À DISTÂNCIA DE UM BOTÃO
A maior parte das pessoas que conheço não gosta de Wong Kar
Wai. Aliás, não sei de umazinha só. Alguma da crítica que diz gostar, penso que
lá fundo, ou mesmo logo à superfície, não gosta também, ou não escreveria
aquelas merdas intelectualóides e mais não sei quê que para perceber são
precisos dez dicionários de cinema que só à porrada - os mestres egípcios de
outros tempos, na escola de escribas, usavam uma vara: diziam servir para abrir
a orelha que há nas costas.
O cinema começou por ser imagem e movimento. Uma coisa de
deixar o que acontecia no escuro entrar pelos olhos adentro e o espectador
hipnotizado como um coelho prestes a ser engolido por uma serpente. Assim uma
espécie de jogo: ser-se devorado pelo que devoramos – isto é capaz de ser um
bocado oral, mas enfim… não vem mal ao mundo, o cinema também é uma escola de
erotismo e sexualidade. Adiante.
O cinema de Wong Kar Wai é primitivo. Penso que é isso que
aflige as inteligências. Vive da imagem. Parece-me tão razoável como o texto
viver da frase. E é exibicionista como o luxo da marquesa de Guermantes sem
nenhuma da sua inadequação, e proustiano no detalhe sempre sumptuário. Para nos
deslumbrar como aos índios, aos miúdos ou os primeiros espectadores. E pede-nos
inocência no tempo do cinismo.
(Há documentários sobre a natureza assim: aumentam, reduzem, aceleram o mundo ou fazem lento o que é demasiado rápido para a velocidade do olho, para o
fascinar.)
Wong kar Wai equilibra exuberância visual com a contenção da expressão
dos personagens. Porque a música, tal como a cor, as texturas, a velocidade,
oferecem as legendas para o que não é dito - talvez até para o que não se deva
dizer pela simples razão de ser a pedra de fecho da alma. Também era assim
cheio de música explicativa quando o cinema era mudo, não era? E a economia de
palavras trocadas tem pouco de aforística: a imagem fala, a música conta. E há
o peso do discurso: tanto silêncio abre a atenção à palavra. Os filmes cada vez
mais transbordam de palavras, não sei se serão precisas tantas. Quantos são os
actores que em silêncio ainda dominam uma sala cheia? Os realizadores?
Wong Kar Wai não traz
novidades temáticas. Imagino que isso seja outra chatice: a morte, o amor, o
desejo, a solidão, o lugar do homem na sua árvore da vida particular a lidar
com isto sabe-se lá como. E para quê saber se o espelho não é fácil.
Tive muita sorte. O primeiro filme de Wong Kar Wai que
assisti, nem sabia quem era o homem, foi In The Mood For Love. E foi amor à
primeira vista: nos corredores estreitos demais do prédio, com as paredes finas
demais dos apartamentos pequenos demais e em número demasiado, a proximidade é
um excesso inevitável e a privacidade é só o modo de estar, não uma realidade
neste filme passado nos anos sessenta em que dois vizinhos, um jornalista e uma secretária, são ambos traídos no casamento, enquanto entre eles, e no espaço que
aquela rejeição deixou em branco, se cria a uma tensão amorosa e a sua suspensão,
talvez, talvez, talvez, na voz de Nat King Cole. Há um par de olhos
a espreitar-lhes os passos todos, e são os nossos, ou melhor, os da câmara,
inteligente como um bicho que fareja a presa. Segue-lhes a solidão e
cheira-lhes a melancolia no tema de Yumeji e em tudo quanto se perde pelo caminho. Quando
saí da sala apontei num guardanapo de papel o nome do realizador. Não vou dizer
mais sobre o filme. Deixo para que vejam, se quiserem.
Mas depois daquele vi 2046, creio que um filme
incompreendido e mal amado – um dia escreverei sobre ele. Ashes of Time (Redux)
que apetece deseditar e plasmar em fotografias pelas paredes. E mais.
E este The Grandmaster, sobre Ip Man, mestre de Bruce Lee. É
um filme com antes e depois da invasão japonesa da China em 1937. Sobre como os
futuros pessoais se alteram, a vida se interrompe e submete ao curso daquilo que
é maior do que nós, seja a guerra ou a morte de um pai pelo seu discípulo. Outra
vez com a perfeição comovedora de Ziyi Zhang, aqui Gong Er, filha de um
incontestado mestre das artes marciais do norte, num memorável combate, talvez
uma coreografia para a sedução, com Tony Leung, Ip Man, um pequeno mestre do
sul. Sobre isto e sobre tudo quanto da vida fica à distância de um botão.
















