21 de abril de 2014

The Grandmaster

À DISTÂNCIA DE UM BOTÃO

A maior parte das pessoas que conheço não gosta de Wong Kar Wai. Aliás, não sei de umazinha só. Alguma da crítica que diz gostar, penso que lá fundo, ou mesmo logo à superfície, não gosta também, ou não escreveria aquelas merdas intelectualóides e mais não sei quê que para perceber são precisos dez dicionários de cinema que só à porrada - os mestres egípcios de outros tempos, na escola de escribas, usavam uma vara: diziam servir para abrir a orelha que há nas costas.

O cinema começou por ser imagem e movimento. Uma coisa de deixar o que acontecia no escuro entrar pelos olhos adentro e o espectador hipnotizado como um coelho prestes a ser engolido por uma serpente. Assim uma espécie de jogo: ser-se devorado pelo que devoramos – isto é capaz de ser um bocado oral, mas enfim… não vem mal ao mundo, o cinema também é uma escola de erotismo e sexualidade. Adiante.

O cinema de Wong Kar Wai é primitivo. Penso que é isso que aflige as inteligências. Vive da imagem. Parece-me tão razoável como o texto viver da frase. E é exibicionista como o luxo da marquesa de Guermantes sem nenhuma da sua inadequação, e proustiano no detalhe sempre sumptuário. Para nos deslumbrar como aos índios, aos miúdos ou os primeiros espectadores. E pede-nos inocência no tempo do cinismo.

(Há documentários sobre a natureza assim: aumentam, reduzem, aceleram o mundo ou fazem lento o que é demasiado rápido para a velocidade do olho, para o fascinar.)

Wong kar Wai equilibra exuberância visual com a contenção da expressão dos personagens. Porque a música, tal como a cor, as texturas, a velocidade, oferecem as legendas para o que não é dito - talvez até para o que não se deva dizer pela simples razão de ser a pedra de fecho da alma. Também era assim cheio de música explicativa quando o cinema era mudo, não era? E a economia de palavras trocadas tem pouco de aforística: a imagem fala, a música conta. E há o peso do discurso: tanto silêncio abre a atenção à palavra. Os filmes cada vez mais transbordam de palavras, não sei se serão precisas tantas. Quantos são os actores que em silêncio ainda dominam uma sala cheia? Os realizadores?

Wong Kar Wai  não traz novidades temáticas. Imagino que isso seja outra chatice: a morte, o amor, o desejo, a solidão, o lugar do homem na sua árvore da vida particular a lidar com isto sabe-se lá como. E para quê saber se o espelho não é fácil.

Tive muita sorte. O primeiro filme de Wong Kar Wai que assisti, nem sabia quem era o homem, foi In The Mood For Love. E foi amor à primeira vista: nos corredores estreitos demais do prédio, com as paredes finas demais dos apartamentos pequenos demais e em número demasiado, a proximidade é um excesso inevitável e a privacidade é só o modo de estar, não uma realidade neste filme passado nos anos sessenta em que dois vizinhos, um jornalista e uma secretária, são ambos traídos no casamento, enquanto entre eles, e no espaço que aquela rejeição deixou em branco, se cria a uma tensão amorosa e a sua suspensão, talvez, talvez, talvez, na voz de Nat King Cole. Há um par de olhos a espreitar-lhes os passos todos, e são os nossos, ou melhor, os da câmara, inteligente como um bicho que fareja a presa. Segue-lhes a solidão e cheira-lhes a melancolia no tema de Yumeji e em tudo quanto se perde pelo caminho. Quando saí da sala apontei num guardanapo de papel o nome do realizador. Não vou dizer mais sobre o filme. Deixo para que vejam, se quiserem.


Mas depois daquele vi 2046, creio que um filme incompreendido e mal amado – um dia escreverei sobre ele. Ashes of Time (Redux) que apetece deseditar e plasmar em fotografias pelas paredes. E mais.

E este The Grandmaster, sobre Ip Man, mestre de Bruce Lee. É um filme com antes e depois da invasão japonesa da China em 1937. Sobre como os futuros pessoais se alteram, a vida se interrompe e submete ao curso daquilo que é maior do que nós, seja a guerra ou a morte de um pai pelo seu discípulo. Outra vez com a perfeição comovedora de Ziyi Zhang, aqui Gong Er, filha de um incontestado mestre das artes marciais do norte, num memorável combate, talvez uma coreografia para a sedução, com Tony Leung, Ip Man, um pequeno mestre do sul. Sobre isto e sobre tudo quanto da vida fica à distância de um botão.


20 de abril de 2014

Pronto, já ressuscitei, perdão, renasci...

... e que sorte!, sou a Laetitia Casta e ladro um bocadinho para brincar com o Cão.
ding ding ding ding ding ding ding ding ding
ão ão ão ão ão ão
lailailailai lailailai
ai ai ai ei eia
lailailailailailailailai
ding ding ding ding ding ding ding ding ding 
ão ão ão ão ão
lailailailai
ai ai ai ei eia
lailailai lailai


19 de abril de 2014

Vígila, vá, praticamente pascal...

É por estas e outras como estas em forma de letras e saberá Deus o que mais que dei em escritora. Podia ser advogada, engenheira e estar a dormir a esta hora, mas não... Enfim. Partilho. Não era capaz de esconder o meu rico Wong Kar Wai.

18 de abril de 2014

Sessão da Tarde



Poema de Sexta-Feira Santa

DAS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ
Tenho estado só como quem acredita
na companhia do Amor.
E isto por culpa da maldita
Paixão de Cristo e da Procissão do Enterro do Senhor,
cadáver à frente, a abrir com a sola dos pés
caminho aos anjos disfarçados de meninos
com asas de feira e luz de purpurina,
ao desfile das nossas senhoras pré-menstruais
sem idade para faça-se a tua vontade,
e a um escuro terrível de velas a abrasar a noite
pois só nas chamas negras os andores levitam
sem a escravidão do corpo avenida acima,
e ao alto a igreja e o bispo a vociferar:
no Enterro estão todos aqui
mas na Ressurreição quero ver quem estará.
Fera a rugir à solta pela acústica perfeita.
Não ensinaram a teologia dos homens
aos padres de quando eu era pequena
e o ar tinha a cor do frio quando respirávamos
e em redor dos círios de má parafina queimavam-se 
os cartuchos de papel - peguei fogo à mantilha
da senhora da frente e ardi logo no inferno porque
os santos também tinham cabelo de gente e roupa
tenebrosa em veludo roxo mortuário igual ao faqueiro
de estimação da minha avó, um monstro com pega
em pele de cação como o da sopa -
um jazigo para soldadinhos de chumbo derretidos
sem as suas bailarinas, que miséria de destino,
nascer soldado para acabar numa daquelas facas medonhas, 
num garfo, numa colher,
sem ninguém que dançasse para eles que nem
para comer serviam, só para enfeitar de susto e noite
o móvel de si já tão preto como a mantilha em fogo, 
tão preto como o cabelo de Maria Madalena, verdadeiro.
Jesus enterrava-se no cimo da avenida quando
a procissão dava em missa
e os pequenos jesuses com as suas cruzes de esferovite
forradas a tafetá castanho corriam a bater com elas nas costas
pelas naves laterais, prematuros ressuscitados.
Eu usava carteira, ganchos no cabelo, muito composta,
talvez Deus me perdoasse do incêndio da mantilha
e me transformasse as botas ortopédicas em sapatos de verniz,
talvez, se ao menos fosse como a Anita Dona de Casa...
mas minha avó afligia-se das donas de casa, benzia-se só de ouvir
água benta, padre, santos, era tudo Deus me livre, Deus livrava-a
pois ali estava ele morto e bem morto de obediência ao Pai
até à missa de domingo de manhã.
Das sete palavras de Cristo na cruz, antes de morrer
e de o enterrarmos,
a mim que tenho estado só 
como quem acredita na companhia do Amor,
serve-me esta: está consumado.
Prefiro estar só como quem acredita na solidão.

17 de abril de 2014

Ó-Ó BEBÉS! Shhh...

Eu durmo, graças a Deus!, tu dormes se quiseres, se não quiseres não durmas, azarucho, ele dorme sabe lá como, nós dormimos, cada um na sua cama que não quero cá confusões, vós dormis, eles dormem onde quiserem e com quem quiserem, não tenho nada a ver com isso. 

13 de abril de 2014

Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és...


E se, como Pessoa em Um Jantar Muito Original, lhe segredar ao ouvido: diz-me o que comes e dir-te-ei quem és, o que me responderá? Não vale armar-se em Léon Bloy em La Fève e responder, hum… uma deliciosa Clementina.
Este é um livro sobre alimentação que partiu de um estudo, uma investigação conhecida por Projecto China-Cornell-Oxford, cujo título é The China Study. De que trata?
Muito grosseiramente. Nos Estados Unidos, entre o fim dos anos setenta e o início dos anos oitenta, suspeitou-se de uma ligação entre a dieta alimentar e a incidência de cancro quando se verificou uma correlação entre o consumo elevado de carne e gorduras e o baixo consumo de fibras e a incidência do cancro do cólon e da mama. Mais. Quando os imigrantes mudavam de país para determinadas zonas onde determinados cancros eram prevalentes, qualquer que fosse a sua etnia, ficavam expostos ao mesmo risco de contrair cancro do que os autóctones - adquiriam os hábitos alimentares locais?
Enquanto isto, do outro lado do mundo, em 1981, a Academia Chinesa de Ciências Médicas publicava o Atlas da Mortalidade Por Cancro - sim, leu bem. O índice de mortalidade de mais de doze diferentes tipos de cancro em mais de 2400 distritos, onde os habitantes tendiam a estar fixados nas localidades e a manter os mesmos hábitos alimentares durante a vida. Do lado chinês verificava-se o oposto: ingestão de pouca gordura animal, elevado consumo de fibras e vegetais.
Em 1981, o dr. Chen Junshi, do Instituto de Nutrição e Higiene Alimentar e da Academia Chinesa de Medicina Preventiva, durante a sua sabática, visitou o laboratório do Departamento de Ciências da Nutrição da Universidade de Cornell. O prof. dr. T. Colin Campbell, especialista em bioquímica nutricional dessa mesma universidade, e o dr. Chen Junshi conceberam então um projecto. Breve se lhes juntou o professor Richard Peto da inglesa Universidade de Oxford. E mais colegas da China, de França, do Canadá.
E passou-se assim. Em 1983-84 daqueles dois mil e quatrocentos distritos foram seleccionados sessenta e nove para o estudo. E deles duas cidades. De cada cidade sessenta famílias escolhidas aleatoriamente, um adulto por cada núcleo habitacional, metade homens, metade mulheres, num total de oito mil participantes. Foram recolhidas amostras de sangue, urina a cada um deles. Foram recolhidas amostras alimentares para análise. Foi preenchido um questionário sobre os hábitos alimentares e registada presencialmente, ao longo de três dias, toda a informação sobre a dieta de cada participante. Deste mar de informação, mais de seiscentas variáveis foram tratadas e mais de trezentas correlações estabelecidas.
Em 1989-1990 as mesmas pessoas foram reavaliadas. E a elas juntaram-se mais cerca de quatro mil de outros distritos. A informação resultante foi tratada quer pela Classificação Internacional de Doenças, quer para aferir as causas de morte.
O autor deste livro é T. Colin Campbell e o co-autor o seu filho. E explicam-nos, numa linguagem acessível, o supra referido estudo e como podemos beneficiar dele para prevenir doenças cardíacas, alguns tipos de cancro – da próstata, cólon-rectal, da mama -, tratar a obesidade, prevenir e em alguns casos tratar a diabetes do tipo ii e as doenças auto-imunes e, ao fim, oferece-nos alguns capítulos de considerações sobre a ciência alimentar e a indústria alimentar, e as políticas governamentais a propósito.
Trago este livro por duas razões.
A primeira. Anda aí uma onda de loucura detox, o que quer que isso seja. Bebem sumos de vegetais e de frutas como se fossem água. Substituem refeições por estes sumos. O Verão está à porta e a filha de Geldof, de vinte e cinco anos, morta. Chegou a afirmar publicamente que fazia esta alimentação, sumos apenas, durante um mês. A alimentação deve servir o corpo na saúde e no prazer. Mas o que é a alimentação? Não ingerimos só o que comemos. Ingerimos pensamentos e ideias. E quando não sabemos quem somos que comida, pensamentos e ideias engolimos? Vinte e cinco anos?
E lembro-me de uma loucura parecida com esta, ainda que seja o seu oposto em termos nutricionais, há uns anos, com a Atkins.
A segunda. Não sou vegan. Não quero ser. Não bebo leite. E como poucos lacticínios. Peixe e marisco, sim. Carne vermelha raramente. Mas quando a como é de gosto. Ah! o belo lombo de porco preto recheado com farinheira. Evito as gorduras animais ainda que, uma vez por outra, viva o senhor pâté. Mesmo carne de aves só se for por um bom motivo, a bela empada ou lailailai. E sou das que bebe sumo de legumes todos os dias, até tenho uma super-máquina para aproveitar tanto da fibra quanto possível. Não é por moda, é de facto. Não excluo, no entanto, as minhas colheitas tardias. Não quero cá farinha branca, controlo o sal, mas semanalmente faço só o que me apetece por uma refeição, se for uma pizza e um éclair de baunilha e um batido, não me assusta a bomba de açúcar - nem sequer os fritos do Natal. Se a comida vem numa caixa e é para o micro-ondas, não é para mim: gosto de a fazer – pelos deuses, até faço o pão.
Enfim, não é difícil. Não mais do que uma dose de proteína animal por dia e ponto final. Se não comer o meu rico peixinho-marisquinho, vingo-me no feijão que também tem umas belas proteínas. Benefícios? Já estou a colhê-los. O meu sistema imunitário estava contra mim, agora está alcalinamente a meu favor. Até já voltei a comer morangos.
E isto quer dizer o quê? Nada. A minha mãe mantém-se elegante e saudável com Atkins. Leite, queijo, manteiga, carne...
Não gosto nada de ser indicativa. Todavia. As alterações alimentares de fundo, tornar-se vegetarino, ou vegan, ou seguir a Atkins, fazem-se na companhia do médico. A vida é tão mais feliz quando a podemos gozar.

11 de abril de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - make believe i´m the one to save you now

Então, é isto. Continua a minha estação das insónias. Escrevo esta folha de pixels nesta frequência alfabética: is there anybody out there? O funcionário da bomba de gasolina fechado na gaiola da sua loja de conveniência talvez sintonize este canal - boa noite, se só agora chegou, estamos a ouvir I Ain´t  Movin`, you can push me all you dare, bem-vindo às Orelhas de Gato do Cabeça de Cão.

Se fosse faroleiro poderia esquecer os navios no sono e acordado dizer, estou a vigiar o mar, suspeito daquela onda que ainda não vejo. Mas mentiria. Não espero apocalipses de pequena ou grande dimensão, geo-climáticos ou de natureza insubstanciada. Vou fazer uma pausa a ver se percebo.

Não percebi. Confirmo: nada me impede de dormir a não ser a insónia. Se o mundo, ou o meu mundo desabar apanha-me de surpresa, estou tranquila.

Aqui, nas suas Orelhas de Gato, continuamos com Micah P. Hinson e o seu mais recente trabalho homónimo - somos todos Nothing. Dorme, Lisboa, enquanto ele me explica, neste exacto instante, que Jesus já não precisa dele, ou será de mim, e o amor já não precisa dele, ou de mim?, porém os livros continuam a dizer que Deus é bom e será bom entre as mortes dos sem abrigo. Não sei se ele, o Micah, dorme bem como a cidade, seja como for mudou de música, chama-me amor, pede que o espere, diz que está a voltar para casa. Está bem. Não vou sair a esta hora.


10 de abril de 2014

Vê-se a aproximação do fim

AS CARIÁTIDES DOS DIAS
O momento é da eternidade
O tempo pertence à mortalidade
E assim nós em tudo iguais 
ao divino e ao humano abandonos,
penélopes todos a fazer e a desfazer o sentido
pois não é ulisses quem à noite dorme contigo,
nem comigo, mas a manhã chega a cada um de nós,
e o sol,
para iluminados dizermos da hora que fica,
dos fios tecidos, dos mil sentidos, da memória 
- as cariátides dos dias

Nada fica:
o passado é só uma régua para medir a maré 
mais vazia em cada dia
E está certo. Como nos despediríamos
se os gestos e as palavras ainda fossem de amor?

A minha editora faz anos hoje: Parabéns!


PARABÉNS!
Hoje é o oitavo aniversário da Guerra & Paz Editores. Parabéns! A editora não é minha, mas é a minha editora. Pensa que é por isso que lhe estou a desejar Feliz Aniversário? Pois pensa bem. Mas pouco. Há mais. Conto tudo.
A primeira coisa que a Guerra & Paz me deu foi uma tampa. E foi quando se chamava Três Sinais. Enviei um conjunto de poemas, pouquinhos, para muiiitaaassss editoras. Todas, quase. Duas responderam. A declinar, é certo, mas com bons modos. A minha editora escreveu-me uma carta em papel e tudo: não publicamos poesia. Está bem, pensei, perdoo-te. Hoje. O futuro a Deus pertence, eu sou filha de Deus, lailailai - é a minha amiga, a propriedade transitiva.

A segunda coisa que a Guerra & Paz me deu foram meninas. Na realidade, As Meninas. Foi um presente de aniversário, mas no meu aniversário, oferecido por outra minha amiga, a Maria João, a das photos. Porque ela sabia que eu queria o livro, andava a comê-lo com os olhos, gostava dele mesmo analfabeticamente: só pela capa, tão bonita, e os bonecos. Era a thing of beauty ainda antes de ser lido. Depois de lido e relido continua a ser a joy forever. É um dos meus objectos pessoais.
Mas antes deixo agora a mão das meninas.

Sabia muito bem quem era o Manuel S. Fonseca, ainda que ele não fizesse a menor ideia da existência desta sua autora – que falta de futurologia, parece mentira tanta ingratidão, senhor editor!
Posso afirmar que o conhecia de ginjeira: comecei a ler o Expresso aos dezoito anos. Façam as contas. Depois no Semanário. Na Marie Claire – lembram da Marie Claire, foi a primeira revista em português do género, acho, e bendito entre mulheres e gracinhas femininas, sandálias, vestidos e batons, lá estava o meu senhor editor. Na altura da SIC, confesso, quase perdemos o contacto, mas algumas coisinhas ficaram-me: a ficção portuguesa foi uma delas. Os telefilmes! Amo-te, Teresa e tal. Não estou enganada, pois não? Foi um tempo de esperança em português, claramente pré-acordo-subserviente-ortográfico. 

De repente, um dia, ligo a televisão e zás, lá estava a editora, quero dizer, o Manuel S. Fonseca estava a dizer na televisão que tinha deslargado a televisão para se atirar aos livros. Pensei: a escrita deste homem enganou-me, quem havia de dizer, afinal é um maluco, um para-suicidário. E foi assim que toma lá poemas, não quero cá poemas.

O resto, veio depois. E mais virá, espero.
Parabéns a Você, G&P.
Merci.

9 de abril de 2014

Anda cá que és meu


CABOVISÃO? NÃO. ANDA CÁ QUE ÉS MEO...

Há coisa de poucos anos saiu um estudo sobre o calão. Usado moderadamente, em ocasiões de stress, é benigno. Ora, a minha relação com o clássico palavrão é estável, duradoura e bem-sucedida: não os digo e não gosto de os ouvir, porém escrevo-os e não me maça lê-los. Não é por hipocrisia moral, é por controlo de impulsos e estética – não necessariamente por esta ordem.

E isto a propósito de quê? Alguma publicidade, o belo anúncio, o reclamezinho, enfim, tem o condão de me encanitar, de me fazer ir dos zero aos cem em menos segundos do que um Ferrari, de me dar vontade de dizê-los todos de seguida alto e bom som. Mas não digo. Primeiro foi a história das mete medo da Rexona. Desapareceu. Agora é este alarve da Cabovisão que não há meio de gastar o tempo de antena comprado. Alguém fará o favor de amordaçar o homem e de o esconder da minha vista?

Conto tudo. Vamos partir do princípio que ali não está um actor, um bom actor pois é credível, que para ganhar a vida teve de aceitar aquele papel enervante – sou solidária com o actor, mais dia, menos dia, estou aqui, estou escrever um livro de merda, embalado num saco de chiffon com conchas e areia dentro, ou umas crónicas ou recensões de merda ou, quem sabe, se a sequela desta publicidade da Cabovisão, pois com os textos de que gosto não me governo e não consigo imigrar da língua portuguesa. Mas derivo. Ao alarve. Que diz ele?

Diz que vai falar de liberdade. Todavia, como fala em nome próprio e nosso, eu bem avisei que o tipo era doido, diz que vamos falar de liberdade. Já sabe, não se contrariam malucos… O que é liberdade? Não se preocupe, não tem filosofia. É poder mudar de sofá, mudar os filhos de escola, mudar de mulher e até mudar de vida. Liberdade é poder mudar. Por exemplo: se eu fosse livre mudaria de canal e não o aturaria. Hélas, não devo ser. Como se executa a liberdade, ou seja, a mudança? Sem fidelização.

Nem vou dizer um ai sobre essa impossibilidade que é a mudança de vida sem tratar da transmigração das almas. Fico-me por um breve comentário a sem fidelização.

Sem fidelização não há mudança de facto porque à partida todas as possibilidades estão incluídas. Sem fidelização não há infidelização. Claro que a palavra fiel foi proscrita pelo politicamente correcto que só admite os dois clichés: o da lealdade, pois fiel é cão, e o do fiel a si próprio, e não, não há-de ser por um individualismo imaturo, de forma alguma umbiguismo adolescente, não. Há-de ser por outra razão qualquer. A malta do fiel a si mesmo que aqui, neste personagem irritante, tão bem se representa, é repressiva de todos os valores que não os seus, pois considera-os obsoletos: são a Formiga Branca da moral. Se é um preceito, é mau, se é religião é má, a menos que seja exótico ou esteja em extinção. Se queres fidelidade és uma besta e mereces um par de cornos – mais coisa menos coisa.

Porém, a infidelidade é tão imprescindível como a fidelidade. Não se diz, mas, sim, é. E não se pode transgredir sem regra. Por exemplo. A traição de Judas é fundante para a nossa cultura. Que Cristo teríamos sem a crucificação? Ou mais anteriormente, a traição de Akhenaton a todos os deuses quando instituiu o monoteísmo sobre o qual o cristianismo veio a assentar. A relação amorosa evoluiu também à semelhança da relação com a divindade. O monoteísmo focou a relação com o divino. E colaborou na sedentarização. Esse Deus que é todos os deuses é um Deus exigente, e no ocidente preparou o caminho para a construção da união de dois como unidade: o casal. A fidelidade que exigia replicou-se na relação amorosa – esse mesmo compromisso que já havia permitido a sobrevivência dos filhos nos primeiros anos de vida e a identificação e evolução da família. 

O direito ao divórcio é fundamental. Mas nem por isso ele deixa de ser de extrema violência - não acredite em mim, consulte a ordem da lista dos acontecimentos precipitadores de stress. Também por esta razão o divórcio só se justifica quando não há alternativa - ainda que o casamento não seja uma graça, não há motivo para que seja uma desgraça, dissolva-se. Um saltimbanco amoroso é um irresponsável. Os pais não são descartáveis, os filhos não são descartáveis, porque carga de água, como diz o saltimbanco no anúncio, hão-de ser as mulheres e os homens? Cabovisão? Não. Anda cá que és Meo.

5 de abril de 2014

Vai à merda. Vai tu.




Às vezes, quando me apetece mandar tudo à merda, algumas pessoas à merda, uma coisa acontece. Hoje aconteceu-me o Renaud Capuçon para me lembrar o quanto somos uma raça de trastes. Ponha-se o homem no metro, no autocarro, a tocar de graça, e num instantinho passa a ser o assim não vais longe nem tens onde cair morto, vai trabalhar pá, que nunca será.




* 07:57 am-pm é um pequenino filme de Simon Lelouch. Ele conta:
Le 12 janvier 2007, Joshua Bell, un des meilleurs musiciens au monde, a interprété dans le métro de Washington, quelques-unes des plus belles pages de la musique sur un Stradivarius de 1713.
Quarante-cinq minutes plus tard, plus de mille personnes étaient passées devant lui sans vraiment lui prêter attention et il n’avait récolté que quelques dollars.
Le 25 mai 2009, son homologue français, Renaud Capuçon, a tenu à participer à ce film en interprétant sur la ligne 6 du métro parisien « La Mélodie d’Orphée » de Christoph Willibald Gluck sur un Guarnerius de 1737 surnommé « le vicomte de Panette ». (O violino com o qual Isaac Stern se fartou de tocar.) Resumindo: aconteceu-lhe o mesmo que ao americano mas em francês.

3 de abril de 2014

As duas faces da moeda

AS DUAS FACES DA MOEDA


Tenho dois sobrinhos. Por muito que não queira, e não quero, atribuir um papel a um e outro a outro, é quase impossível evitá-lo. São a noite e o dia.


Caracolinhos a Fada é o verdadeiro lobo em pele de… fada. Também é conhecido por Coisa, Cuca, e Projecto Bruce Lee pela forma como acorda. Ainda não tem três anos. Não direi que tais nomes sejam aprovados pelas entidades parentais e outras que tais. Mas afirmo que responde por qualquer um deles.



O mais velho tem outra natureza. Desenha com extraordinário detalhe para quem ainda nem tem seis anos. Lê bem, escreve bem. É calmo e fala de uma maneira que nem Deus com os seus anjos. No outro dia, à mesa, perguntou à mãe que carne era aquela que comiam. E a mãe, borrego. E ele, ó mãe, por favor, não estamos a comer aqueles bebés que vimos na quinta pois não? E a mãe, estamos: nós comemos animais e também é por isso que temos de respeitar a comida. Ó mãe, como é capaz de dar-me esse desgosto? E a minha irmã aproveitou o desgosto para lhe arruinar as comidas preferidas, perdão, para lhe dizer que douradinhos são peixes, salsichas são porcos e a canja são galinhas. A Coisa terá ouvido tudo.



Ora, ainda esta semana o mais velho propôs-me brincar aos cowboys. Disse-lhe que sim imaginando que iria ser índio. Qual o quê. Ele cowboy, eu boi para ser laçado, mas sendo menina deixava-me ser vaca. Resumindo: muuu. Fui presa a uma cadeira, perdão, laçada em pleno pasto. O Projecto Bruce Lee, o verdadeiro índio, cavalgava em volta da mesa, iiiaaaaah. Já presa, pergunto ao cowboy, e o que vai fazer agora, transformar-me em bifinhos? Ó Tatia, que horror, não. Então, o que acha que fazem às vacas e aos bois? Às vacas tira-se o leite para fazer iogurte e damos os bois para terem a sua família e bezerrinhos. Vem a Cuca e grita: Vaca! Comida! Iogute*! Mhmm…



*Iogurte em cuquês

Um dia

E se o amanhã não chegar? E se o Amor, o teu, ou o meu, súbito se morrer? As pessoas morrem. E se o nunca mais se fizer efectivo e definitivo? E se a porta do um dia se tiver fechado? E quando já não houver caminho para voltar atrás e pedir desculpa, ou só para dizer amo-te? E se o que poderia ter sido for tudo quanto fica?



30 de março de 2014

Alguém do outro lado

Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

ALGUÉM DO OUTRO LADO
Hoje fiz berbigão de molho branco – a receita da minha avó. Estava tão bom. Nem sobrou. Com o marisco muito fresco acontece isto de ficar o cheiro do mar em casa quando liberta a água que traz dentro na cozedura breve. E a cozinha passa a ser na praia se fecharmos os olhos.

Lá fora chove ainda. Chove desde ontem. A temperatura desceu. Assim mesmo é bom estar na praia de olhos fechados, a lareira a queimar bem o azinho há-de pensar-se uma fogueira. 


Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder


Ontem não dormi. De vez em quando, mas cada vez menos frequentemente, acontecem-me ainda as insónias. É uma estação como a das chuvas. Nunca soube porquê. Já tive teorias e terapêuticas, há muitos anos atrás, não encontrei resolução nem numas nem noutras, deixei ambas: nem tudo tem desfecho, algumas coisas têm continuidade com ou sem interrupções. É assim. Mas a noite de ontem, confesso, enganou-me. Estava cansada do dia ter corrido bem, escrevi tudo quanto podia ter escrito, um despropósito de caracteres, e ainda voltei atrás, corrigi, planeei o que vou escrever hoje, tirei notas, tinha sono. E cansaço de palavras dentro da cabeça, conheço-o logo, falo em voz alta um pensamento, quero dizer, falo sozinha como quem está acompanhada, ou digo ou escrevo um disparate que detecto porém não sei corrigir o erro. Deitei-me e nada. Abri a luz. Li. Fechei a luz. Nada. Levantei-me e vim pelo escuro até aqui - gosto tanto de atravessar o escuro à noite, de sentir o chão frio em cada passo, da adivinhação das sombras, tudo está no seu lugar, caminho de cor. Não consegui alinhavar nem uma das notas em forma de frase, já o brilho do ecrã me entrava pelos olhos adentro, e tudo muito quieto: passei pelos sítios do costume, todo o www. dormia. Das nove às onze desta manhã o corpo cedeu e dormi eu. Há vontades em mim que desconheço, não as percebo, não lhes sei responder: deve ser isto a insónia, uma conversa de surdos ou um conflito mudo. 


Escultura em fio de arame, de Sophie Ryder

Enfim. Com ou sem insónias é um alívio quando se encontra o fio e sai. Ali onde se está preso é mau porque é incompreensível. Parte-se uma peça secreta qualquer e as ligações caem, tal qual uma chamada telefónica. Se estar só é bom e é um bem, ficar-se isolado até de si mesmo não. Enquanto dura é um susto. É um e se nunca mais. Depois a ligação retoma-se. É sempre o mundo lá fora que nos vem resgatar da solidão. Talvez seja a forma que encontra para nos dizer que é mentira, que parece que sim, mas não, está alguém do outro lado mesmo quando a chamada cai.




29 de março de 2014

Sidney sábado Bechet

É sábado, finalmente, é sábado ou uma aparição, um milagre à porta de casa, dentro de casa, é sábado entre os móveis e nos espaços em branco de uma pessoa.


Rica menina da mammy, que orgulho!

Se tudo tem um sentido na vida, como é que uma pessoa com um forte sentimento materno-pedagógico, como eu, não tem uma rica filha? Primeiro ensinava-a a cantar. Depois dos vidros partidos, a dançar. Tudo quanto é importante.


24 de março de 2014

Cosmos: A Spacetime Odissey, às 23:00, no National Geographic Channel

A minha ignorância dá-me muitas alegrias: a quantidade de coisas que ainda não sei e um dia lerei, verei, o que tenho ainda para viver, tanto, de fresco, fresquinho, no futuro - o futuro é um lugar bom. 
Também é verdade que, às vezes, fico, como toda a gente fica, triste. Mas deve ser só porque me distraio por um bocadinho deste rosário de maravilhas.

Um livro pequenino, uma vida grande


Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo


Tonino Guerra in O Livro das Igrejas Abandonadas

Para Tonino Guerra

POEMA DO TEMPLO ABANDONADO
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas no céu vermelho, e ele
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos 
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural.
Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz, 
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia, 
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas escancaradas 
dos templos proibidos e abandonados -
de lá a levaram, para lá retornou.
Assim aprenderam elas os outros nomes 
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade, 
como e por onde corre o sopro da vida, 
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva: 
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na. 
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.

22 de março de 2014

Lucky gal

Perco-me sempre um bocadinho. A conduzir. A escrever. A fazer uma pesquisa. A sentir. A pensar. A meditar. Até a seguir uma receita. Costumava ter má opinião sobre estas minhas derivas. Agora percebo que ir na corrente é uma bela maneira de fazer o longe muito perto e trazer o desconhecido para dentro da rota.

20 de março de 2014

É a Primavera, não é a prima Bárbara!

O NOSSO OGRE
Chegou a Primavera. O caracol põe os corninhos ao sol. E os homens ouvem prima, e zás, porque mais se lhe arrima, acordam o bárbaro que há neles. Ora, isto não pode ser. A Primavera será família, mas é delicada nos seus lindos clichés: tem andorinhas no céu, azul a rodos, e calor morno daquele mesmo bom para despir um bocadinho aqui, um bocadinho ali, e só mais um bocadinho de pele nuazinha em flor. É o belo solinho a aquecer a bela perna e o que mais apareça a dar um ar da sua graça. Graça não é desgraça, rapazes! Por muito que faça gosto, e faço, em ver a rapaziada, ó, toda alargatada, a fazer a fotossíntese de vitamina D na rua, na praia, na esplanada, confesso, prefiro sabê-la desvitaminada. Explico tudo sem rima.
Se o caracol põe o que põe ao sol, os homens põem os pezinhos ao léu. E este é um horror primaveril. Ao incompreensível gosto por sandálias do inferno do tipo ortopédico e com velcros, acresce uma incompreensível falta de pedicure. Cariño, que te pasa? Já não bastavam os pêlos de ogre a sair das orelhas? E mais pêlos de ogre até pelas narinas fora tais bigodes-antenas de gato, mais ainda os das sobrancelhas do tipo einsteineziano? Agora, las patitas, no!
Dir-me-á, ah isso é mais depois dos quarenta. E passa-lhe pela cabeça que olhe duas vezes para si que tem vintes? Bebé. A minha geração inaugurou esta mania da paridade a sério, a começar logo na atracção: namorámos e casámos todos entre nós, a malta da mesma idade, mais ano, menos ano. Até nos divorciámos entre nós. E agora, zás, segundo round. Deve ser karma ou kastigo, ou lá o que é.
Pois muito bem. O corpo tem vontades depois dos quarenta. Não se pode fazer essas vontadinhas ao corpo. É dar-lhe um tau-tau, perdão, um choque de civilização. Repare, não estou a dizer que se depile e fique a parecer-se com uma enguia nadadora como os miúdos mais novos que tem aquele complexo anti-piloso global de nadador de competição e nem por isso sabem quem foi John Weissmuller, apesar conhecerem Tarzan. E arranjam muito as sobrancelhas em ângulos agudos e branqueiam os dentes ao ponto de encandearem uma pessoa. A despropósito:  o próprio do Tarzan, mesmo lá no meio da selva dos anos trinta a preto e branco, arranjava tempo e modo depilatório... é para que saiba de onde vem a vanguarda.
Já viu que nós, meninas, raparigas, enfim, mulheres, somos a própria da Primavera o ano inteiro? Fazemos manicure, hidratamos o cabelo, lailailai e tudo quanto há. Quando calçamos as nossas lindas sandálias de salto, ou rasas, ou quando enfiamos umas simples havaianas para irmos mesmo de fato de yoga e rabo de cavalo ali ao supermercado, num instantinho, cheiramos bem. E não é só por vossa causa, ingratos calçados em Scholl depressivas, é para fazer civilização, é uma higiene, vá, estética.
Não mastiga de boca aberta, pois não? É igual. O erotismo assim não é possível. Pedicure não é pintar as unhas de cor-de rosa fluorescente. Contrariar o despropósito piloso, não é uma depilação definitiva. É, olhe, um duche só que não é diário. Uma necessidade como lavar os dentinhos.
Porém, esta questão que como todas as questões fúteis dá imenso trabalho, é essencialmente social. Porquoi? Bem, não é só por dar trabalho, isto é, criar emprego na área da prestação de serviços de estética  - vê?, é a própria da prima da ética de que já lhe tinha falado. Nem é porque o aumento de consumo destes serviços seja bom para a economia. É porque, na intimidade, nós amamos o nosso ogre mesmo com pêlos e sabemos que o nosso ogre, mais conhecido por marido/namorado/híbrido, também nos ama logo de manhã quando estamos cheias de olheiras. Na intimidade amamos as imperfeições de quem amamos. A intimidade é uma coisa. O mundo lá fora é outra. E o que apetece ter ao lado, na cama, é o dois em um.
Ps: Feliz Primavera, Ogres.

19 de março de 2014

Está feito & Bonus track

1 Há coisas em que basta acertar uma vez e está feito, depois é só ir ajustando aqui e ali com curiosidade, empenho, gosto, e mesmo um bocadinho de maldade. Exemplos? Olhe, a vocação, um homem, a dieta e o exercício adequados. E o euromilhões. Fun!

2 Dançar à maluca uma música parva por dia
   Tanto bem que lhe fazia ao stress e à azia

Não há-de ser por falta de gira discos. Tome lá, faça play. Sou uma santa, é o que sou, a santa das endorfinas.

18 de março de 2014

Ray Noble Yoga Orchestra

Talvez já não exista um homem com quem se possa dançar isto, ao fim da tarde, na varanda de um hotel no sul de França, ainda os pinheiros e as escarpas, o mar em frente, e a elegância de cinema das nossas avós, um rasto de brilho Cartier Art Déco a iluminar o decote, o pulso, as orelhinhas. Mas que diabo, podemos enfiar um anel despropositado no dedo e fazer yoga com a orquestra em fundo e Al Bowlly no ouvido.



As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - we´d say whatever lovers say


16 de março de 2014

Galeria de Heróis - Janis Joplin i love u

No outro dia, ouvi uma daquelas pessoas inteligentes dizer coisas inteligentes e pensei: estou lixada. Afirmou: basta olhar para a galeria de heróis de alguém para sabermos a vida que vai ter. Sempre fui bem mandada. Estive a fazer uma lista de heróis persistentes na duração do tempo. Porém não me resultou a futurologia - se por acaso descobrir a vida que vou ter, conte-me, a que já tive, não é preciso maçar-se, lembro-me dela.

Ora, os meus heróis viviam lá em casa. Acima, a reger o mundo, a minha avó. Mas não a mostro, é minha. Conto esta para começar o futuro, uma das primeiras dessa galeria extra-familiar. Ainda antes da primeira classe já dançava muito. O quê? Janis Joplin. Esta dançava de olhos fechados. Lixada, sim, mas graças a Deus.


O pão dos anjos

A ROSA QUE FICA DE PÉ

Às vezes sonho segredos,
não me incomoda a estranheza,
sei que o mundo acima nos fala assim:
a língua dos anjos é uma
máquina de fazer loucos para quem
a quer entender, eu já não quero
Quando era muito novinha
e o tempo só existia fora de mim
ficava em casa a estudar tudo 
quanto apanhava, e nada chegava, 
ninguém respondia, nenhum mistério se abria 
e só Deus sabe: 
era uma forma de chegar aos céus
Nunca cheguei, claro
E sempre tive muita dificuldade
com o faça-se em mim a Tua vontade,
mas às vezes sonho segredos
e se a razão me diz isso não tem sentido
respondo-lhe não te acredito,
não há fé sem crucifixo 
Tudo quanto fiz e farei 
de bom, de belo, de bem
não começou em mim,
começou Além:
às vezes sonho segredos

10 de março de 2014

Pela minha palavra

HÁS-DE CONHECER-ME PELAS MINHAS PALAVRAS
Hás-de conhecer-me pelas minhas palavras
pelas minhas palavras e mais nada
lugar inteiro desta solidão habitada
onde vivo com Deus e o mundo retirada
e onde existimos contra o esquecimento
porque as palavras são corpo quando 
são música e assim são movimento
correm pelas veias cheias de gente
e se há-de vir a morte
antes virá o amor para dançar no tempo
e dançarei contigo contra o esquecimento
e com as palavras farei um monumento

7 de março de 2014

Fechado para obras

Tenho o romance parado há uma série de dias – bem mais de dez. Nada disso seria importante se não houvesse um prazo a esgotar-se. Não consigo escrever uma linha. Até me poderia perdoar se tivesse escrito um poema em condições. Mas não.
Se tivesse um ensaio para escrever, escrevê-lo-ia, ou uma crónica. Esta inoperacionalidade não afecta ensaios nem crónicas. Muito menos notas ou estes diários que fazemos abertos para acreditarmos que alguém se interessa. Não pela escrita, obviamente, por nós. Inventámos esta rede de ecos para imaginarmos que não estamos sós - somos mais ridículos do que o cliché das cartas de amor.
Toda a gente deveria ser obrigada a casar, a ter filhos, cães e gatos, hipotecas, correntes fortes como a gravidade, empregos de horário inflexível.
Um romance é um luxo voador, anti-gravitacional, ou porque se tem tudo e se trocam pessoas por horas de papel, ou porque não se tem nada e assim a própria existência é desprovida de razão, portanto um luxo – se não fosse a bendita civilização, toda a inutilidade estava morta. RIP.
Há aquelas pessoas que dizem: se voltasse atrás fazia tudo igual. Pois bem, se voltasse atrás fazia-me toda diferente em tudo. Objectivamente científica, nada menos do que uma biologia celular ou uma engenharia genética, solidamente materna, casada com homem daqueles das oito às vinte que chegam mortos a casa quando os filhos já dormem, e não escreveria umazinha só palavra que não tivesse de ser escrita,  e preencheria documentos de forma exemplar e debitaria pensamentos sobre o que fosse como um multibanco notas, certa e com extracto verificável. Saberia sempre o que fazer. 

Que felicidade não ter liberdade. 
Porra que estou farta. Desisto.

Fotos Grafias

Fotografia de Maria João Cabrita


12. ALTO E VERDE
A satisfação imediata que há em fazer ainda pior a quem nos fez tanto mal. Mas depois, florestas queimadas. E saber que somos só uma reacção… é pouco. O coração quer ser mais, quer ser a razão de ser: alto e verde.


FOTOS GRAFIAS, AQUI, DE SEGUNDA A SEXTA

Cherry me


A tristeza é natural, desejar excluí-la da vida é uma aberração como outra qualquer, é natural e não 
retira a perfeição às cerejas. O resto é disposição e disciplina: dedicar aos pequenos prazeres diários a atenção do trabalho; ter no trabalho a alegria que só num prazer. E entre um dia e o outro, dormir ou ter insónias.

5 de março de 2014

comacompão Todas as Palavras


TODAS AS PALAVRAS
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei 
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.





para os muito novos: comacompão era mais do que um chocolate Regina, era uma imperativa sandwich de chocolate.

Mon coeur s'ouvre à ta voix


Foi num desconsoladíssimo ano que comprei este livro no qual, então, durante o tempo de leitura acreditei porque acreditava no autor como escritor. Lembrei-me entretanto que ele se tinha suicidado. Depois disso, fiz uma das coisas que sempre faço: pus a Callas numa gritaria como se não houvesse amanhã. Talvez não haja consolo. Mas se mon coeur s'ouvre à ta voix, há beleza.



2 de março de 2014

As novas aventuras do Capuchinho Vermelho


- Expresso, para quê tantos mapas?
- Para te perderes melhor!

1 de março de 2014

A casa tem pó, mãe

Na quarta-feira fui à gelataria. Sentei-me na esplanada onde sempre me sento. A última vez que lá estive, antes desta agora, foi a vinte de Outubro do ano passado, um domingo a ler o Expresso de sábado. Lembro-me bem porque o Manuel Fonseca tinha então publicado Um Autor, Dois Ladrões, sobre o livro Taxi Driver, um texto de se lamber com chocolate, nata e chantilly: peço sempre o mesmo gelado, nem sei como ainda dura: tantos anos a comê-lo sem chegar ao fim.
Faço isto. Há dois ou três lugares onde vou quando tudo corre bem ou quando tudo corre mal. Não mudam nada, nem o bem nem o mal, nada se altera, mas os sabores mantêm-se os mesmos enquanto o mundo se desconhece, ou o cheiro ainda é aquele, ou é a paisagem intocada. Estes dois ou três lugares, quatro, se calhar mais, têm a maravilhosa propriedade de serem estáveis, ancoram-me: se estou feliz não voo, se estou triste não me afundo: tudo continuará exactamente na mesma depois de mim. Só somos importantes para meia dúzia de pessoas e vamos desaparecendo à medida que elas nos vão desaparecendo.
Na mesa atrás da minha duas senhoras com mais de setenta anos a caminharem para perto dos oitenta. 
A minha filha zangou-se comigo porque a casa tinha pó. E riu-se. Depois explicou à outra que a entendia perfeitamente: levanto-me, faço a cama, tomo o pequeno almoço, vou ao mercado comprar qualquer coisinha, hoje carapaus. Grelhou-os? Não, valha-me Deus, depois tinha de lavar a porcaria do grelhador que não cabe na máquina. Riram-se as duas. Ponho-me a fazer um bocadinho de renda - comprei dois novelos em branco pérola. Na Tininha? Não, no chinês, mas é linha boa e os dois três euros e vinte. Depois vou ao café para não ficar enfiada em casa sem ver ninguém - estive a ver as montras e a Manuela tem uns belos blazers. De fazenda ou tirelene? De fazenda! A seguir chegou a hora da novela e já não me deu tempo para limpar o pó. Quando a minha filha me foi buscar para irmos ao supermercado, disse logo a casa está cheia de pó, mãe. Riram-se as duas. É o tempo, disse uma. É o tempo, disse a outra. Não chega para nada: amanhã já é quinta-feira, é o fim-de semana e ainda ontem foi domingo. É verdade. É verdade.
A filha ainda não compreende a velocidade da vida. É muito rápida e a morte mete medo. É preciso desacelerar as horas, trocá-las por renda rápida nos dedos mas lenta até se fazer uma toalha. E andar devagar a espreitar as montras para levar blazers na retina, sabe lá uma pessoa se é apanhada descomposta, sem manicure nem cabeleiro, ao menos assim tem uma boa fazenda nos olhos. E se a cabra da morte entrar à socapa em vez da filha, pois que espirre dos ácaros.

As minhas insónias são melhores do que vosso sono - to ignite our eyes like fire flies