

Há coisa de poucos anos saiu um estudo sobre o calão. Usado moderadamente, em ocasiões de stress, é benigno. Ora, a minha relação com o clássico palavrão é estável, duradoura e bem-sucedida: não os digo e não gosto de os ouvir, porém escrevo-os e não me maça lê-los. Não é por hipocrisia moral, é por controlo de impulsos e estética – não necessariamente por esta ordem.

E isto a propósito de quê? Alguma publicidade, o belo anúncio, o reclamezinho, enfim, tem o condão de me encanitar, de me fazer ir dos zero aos cem em menos segundos do que um Ferrari, de me dar vontade de dizê-los todos de seguida alto e bom som. Mas não digo. Primeiro foi a história das mete medo da Rexona. Desapareceu. Agora é este alarve da Cabovisão que não há meio de gastar o tempo de antena comprado. Alguém fará o favor de amordaçar o homem e de o esconder da minha vista?

Conto tudo. Vamos partir do princípio que ali não está um actor, um bom actor pois é credível, que para ganhar a vida teve de aceitar aquele papel enervante – sou solidária com o actor, mais dia, menos dia, estou aqui, estou escrever um livro de merda, embalado num saco de chiffon com conchas e areia dentro, ou umas crónicas ou recensões de merda ou, quem sabe, se a sequela desta publicidade da Cabovisão, pois com os textos de que gosto não me governo e não consigo imigrar da língua portuguesa. Mas derivo. Ao alarve. Que diz ele?

Diz que vai falar de liberdade. Todavia, como fala em nome próprio e nosso, eu bem avisei que o tipo era doido, diz que vamos falar de liberdade. Já sabe, não se contrariam malucos… O que é liberdade? Não se preocupe, não tem filosofia. É poder mudar de sofá, mudar os filhos de escola, mudar de mulher e até mudar de vida. Liberdade é poder mudar. Por exemplo: se eu fosse livre mudaria de canal e não o aturaria. Hélas, não devo ser. Como se executa a liberdade, ou seja, a mudança? Sem fidelização.

Nem vou dizer um ai sobre essa impossibilidade que é a mudança de vida sem tratar da transmigração das almas. Fico-me por um breve comentário a sem fidelização.

Sem fidelização não há mudança de facto porque à partida todas as possibilidades estão incluídas. Sem fidelização não há infidelização. Claro que a palavra fiel foi proscrita pelo politicamente correcto que só admite os dois clichés: o da lealdade, pois fiel é cão, e o do fiel a si próprio, e não, não há-de ser por um individualismo imaturo, de forma alguma umbiguismo adolescente, não. Há-de ser por outra razão qualquer. A malta do fiel a si mesmo que aqui, neste personagem irritante, tão bem se representa, é repressiva de todos os valores que não os seus, pois considera-os obsoletos: são a Formiga Branca da moral. Se é um preceito, é mau, se é religião é má, a menos que seja exótico ou esteja em extinção. Se queres fidelidade és uma besta e mereces um par de cornos – mais coisa menos coisa.

Porém, a infidelidade é tão imprescindível como a fidelidade. Não se diz, mas, sim, é. E não se pode transgredir sem regra. Por exemplo. A traição de Judas é fundante para a nossa cultura. Que Cristo teríamos sem a crucificação? Ou mais anteriormente, a traição de Akhenaton a todos os deuses quando instituiu o monoteísmo sobre o qual o cristianismo veio a assentar. A relação amorosa evoluiu também à semelhança da relação com a divindade. O monoteísmo focou a relação com o divino. E colaborou na sedentarização. Esse Deus que é todos os deuses é um Deus exigente, e no ocidente preparou o caminho para a construção da união de dois como unidade: o casal. A fidelidade que exigia replicou-se na relação amorosa – esse mesmo compromisso que já havia permitido a sobrevivência dos filhos nos primeiros anos de vida e a identificação e evolução da família. 

O direito ao divórcio é fundamental. Mas nem por isso ele deixa de ser de extrema violência - não acredite em mim, consulte a ordem da lista dos acontecimentos precipitadores de stress. Também por esta razão o divórcio só se justifica quando não há alternativa - ainda que o casamento não seja uma graça, não há motivo para que seja uma desgraça, dissolva-se. Um saltimbanco amoroso é um irresponsável. Os pais não são descartáveis, os filhos não são descartáveis, porque carga de água, como diz o saltimbanco no anúncio, hão-de ser as mulheres e os homens? Cabovisão? Não. Anda cá que és Meo.

5 de abril de 2014

Vai à merda. Vai tu.




Às vezes, quando me apetece mandar tudo à merda, algumas pessoas à merda, uma coisa acontece. Hoje aconteceu-me o Renaud Capuçon para me lembrar o quanto somos uma raça de trastes. Ponha-se o homem no metro, no autocarro, a tocar de graça, e num instantinho passa a ser o assim não vais longe nem tens onde cair morto, vai trabalhar pá, que nunca será.




* 07:57 am-pm é um pequenino filme de Simon Lelouch. Ele conta:
Le 12 janvier 2007, Joshua Bell, un des meilleurs musiciens au monde, a interprété dans le métro de Washington, quelques-unes des plus belles pages de la musique sur un Stradivarius de 1713.
Quarante-cinq minutes plus tard, plus de mille personnes étaient passées devant lui sans vraiment lui prêter attention et il n’avait récolté que quelques dollars.
Le 25 mai 2009, son homologue français, Renaud Capuçon, a tenu à participer à ce film en interprétant sur la ligne 6 du métro parisien « La Mélodie d’Orphée » de Christoph Willibald Gluck sur un Guarnerius de 1737 surnommé « le vicomte de Panette ». (O violino com o qual Isaac Stern se fartou de tocar.) Resumindo: aconteceu-lhe o mesmo que ao americano mas em francês.

3 de abril de 2014

As duas faces da moeda

AS DUAS FACES DA MOEDA


Tenho dois sobrinhos. Por muito que não queira, e não quero, atribuir um papel a um e outro a outro, é quase impossível evitá-lo. São a noite e o dia.


Caracolinhos a Fada é o verdadeiro lobo em pele de… fada. Também é conhecido por Coisa, Cuca, e Projecto Bruce Lee pela forma como acorda. Ainda não tem três anos. Não direi que tais nomes sejam aprovados pelas entidades parentais e outras que tais. Mas afirmo que responde por qualquer um deles.



O mais velho tem outra natureza. Desenha com extraordinário detalhe para quem ainda nem tem seis anos. Lê bem, escreve bem. É calmo e fala de uma maneira que nem Deus com os seus anjos. No outro dia, à mesa, perguntou à mãe que carne era aquela que comiam. E a mãe, borrego. E ele, ó mãe, por favor, não estamos a comer aqueles bebés que vimos na quinta pois não? E a mãe, estamos: nós comemos animais e também é por isso que temos de respeitar a comida. Ó mãe, como é capaz de dar-me esse desgosto? E a minha irmã aproveitou o desgosto para lhe arruinar as comidas preferidas, perdão, para lhe dizer que douradinhos são peixes, salsichas são porcos e a canja são galinhas. A Coisa terá ouvido tudo.



Ora, ainda esta semana o mais velho propôs-me brincar aos cowboys. Disse-lhe que sim imaginando que iria ser índio. Qual o quê. Ele cowboy, eu boi para ser laçado, mas sendo menina deixava-me ser vaca. Resumindo: muuu. Fui presa a uma cadeira, perdão, laçada em pleno pasto. O Projecto Bruce Lee, o verdadeiro índio, cavalgava em volta da mesa, iiiaaaaah. Já presa, pergunto ao cowboy, e o que vai fazer agora, transformar-me em bifinhos? Ó Tatia, que horror, não. Então, o que acha que fazem às vacas e aos bois? Às vacas tira-se o leite para fazer iogurte e damos os bois para terem a sua família e bezerrinhos. Vem a Cuca e grita: Vaca! Comida! Iogute*! Mhmm…



*Iogurte em cuquês

Um dia

E se o amanhã não chegar? E se o Amor, o teu, ou o meu, súbito se morrer? As pessoas morrem. E se o nunca mais se fizer efectivo e definitivo? E se a porta do um dia se tiver fechado? E quando já não houver caminho para voltar atrás e pedir desculpa, ou só para dizer amo-te? E se o que poderia ter sido for tudo quanto fica?