17 de novembro de 2013

Quem te amará, meu amor?

Não sei muito. Mas isto sei: o mundo já não é o que nos ensinaram, sequer o era então quando no-lo ensinaram. Não é o que planeámos. Nem é o que imaginas tu. Ou eu. Há mil correntes subterrâneas e outras tantas à flor da pele para as quais nem nome temos.
A modelar oração fúnebre de Péricles ao fim do primeiro ano da Guerra do Peloponeso que Tucídides levou para o Livro Segundo, não é sobre a nossa Cidade, ainda que estejamos a enterrar a democracia, um modo de vida, os nossos mortos. Porém, não os homenageamos, nem à sua descendência, nem à sua ascendência: há muito que a boa sorte, obter o que é mais nobre, os deixou a todos, nos deixou a nós.
A tristeza não é pelo bom tido e perdido, é pelo bem sonhado e desistido - o bom perdido é de tão poucos. Nem filhos há para arriscar as decisões de futuro, porque nem podem, de tão pobres, os filhos nascer, ou os nascidos e crescidos ficar: podem os avós envelhecer com vagar, irão morrer sós, ou na companhia dos seus pares se não foram roubados dos lares, netos não há, e os filhos estão no trabalho.
Ninguém levanta os olhos para esta Cidade nem ela é sol de alguém. Esta Cidade é a sua própria Sombra. Quem a amará?
Quando a glória e a grandeza só merecem esquecimento, e aos homens de coragem se arrumam na margem dos loucos onde falem sem se ouvir, quando a honra se negoceia, à pátria não é o valor próprio que se dá, é valor que dela se tira com louvor de outros ladrões iguais e celebração nas páginas dos jornais.
A terra inteira continua assim o túmulo de homens valorosos. Mas não há em quem quer que seja, deles, uma reminiscência não escrita, um pensamento gravado: ninguém lembra o que disseram, não tinham voz que se ouvisse, parentela ou clientela que abrisse a porta fechada, a porta pesada do silêncio. Como então fazer deles o exemplo?
Se felicidade ainda é liberdade e liberdade ainda é coragem, ser livre é estar da margem a falar sem ninguém ouvir. Nada tendo a ganhar, nada mais tendo a perder, podemos tudo sem temor, até morrer por amor.
Quando chegou a hora do combate, os grandes guerreiros cederam e salvaram-se a si mesmos, e os pobres, coitados, venderam-se-lhes por escravos, e às suas mulheres e ao futuro dos seus filhos, e na desonra encontraram a honra.
E é por isto, em suma, que digo: no que sobrou desta Cidade, a sua escura Sombra, cada homem, cada mulher, pode fazer-se senhor de si mesmo e dono dos seus actos no que decidir ser. Há mil correntes subterrâneas. E outras tantas à flor da pele.


Aqui, na História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, no Livro Segundo, páginas 108-114, encontrará a Glória de Atenas na oração pronunciada por Péricles.

16 de novembro de 2013

Só sabe amar e mais nada

A OCULTA SEMENTE
A tua língua deixou cair a semente das tuas palavras no meu coração.
Onde estavas que não ouviste os provérbios pela boca iluminada de Salomão? 
É tão fértil o músculo que ama. Só sabe amar e mais nada. Compassadamente,
uma e outra vez, repetindo muscular o Verbo, ininterruptamente a empurrar 
a circulação da semente, uma e outra vez, sanguínea, o sopro inteiro sempre na duração
das estações. Assim cresce no tempo a árvore. Se descobre a flor. Rebenta o fruto. 
A ele mordeste, comeste com gosto e à oculta a semente. E depois, beijaste-me tanto. 
Disse o rei: 
a vida e a morte estão no poder da língua, 
quem amar a palavra comerá do seu fruto.

15 de novembro de 2013

ii - Homens dum raio! Meninas, não digam que não avisei...


Talvez porque não gostasse de pérolas, a minha avó deu-mas. Uma a uma. Às vezes esqueço-me delas. Mas dão um jeito do caneco: fica-se sempre composto e nunca saem de moda, é só actualizar o modo de as usar. Pérola:
Nunca por nunca julgue um homem por si, mulher. São uma raça à parte. Isto para dizer o quê? Nós douramos a pílula, usamos palavras como anéis e conseguimos, pelos deuses, basta que pense em coisas básicas, fazer uma refeição completa para quatro a partir de meia dúzia de desconxavos que encontramos no frigorífico. Ou seja: circulamos. É uma actualização das nossas mais atávicas competências de sobrevivência. Mas eles, os diabos, inventaram a puta da linha recta. Fixe isso, é fundamental para a sua sobrevivência. Amorosa.
Para os homens o amor é uma conjunção. A conjunção, claro, copulativa e. Exemplo: Eu e tu. Não usam outra. São homens. Fazem o que funciona. Caçam só o que querem comer e conseguem caçar.  Os homens vão atrás da Vénus que querem. Fazem de um tudo, mesmo tudo, não se poupam a nada quando têm Vénus na mira - até travestir-se de caçadora Diana. Linha recta, lembra-se?
Para as mulheres o amor também é uma conjunção. Todavia uma adversativa mas. Exemplo: ele ama-me, mas foi comprar cigarros há vinte anos, e se nunca voltou é porque foi abduzido por extra-terrestres. Enquanto a minha querida está a folhear revistas de ovnis a ver se avista o seu querido, a vida está passar à janela, e ele está a passear com ela.
E já que estamos nisto, para facilitar o diálogo inter-espécies, se um homem não está, não liga, não aparece, não escreve, não a ama. Ou se precisa de tempo, ou de espaço, não é porque vá aprender relojoaria ou porque seja astronauta. Não a ama. Se está em conflito, dividido ou confundido entre si e não sei mais quantas, não é porque pense que as meninas são gomos de laranja, não a ama. Os homens são territoriais: se amam, estão presentes. Se estão ausentes, a minha querida é uma Pombinha da Catrina para quem a apanhar, e ele está-se bem lixando para isso. E juro que onde quer que esteja o malvado que não a ama e foi comprar cigarros, se fumar e ela não, fuma na varanda - é o que eles fazem quando amam.

12 de novembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- ATÉ COM RIMAS BEBÉS -
v
PARA SER FELIZ
Os intelectuais não gostam de felicidade,
de gente feliz, tal substantivo não querem,
eles, tão adverbialmente contra o adjectivo,
à substantiva vida, dizem-lhe não. Porquê?
Porque engoliram o dicionário de sinónimos,
subiu-lhes o palavreado à cabeça e regurgitam
litterasputas: lá, felicidade é ventura, sorte, êxito
e êxtase.
Ora, não se pode ser um intelectual de êxito
montado na ventura -
na desventura ainda se vai ao êxtase.
Apesar de ventura ser um tudo nada passé,
proibido francesismo, galo do cismo do caraças,
não há abat-jours com  neurónio, só quebra luzes,
mas se for a filha do Ventura
pós-modernamente montada, logo, coisa de nada, marcha.
Sendo feliz, estou, portanto, lixada,
da selecção gramatical à semântica contextual
hão-de faltar-me, pelo menos, a sombria consciência
social, o bom gosto e o café relacional: queres onde,
na tua revista ou no meu jornal?
Felicidade é coisa de bicho. Tem prazer. Sofre a dor.
Arrumam-se livros de tédio nas horas sem remédio.
Ri-se, chora-se. Cala-se tanto.
Come-se muito silêncio à frente da solidão para ser feliz:
felicidade é texto imprevisto, frase perfeita. Vida. Cliché de
meu amor, diz, minha querida.

Divina Providência

Uma amiga pouco amiga de arte urbana perguntou-me porque dediquei um capítulo do livro Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea a Alexandre Farto, aka Vhils. Disse-lhe a verdade, toda a verdade e não mais do que a verdade: sem cultura não há erotismo, sem erotismo não há bom sexo. Alexandre Farto é a Paula Rego da rua. Todo o acto cultural é um acto amoroso cheio de significado, a afirmação da existência, da vida, enquanto a morte, as mortes, rondam. A invisibilidade. Amar é fazer visível, é dizer: existes. Ora confirme.

10 de novembro de 2013

Sou tua

TERRA DE NINGUÉM EU TE PERTENÇO
Moisés logo à nascença estava condenado
estamos todos: quem és quem serás
porque és judeu ou nasceste na avenida de roma
ou nas colmeias de odivelas ou numa catacumba
qualquer do lado errado ou certo do rio
e morrerás se não for hoje amanhã será
Moisés logo à nascença foi salvo
fomos todos: devolvidos por milagre
à esperança das nossas mães
E como Moisés levamos quarenta anos a crescer
degrau a degrau estranhos numa terra estranha
no palácio do poder até que o instinto nos levanta
a mão e para não morrer o nosso sangue matamos
e assim mesmo a nossa própria carne nos nega
Não se pode viver e ser inocente descobrimos
isso e o nome da solidão em quarenta anos de deserto
A toda a nossa descendência filhos e obra insistimos em chamá-los
Gershom: estranho numa terra estranha
promessa de canaã cidadania de leite e mel
Ou só a repetição do verdadeiro nome do pai

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:/ eu te pertenço, de Jorge de Sena in A Portugal

5 de novembro de 2013

A Fada Malvada no Reino da Estupidez

A lite­ra­tura não pode ser ensi­nada. Ensi­nar seja o que for é apre­sen­tar um ins­tru­men­tal ade­quado e expli­car a maneira de uma pes­soa tirar pro­veito dele. Daí resulta que se ensina a escre­ver estu­dos sobre lite­ra­tura, e estu­dos sobre os estu­dos de lite­ra­tura, inde­fi­ni­da­mente; ou ainda se ensina a ensi­nar literatura.
 Jorge de Sena in O REINO DA ESTUPIDEZ
O REINO DA ESTUPIDEZ
- DESTA VEZ SEM RIMAS BEBÉS NEM i, ii e iii -
iv
BEIJA O AR E MAIS NADA
auto-retrato

A arte é filha da consciência da beleza
e da certeza da morte
É inútil como eu:
a poesia não serve para nada
nem a literatura nem o funcional ensaio -
espelho apenas do mundo útil
Mesmo o amor fonte de tudo
não serve para nada senão para amar
e fazer poesia literatura ensaio
é o círculo fechado da inutilidade de sentido
em movimento perpétuo: beija o ar e mais nada
Tenho um infinito depósito de prendas inúteis
dons de nascença
reforçados por uma auto-didáctica pré-pós moderna
inútil
Amo sou bela inútil vejo a lindeza tamanha e sei que morro:
farei uma inevitável obra-prima

Beija o ar e mais nada, de José Régio, que beija o ar, e mais nada, e lindeza tamanha in Fado Português

3 de novembro de 2013

Se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter de levar pancadinhas de amor...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - vi
AMO VOCÊS, MEU POVO
Liliane Marise é mais do que um fenómeno. Liliane Marise é também um facto. Um facto sustentado em Jeff Koons. Em Jeff Koons e no das caveiras, do bling e do formol, em Damien Hirst. Mesmo em Joana Vasconcelos. Liliane Marise é um facto fenomenal que nos sentimos autorizados a aplaudir por causa deles – para vaiar pedimos autorização a outros, ou pensa que caiu de uma nuvem, etéreo e sem passado? O problema é que só podemos aplaudir em bloco, assim como a esquerda a despeito das facadas, perdão, das diferenças internas: não se pode louvar um sem, quer se queira ou não queira, de alguma forma, louvar o outro. Ou vaiar. Contra mim falo que tenho uma implicância do piorio com senhor formol, acho uma piada maluca à Joana Vasconcelos, e entendo muito bem o Jeff Koons. Isto vem a propósito de quê? Olhe, da falta que me faz uma mala. Chique.

Não é apenas Liliane Marise quem quer uma mala chique como viu lá na boutique. Nem é só ela nem são só as meninas de bem que andam na Feira de Carcavelos - o próprio Marc Jacobs considerou a loucura das imitações, no caso com a Louis Vuitton que havia revolucionado, uma homenagem, afinal criara objectos de desejo e amplificara o desejo. E a marca. Quem quer a mala chique somos nós. Todos. Mesmo os que dizemos, mala, não, filha, que não vai de viagem, que maçada, o que quer é uma carteira.
O objecto de desejo não varia assim tanto. Porque aspiramos todos, mais coisa menos coisa, ao mesmo, queremos todos, mais coisa menos coisa, o mesmo. E queremos o quê? O que nos dá poder para ser e ter. Não interessa se é um cargo público, uma empresa ou uma biblioteca, ou um guru. Quer um bom exemplo?
A coluna de Henrique Raposo, ontem, no Expresso. Sócrates quis uma mala chique. Fez mal? Não, fez bem. Uma carteira em condições, uma vuittonzinha, mesmo pequenina, a papillonzinha, passa de mãe para filha em perfeito estado de conservação ainda que tenha muito uso. Porquê? São boas. Boa pele. Trabalho bem feito, artesanal. E a estética ainda que vá de modas é suficientemente inteligente para ancorar o futuro numa base conservadora, logo, vai de modas mas não passa de moda, inventa moda. Sócrates queria uma mala chique. As tias de Cascais tinham a mala e não lha queriam dar. Ele gritou-lhes, não há melhor a quem fique! Contudo, há que compreender as tias: quem é que no seu juízo perfeito dá o que quer para si? Então que fez Sócrates? Foi à feira com a Liliane Marise. E quem nunca foi que jogue a primeira mala. Vá, carteira.
Queremos todos o melhor, todavia, criar, fazer, construir valor, exige trabalho e desenvolvimento moral. Quando chega a altura da verdade, tenha ou não tenha alça como nem parece que é falsa, lá vamos à Feira de Carcavelos: dar emprego a um estranho competente? Qualquer estranho é preterido por qualquer conhecido que pertença à mesma paisagem social, desconhecido que pertença, ou, em último caso, promova essa paisagem.
Este não é um mal português por muito que em Portugal e em Itália assuma as proporções que o índice de corrupção ilustra. Este é um mal visível nas grandes empresas europeias que se portam como as casas reais europeias - e como a máfia. O modelo é familiar e de alianças familiares. Mesmo no norte europeu, limpo e luterano, de igrejas minimalistas das paredes à prática económico-religiosa, é familiar. Só não é corrupta. Dir-me-á que não, as casas reais aprenderam o negócio com o Mónaco e viraram-se para a plebe que as salvará da guilhotina e que, como o movimento é reproduzido de cima para baixo tal como da loja para a feira, estamos salvos. Não estamos.
Basta uma gota de tinta na água: o que se passa na política, acontece nas empresas, dá-se da cultura aos media, e na vida social. Não estamos a gostar dos resultados, pois não? Azarucho, se te portas mal, vai haver terror, se te portas mal, tu vais sentir dor, vou ter de te dar e vais ter levar pancadinhas de amor. 

Ai...

1 de novembro de 2013

Rolando Teixo, de Pedro Bidarra

As desvantagens de não se pertencer a qualquer capela literária e afins são amplamente conhecidas. As vantagens menos. Pessoalmente gosto delas. A liberdade tem preço. E eu pago. Isto para dizer que não há qualquer conflito de interesses, ainda que escreva para a Guerra e Paz e escreva também com os meus Manuel Fonseca e Pedro Bidarra no blog Escrever é Triste.
Por muito que, como diz Pedro Bidarra, as pessoas venham sempre de algum lado, a verdade é que não interessa a Rolando Teixo que o seu autor venha da BBDO e seja o mais conhecido e premiado dos nossos criativos – acho que é assim que se diz em politicamente correcto de um profissional da publicidade. Ou melhor, interessa, mas tanto quanto o facto de ter jogado à carica ou pegado um touro. Jogou? Pegou? Não sei.
Rolando Teixo pertence à colecção Poucas Palavras, Grande Ficção, da editora Guerra & Paz.
Que poucas palavras são estas e que tamanho tem a ficção prometida? Estas poucas palavras, poucas se medidas em tempo de leitura, são um conto. E são ficção e literatura. Porque podemos ter literatura sem ficção, ficção sem literatura. E grande literatura e grande ficção.
Sim, já ouvi dizer que Rolando Teixo é um romance. Não é. É um conto. E essa é uma das suas maiores virtudes, entre outras razões porque é o primeiro trabalho literário de Pedro Bidarra. Para além da criação há a técnica. O conto serve para fazer a mão para ambas. E em Rolando Teixo isto acontece de forma limpa: o verbo e o substantivo dominam o adjectivo, tal como o avanço para o desfecho se sobrepõe a todas as vontades narrativas, mesmo às que lhe servem se suporte. E são duas.
Uma serve de pano de fundo social e é mantida com a notícia do rapto do banqueiro que se desenvolve em paralelo com o processo de vegetalização de Rolando e o enquadra profissionalmente.
A outra dá-lhe o tecido afectivo através do casamento, uma empresa familiar tão falida quanto a vida profissional e social de Rolando, e sustentadas ambas pela rotina e rituais já esvaziados de tudo, até de sentido, e bem representadas na casa da família, em Monsanto, lugar de expectativas incumpridas, construções desconseguidas e só presentes na memória do sonho tido como à janela com vista para o verde inútil.
Estes dois mundos tangentes, o profissional desfeito numa sociedade em crise e o de uma conjugalidade em crise, não são, no entanto, o cerne de Rolando Teixo, são o pretexto – não resisti à fonética. O cerne é o indivíduo. A negação de si mesmo. Ou se preferir em linguagem de fazer bonito, do self. A negação desse eu que não soube, não pôde, não conseguiu integrar naquilo que era esperado de si, que é esperado de todos nós, o que é no seu eu mais nuclear, íntimo, a sua própria razão de ser. A negação cresce no escuro. Toma conta de Rolando. Devora-o. Toda a negação nos devora. Ele resiste. Penosamente. Ao espelho. Em ferida. Enquanto pode. A questão em Rolando Teixo é: quem podemos ser? Que custos tem? Portanto, a velha e sempre necessária questão da liberdade. Reflectida, aqui, no equilíbrio entre a responsabilidade, a vocação, o dever, o coração. Quem podemos ser.
Tudo isto é tratado por Pedro Bidarra com virtudes e algum vício em cinco capítulos, ou melhor, em cinco dias definidores.
A arquitectura do conto é leve e funciona: os diálogos são tocados de ouvidos, são a música do dia-a-dia, são credíveis, somos nós. Nas descrições do quotidiano que só em si mesmo se justifica, também somos nós: sobreviver faz parte de viver, e por vezes, algumas vezes, por tantas circunstâncias, há um tempo em que viver é só isso: sobreviver. As frases são curtas e efectivas, dominadas pela acção. Mantêm o texto de trela curta e o leitor também. Ninguém se dispersa: nem o autor, nem o texto, nem o leitor. Atenção. Foco. Bom, não é? Como o elemento anómalo foi introduzido sem negociação logo ao início e cresce com o texto, é um dado adquirido e aceite, cedo deixa de ser uma anomalia para ser uma condição.
Os vícios são pequeninos. Um: a visibilidade desta arquitectura como a da sua congénere do ferro: está ao honesto serviço da função. Que mal tem? Nenhum. O elevador de Santa Justa é assim. Outro: excesso de controlo: os pontos estão marcados e ligados entre si no texto. Ligá-los é, deve ser, trabalho do leitor. Só assim se é colhido ou pelo imprevisto ou pelo inevitável - não somos. Que mal tem? Nenhum.
O conto, este género tão desprezado entre nós e tão bem querido nos países anglo-saxónicos em particular, exige o equilíbrio entre a criatividade e a economia. Ora, isto de economia numa terra onde se escreve para o efeito, para impressionar, quando não se escreve balofo e oco, não pode ser uma categoria amável. Eu amo-a, no entanto. Amo os contos de Borges e os contos de Eça e os de Herberto Helder. São mais curtos, são, mas Tabucchi, se não estou em erro, escreveu um maior do que este de Pedro Bidarra. Não vamos contar caracteres por causa disto, pois não?
Rolando Teixo, o primeiro livro de Pedro Bidarra é o belo antipasto italiano. Não, não é o nosso singelo e tão bom pãozinho com azeitonas, nem são hors d'oeuvre debicados aqui e ali. Sentamo-nos à mesa e começamos a refeição. Gostei muito. Sente-se ao meu lado para esperar por mais.

29 de outubro de 2013

Não faz meu coração fronteira com o teu?

NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
O meu amor veio ter comigo num sonho.
É daí que o conheço. Não faz mal.
Também profetas, poetas,
filósofos, e até mesmo Deus que fala
pela voz das ervas e as arde são verbo de sonhos
e cria-se o mundo. A lâmpada de Edison
o que é se não for um sonho?
O meu amor só vem ter comigo enquanto sonho.
Não faz mal. Nunca me disse uma palavra,
mas dá-me a mão.
Ele que durante o dia fecha os olhos para não me ver
esta noite beijou-me  a boca três vezes -
o teu sangue não pára de dar cor às minha faces.
O meu amor vem ter comigo no meu sono:
quando adormece, volta para casa.
Não faz meu coração fronteira com o teu e O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces, são versos do poema Reconciliação, das Baladas Hebraicas, de Else Lasker-Schüler, traduzidas para o português por João Barrento e publicadas pela A&A.

26 de outubro de 2013

Somos, não somos?

Thich Quang Duc por Mal­colm Browne

No outro dia, no Jornal de Negócios vinha uma entrevista ao nosso Bidarra e uma recensão ao seu livro Rolando Teixo. Mais coisa menos coisa. Cliquei para ler e zás, sai-me uma moralidade de bolinho da sorte, porém azarucho, algo do género: o jornalismo de qualidade paga-se lailailailai, portanto, se quiser ler... tudo em termos polidos, mas estava lá o dedinho indicador espetado.
É verdade. O bom jornalismo paga-se. E o mau jornalismo também. E o assim-assim. Acho bem, todos têm despesas. Pagar é o verbo. De igual forma, encontram-se textos muito bons, razoáveis e abaixo dos mínimos gratuitamente e mesmo na fila do desemprego e com as mesmas despesas.
É dos bons e escreve de graça? É fiel e o seu marido põe-lhe os cornos? É jovem, tem tudo para fazer e vontade e está preparado e ficou irremediavelmente doente? Isto para dizer o quê?
A despeito da ordem, há o caos. E é preciso aceitar ambos para não nos passarmos dos carretos. A questão não é de merecimento, de justiça - também Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela. O mundo não é a preto ou branco. Nem nós. Somos a mão esquerda e a mão direita. A alegria e a tristeza. Somos o bem e o mal. Para sermos, somos ambos, sempre. Por isso, a questão é: diante do caos, favorecer a ordem. Fazer civilização. E o resto, o que nos cabe, olhe, é o imponderável. Quer ver?
Quando durante a guerra do Vietname tranquilos monges budistas se imolavam pelo fogo, a ocidente tal era tido por um acto de desespero, fanatismo. No mesmo ocidente que há quase dois mil anos ajoelhava diante da cruz onde Cristo se deixou sacrificar ignorava-se o elemento comum e super-evidente entre o acto desses monges e o de Cristo: ninguém se estava a suicidar apesar da percepção do suicídio. Oferecer a vida é uma expressão extremada de um imenso amor para configurar uma língua para todas as línguas numa Babel. Uma língua inequívoca e usando o mais sagrado dos valores como alfabeto. A perplexidade, ficarmos pasmados, interrompe-nos o pensamento, pára-nos a acção, permite que nos interroguemos depois. E não podemos dessensibilizarmo-nos ou tornamo-nos predadores dos filhos dos outros.
Há na imolação pelo fogo, na cruz lenta e cheia de violências a encarnação de um sofrimento intolerável. Aceitá-lo voluntariamente é dizer muito alto, tão alto que se faz uma religião, tão alto que as fotografias dos monges correram o mundo: estamos a sofrer pelo sofrimento dos que sofrem e este é o meu amor para estancar essa dor, para que a reconciliação se faça; sou impotente, dou a minha vida, quem tem o poder, faça a reconciliação. Cristo fez o mesmo. Entregou-nos o seu corpo que ainda tomamos, carne e sangue no memorial eucarístico para revogar a velha lei, para proclamar: amai-vos como eu vos amo. É amor à dimensão da cruz, sacrificial. Este eu morro para que tu vivas, para que te reconheçam a existência e o sofrimento nesta hora do indivíduo parece-nos uma aberração. Sabemos que não é. Os pais dariam se pudessem a vida pelos filhos que a necessitam.
Voltemos à imprensa. Na Visão desta semana há bons e maus textos – aliás, a Visão está organizada como o cosmos: caos e ordem. Escreve-se rotativamente, ana-ni-ana-não ficas tu e eu não, então há sempre gente que escreve bem ao lado de gente que escreve francamente mal. Poderia ser a melhor revista de língua portuguesa com pouco esforço, juntando muitos bons todas as semanas e o mais que lhe falta – mas para quê excelências? Enfim, há bons e maus textos, o que não há são textos grátis. Comprei-a, portanto. Porquê?
Porque José Gil escreveu Patologia de um País. E é um belo texto para o retrato justo de um país construído a partir do OE para 2014. Merece ser pago. O problema é que também merece ser lido por quem não o pode pagar. E a questão nele levantada, usando todavia um nível de discurso dinâmico, é simples, é nem mais nem menos do que a questão do sofrimento de um país devastado, não pela guerra, todavia ameaçado pela miséria e pela atomização, e pela falta de capacidade para lhes responder com lucidez, competência, ou pelo menos esperança.
Portugal sofre.
Não diga que o sofrimento é dos trinta e dois mil homens e mulheres que este ano tentaram entrar na Europa vindos do Norte de África, da Síria e perto ou longe, correndo risco de vida no Mediterrâneo onde agora os olhos estão postos. Nem que sofrimento é nos países emergentes onde as contradições espelham a natureza bestial de que também somos feitos.
Não é a essa besta que também somos que precisamos de dar voz. E como bem nota José Gil, ela, agora, debaixo destas condições que dia a dia se agudizam está de braço dado connosco: muitas pessoas lutam para se conservar, para não endoidecer ou desatar aos tiros sobre a multidão (…) A passagem ao acto deve circular fantasmaticamente em inúmeras cabeças, com o self meio esburacado e estilhaçado.
A realidade está a ser substituída pelo absurdo. O caos ganha terreno.
É à compaixão, ou se preferir porque nos é mais fácil, ao amor que precisamos de dar voz. Sem fogo. Sem cruz.
Quando um amor nos magoa, porque se ama mais a si mesmo, porque tem medo de não ser amado na sua fraqueza ou porque não tem meios para nos amar melhor, faz-nos sofrer. E sofre também. Apetece tratá-lo de igual modo para que entenda na carne onde nenhuma explicação é precisa. Ou pelo menos castigá-lo, expulsá-lo do quarto. Ou fecharmo-nos no quarto para sofrermos sozinhos. Contudo a separação nada repara. E o silêncio, patogénico ou não, não aproxima dois amantes.
A responsabilidade, sim. Responsabilidade não é o peso da culpa. É o passo adiante que que diz estou aqui para nós.
Este foi o governo que escolhemos para nos representar, por actos ou por omissões.
E ainda que a realidade esteja a ser substituída pelo absurdo, não estamos sós. Tu tens-me a mim. E eu a ti. Temos de nos fazer presentes um no outro, uns nos outros onde somos competentes. É o amor que nos salva do sofrimento e nos devolve à alegria, e é o amor que constrói uma comunidade. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, não é apenas uma oração. É um modo de vida: fazer hoje. Se fizermos hoje, amanhã não nos faltará.
O governo, a economia, ou a imprensa, a arquitectura, o diabo a quatro, a forma como amamos, as artes, são valores de bandeira, quero dizer, são os símbolos da comunidade que construímos, das relações que estabelecemos. De quem somos. Não me digam que não somos mais do que isto.

Bonjour Mundo!

lailailai
this is what we do everyday lailailai
this section is just about warming up lailai
the more often you practice this exercises the easier lailailai
ready
start by breathing

17 de outubro de 2013

Shhh... é segredo!

Vá a correr à livraria! Ou não sabe que os segredos são como as cerejas?...

14 de outubro de 2013

Fanny e Francisco: a calamidade moderna


CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iv
O TRIUNFO DO SUINICULTOR
Quem diz que não há alta cultura e baixa cultura, mente. Tanto quanto mente quem diz que não há uma sociedade de classes, hierarquizada, a despeito da maior ou menor mobilidade social. Sim, há uma classe alta e há uma classe baixa. Entre umas e outras há, ou melhor, na gradação de umas a outras passamos pela cultura popular e pelas diferentes paisagens da classe média. Ora, interessante é verificar como a cultura serve às classes não apenas através da sua produção e dos seus símbolos mas, e essencialmente, para o entendimento de quem somos, do mundo que estamos a criar. Antes, porém, impõe-se uma perguntazinha de nada: afinal, o que raio é a cultura?
O cânone oferece-nos muitas e sofisticadas definições adequadas à área de estudo a que pertencem e bastante sujeitas ao ar do tempo, ao clima político. Vamos simplificar. Boa?
E se usarmos um conceito mais atemporal e económico que nos sirva para falar de há montes de anos atrás e do tempo dos nossos bisavós e de hoje? Parece-lhe bem? A mim também.
A cultura é a expressão da arte. Nenhum santo caiu do altar, pois não? E assim podemos ter cultura literária, musical, plástica… assim podemos entrar pela porta do ballet clássico e ao sair do teatro dar de caras com a mais elevada arte urbana grafitada ou dançada em plena rua, sustentada apenas nos suportes estéticos e técnicos que nos reflectem no que manifestamos e aspiramos a manifestar. São critérios tão válidos quanto quaisquer outros, ou não?
Claro, há aquela questão… nos dias críticos que correm vale a pena perder cinco minutos com isto? Sim, vale. É com isto que se fazem dias menos entroikados. É aqui que enriquecemos porque aprendemos juntos quem somos, quem queremos ser a despeito do que nos dizem que queremos ser. E quem podemos ser. Se acreditou naquela mentira que lhe contaram: uma só pessoa não consegue fazer a diferença, desacredite. Basta uma pessoa para fazer a diferença.
Isto para chegar onde? Olhe, ao ecrã. De televisão. Ou melhor à reality tv. Ao reality show. Porquê? Porque é considerado cultura de massas, ração para porcos, sendo que os porcos são o público e quem engorda é o suinicultor.  E se de facto é assim, como, porquê?
A verdade é que, quase sempre, o suinicultor, aquele que cria/cultiva porcos, no caso, aquele que faz cultura para porcos, teve não só acesso à educação como, e através dela, ao gosto. Sim, não podemos fingir que gostos não se discutem. E o interesse do suinicultor, não é o porco. Nem o entretenimento do porco. É quanto rende um porco. Repare, acesso à educação e ao gosto não é um livre passe para o acesso à moral. A moral funciona restritamente: primeiro a nossa família. Depois as famílias como a nossa, depois as outras e ao fundo do fim arrumam-se os mais diferentes de todos os nossos valores. Aquilo das minorias e tal. Não tenha ilusões por muito que conheça felizes excepções. Este é o nosso modo de funcionamento. Animal. Por isso a civilização é o fundamento da moral, e nada, nunca, será tanto do nosso interesse como o desenvolvimento moral, logo, da civilização. Mas para isso, meus ricos filhos, temos de olhar e ver. Mesmo a reality tv.
Quando a televisão nos apresenta um reality show está a seduzir o voyeur em nós. E este voyeur sempre existiu. Sempre existirá. Espreitamos. Nas páginas dos jornais do tempos dos nossos avós havia a coluna social que era religiosamente seguida, quem casou, onde, com quem, as fotografias que faziam moda, quem morreu e onde foi a enterrar. Agora as revistas ditas cor-de-rosa, com mais latitude, isto é, da riqueza mais pequena ou miséria dourada ao puro miserabilismo, conforme o público a que se destinam, ocuparam e expandiram essa página. Na literatura sempre se publicou correspondência íntima – e até correspondência para ser publicada. Há um subgénero que lhe é dedicado. Na pintura sempre se fizeram retratos até que se chegou ao retrato de rua em meia hora: escondemo-nos e mostramo-nos. Espreitamos. Somos espreitados.
Voltemos ao reality show que é a coluna social em três dimensões mais a intimidade de dois impressa em pixels. Qual é a grande diferença entre a publicação da Historia Calamitatum, o texto confessional do século xii onde Abelardo conta as suas desventuras mais as cartas de Heloísa, texto que se lê avidamente, e o não-romance entre a Fanny do último Big Brother Vip com o musculado Francisco? Há em ambos paixão, escândalo social, intriga. A diferença é qualitativa. Só qualitativa. E isso é tudo. Se desnatar, portanto, se retirar toda a riqueza à Historia Calamitatum, e se olhar para as semelhanças que tem com a relação entre Fanny e Francisco, o que lhe sobra é um amor que após uma série de peripécias deixou de ser correspondido. Porém, ler um, não é o mesmo que assistir a outro. Mas quem leu um, sabe conceber as circunstâncias onde se dê outro. Porquê?
Quem cria porcos sabe construir chiqueiros.

Bonjour Mundo!

adijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tu
lailailai
tu madre kuando te pario y te kito al mundokorason eja no te dio para amar segundokorason eja no te dio para amar segundoadijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tulailailaiva bushka te otra amoraharva otras puertasaspera otra ardor ke para mi sos muerta
lailailai
adijo adijo kerida lailailai


12 de outubro de 2013

04. POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...

POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...
REDONDO FOCINHO
i
CÃO FLOR
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
Toda a flor tem ao centro um redondo focinho
e em volta pétalas de pêlo branquinho
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
ii
UNIVERSO CÃO
Tu és o Cão
Tu és o mar
Tu és o céu
Que me leva a passear
O mar é meu
É meu o céu
De trela mas é meu
O universo inteirinho
Redondo no teu focinho

Bonjour Mundo!

this bridge lailailai
if you just cross 
you can´t get lost
and this bridge
lailailai


11 de outubro de 2013

Faz miau ou levas tau-tau...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iii
MILEY, MIAU E BABY PORNO
A diferença entre arte e pornografia é a que vai de O Amante de Lady Chatterley a Garganta Funda. Simplifiquemos: a diferença entre saborear um belo vinho tinto ou beber três shots de um líquido fluorescente para ficar marado.
Pensemos numa personagem. Em Breakfast at Tiffany´s, a linda Holly Golightly vivia, de facto, com leveza ou era prostituta? Holly é ambígua. É uma boa menina que dorme com quem quer, quando quer. E no entanto é uma acompanhante que é preciso presentear. Espere lá, presentear daquela forma é ou não é pagamento? Bem, depende: se ela for a sua própria carreira é investimento no serviço pretendido e a necessária retribuição pelo mesmo. Enfim, o que gostava de reforçar é a ambiguidade de Holly que Capote concebeu irrepreensivelmente: não está no centro nem na margem. Está no lugar que fica entre uma coisa e outra, no lugar onde num mundo mais estratificado a oriente e ocidente se arrumariam gueixas e cortesãs. Mas esse mundo já não existia então. E no mundo que existia o que havia? As esposas, as amantes, as prostitutas. E a nova mulher: as hollys.
As hollys de hoje, meio século passado desde a original, já não são ambíguas: são o estado natural da mulher antes de ter qualquer outro estado e entre estados. Sim, não se ofenda na sua honrazinha lá porque não recebe uma pulseira de diamantes.
Os homens não oferecem pulseiras de diamantes, rosas, nem fazem convites para jantar ou para ir ao cinema, nem coisa alguma a mulher alguma, nem à santa da mãe deles: afirmam: estou aqui e quero que me queiras - seja com os diamantes, as rosas, o restaurante ou o filme. Mal comparado é como a minha cadela, de quando era pequenina, fazia. De manhã, muito cedo, deixava no lado de fora da porta da cozinha fechada a prova da sua força, do seu sucesso, da sua dedicação: tanto podia ser um rato como um gato. Mortos e bem mortos com um mínimo de estrago: troféus quase perfeitos de mímica vitalidade. E ficava ali, até que a minha avó chegasse. Ai de quem tocasse no presente. E depois de ouvir, linda cadela, abanava o rabo e ia à vida dela: o dia estava ganho: a sua posição garantida, casa, cama, comida.
Isto para chegar onde? Conto tudo. Mas antes um quase nadinha.
A pop, a cultura pop e nela a música pop, não é alta cultura, o patamar pré-erudição, a grande arte. Não chega a ser O Amante de Lady Chatterley. Não chega a ser um bom vinho tinto. Porém, não é de certeza absoluta A Garganta Funda. Os três shots. A pop é a Holly em 1961. O lugar ambíguo e a ponte de ligação onde o trânsito entre religião/arte/civilização e violência/pornografia/natureza se faz visível - sim, visível, porque existir, existe sempre, contudo, a partir de um elevado nível de competência, sofisticação, as dobradiças nem se percebem.
Agora, sim, conto tudo.
Miley Cyrus nos MTV Awards, e todo o ruído que se produziu em volta da sua actuação vestida de despida em latex cor de nu e a encenar uma resposta simétrica ao videoclip de Robin Thicke, quando lhe diz estás domesticado, vou libertar-te, vá, com uns tau-taus, repete precisamente o que ele diz às meninas vestidas de nuas do videoclip dele, entre outras delicadezas. E fá-lo de língua à solta e cornichos de diabo, a tentar abanar o rabo branco e extra-small com o ritmo afro-latino. Nem com todo este aparato há uma vírgula de dominação da mulher sobre o homem. E isto é trigo miúdo comparado com que verdadeiramente interessa - e lamento muito decepcionar de uma só vez a ortodoxia feminista e multiculturalista e cristã e tal e o que mais venha.
A questão não é a encenação da prostituta. Não há ali nenhuma prostituta, nem cortesã. Nem uma Hollyzinha para amostra. Nem a questão são os MTV Awards e o que neles se passou. A questão é a banalização levada a palco e ao YouTube de milhões de um fenómeno contemporâneo. Qual?
Basta ver o videoclip de Miley Cyrus, Wrecking Ball ou We Can´t Stop, e o de Robin Thicke, Blurred Lines, da mesma realizadora, Diane Martel, para perceber o quão previsível o espectáculo seria e qual é o caminho da mega-pop-urbana, americana, branca e de raiz anglo-saxónica, e a da sua prima branca de neve europeia e protestante.
Não há cultura pop, há o esvaziamento da cultura pop - um fenómeno normal quando não há cultura erótica. Não é eroticamente credível porque as referências são as da pornografia. Não é pornografia. Todavia é. Ora, quem quer deixar de ser conotada com a Disney, não deve fazer baby-porno.


Bonjour Mundo!

lailailai
lai lai lai
lailailai lailai lailai
lai lai lai lai lai lai lai lai