12 de junho de 2014

Todas as minhas portas estão abertas

CONTROLDESINVESTE
Vamos falar de trabalho. Eu trabalho: leio, investigo, penso, escrevo, corrijo, reescrevo. Vivo entre o erro e outro erro melhor, na folha branca, a tentar chegar à boa palavra, à espera que por mim queira fluir, florir no acerto nas teclas. Durante 14 anos bati a todas as portas de todas as revistas, jornais, editoras, agências de publicidade – não recordo o nome de uma empresa onde escreviam telenovelas, mas a essa porta bati também.
Do muito que me chocou, nada me chocou tanto quanto a falta de uma resposta. A dignidade de um não. Não, não queremos. Diante do não podemos desenvolver uma estratégia para chegar ao sim. Refazer.
Só silêncio e aleatoriedade - e diante disto faz-se o quê a não ser resistir e insistir na expectativa de que o silêncio se abra e a aleatoriedade nos contemple? Nada me chocou tanto como não conseguir sequer uma entrevista numa revista, num jornal, numa editora, numa agência de publicidade, numa fábrica de telenovelas. Nem o mérito, nem a falta de mérito foram critérios.
Tinha a esperança mais canónica, uma esperança bíblica construída em cima do versículo de Lucas, bate e abrir-se-á. Perdia-a. E parei. Nem a mais uma porta. Foi quando compreendi o significado de religião. Foi quando percebi a diferença entre a esperança e a fé. A fé é uma certeza substancial. Não do que se quer, ou tem, mas de quem se é, de que matéria se é feito. E soube quem era. A própria Voz da Criação fala em mim: *And I say unto you, ask, and it shall be given you; seek, and ye shall find; knock, and it shall be opened unto you. For every one that asketh receiveth; and he that seeketh findeth; and to him that knocketh it shall be opened. Todas as minhas portas estão abertas.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, tenho assistido às movimentações do mundo dito cultural, artístico, editorial e dos seus agentes. Vi, entre o muito que vi, o efeito da maçonaria numa carreira para-poético-literária. E vi o efeito das relações de proximidade social, sexual, político-partidária nas instituições e pessoas culturais. Também encontrei valor, grande valor, extraordinário e inspirador. E todos os dias agradeço e pela gente morta, guias vivos na obra que deixaram.
E leitora que sempre fui, ouvinte, observadora das acções dos homens e dos discursos dos homens de decisão, vi a falta de coincidência entre umas e outros. Se um homem não é o que faz, se a sua palavra não tem o valor de uma acção, o que raio é um homem? Há quem remeta a justificação para tal décalage comportamental para a economia. Penso que não a encontraremos aí. Penso que tal justificação estará na ideia de pessoa e de comunidade que escolhemos ser.
Leitora que sempre fui, ouvinte, observadora, mas do lado de cá das portas fechadas, previa sem qualquer vidência, a queda: Alexandre Magno e o Cão, Diógenes, são um par antitético, um dos pares essenciais, dois dos pilares fundamentais de sustentação. Se um cai, o outro cairá, se não hoje, amanhã. Porque são duas manifestações de uma só realidade.
Sem filosofia não há política. Sem cultura não há erudição. E sem política, erudição, e sem criatividade, talento, técnica, não há arte. Sem diferença morre-se de consanguinidade e de homogeneidade. Assim fazem-se escravos em lugar de Homens.
Soube do despedimento colectivo na Controlinveste. 140 postos de trabalho afectam mais do que 140 profissionais, são 140 famílias. Gente que vivia directa ou indirectamente neste mundo feito de letras e nem por isso menos denso ou mais subtil. Ama-se da mesma forma, gasta-se água e luz e gás. Vai-se ao médico. Tem-se despesas fixas e flutuantes como as alegrias e as tristezas.
Só quem está do lado de cá sabe o que é estar do lado de cá. O lado de cá, do que quer que seja, é para muito poucos. Não há consolo e a esperança cansa-se. Só a certeza levanta os dias do chão.
Eu escrevo. Poesia, ensaio, e crónica. Agora um romance. Já publiquei e mais publicarei - ou não. Já tive um carro. Já tive uma casa. Mas porque escrevo e escreverei, já não tenho. Não interessa. Nem interessa que não interesse. Não peço nem a Alexandre que se desvie porque não é ele quem me faz sombra. Ponho tudo quanto tenho e sou nas palavras que escrevo: pelas palavras se morre, pelas palavras se vive. E todas as minhas portas estão abertas.

*Luke 11:9-10
King James Version (KJV)

11 de junho de 2014

Bonjour Mundo! Parabéns Cabeça de Cão! Viva!

Cabeça de Cão

Foi há dois anos. Foi assim. Eu não disse que with a little luck?... Sim, disse. Então, doutor leitor, para si: merci e kiss.

lailailailailai
can´t you see it´s possible
and oh oh so probable
lailailailai
with a little luck 
lailailai before
the day can turn to night
with a little luck lailailailai



Seja um homem, perdão, seja um lobo


E isto, meus filhos, é mais motivador do que dez sessões de coaching. Be a wolf - e não me refiro apenas ao literal ecolailailai. Mas ao amado, but you may contribute a verse, do grande lobo Whitman. Como agora já não se pode dizer seja um homem que nos cortam a língua, seja um lobo.

Aqui tem o artigo, de Março, no Guardian. E aqui o video. Enjoy.



Ps: não é o uivo que faz o lobo ainda que o lobo uive. Wolf up!

10 de junho de 2014

RASGADOS

Foto Grafias, fotografias de Maria João Cabrita com textos de Eugénia de Vasconcellos - aqui.

DEZ DE JUNHO DE 2014


Rasgados. Como só Camões, Pessoa, os Poetas. É ainda o Nevoeiro: "Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, /Define com perfil e ser/ Este fulgor baço da terra/ Que é Portugal a entristecer" 

8 de junho de 2014

Bonjour Mundo! Corra e olhe o céu...


As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - o que é necessário é criar

Pompeu, general, precisava de fazer chegar a Roma o trigo e cereais recolhidos nas províncias. Mas o mar era só outro nome para uma tempestade dos diabos e os homens são carne e ossos, filhos de mães e pais, e pais de filhos. Então, quando afirmou navigare necesse, vivere non est necesse, não lhes pedia que embarcassem, exortava-os a atravessar o mar que é, todos sabem, cumprir: olhar no rosto as mortes todas que temos de viver para chegar ao fim do dia. Foi Plutarco quem contou deste navegar é preciso, viver não é preciso. Mas veio Pessoa e apossou-se do espírito que estava dentro da frase porque o reclamou para si porque era glorioso e bom: 

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.


6 de junho de 2014

When the dog bites, when the bee stings...

I simply remember my favorite things... Como esta Serenata que descobri dentro da Cantata de Mauro Bigonzetti, bailarino, coreógrafo e director artístico do Aterballetto, encomendada pelo extinto Ballet Gulbenkian, que a levou a cena em estreia absoluta em 2001.


Porque a Cantata assenta num maravilhoso suporte musical popular, da Italia dos séculos xviii e xix, pude conhecer esta Serenata napolitana como se fosse nossa. É nossa. Há quem atire esta peça de bailado para o neo-realismo, fala-se Fellini e Rossellini, ou rebusca-se a Comedia dell Arte, o diabo a quatro: a arte não opera a esse nível do discurso que serve, deve servir, apenas e chega porque é tanto e tão bom, a propósitos educativos, académicos ou criativos, não à alegria fresquinha da fruição que sempre pede olhos inocentes como acabadinhos de florir. Se arte não for coisa da nossa carne, então não é nada.



Nota: este meninos, Natalia Osipova e Ivan Vasiliev, que aqui vêm em reportório contemporâneo e de autor, são os mesmos virtuosos do reportório clássico que já aqui vieram com The Flames of Paris. Veja tudo tudinho e goste muito. E sim, claro que when the dog lailailai é da letra de My Favorite Things, do The Sound of Music.

DREAMS

Fotos Grafias, fotografias de Maria João Cabrita com textos de Eugénia de Vasconcellos - aqui

RAGE, RAGE, AGAINST THE DYING OF THE LIGHT

Sonhar não é proibido nem quando nos proíbem o sonho. Especialmente se nos proíbem sonho.


Visão, tenha duas: O Príncipe Seco e o Príncipe Molhado, por Manuel S. Fonseca


visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O PRÍNCIPE SECO E O PRÍNCIPE MOLHADO
A nossa cabeça é geográfica. A nossa alma também. A praia é um lençol azul marinho dobrado sobre a almofada de marfim que é a areia. A praia é a maré vazia da nossa cabeça. A praia é a maré cheia da nossa alma.
Até aos cinco anos, só tinha visto um rio. Um rio aperta-nos a cabeça entre as margens. Um rio são duas pernas geográficas que violentamente descem montanhas e atravessam vales. Depois, aos cinco anos, houve um dia em que acordei no mar. Vi o mar antes de ver a praia (há tanta gente que só vê a floresta, sem nunca ter visto uma árvore). Vi, então, o mar. O mundo desaparecera, substituído por um oceano sem fim, com o sol em cima. Era um barco, o Vera Cruz, e julguei que, por terem roubado a terra, viveria eternamente nele. Durou oito dias a minha eternidade. Manhãs de baleias, tardes de golfinhos, noites de zodíaco, como deve ser qualquer eternidade.
Foi em Luanda, onde o Vera Cruz me deixou, que vi pela primeira vez a praia. Aos cinco anos, nas calemas adamastoras da Praia do São Jorge, soube o que era ser um príncipe.  O verdadeiro príncipe, pilinha a abanar nos larguíssimos calções, corria de pés nus e nunca estava seco. Lá está ele, é guarda-redes em voos estilosos e brinca na areia, n’areia. O verdadeiro príncipe chora a ver o mar e não sabe nadar, yo, não sabe nadar, ye.
Na capa da Visão que me fez planar sobre estas coisas todas, há um príncipe de gravata às riscas, que acena entre as rochas. A gravata é bonita mas, talvez por causa da gravata, vai deixar de ser um príncipe e passar a ser um rei. Nenhum príncipe de praia quereria ceptro e coroa. O verdadeiro príncipe da praia abdicou, porque abdicar é a sua condição. Não se tira tudo da cabeça –a dívida ao Banco, o EBITDA ou o desemprego, a Ucrânia e mesmo a morte que saiu à rua na Síria, a mulher, os filhos e os filhos da mulher, a metafísica e a contabilidade, a inútil e agitada panóplia do incerto quotidiano – para depois se pôr na cabeça o ferro de uma coroa.
O príncipe, o geográfico príncipe da praia, tem a alma cheia, eróticas ondas da alegria de coisa nenhuma, na pele o poético sal de um tempo sem tempo, os olhos iluminados pela preguiça tórrida de uma tarde que não mexe nem o mais escondido pintelho.
Olho para esta capa da Visão e já vejo Filipe V a entrar en la Zarzuela. Portugal estremece. Não sei se por ouvir palácios a gritar por Filipes, se apenas por ser Verão e já há tanto tempo sabermos que um rei vem sempre nu morrer à praia.

Visão, tenha duas - Everything's alright



visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
EVERYTHING'S ALRIGHT
Só me apetece entrar no mar e sair do outro lado. E chegando lá, olhar para cá, e ver que fiz o poema de Adélia Prado: o caminho do céu.
Desde ontem que tenho na ponta da língua, sem saber porquê, sem querer sequer saber, a canção que, no filme Jesus Christ Superstar, ao perceberem a aproximação do fim, Maria Madalena primeiro, depois Pedro, e a terminar todos cantam, could we start again, please. E desde ontem que a resposta se me faz ouvir no mesmo filme quando Herodes canta e dança com os dedinhos das mãos o charleston onde diz a Cristo, prove to me that You´re no fool, walk across my swimming pool. E desde ontem que me digo, everything's alright, não tenhas preocupações de Judas.
É preciso recuar. Primeiro a Jesus Christ Superstar, um filme da minha infância que não sabia nada de ter sido adaptado de um musical, nem de controvérsias geradas. O que a minha infância sabia muito bem é que o cinema era praticamente lá na sala, não era preciso pagar bilhete, coisa muito boa porque a minha semanada era ínfima. Bastava enfiar-me à socapa na frisa e saía do outro lado. E ainda havia aquilo de poder desaparecer e aparecer calculada e dissimuladamente quando suspeitava que o filme não para era mim, expressão decalcada da minha avó, não, não pode, não é para si, para a sua idade. Porquê? Ora essa, porque eu disse. Pois eu também dizia, mas era com actos. Guerilha. Parti do princípio que tendo no título Jesus, não havia de ser bem querido naquela casa de ateus. Como vivia quase porta com porta com o cinema, fazia o ilusionismo de aparecer no intervalo em casa e ser notada e barulhenta para que o desaparecimento fosse uma bênção – há-de estar a ler no quarto, no quintal, no telhado.
Este filme fez-me abrir muito os olhos. Um guarda roupa de dois tostões e um monte de pedras por cenário. Tal qual aquela gente cheia de prodígios que aparecera do Verão Quente, os cabelos compridos, as calças desbotadas e desfiadas, todos vestidos como a minha Janis Joplin, e os panos pretos estendidos no chão onde se alinhavam anéis, pulseiras, colares, bugigangas que vendiam enquanto tocavam guitarra, fumavam, riam. O meu tio já era grande, estava no último ano do Liceu: deixou crescer o cabelo e os amigos que iam lá a casa pareciam do filme, todos em Pedros e Madalenas. Faziam lanches que duravam a tarde toda e dançavam na varanda. Eu também dançava. Desconfio que não eram apenas os lanches de sábado que duravam pelo tempo adentro, tenho quase a certeza de que saíam até tardíssimo de se fazer cedo porque, às vezes, de madrugada, mal o dia ganhava uma corzinha, o meu tio ia buscar-me à cama e levava-me no ronron da Honda preta até ao mar. Um segredo de pijama, robe e pantufas.
E é preciso recuar até Adélia Prado porque os bons poemas são as escadas da eternidade, está-se lá em cada degrau, não é preciso subir. Um corpo quer outro corpo./ Uma alma quer outra alma e seu corpo./ Este excesso de realidade me confunde./ Jonathan falando:/ parece que estou num filme./ Se eu lhe dissesse você é estúpido/ ele diria sou mesmo./ Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear/ eu iria./ As casas baixas, as pessoas pobres,/ e o sol da tarde,/ imaginai o que era o sol da tarde/ sobre a nossa fragilidade./ Vinha com Jonathan/ pela rua mais torta da cidade. / O Caminho do Céu.
Talvez a praia, o ecrã do cinema, o poema, sejam o escape, as férias, o lugar onde a vida pode morrer por um bocadinho para ser outra antes de voltar a ser a mesma. Mas talvez sejam a realidade ainda que eu não walk across your swimming pool, e talvez seja mesmo fool. E agora que já não tenho o cinema ao lado, e que Jonathan, esse trânsito entre a carne mística, crística, mas concreta e completa que qualquer mulher percebe o que é quando o digo, como Adélia a chamar-lhe estúpido, e os homens, hã?, agora que nem cinema nem Jonathan há, só me apetece entrar no mar e sair do outro lado, num multiverso qualquer que dê para um poema e onde se possa start again, please. Deste lado, everything's alright, mas para escrever não há nem uma linha de água. 

4 de junho de 2014

É o commlock!

Não quero cá saber de telemóveis, são para fazer chamadas. Nem de carros que é coisa para ir de um lado para o outro. Nem de computadores, logo sejam uma boa máquina de escrever, com um bom ecrã para muitas horas de, vá, contemplação da folha branca, e rápidos. 
E1999Agora o Skype saiu directamente do Espaço 1999, é o verdadeiro commlock!, e por causa disso quero saber de telemóveis e de computadores. Afinal de contas, sou a Helena Russel, o Alan Carter e a Maya.
E1999 2Inventem-me uma Eagle One para o asfalto que até eu me agarro ao volante.

3 de junho de 2014

Agora que penso nisto...

A Gulbenkian é em Lisboa o que o Vaticano é em Roma.

1 de junho de 2014

O Falcão


AÍ VEM O MEU FALCÃO
Ontem, ri muito ao telefone com a  minha prima. Conhecêmo-nos desde que nasci, e só não foi antes porque ela chegou com seis meses de avanço sobre mim. Muito naturalmente, temos um património de memórias que vão do mais pateta ao mais hilariante -  e muito choro pelo meio.
Se tivesse veleidades quanto à minha natureza anímica, ou pretendidas disposições elevadas de nascimento, tinham-me passado todas com a conversa. Explico.
Toda a gente que acredita na reencarnação foi alguém noutra vida. E quem não acredita, faz um exercício de imaginação, e acredita também. Quando digo foi alguém, não digo uma pessoa comum. Cleópatras pululam pelas nossas avenidas – não que estejam erradas, pois Cleópatra terá tido sósias que uma mulher não chega para tudo, que nervos, audiências na sala do trono, César, António, os escravos, os sacerdotes, construções e inaugurações, manter os palácios em condições, guerra, enfim, uma trabalheira. E quem diz Cleo diz qualquer rainha de uma dinastia menos ptolomaica do que aquela. Ah, fartura de Marias Antonietas sem amour ao rico pescoço... Os homens são diferentes, ponha-se-lhes uma espada na mão e foram logo um guerreiro qualquer – faz ó-ó, Freud, não sejas judgemental, que feitio, aposto que na outra encarnação foste rabi.
Pior. Há aí uma tendência transmigratória de “almas muito antigas”. E diz que se nota pois têm uma sabedoria eco-coiso-transcendental de nascença. Ora, é mesmo aqui que a porca torce o rabo. Porquê? Também queria ser isso. É bonito ter sido um monge no Nepal e lembrar a infância do mundo no cântico dos mantras. Ter dentro uma paz tipo Keanu Reeves a fazer de Buda. Eu gostava. Mais. Faço meditação, yogo me mucho, bebo uma fartura de legumes, como frutinha, sopa e salada - e em voz baixa, montes de peixe e outros animais marinhos: há-de haver aí um barco que trabalha só para mim. Isto para chegar onde? Aqui.
Se, quando anterior Dalai Lama morreu, tivessem ido lá a casa sacolejar-me os ossos infantis a ver se lhe encontravam o espírito nos objectos e hábitos, teriam tido um choque, como direi, cultural-religioso-evolutivo. Sei de fonte sabida, e a minha prima é testemunha, que, na melhor das hipóteses, a minha alma é semi-nova – a alternativa é ser nova a estrear: hei-de ter sido um lobo, ou outra bicheza caçadora que não fosse para pagodes.
Quando era muito pequenina, a minha comida preferida era… Bife Tártaro. À Americana, como então se dizia. Adorava. Tudo. Mesmo visualmente: a beleza veraneante do amarelo da gema, a frescura tão encarnada, o moinho de pimenta de madeira escura que surgia do altíssimo armário a anunciar com um ruído fino de esforço, coisa irritativa, do uso, que o senhor bife estava pronto para ser comido. Tinha de ter aquela medida perfeita, definida para o equilíbrio do ovo, e ser sobre o redondo - nada daqueles monstros deselegantes e esparramados. Até o nome era aperitivo: Tártaro. Ai que fome.
E, para perder de todo as esperanças transcendentais, se me apetecia petiscar qualquer coisa entre as refeições, era uma linda carninha crua, cortada em bocadinhos. Dizia a minha prima ontem: lembras-te, quando tinhas três, quatro anos e a tua avó dizia: aí vem o meu falcão...

31 de maio de 2014

C'est bien plus beau lorsque c'est inutile

 
O VALOR DO POETA
Quanto vale um poema? Em moeda...

Não pagará ao banco a mensalidade devida 
ainda que quase todo o bicho precise de um covil que habite 

Não pagará ao veterinário a conta do Cão 
ainda que quase todo o bicho precise de outro por companhia 

Não pagará a conta do mercado nem da mercearia 
ainda que quase todo o bicho precise de as fazer 

Nem pagará a roupa que aos bichos cobre a pele 
nem os cuidados com o pêlo 
muito menos os necessários livros e mais
que isto de nos apoiarmos só nas patas traseiras 
e alongarmos a vista não acontece sem alimento subtil 

Entre os bichos quanto vale um poema? 
Nada 
Ainda assim é mais do que o valor de um poeta 

Bonjour Mundo!

CLARIDADE
Como a madrugada 
promete a claridade 
nítida, orvalhada, 
onde a noite se despe em luz, 
assim atravessa a rua 
a voz nua da manhã 
e toda a sombra recua 
e toda a memória é vã 



30 de maio de 2014

Visão, tenha duas - Uma europa na piscina, a outra na tina


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
UMA EUROPA NA PISCINA, A OUTRA NA TINA
O salário médio bruto, sim, bruto, em Portugal, é de 914 euros. A pensão média é de 420 euros. Um agregado familiar com rendimento bruto, volto a repetir, bruto, de 1380 euros mensais faz parte do quarto mais rico da população - também para efeitos fiscais, e nem vou referir essas devidas contribuições.
Imaginemos esses 25% de privilegiados, os dos brutíssimos quase 1400 euros… Grandes malucos! Viverão num T2, serão um pai, uma mãe, um vírgula dois filhos, o que quer que isso seja, com as naturais despesas de qualquer família: habitação, logo, hipoteca, não esquecer o imi, condomínio, água, luz, gás, telefone, televisão, internet, alimentação, vestuário, saúde, transportes, despesas escolares. Se este é o melhor quarto, como serão as outras assoalhadas?, quero dizer,  como vivem os restantes 75%?
Penso que viver estará fora de questão quando apenas se sobrevive. Culquê? Cultura? Só se for de fungos no queijo fatiado de marca branca, luxo de ricos, coisa de uma vez por outra, ou sorte de banco alimentar.
O salário mínimo português, em paridade de poder de compra dentro da União Europeia, caiu em 2014 para 80%, isto é, não converge, diverge. Abaixo do nosso real poder de compra, portanto, ainda com menos poder de compra e mais divergente da média europeia, e por ordem decrescente, temos a Letónia a dois pontinhos percentuais de nos apanhar na loucura consumista, compra! compra! compra!, ó doidivanas do cartão de crédito, porque é que não poupas, queres comer e pagar a luz?, seu guloso, a Hungria, a Croácia, a Eslováquia, a Estónia, a Lituânia e poucos mais já abaixo dos 50%. O Luxemburgo também diverge bastante, mas por razões inversas, 191% delas para ser exacta.
Quando se pensa em mobilidade social, em regra, pensa-se em ascensão. Deve também pensar-se em queda. A nossa classe média está a empobrecer e os pobres estão mais pobres. Uma classe média forte e dominante é o objectivo de qualquer nação - sendo as franjas a riqueza e a pobreza, mas aberto o combate a essa pobreza que nos reduz a todos em potencial de ser.
Apesar de pobres, agimos tais ricos e perdulários, jogadores das vidas de outrém como da nossa: sobrecarregamos as pequenas e médias empresas ao limite, o nosso próprio tecido de sustentação; atiramos os jovens aos velhos como os leões aos cristãos no circo de Roma; aumentamos o iva da restauração; levamos classes profissionais inteiras ao quase desespero e ao desemprego enquanto empacotamos jovens licenciados aos milhares, e não tão jovens e em grande número, com a formação paga maioritariamente por esta classe em queda imparável, e enviamo-los para os países, pasme-se, ricos. Sim, também para o Luxemburgo - e, vá, despachamo-los de igual forma para a Irlanda, esse mistério celta penhorado por um lado mas por outro nem por isso.
Por cá, enfocamos a atenção na captação e fixação de cidadãos europeus, não portugueses, claro, a troco de benefícios fiscais e imobiliários, e de cidadãos não europeus a troco de Vistos Gold, coisa onde rebrilhe o novo riquismo que é bem melhor, reconheço, do que novo pobrismo. Acho mal? Não. Montes de países o fazem ou equivalente. Não é essa a questão. É a falta de uma acção coordenada e dirigida para um mesmo objectivo: o enriquecimento do país, da economia à cultura, a renovação geracional, não o sangramento de país e povo. Porra!, se são bons lá fora que tal ficarmos com eles em vez de pagarmos para os mandarmos depois embora? Esses que vão, já o disse, terão filhos, gerarão riqueza, enfim, farão classe média. Lá. Não saíram para fazer mais uma formação. Não é da excepção hiper-diferenciada e baseada em qualquer aeroporto do mundo mais do que na própria casa de que falo. Classe média, pura e simples. Farão. Lá. Cá, agora, continuamos a sangrar, a empobrecer, e a envelhecer.
Portugal não é a puta que serve a clientela em busca do eldorado para lhe branquear o dinheiro emergente. Nem é a criada dos estrangeiros europeus. Portugal é Europa, a Europa mais ocidental: atlântica e mediterrânica – são duas valências. E a Europa é, antes de mais, uma ideia fundamental de paz e democracia sustentadas tanto pelo pensamento político quanto pela economia que o permite. Há dignidade e honra nisto. Há futuro nisto. Mas entre a esmagadora abstenção e a escalada da extrema direita, a Europa vem abaixo como a nossa classe média, não se faz, rarefaz-se: mal se respira para chegar ao fim do mês. Esta economia de uma europa na piscina e outra europa na tina, não nos permite uma ideia de Europa: onde não há pão, não há pensamento.

Visão, tenha duas: O estrangeiro é o que se entrega, frágil, indefeso, por Manuel S. Fonseca


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O ESTRANGEIRO É O QUE SE ENTREGA, FRÁGIL, INDEFESO


Gosto dos estran­gei­ros. Estou a olhar para a capa da Visão de 29 de Maio e ainda gosto mais dos estran­gei­ros. Gosto do estran­geiro, do homem e da mulher que estão sós, que não têm nin­guém que lhes fale a lín­gua. Gosto do ame­ri­cano de Beja, do fran­cês de Alje­zur, da impla­cá­vel alemã do meu pri­meiro emprego num hotel do Lobito, do zai­rense da Caparica.
O estran­geiro é o que esco­lheu (mesmo quando parece que não esco­lheu) car­re­gar a nossa cruz, o nosso céu, terra e mar, a nossa amar­gura e a nossa inco­mu­ni­cá­vel ale­gria. O por­tu­guês que anda pelas ruas do Porto ou Lis­boa pode muito bem dizer “I’m a stran­ger here myself”, como se fosse o herói auto­com­pla­cente de “Johnny Gui­tar”. Esse é um por­tu­guês da treta, con­versa de café. O estran­geiro não quer ser “stran­ger”, quer é vaguear as noi­tes para ouvir o fado de Por­tu­gal, e nele, e por ele, se irma­nar con­nosco. O estran­geiro é o que se entrega, frá­gil, inde­feso, à des­co­berta. Quer descobrir-se a si mesmo em nós.
O estran­geiro não tem rede – ou tem, quando muito, pouca rede. Honra-nos com essa desar­mante vul­ne­ra­bi­li­dade. Se qui­sés­se­mos, pode­ría­mos matar o estran­geiro, bater-lhe, dar-lhe um tiro, estrangulá-lo. Só um cobarde o faria, por­que o estran­geiro é o que se nos con­fia, o que nos dá o seu amor antes de saber se o ire­mos amar.
O estran­geiro é por­tu­guês por­que os por­tu­gue­ses, no seu melhor, sem­pre foram estran­gei­ros. Nunca a um ver­da­deiro por­tu­guês lhe bas­tou Por­tu­gal para ser o por­tu­guês que que­ria ser. O por­tu­guês que quer ser por­tu­guês vai ser Fer­não Men­des Pinto para o Oce­ano Pací­fico, Wen­ces­lau no Japão. Vai ser, a ferro e fogo, Afonso de Albu­quer­que em Ormuz. Vai plan­tar café em Angola, bater chapa na Ale­ma­nha, ser por­teira em Paris ou padeiro de Manaus a Santa Cata­rina. O por­tu­guês que tem ânsias de ser por­tu­guês, quer mar e mar, quer ir sem saber se vai vol­tar. Parece que Fer­nando Pes­soa se can­tou como o via­jante que nunca saía do cais. Bastar-lhe o cais é, digo eu, uma forma de abs­ten­ção – que pena que ele tenha desis­tido de ser por­tu­guês. (E é men­tira, por­que o enge­nheiro Cam­pos andou em bolan­das de Glas­gow a Lon­dres, o lati­nista Ricardo Reis se bal­deou para o Bra­sil, já para não falar de cer­tos ves­tí­gios ado­les­cen­tes de Durban.)
Em Por­tu­gal, não há nada mais por­tu­guês do que o estran­geiro em sua casa, com o ridí­culo chihu­ahua ao colo.

23 de maio de 2014

Visão, tenha duas - Psicopomportuguês

VisaoPapa
Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
O PSICOPOMPORTUGUÊS QUE VAI GUIAR O PAPA NA TERRA SANTA
É adequado que um português guie o Papa na Terra Santa. A terra, esta substância fecunda e viva, separada das águas e debaixo do céu, é feminina, e por muito que um Papa reine sobre os três mundos, e seja por natureza das suas funções um guia, alguém tem de o guiar a ele no caminho e mostrar a santidade da mulher – abro já esta janela simbólica.
A vocação portuguesa é esta, a do psicopompo – palavra de luxo para uma vaticana circunstância em viagem, a despeito da simplicidade que resume o seu chefe de estado, o representante de Pedro, no caso, a pedra franciscana em que agora assenta a igreja.
O psicopompo é uma criatura de forma humana ou animal cuja função é guiar a alma na viagem para o outro mundo. Ora, isto significa que, se somos guiados, ou estamos mortos, ou estamos perante o desconhecido, que é só uma forma de dizer que também nos desconhecemos. Deixámos a terra, estamos na água - por vontade do céu? – para chegar a uma nova terra. Há um trânsito, ou se preferir, uma transição, uma mudança de estado.
Na verdade, não fazemos outra coisa além de sermos guias e almas guiadas desde que nos entendemos por portugueses. Devíamos chamar-nos psicopomportugueses. Continuamos a fazê-lo, agora mesmo que somos laicos e que palavras como Papa ou Israel significam política e não religião, e em que a alma está prestes, não a subir, mas a cair do dicionário.
Tudo isto a que chamamos Portugal era mourama, Deus escrevia-se com outras letras. Henrique, da Casa de Borgonha, trouxe-nos o alfabeto que ainda hoje conhecemos quando pôs a espada a serviço de Afonso vi de Leão e Castela e este, por recompensa de boa matança, deu-lhe em casamento a filha ilegítima, Dona Teresa e, mais tarde, em 1096, o Condado Portucalense feito dos territórios de Portucale e de Coimbra. O resto é história, e até o mar se abriu para a contar, mas em vez do bastão de Moisés ficaram-nos os Lusíadas e o sonho da Ilha dos Amores por parusia. Depois disto, foi o que se sabe e tem o nome de descontentamento. Porquê? Um ponto expande-se de tal forma que não se contém e explode. É o Big Bang. Depois retrai-se. É uma lei. Uma lei Assim na Terra como Céu. Edificámo-nos sobre a expansão sem prever o recolhimento. Derivo? Talvez não.
Esse mundo de há séculos, de que fomos os guias e as almas guiadas, ficou em nós como nós nele. É esta a santidade da mulher, a nova vida que a terra dá: a diáspora portuguesa não está a caminho. Está. É da terra mesmo quando foi expulsa tal mouro ou judeu. Porque a vocação portuguesa é abrir o desconhecido, qualquer que ele seja, e fazê-lo conhecido. De si. Dos outros. O psicopomportuguês Henrique Cymerman é um bom exemplo.

Visão, tenha duas: A Insustentável Beleza, por Manuel S. Fonseca

VisaoPapa
Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,  
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui, e o outro osso também


A INSUSTENTÁVEL BELEZA
Olha para onde, este homem de branco? Parecem azuis os olhos que olham para fora e para cima. Talvez olhem para o céu e talvez o azul dos olhos deste homem seja só o reflexo da luz celeste. Eu vejo-lhe nos olhos uma tristeza azul – e se isto não ficaria muito melhor, e mais fadista, escrito em inglês! Mas logo a fileira branca dos dentes e a doçura da contracção do rosto, a que chamamos sorriso, dão cabal desmentido à suspeita de tristeza.
Talvez os olhos deste homem, tão largo e confiante é o sorriso, estejam a ver Deus. Afinal, se há no mundo um homem habilitado a ver Deus é ele, o homem da batina branca. Cheguei a pensar que era de ouro e disseram-me que era de prata, a corrente que traz presa ao pescoço e que desliza pelo peito sustentando a Cruz Peitoral. O solidéu singelo e a sotaina branca conferem-lhe uma elegância confortável e simples. Se queremos ver a Deus é assim que nos devemos vestir. E calçar uns sapatos vermelhos.
Lembrei-me, sabe Deus porquê, de um conto de Giovanni Papini. É a história de um dissimulado apóstata que é eleito Papa. Quando caminha para a varanda que se abre sobre a Praça de São Pedro e sobre a multidão que, em fé e pela fé, exulta e reza, esse novo Papa vem pronto para denunciar a terrível fraude, a gigantesca impostura que é a religião. Abrem-se as portas, ele dá o primeiro passo, discurso na ponta da língua serpentina e o gáudio da multidão entra nele como a luz que lavasse os olhos de um cego. O apóstata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
E se este homem de quipá, perdão, de solidéu alvo, se este homem que é talvez o único que pode ver Deus, soubesse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Porque mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajoelha na gigantesca Praça, esse Deus patriarcal, a correr de prece para prece, entretido a vingar-se, a acusar, a salvar, castigo numa mão, a misericórdia na outra, nem por milagre pode existir. Séculos de teologia e Teilhard de Chardin dissiparam essa nuvem, essa luz que cega Paulos. Séculos de teologia e Pierre Teilhard de Chardin foram um tiro na pomba. Este homem sabe e, todavia, na tristeza azul dos olhos desta fotografia, neste sorriso que promete mais regresso à vida do que a Vénus de Botticelli nos pode dar, ele acredita.
E que insustentável fragilidade! A tristeza azul de um olhar e um maravilhoso sorriso de conto de fadas sustentam uma civilização, uma imensa e reconfortante forma de ver, sentir e viver o mundo. Bastava que este homem dissesse uma só palavra. Uma palavra e a multidão correria desvairada, em uivos apocalípticos...
A uma palavra do caos, de um triunfal niilismo. Que insustentável fragilidade. Que insustentável beleza.

22 de maio de 2014

A lady Di e a Lhasa de Sela


PA'LLEGAR A TU LADO

É a culpa. É a puta da culpa.
Põe-me a ruminar pensamentos:
isto não chega,
não fizeste nada
e tens a morte
a querer morder-te
os calcanhares.
Corre.
Mas não posso
correr com a morte
a fazer-me sombra.
Não aprendi
a produtividade do medo,
nem as letras do desgosto,
lentificam-me as teclas -
tenho uma adição nesta hora
sem permissão para vícios:
preciso de uma dose diária,
uma só, puríssima,
de alegria ou de esperança
ou de ti.
Tens de perceber, há quem tenha
terrores nocturnos em idade adulta,
eu chamo-lhe insónias.
E se morro agora que a vida me está a começar?
Logo agora que sei quem sou, se me falta o tempo
para ser?
Estas coisas acontecem, sabes?,
nem vou falar de amigas caídas como folhas doentes,
da corrosão das células a subir das raízes das árvores,
nem de estúpidos acidentes,
olha a lady Di
e a Lhasa de Sela.