AMOR & OUTRAS INUTILIDADES Lda i UMA COISA PEQUENINA O amor é uma coisa pequenina cabe entre a tua mão e a minha quando elas se dão É este desejo maior de dar a mão os dedos teus e meus sede e água juntos para o mundo repousar no equilíbrio do seu eixo
Se gosta de Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, Woody Guthrie, do mais novinho e meio-francês Charles Pasi, de Amy Lavere e de Seasick Steve, dos Lucero, vai gostar deste sacana. Bem sei, sacana não é palavra que use, mas não me ocorre uma melhor e alguma coisa me diz que esta alma está convencida que não é flor que se cheire.
Porquê? Não, não é porque beba como se vivesse a Lei Seca, fume, ou enfie drogas pelos orifícios que entende. Isso é natural quando é natural. É uma daquelas coisas.
James Christopher Monger diz que ele é um rapaz problemático formado na linha dura do cristianismo e da cadeia, tudo metas cumpridas, droga, álcool, bancarrota e viver atrás das grades, antes dos vinte anos.
Parece-me muito razoável que tenha sido antes dos vinte, pelo menos tanto quanto o mais fundamentalista dos cristianismos andar de braço dado com a morte – é outro nome para destruição, para o infame pecado. É um par antitético. Também são estas cisões que desgraçam a gente e a faz criativa, ou as mata, ou dois em um. Desgraçam quer dizer, graçam: são uma Graça, uma Bênção. Uns Cristos crucificados em pequenino. Não parecem, pois não?, mas são. Olhe, o meu Johnny Cash é um. Vê? Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado? É preciso que alguém sofra para nos levar o sofrimento ao colo, quero dizer, consolo - não estamos sós. Não são cruzes que se usem ao peito, usam-se no ipod. E é preciso alguém que sonhe. Tenha esperança e outras irracionalidades que embatem contra o mundo e não se desfazem. O que é isso de vinte anos? Se começasse depois dos 30 talvez houvesse alguma coisa nisso. Assim não, é triste, é previsível. É lógico, perverso, mas lógico. E por nós homens e por nossa salvação descem dos céus. Os alquimistas medievais afirmaram: o que toca no céu tem as raízes no inferno. O que Micah P. Hinson deixa no palco está em trânsito entre o Texas com o fundo em Memphis e o futuro em Jerusalém Celeste.
Micah P. Hinson tem quatro ou cinco álbuns e já passou por Portugal algumas vezes. Já sabe, saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Enjoy.
Houve a questão da cama. Por causa do catálogo vindo sabe-se lá de onde na sua capa dura, ao toque quase plástico, em cor de cocó de bebé que andasse mal da barriga. Mas por dentro, ó por dentro, uma riqueza fotográfica a preto e branco, o cetim das folhas, um desparrame de móveis estilo isto e estilo aquilo. Uma fartura barroca em moderna talha de máquina. Enfim, um desatino do luxo.
E eu adorava a coisa que ninguém sabia quem tinha trazido e para lá andava ao Deus dará. Não fosse eu a salvá-la.
A minha credibilidade estética antes da idade de ir para a escola era, como direi, fraca. Em casa, se andasse vestida de odalisca ou sevilhana estava no meu elemento natural. Usava uma profusão de jóias da cabeça aos pés segundo o critério quanto maior e mais brilhante, melhor. E assim que aprendi a desatar o laço duplo das botas ortopédicas fugia para cima de sapatos de salto alto. Ensaiava muitas poses ao espelho. Fazia muito sarau dançante. Mas não era cá doida, não ia naqueles preparos para a rua ainda que pudesse ocultar um anel descabido nos dedos. Ia sempre muito composta. Bem penteada, de carrinho de bebé com o chorão dentro a dormir descansado, e carteira. E que não se enganassem, não era por isso que andava de bicicleta mais devagar ou deixava de subir às árvores.
Já contei que a minha casa era grande e velha. Alguma coisa andava sempre a ser reparada, se não fosse o telhado era uma parede, se não fosse a parede era uma porta empenada. E os móveis eram igualmente velhos, não estalavam de fantasmas, só de cansaço de existir ano após ano, doíam-lhes as juntas. E quando era preciso mudar o que quer que fosse era ir ao depósito, lá em casa mesmo, trazer o que lá estivesse, dar-lhe ar a toque de lixa, colar, mesmo refazer, e vá de encerar, pintar, lacar, ou estofar e forrar de novo. Mas isso só acontecia muito de quando em vez, quando a minha avó dizia esta sala está uma vergonha, isto não pode ser. Era quem mais podia fugir. Palavras mágicas do caneco: talvez trouxessem uma máquina que gritava mais do que as fúrias enquanto dava um estrafego ao chão. Ou sumissem cortinados e outros viessem do nada, ou do rosa se fizesse verde.
A minha cama tinha sido da minha mãe e posso jurar que ela não foi a primeira ocupante. Era assim com tudo. Das peças de tecido fazia-se roupa e das sobras pequeninas roupa para as bonecas. Era um tempo de costureiras e modistas, que parecendo ser a mesma profissão, é profissão muito diferente. Era esse tempo para mim. Que para outras meninas que conhecia, até primas afastadas, era o tempo do pronto a vestir, das socas e chinelas de pau iguais às da Anita, bonitas de morrer, e de viver em apartamentos super fantásticos com estantes feitas de cubos esvaziados de plástico colorido e alcatifas fofas no chão que não diziam um único ai. Fogõezinhos que pareciam de brincar e sem aquele escuro de chaminé por ali acima direita ao infinito sideral. Cozinhas em corredor de comboio. E camas a estrear.
O meu avô fazia-me algumas vontades, achava graça ao meu deslumbramento de índio com vidros e contas. A minha avó nenhuma vontade nem nenhuma graça que dizia alto e bom som que eu tinha uma estética de cabaret, um desassossego de folhos, plumas e lantejoulas.
Ora, no aniversário o meu avô perguntava-me o que queria de presente – porque sabia que os meus desejos oscilavam entre o desportivo radical e o estapafúrdio e se ele não estivesse por mim, azarucho, estava sozinha. O desejo de aniversário era sagrado. Podiam ser uns patins antes da hora. Um baloiço no meio da parte coberta do quintal, em pleno alpendre, para voar alto em dias de chuva. Ou naquele único ano megalómano, zás, uma mobília de quarto. Ou melhor uma cama. Menos, uma cabeceira apenas - porque a cama e o colchão que a acompanhavam na fotografia eram redondos e de casal. Disso não gostei, achei que ia ficar tonta porque sempre enjoei e ver redondo era sentir-me a andar à roda.
A cabeceira era uma linda concha em formato de vieira gigante, cor de marfim patinado com uns filetes dourados, fininhos, fininhos, envelhecidos a craquelée e inclinava-se suavemente: toda a parte superior nem tocava a parede. Seria uma coisa hollywoodesca se na altura conhecesse a palavra. E faziam à medida. E podia aplicar-se a uma base a direito que não desse tonturas, sim senhor, de solteiro, com certeza, entrega e montagem, sem atrasos, somos gente de confiança. Tudo em segredo telefónico e depois, entre nós, silêncio de conspiração. De vez em quando está quase? Está quase. É hoje. Não é hoje. A seguir, estratégia.
Quando a minha avó chegou a casa já a concha tinha sido entregue e estava montada, e o quarto arrumado sem vestígios de qualquer intervenção. Ó aparição marinha e maravilhosa, imensa como o mar de onde surgia. Aparecera, pronto. Estava ali. Existia. Que sorte, que sorte ter as paredes em azul e que sorte ainda maior, desta vez, viver numa casa velha de tectos muito altos.
Pensei que ia ser fuzilada pela metralhadora escondida no preto ao centro dos olhos da minha avó. Mas escapei ilesa - as balas foram todas noutra direcção. - Tudo o que esta criança precisa é de uma cama de casa de meninas. - Cama de casa de meninas, não, isto é história da arte, é Botticelli, é o nascimento de Vénus. - Não se enterre que vai dar tudo ao mesmo.
Há quem atravesse desertos para saber quem é. Suba montanhas, desça ao fundo da noite. Não é preciso. É-se o que se faz. É-se o amor que se tem. Basta olhar e ver.
DEU-ME ESTA VOZ A MIM Ontem li duas ou três páginas da militância poética de Ruy Belo, em Cristina Campo predestinação. E o grande mistério de Herberto Helder. E do dia-a-dia levantado em verso por Manuel António Pina. E do fogo de Camões a correr o ouro frio para dentro de Pessoa. Fui ver mais. A descarnação de Larkin e o esgar e a paixão em forma de O´Neill. Até Joyce e o seu desgosto igual ao meu diante da partida dos barcos de imigrantes à míngua de país. Aviões. Tudo escorreito. O pensamento limpo nas páginas, livros coração de gente. Fui lavar-me neles. Ver que não estava doida. E isto porque fiquei com a cagança do que antes tido lido agarrada aos dedos. Pessoas grandes da literatura. Homens. Quero dizer, pessoas de bem, pensava. E em algum sítio hão-de ser, na parte mais bestial, lá pelas entranhas hão-de ser, no esqueleto, não conheço um fémur com vícios nem se foi fracturado, pode arrepiar-se depois, mas isso é a sabedoria meterológica do osso. Não são. Ilusionistas. Porque escreve, como, por quem, para quem. Fiquei cheia de vergonha. Ao que faz, respondo, escrevo, pois se sou escritora e poeta escrevo, que havia de fazer, carpintaria?, não sou é cá ilusionista. Isto de intangibilidades, espectros, grupetas, merdas de cemitério ultra-romântico ou o reverso, uma escola de brancuras de meias japonesas dentro da domesticidade lisboeta, ser clean, minimalista, ser um atrofio de bonsai. Gente não é bonecos articulados. Coração de gente não se escreve em pinoquiotês. Que vergonha. O que faz? Que vergonha. Aqui afirmo: escrevo sem qualquer influência, sem qualquer pertença tribal, Deus é o Verbo, eu estou no Verbo, recolho as palavras, a vida basta-me, escrevo. Não sou ilusionista, não ponho enfeites na língua, não me cabem nas frases, só na árvore de Natal, e não sou actriz, não sou de palco, não dou show, sou de mesa e cadeira, portanto, sento o rabo na cadeira diante da mesa, olho para a folha a olhar para mim e escrevo. A vida basta-me. Quando o cão era novo e respirava sem dificuldade, dormia de barriga para cima, as patas flectidas, parte do branco dos olhos a ver-se, uma lindeza mediúnica, ressonava grosso, todo do sono, e aquilo dava-me uma paz tal que nenhum restolho de asas de anjo me fez alguma vez falta. A vida basta-me. A tua voz a deslizar no caracol do ouvido, de manhã, basta-me, a abrir uma janela à luz e ao trânsito no meio escuro dos lençóis quentes, um búzio para a eternidade a tua voz no dia aberto a beijos que a melhor coisa do mundo é estar nu com quem se ama. Passou. Que pena. Tudo quanto passou me basta. Quem passou basta-me. Os meus mortos são meus, a minha infância é minha, hoje é meu, todo o povoamento da existência que tive e me tiveram, pessoas, lugares, imaginações, livros e horas, é meu. Ter sonhado esta noite que ao lado do mercado velho havia um matadouro desactivado basta-me, e contíguo a este, onde antes tinham vivido funcionários de cutelo na mão, um edifício setecentista estava a ser recuperado, e o homem tão brioso do seu restauro mostrava-me a talha do travessão de uma cadeira e quando me aproximava explodia de luz porque entrava num imenso mural de Rafaello pelo manto da Madonna e ao voltar, pela mesma seda por onde entrara, dourada na talha do travessão da cadeira, saía maravilhada daquele ofício de restaurador, e com as casas pequenas ao lado do matadouro onde a arte estava viva dentro das coisas, ali rente à memória do sacrifício animal, nosso alimento, mas seguia adiante porque era o meu caminho seguir adiante subindo aquela larga rua despreocupada de não ter casa. Não ter casa basta-me. Sonhar enquanto durmo basta-me. Começar o dia neste poema bastou para a minha taça transbordar, para agradecer tanto por mais uma noite e mais um sonho, por mais um dia e mais um poema, pela taça a derramar a bondade do bem e a bondade do mal - Deus quer dar-me e eu aceito - Escrevo porque é o meu dharma, diz Buda, porque é a semente que Deus plantou no meu coração, diz a Bíblia e sendo católica e meditativa, escrevo porque digo faça-se a Tua vontade que é igual à minha.
Deu-me esta voz a mim, de Amália Rodrigues, em Foi Deus my cup runneth over, in Psalm 23, KJV
ESTRELA DALVA Agora que pensava nisso, via: a culpa era toda sua. Lembrava-se das palavras enojadas da irmã: tens uma sentimentalidade de sopeira. Aquilo era um desconchavo. Irritou-se. Já não há sopeiras, Teresa, ou queres dizer a terrina da sopa? Quero dizer que és uma parva.
Madalena era muito pequenina quando fora para o Brasil. Nem sabia o que era Portugal quando voltou a Portugal. Recordava-se da viagem de regresso, um desgosto em forma de avião barulhento e de choro a motor, e o pai mas ninguém cala essa miúda? A mãe, desabituadíssima das exigências práticas da maternidade desde a alimentação ao consolo, dizia baixinho e séria porte-se como uma senhora, ouviu, porte-se como uma senhora, mas diante da inoperacionalidade do pedido desesperava, porque é que não é como a sua irmã? Quero a Dalva, quero a Dalva. Cale-se lá com isso, que horror.
Dalva era a babá das meninas. No Brasil do fim de 74 vivia-se o remanso do Portugal salarazista e criadagem era coisa que não faltava - em português contemporâneo, pessoal, assistentes, staff.
Quando aterraram na Baía aquilo ainda era muito Jorge Amado. Por ironia, a casa para onde foram viver era quase idêntica à casa de Cuba onde raramente punham os pés, de momento convenientemente ocupada pelo povo unido jamais será vencido, e o gado a morrer de fome no pasto, os cavalos a rebentarem de ossos que a união vencedora não se transforma em ração por obra e graça da foice e do martelo, e os montados entregues ao mato. Era uma casa branca e alta, debruada nas janelas a sangue de boi, portadas de sangue também, e com aquele rendado distintivo das telhas duplas e triplas de quem nasce mais protegido pelo céu - o que é um tecto se não for um céu particular sobre as cabeças, cheio das constelações antepassadas a determinar a astrologia? A cada um o seu presépio. É assim. E lá porque os pastores perderam a noção e se julgaram Reis Magos, mais cedo que tarde e por meia dúzia de ovelhas mais, tudo voltaria ao lugar.
O pai e a mãe viviam em trânsito: Rio, São Paulo, Baía. O triângulo das barracudas. Elas ficavam, a Teresa já tinha aulas. Numas férias grandes, a Teresinha foi para o Rio onde a mãe passava mais tempo entre jantares e recepções, e acabou por lá ficar por artes de magia e de competência social. Ser adolescente no Rio era uma modernidade que o Portugal pós-revolucionário nas suas classes emergentes não compreenderia com facilidade, faltava-lhe a experiência de anos no sul de França e na costa italiana. No entanto, em Angola e Moçambique, pobres, ricos ou remediados, percebiam essa ideia de liberdade e de espaço sem dificuldade alguma, a frescura do bikini, fazer quatrocentos quilómetros como cá se fazia o passeio higiénico de domingo, canoas, barcos à vela, aviões, eram uma naturalidade como cá as linhas de comboio. A cabeça que se usa para pensar é igual em espaço por dentro ao espaço em volta dela: quanto maior, melhor.
A Baía era outra coisa. E aquele ano antes do regresso, perfeito. Sem razão aparente, sem a irmã por perto fora ficando na mesma como se nada fosse, e a rota de visitação familiar mantinha-se nos mínimos necessários aos negócios. Não queria sair do colégio nem Dalva, mistério intocado pela subalternidade, iria jamais para o Rio ou para onde quer que fosse. A verdade é que Margarida, a mãe das meninas, tinha um certo receio de Dalva, era aquele olhar calmo e reprovador que vira nos olhos da própria mãe, mas a mulher era de absoluta confiança, disso tinha a certeza, podia entregar-lhe as filhas no meio de leões. E a Madalena era tão, tão, enfim, tão não sabia dizer, qualquer coisa vagamente estranha, não parecia sua, e assustadora também, uma miniatura não é bem uma criança, pois não?, tinha os olhos daquele castanho muito escuro de poço, uma coisa de abismos a olhar para cima para uma pessoa.
Madalena andava a reboque de Dalva para todo o lado. Gostava muito dela. Era recíproco. A Yayá de Dalva explicara os porquês, o presente, o passado e o futuro, magrinha, de turbante como os da mãe de ir à pisicina, aumentada por folhos de uma brancura que a faziam mais negra e rebrilhante, até no meio das rugas. Ai que mulher linda no seu assento como Deus no seu trono de poder e glória.
Aquele terreiro fora fundado por mulheres. Princesas feitas escravas e levadas do seu reino selvagem e africano para outro reino. E, a bem dos factos, o palácio do rei desse novo reino não ficava longe do que elas levantaram. É natural, a realeza, tudo família, junta-se. Mas também se mata. Havia de ter sido por isso que a Grande Iya Nassô o levara para a Casa Branca do Engenho Velho. Dalva, filha de Xangô, Yayá também, filha de santo ainda no tempo da Mãe Senhora, Maria Bibiana do Espírito Santo, do Império Yoruba, de Oyo e Ketu, da nobre família Asipá, sabia tudo: sabia lavar, cozinhar, passar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro, e sabia que lavar, passar, cozinhar, rezar, sacrificar, dançar e espreitar para dentro do futuro era alimentar o Axê que alimenta depois a todos. Que mundo bem feito.
Ora, isto viera ao cima por causa da sentimentalidade de sopeira. Cruzara a perna e de cotovelo apoiado no joelho e queixo apoiado na palma da mão, revia. Era verdade, reconhecia. Quer dizer, não revia, revia-se. Os acontecimentos a passarem na tela da memória por junto com os pensamentos, uma salgalhada a velocidades distintas e sem noção de cronologia.
Há coisa de um par de anos, ao telefone, ele: - Já cheguei. Estou em casa. Vou à reunião e depois volto. Isto está desolado. Pareço um zombi.
Ele dizia-lhe que se sentia um zombi numa casa desolada, vazia da mulher e dos miúdos, então de férias, como sempre, em São Martinho, de onde viera para uma reunião em Lisboa. Era, portanto, a amante de um zombi. Não ser casada com ele tinha grandes desvantagens, todavia as vantagens eram maiores. Nem todas as mulheres são feitas para o casamento. Mas estar com um zombi não. Se a ausência da mulher e dos filhos fazia dele um zombi, o que era ela? Nessa altura viera-lhe à ideia o Longe Daqui Mesmo, de António Bivar, onde é que tinha enfiado o livro?, aquele texto onde ele falava de outro, do da trapezista e de como a sua comuna de então, no caso a Betânia, lho colara à Estrela Dalva, e logo a seguir pensou na Dalva de Oliveira na voz da sua própria Dalva, estrela guia da manhã e da noite. Tanto tinha acontecido todos os dias enquanto era pequena e não vivera nada disso de rebeldia e cabelos compridos, nem agora que pouco acontecia, eram outros tempos, viveria, continuava a ter medo de quase tudo, ah era isso, já não precisava do livro, eu queria ser trapezista. Minha paixão era o trapézio, me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre.
Não sabia muita coisa mas alguma coisa sabia. A voz voltava a encher-lhe os ouvidos e tudo em redor. Feche os olhos, coisa pequena. Agora veja uma grande árvore. A árvore foi embora e no seu lugar está um lenço vermelho. O lenço se desfez e agora é o sol amarelo e dourado quem está. Pode abrir os olhos, menina, não vou lhe comer, não. Ria uma grande falta de dentes. O que descobriu? Posso ver o que quiser. Isso também. Mas não é o principal. O importante é reter que você não é seus pensamentos, é o que vê os pensamentos aparecerem e desaparecerem. E isso é ser quem? Isso é ser tudo. Uns chamam-lhe Deus, outros, nada. É Olorum. É o coração da terra quando ainda pulsa no Céu, antes das estrelas, antes do céu e da terra.
Depois daquilo do zombi houve mais outra aresta qualquer e ao fim, como sempre sucede com estes homens, ele seguiu o seu casamento, as suas férias em São Martinho, outra amante, e como sempre sucede com estes homens, quando ela arranjou um namorado a tempo inteiro, quis muito voltar para ela, e ela, como sempre sucede com estas mulheres, deixou o namorado e voltou para o trapézio em time-sharing.
A chatice, desta vez, é que partira a perna e bem durante as férias de toda gente, que era pouca. Da família sobrava-lhe a irmã, de férias, e ele, de férias. Não tinha sido nada de especial. Mas uns dias mais tarde, uma dor como se a carne fosse explodir. E pegou no telefone: - Preciso de ti. Preciso mesmo de ti. E ele uma oitava acima - ficou chocada. Não foi com a oitava acima. Foi o tom. Desconhecido: - Eu não vou a Lisboa. Não estás a pensar que vou para aí, pois não? Não estava. Nem tal lhe ocorrera. Só precisava dele de forma concreta e modo indefinido.
Ele amava-a. E ela a ele. Era uma loucura como há outras. Amavam-se de todas as maneiras – e em todos os lugares. Estavam outra vez na esplanada. Depois de mais outras férias, outra amante, nenhum namorado. Ele queria voltar. - Tu sabes que também queres, Madalena. Não podemos jogar fora aquilo que temos. Por muito que ela não fosse os seus pensamentos, tinha havido aquele dia, o do trombo na perna partida e engessada, a irmã no hospital, tens uma sentimentalidade de sopeira, danada das férias interrompidas, porém ele já se baloiçava, de cabeça para baixo, tão alto, os braços estendidos para a segurar, tu sabes que também queres, Madalena, e ela a olhá-lo, lá no alto, adorava-o, quando de repente, uma rebeldia de cabelos compridos a revolucionar-lhe o peito, a jurar-lhe que estava sozinha, ah era isso, de repente sozinha, os restos ao fim do texto, de repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto. Quando eu cansei de ficar olhando para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí, eu vi que eu estava sozinha.
Levantou-se sem uma palavra. Deu um passo. Dois. Três. Veio-lhe uma fúria de filha de Iansã que era, voltou-se para trás, e à distância disse-lhe alto e bom som: - Zombi, sabes o que é um zombi? É um morto que pensa que está vivo.
FADO À SOMBRA DO RIO Eu sei de um lugar à sombra da curva do rio à hora em que ninguém vem Dentro desta água corre o mar de além e a voz que mundo tem é aqui que a vem cantar E é por isso que sei mais de mil e um segredos E o teu coração sei também e os teus passos as tuas horas quando ris e porque choras Não te espero nunca virás Não me esperes não posso Entre nós está o rio: é o do tempo que não foi nosso
SABE-SE LÁ Dizer os sentimentos não se vêem é uma merda de primeira apanha. Se há coisa que se vê é o que se sente, a menos que se esteja a esconder propositadamente – e o que se esconde, se não for o que tem vergonha de se mostrar ou o que não se pode mostrar sem castigo? Bem, em casos raros esconde-se o que se quer só para si, e para alguns escolhidos, aquilo a que se dá extremo valor. Ali Babá escondia, não só por ser tesouro, mas por ser roubado, isso sabia ele de pequenino. E muito bem.
Outra coisa não fez enquanto ganhava corpo. Escondia as nódoas negras e roxas e os vergões debaixo da roupa estratégica e de manga comprida, as sweat por baixo de t-shirts. Toda gente usava assim. Só que ele não variava o uso nem no Verão. Escondia a raiva e escondia a vontade de matar aquele filho da puta: aos cinco anos já comia pelos cornos abaixo à sexta-feira como os outros comiam peixe para não ofender o Senhor. Aleluia.
Enfiado e calado, de manga comprida, num sexto-andar da Cidade Nova, em Santo António dos Cavaleiros, um bloco colado a outro e a outro, em riscas horizontais de mau betão pré-fabricado e multiplicado ao infinito, uma ideia mal copiada das cidades-jardim inglesas à porta das cidades que serviam, um refugo relvado para os imigrantes da fome do Alentejo ou os retornados que lá iam refazendo a sua vida, legais e ilegais de Goa, Moçambique, de Angola, gente que saía de autocarro às seis e meia da manhã e chegava a casa depois das sete da noite, vinda de Lisboa. Os anos 80 elevaram o estatuto dos filhos destes pais. Saiu dali, Calçada de Carriche afora, uma nova classe de miúdos que acedeu ao ensino superior e se fizeram homens para nunca mais voltar.
Ele fazia parte deles, e desses números. Crescera ali entre os novos pobres misturado com as minorias étnicas que estavam em maioria e cuja etnicidade não descortinava. A mãe, sim. Tanto que apesar de ter a escola primária perto, lá em baixo, e a secundária em frente de casa, em contentores provisórios desde a revolução sem derramamento de sangue que aprendera nos manuais, à primária fizera-a na Escola Paroquial de Loures, um reduto religioso, esse sim, minoritário, em plena cidade de despojos soviéticos. E a seguir Colégio Moderno onde a mãe era auxiliar de educação - coisa que não o favorecia entre pares com o valor supremo da paridade. Foi aí que começou a descortinar. Não veio mal ao mundo. Sempre aprendera cedo a diferença que vai do discurso à realidade e é que não há diferença entre a sociedade dos homens e uma alcateia. A hierarquia é uma malha de ferro. Ou se a rompe ou é ela quem diz quem somos e para o que somos e para quem.
Aprendera também ali entre os seus pares colegiais a fazer-se invisível. Não há melhor maneira de se esconder do que parecer um entre muitos: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem bom nem mau aluno. Mas tens a certeza de que ele era da nossa turma?, pensava que o filho da contínua era da outra. Tens a certeza? Perguntaria anos depois uma das colegas quando não havia quem não lhe soubesse o nome: neurologista, prémio Nobel da Medicina pela APDCP – Aplicação para Plasticidade e Desenvolvimento do Cortéx Pré-Frontal. Descobrira a chave que controlava a violência ainda antes desta se manifestar.
Enquanto pisava a carpete azul cerimonial no dia da entrega do prémio, pensava nos contras da APDCP. Um capital de revolta e de ódio, se bem gerido, se escapa à humilhação e submissão que traz dentro, se apontado a um alvo, é infalível. É uma máquina de criação. Que pena ser também uma máquina de destruição. E não saber a magia do pêndulo. Tinha na cabeça a letra do fado na voz de fazer as limpezas de sábado de manhã da mãe, a saltar versos: sabe-se lá quando a sorte é boa ou má, ninguém sabe quando nasce, pró que nasce uma pessoa.
A última vez que o pai lhe jogou a mão, deu consigo mesmo estendido de barriga para cima no chão de má cerâmica da cozinha onde há que anos os ladrilhos rachados esperavam substituição. Nem percebera. Ficaram-lhe as rachas dos ladrilhos metidas na memória. Ouviu a voz do filho em cima dos olhos que abria e fechava piscando de dor e incredulidade. Uma voz calma, pausada, um sopro de fogo nas pálpebras: faça as malas e saia. Se voltar, se alguma vez se aproximar da mãe, mato-o e nunca ninguém saberá, nem a mãe. Há-de cair de bêbado em qualquer lado, mas desta vez não se levantará, e quem há-de estranhar?
Ninguém põe em causa uma revelação. Uma revelação é uma coisa íntima. É o mundo a falar connosco numa linguagem profana a sua verdade sagrada. Ora, ele que toda a vida tivera a desconfiança, de antes do filho nascer, mesmo com a mulher cheia de grávida, mal bebia dois whiskys, a desconfiança, mais um copo, a certeza, a certezinha absoluta ah grande puta que me anda a dormir com o ex-namorado, põe-me os cornos e ando a criar o filho do outro, naquele momento percebeu que não, que ela não dormira com ninguém e que aquele era mesmo o filho dele. Filho, ainda disse antes do cotovelo na base do pescoço lhe cortar o ar e o pio, não me chame filho que eu não tenho pai, vá-se embora.
E ele foi. Mas quem saiu dali foi um trapo. Nem copos nem porrada. Do trabalho para o quarto alugado, do quarto alugado para o trabalho – tinha sorte, estava vivo e em liberdade. Não merecia. Sabia que não merecia. Se o arrependimento matasse como dizem as pessoas. Mas não mata, nem muda o passado, nem redime a ponta de um corno a quem teve de levar com o que teve antes do arrependimento mostrar a cara. O arrependimento é tal qual a revelação, íntimo, não serve a mais ninguém, não se pode ser o que se foi porque se repudia o que se foi, mais nada. Um dia, a ler a notícia dum homem que morrera dum camarão percebera. O arrependimento era uma alergia, hoje comes camarões e gostas, não acontece nada, ao outro dia comes camarões, fazes edema da glote, era este o nome do sucedido derivado do camarão, e vais desta para melhor. Era isso. Fixara tudo. O sistema imunológico moral volta-se contra o próprio dono: tu és o inimigo, cabrão. Agora passa sem camarões, trabalho, quarto, trabalho. Ou morres e fazes do teu filho um parricida como no filme daquele careca, o Yul Brynner, em vez de o veres na televisão, de abas de grilo e faixa a tiracolo a falar tão bem que parece que nunca lhe tocaram com um dedo.
MEIA-NOITE NAVEGANTE Esta coabitação de pássaros no mesmo ramo... A luz a cair agarrada às folhas e o vento a dar-lhes um reverso de sombra O milagre da árvore saída da terra e ainda enfiada no escuro mas dirigida toda para o céu Segredos explodem maravilhas páginas florestais de livros fechados abrem-se no exacto momento em que um puríssimo preto de Rothko é o mar onde a meia noite navega
Se não houver rosas bastam-nos espinhos, Se não tivermos luz bastam-nos chamas. Umar-i Khayyam in Ruba´iyat
ESCREVER
Escreverei hoje, quinta-feira e amanhã, sexta-feira e sábado escreverei também
Escreverei todos os dias e quando o silêncio me o impedir escreverei silêncio sobre o silêncio e ficarei quieta, de olhos fechados até que a respiração do mundo irrompa nos lábios porque todo o milagre vem por meio da palavra e arranca do escuro os astros pelos cabelos e eu hei-de estar nessa explosão de luz
Já aqui expliquei as razões amorosas e erotolailai. Mas mesmo entre amigos. Conhecidos. Vá, por mera cortesia. O que é isso de bjs? Bjs?! BJS? Não me atirem consoantes à cara, que nervos! Kiss me e acabou-se.
Ps: Se clicar no artigo, ele fica de tamanho legível. Merci. Kiss
- Se queres que vá, dá-me a chave para abrir a porta. - A porta não está trancada. - Então, porque não consigo sair? - Vives no passado, o futuro nunca chegará.
Há mais de 13 anos que tenho o meu Cão comigo. Antes dele nascer já estava à espera que ele chegasse a casa. Toda a gente sabe. Andei mais de um ano à procura do Cão porque ele se esqueceu de avisar que ainda não tinha nascido. Só por causa disso estive para lhe chamar Cãolai Lama.
Canto-lhe canções patetas quase todos os dias - o Cãocioneiro de Natal é o que lhe cantei hoje no carro, no regresso a casa, vindos do veterinário. Se quiser repetir uma canção, a patetice é tanta que não consigo. É natural: as melhores coisas que fazemos na vida não valem nada. Descobri isso porque o Cão no banho transforma-se em gato. Para aquela aflição molhada não saltar suicidariamente da banheira e me arranhar os braços o menos possível, cantava-lhe variações disto, acrescentando bichos em cada repetição, e sei lá o que mais:
Ter um tigre da sibéria na banheira é um perigo Ter um urso com um tigre na banheira ai que pavor, Vou chamar o meu querido senhor Cão para me salvar deste horror
CÃOCIONEIRO DE NATAL
Este Cão é o melhor que há no mundo das quatro patas, das duas patas, das cem patas, que a centopeia e do que a baleia, este Cão é melhor. Este Cão é melhor do que um balão a passear, ó, pelo ar do que estourar um balão, pah!, é melhor. Não há melhor do que este Cão nem no Natal, este Cão não tem rival, não tem igual e é todo meu e só meu - ah ah ah ah.
O verdadeiro control freak, perdão, controlador de fritos, sonhos, rabanadas, e mais doces conventuais, mousses, pâtés, rillettes e colheitas tardias, é o que, como eu, faz dieta antes do Natal. Haja saúde, aveia integral, gérmen de trigo e farelo do inferno para tanta chaladice. Cristo!
Ps: fujam que vem aí o Pai Natal!, quero dizer, o colesterol e as bombas de açúcar.
Tenho estado aqui à procura de uma palavra não queria dizer mágica irrita-me a palavra mágica mas na verdade é mágica a palavra que procuro pode ser o voo nas asas do xamã ou qualquer gesto que enrole o tempo para trás até mesmo o bastão de prodígios de onde nascem serpentes e a chave que abre o mar em dois Eu que tenho a mania vitamínica da saúde redoxon centrum alhos envelhecidos soja ácidos gordos penso que vou ter um exacto enfarte a qualquer instante e penso que esta hipocondria saiu de areias imprevistas ferventes como líquido metal inesperado depois de sólido - sei muito bem já estive no deserto E penso enquanto pensas que é mentira vais morrer de facto É ansiedade um ataque de pânico querem lá ver olha não é só aos outros se vais morrer ao menos que seja a escrever mesmo uma merda qualquer serve se vais morrer Lembro-me do reclame a não-café de quando era pequena: parece que é mas não é que gosto que satisfação Brasa é bebida que aquece o coração É isso parece que é mas não é é um bom mantra às quatro da manhã yoga que gosto que satisfação em meia dúzia de posturas lentas pombo ponte roda abrem o peito inspira expira inspira aquece o coração O único clarão há-de ser o da folha branca no ecrã porque ainda não escrevi nada do que quis escrever e amanhã vais ter um bom dia com Mokambo
Vou fazer-lhe uma pergunta. Feche os olhos e responda em silêncio. Ninguém vai ouvi-lo.
Quem o ama? Quantos são?
Não vale mentir. Nem vale dizer, o que é o amor, afinal? Vamos simplificar. Noves fora nada. Quem cuidaria de si se adoecesse gravemente? Se estivesse desempregado quem daria a cara pelo seu desempenho? Quem dá valor ao que faz, valor medido em reconhecimento efectivo? Em casa de quem encontraria abrigo se estivesse na rua depois de perder tudo? Quem dormiria consigo, com desejo de dormir consigo e quem o abraçaria nas noites longas? Quem o quer ouvir, ver, ter ao lado, quem não prescindiria de si e iria consigo como no poema de Adélia Prado pela rua mais torta da cidade, o caminho do céu? E quem ri consigo?
Agora vamos fazer ao contrário. Você, quem ama? Quantos são? Não, também não vale mentir. Ninguém está a ouvir.
É cru e justo o espelho da contabilidade amorosa.
À medida que o ano vai fechando os seus dias e avanço no balanço das minhas contas, percebo que a vida é muito curta para ser pequena e escolho as palavras velhas caídas com tempo para as fundações do futuro. Deus, outro nome para o Amor, o Verbo, é muito grande e eu quero andar esta imensa terra pelo caminho do céu. Amén.
Estava a olhar para as minhas lindas unhas, fresquinhas da manicure de véspera, encarnadas rebrilhantes no preto do teclado, e a pensar toda contente que nunca as tive mais bonitas quando me ocorreu: ó… não posso mostrá-las ao meu Amor. Sua fera!, era em si que as devia usar num arranhãozinho bem marcado só para o lembrar de que não estar presente em momentos importantíssimos como este, dói: chama-se distância emocional. Patetão ausente.
Pois fique sabendo: não gosto de si. Porquê? Porque passou muito tempo desde que o verniz secou ontem. Já não quero que se manifeste como os espíritos de quando era pequena: está aí algum espírito que se queira manifestar? Fazia isto pela casa toda, em cada divisão, enquanto andei debaixo do spell de um filme de medos a preto e branco que vi com o meu avô. Uma coisa terribilis. A mesa saltava e batia com força no chão. Pelo sim pelo não, não desse algum móvel velho da nossa velha casa em estalar com mais entusiasmo do que o habitual, perguntava. Seráfica por fora cheiinha de medo por dentro. Depois houve aquela vez quando a minha avó teve uma visita de cerimónia. Pus-me de olhos de espreitar o além, sem piscar. Direita como um fuso. Mas antes de ficar tesa como uma tábua, tal como a senhora do filme inspirei e… cheira-me a rosas, alguém morreu nesta sala. Depois os faróis dos olhos nos máximos e está aí algum espírito que se queira manifestar. Os adultos são muito impressionáveis. A minha avó, azarucho do caneco, não era. Zás, castigo daqueles a sério. Ai, se calhar é por isso que não se dignou a aparecer. Ainda estou de castigo. Pois se estiver para se manifestar agora, não se manifeste, sou muito capaz de lhe fazer mal e sem recorrer ao outro mundo, não tenho só unhas, tenho caninos draculinos e odeio-o!
Por outro lado, também não gostaria que tivesse para aí um desgosto com esta Dear John letter - onde quer que esse aí seja, é decerto suficientemente mau só por não ser aqui, ao meu lado. Bem feita! E espero haja cobras aí. Enormes. Daquelas que comem pessoas inteiras. E piranhas no rio e tubarões no mar. Muito fumo de escapes. Cheiro de fábrica de papel e curtumes. E uma mulher feia e má que lhe dê umas chicotadas no lombinho – é melhor não que é capaz de gostar… um homem feio e mau. Fun! Enfim, não tenha tristezas. A verdade é que fez bem em não ter vindo: sou unlivable.
Não é que seja anti-social, gosto das pessoas. Muito. Tenho é pouca paciência para as aturar e prefiro estar em casa, ou onde quero estar, a fazer o que gosto, consigo, até a fazer o que devo, pasme-se.
E depois há a convivência no mesmíssimo espaço. Não é fácil, pensa o quê? Uma pessoa não é livre para fazer yoga na sala quando tem um marido esparramado no sofá a ver a bola – só vejo o Benfica, o resto é bola, detesto. E tomo conta da televisão. Adoro televisão desde que era miúda e lá em casa ninguém queria saber da maravilhosa televisão. A cores e tudo. Só desgostos. Ingratos. Se não fosse o meu avô a fazer-me uma vontadinha havia de ter sido a última criatura da minha geração a ter televisão a cores.
Imagine lá o que seria a sua intelectualidade a querer ver uma mariquice qualquer na tv e eu com o NYCB Workout no ecrã, aplicada nos abdominals, legs and darts no tapete. Também preciso da televisão para ver as minhas séries que não me passou essa loucura em episódios quando acabou o Espaço 1999. E os mesmos filmes repetidos. Já os sei cor como os Maias. Nenhum homem vê o My Fair Lady e Gigi. É verdade que também sei de cor o Padrinho I e II. E ninguém aguenta o Wong Kar Wai, redux, de empreitada – tenho estações de melancolia oriental, que quer que faça, aquilo assenta-me bem no silêncio de quando o gato me come a língua. Vejo desenhos animados.
Mais. Aposto que não anda de bicicleta. Porquê? Nunca vi numa bicicleta um homem que me apetecesse dar-lhe uma guinada e comê-lo de beijos. Ou, horror dos horrores alérgicos, é uma cat person. Atchim. Eu e os gatos não nos damos bem. Que comichão nos olhos. Eles gostam de mim e eu também gosto de mim. E a garganta? É que não se respira. E o Cão não suporta gatinis. É mais pequeno do que alguns deles. Xô gato, vai bye bye, vai.
Não sei fazer rotundas nem preencher impressos, não me governo em repartições. Não tenho medo do escuro e o ruído dá-me nervos de exterminador implacável. Tenho uma, como direi, ligeira mania das arrumações. Durmo no meio da cama.
Isto é tudo para seu bem. Sabe o que é pior do que isto? Viver com um escritor - no caso, escritora. Raça de egoístas. E ainda pior, viver com um escritor que seja poeta. Só se pensa em escrever. Ler. Escrever. Escrever melhor. Aprender a escrever. Corrigir o que se escreveu. Jogar tudo fora e começar do zero, sem erros, como se fosse possível nascer outra vez numa folha branca. E a necessidade de gastar horas inúteis, parecem segundos, escapam-se, a pensar na morte da bezerra, para só Deus saberá o quê. É uma obsessão. Todavia mau mesmo mau é nos períodos em que a obsessão passa: quando acaba de se escrever não interessa o quê, um poema ou um livro, um texto qualquer. Naquele momento em que não há o que dizer, não há o que fazer porque não se consegue ser: fica-se vazio como o Frankenstein à espera do coração, do cérebro, da tempestade que ligue tudo e dê sentido ao corpo, quero dizer, à vida. Ninguém quer casar com o Frankenstein.
E há a estética de fugir. O meu sonho de casa em estilo maison é a biblioteca da Bela e do Monstro, basta acrescentar-lhe uma cama, uma mesa de jantar, um ginasiozinho, tudo em um, e, desde que as portas abram para um jardim, mesmo micro, vá, um pátio com uma árvore e um bebedouro para pássaros… meu mundo bom. Vê como faz bem em estar missing in action? Quem é sua amiga?
Não gostaria, no entanto, que julgasse que sou volúvel, ou uma intransigente do piorio: se me pedir perdão, mil vezes perdão, por não se ter fascinado a ponto de surgir como uma aparição com a minha mais que perfeita manicure, não se fala mais disto.
Um beijo da sua, um tudo nadinha ambivalente, mulher. Ex-mulher. O que Deus quiser. EV
Escrevi isto. E um leitor escreveu-me, e agradeço-lhe, a perguntar: porque não faz o elogio? Faço. Tenho feito. E continuarei a fazer.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vii
O ELOGIO DOS VIVOS: NUNO GONÇALVES, A POP, ELOGIO DA VIDA
Para entender a cultura pop é preciso estar na rua pois é na rua que ela emerge e é na rua que ela desagua.
Há um momento em que alguém faz confluir numa tendência, inicialmente marginal, um conjunto de vontades onde se aglutinam valores éticos e estéticos que se manifestam desde a moda à música, passando pela forma de relação pessoal, inter-pessoal, e relação com a cultura pré-existente, o mundo. Trocado em miúdos: de repente, algo que não estava presente no colectivo passa a estar. E cresce da margem para o centro. Ou se preferir, os centros. Madonna é um bom exemplo porque cresceu até ser gigante, vê-se ao longe. Vivienne Westwood é outro, dia após dia, ano após ano, em passinhos pequeninos infiltrou-se nas passerelles de alta costura e já desceu à Zara. Joana Vasconcelos explora a visibilidade à distância usando-se da dimensão e do popular para uma cultura contemporânea que eleva como não acontecia há anos e por isso a rápida notoriedade. Isto para chegar onde? Ao elogio dos vivos que elogiam a vida. Esta vida do quotidiano, da rua. Esta vida onde se sabe o que falta e se está atento, de orelhas em pé, a ver se sim, se chega, de onde, se se apanha. Melhor ainda. Esta vida feita de gente porosa, permeável, que faz o que nunca se fez antes, nunca daquela forma. Da forma que responde à necessidade daquele momento. Parte da cultura pop é timing. Pulsação.
Para quem como eu tem uma relação apaixonada com o fado, não fora a vontade de conhecer, seria quase preferível nem o ouvir para não ouvir o que se faz desde que foi socialmente revalorizado, e porque foi socialmente reabilitado. Há muito fado dentro do fado. O meu é o transgressor e fez escândalo nos jornais com Camões. É o fado das frases longas inventadas por Alain Oulman para os poetas que Amália cantou. (A Camané, ao excelente Camané, só lhe falta o Oulman dele e os poetas dele. Todavia ele soube de um rio e isso a mim chega-me.) Enfim. Adiante.
Nuno Gonçalves foi o responsável pelo projecto Hoje. Produtor e director artístico a convite da Valentim de Carvalho para mostrar Amália a quem a desconhecia, portanto, a um imenso público, já que então verificaram que os mais jovens ouvintes de Amália tinham em média cinquenta anos de idade. Como sempre digo, desde Camilo o digo, trabalha-se bem por encomenda: quando o metro define os limites, pisa-se o risco com criatividade.
Se aquele Hoje é de 2009 porque o trago aqui, agora? Porque de 2009 até hoje não voltou a haver na música pop portuguesa uma intervenção rasgada como esta Amália Hoje. E estive, à data, não com a crítica especializada, mas com os muitos, quase todos miudagem, que aderiram em coro: adorei.
O fenómeno recente mais parecido com Amália Hoje aconteceu com a exposição da Joana Vasconcelos, em Sintra, que a despeito de nos dar música não podemos ouvir e estamos necessitados de cantar, de nos cantarmos – um destes dias falamos sobre Joana Vasconcelos.
Quando Nuno Gonçalves pegou em alguns dos mais icónicos fados de Amália Rodrigues, os rearranjou numa linguagem e numa expressão interpretativa sem qualquer tangente ao fado e com as vozes inesperadas e súbitas de Fernando Ribeiro e Paulo Praça ao lado de uma muitíssimo corajosa Sónia Tavares porque tão, tão distante de Amália, e os lançou e se lançou para a jovem boca da rua que não os sabia, foi amor, irreverência e sinfónica homenagem. Arrisco dizer que, e por não ser fado, tal como a miudagem, também Amália teria gostado. Também ela se dava à rua, o nome íntimo que o mundo usa para não parecer muito maior do que nós e se fazer habitável pelo lado de fora.
Neste trabalho ouvem-se gerações de música popular, e porque é popular vê-se, entra-nos pelos olhos adentro: desde o fado que evoca Portugal a preto e branco, a Joy Division em branco e preto, está lá Morrissey e ao fundo Jim Morrison e mais... Nada disto será informação nova. Contudo é com esta informação velha que podemos fazer como Nuno Gonçalves fez com Amália Hoje, estrela nestas cinzas: recusar, não o poema de Cecília Meireles, mas recusar dizer adeus a esta a terra, terra morrendo de fome, pedras secas, folhas bravas, antes que o sol se vá com um gesto de agonia, cairá dos olhos nossos, e nem depois não virá Deus, só soledad. Não. Podemos aprender com Nuno Gonçalves que se calhar até desconhecemos o mais que conhecido, chama-se a isso humildade, e agarrá-lo, a esse desconhecido, como a um amante, até o sabermos de cor, dar-lhe uma outra vida que possa juntar-se à que já tem, também é isso o amor.
FALAVA EM LÍNGUAS COMO OS ANJOS Lugares terríveis são as florestas quando a noite se fecha no escuro e o canto se cala na voz dos ramos e o vento sobra em redor das sombras Foi do sol que se fizeram as trevas Foi da lua que se fez o sangue - oh meu Deus - Debaixo das folhas mortas pude adormecer no casuloso frio houve a vontade cristalina e negra caída das redondas copas em farpas tão agudas agulhas geladas de pinheiro no coração primeiro
Ao longe ouvia ainda falava em línguas como os anjos a lírica viva e de fogo líquida: O amor levanta as árvores pela raiz para enterrar lanternas que nasçam frutos amanhecidos
A literatura não pode ser ensinada. Ensinar seja o que for é apresentar um instrumental adequado e explicar a maneira de uma pessoa tirar proveito dele. Daí resulta que se ensina a escrever estudos sobre literatura, e estudos sobre os estudos de literatura, indefinidamente; ou ainda se ensina a ensinar literatura.
Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ - COM AS RIMAS DO COSTUME: BEBÉS - VI MUNDO AO CONTRÁRIO - i O JORNALISTA É NOTÍCIA E O POLÍCIA É LADRÃO O jornalista quer ser notícia nem seja a remar a canoa do morto Flutuam bem os cadáveres quanto maiores melhores: cabem muitos escrevinhadores a gritar a sua história pessoal onde ao de leve evocam o morto afinal é preciso algum cenário ensina a escola de comunicação social: é Gonzo é Thompson e tal. E a cultura o trabalho a loucura o amor o talento? Ao que chegámos: rabiscadores de eventos de colunas de casamento a fazer a história diária do pensamento a eterna literatura do momento E por isso acreditam que são escritores. São actores. Jornalismo o palco do narcisismo.
Talvez porque não gostasse de pérolas, a minha avó deu-mas. Uma a uma. Às vezes esqueço-me delas. Mas dão um jeito do caneco: fica-se sempre composto e nunca saem de moda, é só actualizar o modo de as usar. Pérola:
Nunca por nunca julgue um homem por si, mulher. São uma raça à parte. Isto para dizer o quê? As mulheres têm fama de românticas na escolha do seu amor. Os homens têm fama de fugir da escolha. Tudo mentira e falsidade. Eles são românticos, nós também, mas com muito pragmatismo. Problema? Nenhum. O problema é depois. Com o fim. Com o The End. E é nosso. Não deles.
O homem termina uma relação como quem marca o agora renovado ponto: às tantas horas do dia tal, exit. O romantismo passa-lhe como lhe passou a varicela. E não pensa mais no assunto haja ou não a senhora que se segue. Ponto. O tal ponto. Final. Missão cumprida, missão esquecida.
A mulher termina uma relação todavia não há exit porque não há ponto, há prazo. De validade. E como a das latas de conserva. Quero dizer, se a tampa não empolar, de que interessa a data marcada? Sabemos muito bem não só o que está lá dentro como se está próprio para consumo. Consequências do cabrão do pragmatismo condutor da boa escolha e do indeterminismo romântico que lhe plasmamos: quando, ó quando, é que a puta da tampa empola e a coisa rança, pergunta a minha amiga?! Quanto melhor foi a escolha feita, maior será a demora. Quem a mandou escolher tão bem? Fosse uma doidivanas... Ora, isto é gerador de grandes desigualdades sentimentais atrapalhadoras de um dia-a-dia feliz e com expectativas adequadas. Fazer o quê? Copiar. Copie tudinho por ele. Pelo bandido enlatado. Faça o que ele faz. Ou não sabe que o ser humano é mimético? É assim que aprendemos. Fixe isto, é fundamental para a sua sobrevivência. Amorosa.
E já que estamos nisto, para facilitar o diálogo inter-espécies, se um homem lhe marcar o ponto, fuja. Não! Não é atrás dele. É na direcção oposta. Fuja dele. Garanto-lhe: ele quer fugir de si. Não há nada mais clássico do que a tia Jane Austen. Vem a tia agora a propósito do quê? De Emma. Ai não lembra? Let his behaviour be the guide of your sensations. Traduzido: recicle, já sabe, não sabe? As latas vão por junto com o plástico.
Foi com muito gosto que aceitei o convite de Leonor Roquette para fazer parte deste livro, Singularidades, com um poema. Junte-se a nós: os corações batem melhor em uníssono.