29 de outubro de 2013

Não faz meu coração fronteira com o teu?

NÃO FAZ MEU CORAÇÃO FRONTEIRA COM O TEU?
O meu amor veio ter comigo num sonho.
É daí que o conheço. Não faz mal.
Também profetas, poetas,
filósofos, e até mesmo Deus que fala
pela voz das ervas e as arde são verbo de sonhos
e cria-se o mundo. A lâmpada de Edison
o que é se não for um sonho?
O meu amor só vem ter comigo enquanto sonho.
Não faz mal. Nunca me disse uma palavra,
mas dá-me a mão.
Ele que durante o dia fecha os olhos para não me ver
esta noite beijou-me  a boca três vezes -
o teu sangue não pára de dar cor às minha faces.
O meu amor vem ter comigo no meu sono:
quando adormece, volta para casa.
Não faz meu coração fronteira com o teu e O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces, são versos do poema Reconciliação, das Baladas Hebraicas, de Else Lasker-Schüler, traduzidas para o português por João Barrento e publicadas pela A&A.

26 de outubro de 2013

Somos, não somos?

Thich Quang Duc por Mal­colm Browne

No outro dia, no Jornal de Negócios vinha uma entrevista ao nosso Bidarra e uma recensão ao seu livro Rolando Teixo. Mais coisa menos coisa. Cliquei para ler e zás, sai-me uma moralidade de bolinho da sorte, porém azarucho, algo do género: o jornalismo de qualidade paga-se lailailailai, portanto, se quiser ler... tudo em termos polidos, mas estava lá o dedinho indicador espetado.
É verdade. O bom jornalismo paga-se. E o mau jornalismo também. E o assim-assim. Acho bem, todos têm despesas. Pagar é o verbo. De igual forma, encontram-se textos muito bons, razoáveis e abaixo dos mínimos gratuitamente e mesmo na fila do desemprego e com as mesmas despesas.
É dos bons e escreve de graça? É fiel e o seu marido põe-lhe os cornos? É jovem, tem tudo para fazer e vontade e está preparado e ficou irremediavelmente doente? Isto para dizer o quê?
A despeito da ordem, há o caos. E é preciso aceitar ambos para não nos passarmos dos carretos. A questão não é de merecimento, de justiça - também Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela. O mundo não é a preto ou branco. Nem nós. Somos a mão esquerda e a mão direita. A alegria e a tristeza. Somos o bem e o mal. Para sermos, somos ambos, sempre. Por isso, a questão é: diante do caos, favorecer a ordem. Fazer civilização. E o resto, o que nos cabe, olhe, é o imponderável. Quer ver?
Quando durante a guerra do Vietname tranquilos monges budistas se imolavam pelo fogo, a ocidente tal era tido por um acto de desespero, fanatismo. No mesmo ocidente que há quase dois mil anos ajoelhava diante da cruz onde Cristo se deixou sacrificar ignorava-se o elemento comum e super-evidente entre o acto desses monges e o de Cristo: ninguém se estava a suicidar apesar da percepção do suicídio. Oferecer a vida é uma expressão extremada de um imenso amor para configurar uma língua para todas as línguas numa Babel. Uma língua inequívoca e usando o mais sagrado dos valores como alfabeto. A perplexidade, ficarmos pasmados, interrompe-nos o pensamento, pára-nos a acção, permite que nos interroguemos depois. E não podemos dessensibilizarmo-nos ou tornamo-nos predadores dos filhos dos outros.
Há na imolação pelo fogo, na cruz lenta e cheia de violências a encarnação de um sofrimento intolerável. Aceitá-lo voluntariamente é dizer muito alto, tão alto que se faz uma religião, tão alto que as fotografias dos monges correram o mundo: estamos a sofrer pelo sofrimento dos que sofrem e este é o meu amor para estancar essa dor, para que a reconciliação se faça; sou impotente, dou a minha vida, quem tem o poder, faça a reconciliação. Cristo fez o mesmo. Entregou-nos o seu corpo que ainda tomamos, carne e sangue no memorial eucarístico para revogar a velha lei, para proclamar: amai-vos como eu vos amo. É amor à dimensão da cruz, sacrificial. Este eu morro para que tu vivas, para que te reconheçam a existência e o sofrimento nesta hora do indivíduo parece-nos uma aberração. Sabemos que não é. Os pais dariam se pudessem a vida pelos filhos que a necessitam.
Voltemos à imprensa. Na Visão desta semana há bons e maus textos – aliás, a Visão está organizada como o cosmos: caos e ordem. Escreve-se rotativamente, ana-ni-ana-não ficas tu e eu não, então há sempre gente que escreve bem ao lado de gente que escreve francamente mal. Poderia ser a melhor revista de língua portuguesa com pouco esforço, juntando muitos bons todas as semanas e o mais que lhe falta – mas para quê excelências? Enfim, há bons e maus textos, o que não há são textos grátis. Comprei-a, portanto. Porquê?
Porque José Gil escreveu Patologia de um País. E é um belo texto para o retrato justo de um país construído a partir do OE para 2014. Merece ser pago. O problema é que também merece ser lido por quem não o pode pagar. E a questão nele levantada, usando todavia um nível de discurso dinâmico, é simples, é nem mais nem menos do que a questão do sofrimento de um país devastado, não pela guerra, todavia ameaçado pela miséria e pela atomização, e pela falta de capacidade para lhes responder com lucidez, competência, ou pelo menos esperança.
Portugal sofre.
Não diga que o sofrimento é dos trinta e dois mil homens e mulheres que este ano tentaram entrar na Europa vindos do Norte de África, da Síria e perto ou longe, correndo risco de vida no Mediterrâneo onde agora os olhos estão postos. Nem que sofrimento é nos países emergentes onde as contradições espelham a natureza bestial de que também somos feitos.
Não é a essa besta que também somos que precisamos de dar voz. E como bem nota José Gil, ela, agora, debaixo destas condições que dia a dia se agudizam está de braço dado connosco: muitas pessoas lutam para se conservar, para não endoidecer ou desatar aos tiros sobre a multidão (…) A passagem ao acto deve circular fantasmaticamente em inúmeras cabeças, com o self meio esburacado e estilhaçado.
A realidade está a ser substituída pelo absurdo. O caos ganha terreno.
É à compaixão, ou se preferir porque nos é mais fácil, ao amor que precisamos de dar voz. Sem fogo. Sem cruz.
Quando um amor nos magoa, porque se ama mais a si mesmo, porque tem medo de não ser amado na sua fraqueza ou porque não tem meios para nos amar melhor, faz-nos sofrer. E sofre também. Apetece tratá-lo de igual modo para que entenda na carne onde nenhuma explicação é precisa. Ou pelo menos castigá-lo, expulsá-lo do quarto. Ou fecharmo-nos no quarto para sofrermos sozinhos. Contudo a separação nada repara. E o silêncio, patogénico ou não, não aproxima dois amantes.
A responsabilidade, sim. Responsabilidade não é o peso da culpa. É o passo adiante que que diz estou aqui para nós.
Este foi o governo que escolhemos para nos representar, por actos ou por omissões.
E ainda que a realidade esteja a ser substituída pelo absurdo, não estamos sós. Tu tens-me a mim. E eu a ti. Temos de nos fazer presentes um no outro, uns nos outros onde somos competentes. É o amor que nos salva do sofrimento e nos devolve à alegria, e é o amor que constrói uma comunidade. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, não é apenas uma oração. É um modo de vida: fazer hoje. Se fizermos hoje, amanhã não nos faltará.
O governo, a economia, ou a imprensa, a arquitectura, o diabo a quatro, a forma como amamos, as artes, são valores de bandeira, quero dizer, são os símbolos da comunidade que construímos, das relações que estabelecemos. De quem somos. Não me digam que não somos mais do que isto.

Bonjour Mundo!

lailailai
this is what we do everyday lailailai
this section is just about warming up lailai
the more often you practice this exercises the easier lailailai
ready
start by breathing

17 de outubro de 2013

Shhh... é segredo!

Vá a correr à livraria! Ou não sabe que os segredos são como as cerejas?...

14 de outubro de 2013

Fanny e Francisco: a calamidade moderna


CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iv
O TRIUNFO DO SUINICULTOR
Quem diz que não há alta cultura e baixa cultura, mente. Tanto quanto mente quem diz que não há uma sociedade de classes, hierarquizada, a despeito da maior ou menor mobilidade social. Sim, há uma classe alta e há uma classe baixa. Entre umas e outras há, ou melhor, na gradação de umas a outras passamos pela cultura popular e pelas diferentes paisagens da classe média. Ora, interessante é verificar como a cultura serve às classes não apenas através da sua produção e dos seus símbolos mas, e essencialmente, para o entendimento de quem somos, do mundo que estamos a criar. Antes, porém, impõe-se uma perguntazinha de nada: afinal, o que raio é a cultura?
O cânone oferece-nos muitas e sofisticadas definições adequadas à área de estudo a que pertencem e bastante sujeitas ao ar do tempo, ao clima político. Vamos simplificar. Boa?
E se usarmos um conceito mais atemporal e económico que nos sirva para falar de há montes de anos atrás e do tempo dos nossos bisavós e de hoje? Parece-lhe bem? A mim também.
A cultura é a expressão da arte. Nenhum santo caiu do altar, pois não? E assim podemos ter cultura literária, musical, plástica… assim podemos entrar pela porta do ballet clássico e ao sair do teatro dar de caras com a mais elevada arte urbana grafitada ou dançada em plena rua, sustentada apenas nos suportes estéticos e técnicos que nos reflectem no que manifestamos e aspiramos a manifestar. São critérios tão válidos quanto quaisquer outros, ou não?
Claro, há aquela questão… nos dias críticos que correm vale a pena perder cinco minutos com isto? Sim, vale. É com isto que se fazem dias menos entroikados. É aqui que enriquecemos porque aprendemos juntos quem somos, quem queremos ser a despeito do que nos dizem que queremos ser. E quem podemos ser. Se acreditou naquela mentira que lhe contaram: uma só pessoa não consegue fazer a diferença, desacredite. Basta uma pessoa para fazer a diferença.
Isto para chegar onde? Olhe, ao ecrã. De televisão. Ou melhor à reality tv. Ao reality show. Porquê? Porque é considerado cultura de massas, ração para porcos, sendo que os porcos são o público e quem engorda é o suinicultor.  E se de facto é assim, como, porquê?
A verdade é que, quase sempre, o suinicultor, aquele que cria/cultiva porcos, no caso, aquele que faz cultura para porcos, teve não só acesso à educação como, e através dela, ao gosto. Sim, não podemos fingir que gostos não se discutem. E o interesse do suinicultor, não é o porco. Nem o entretenimento do porco. É quanto rende um porco. Repare, acesso à educação e ao gosto não é um livre passe para o acesso à moral. A moral funciona restritamente: primeiro a nossa família. Depois as famílias como a nossa, depois as outras e ao fundo do fim arrumam-se os mais diferentes de todos os nossos valores. Aquilo das minorias e tal. Não tenha ilusões por muito que conheça felizes excepções. Este é o nosso modo de funcionamento. Animal. Por isso a civilização é o fundamento da moral, e nada, nunca, será tanto do nosso interesse como o desenvolvimento moral, logo, da civilização. Mas para isso, meus ricos filhos, temos de olhar e ver. Mesmo a reality tv.
Quando a televisão nos apresenta um reality show está a seduzir o voyeur em nós. E este voyeur sempre existiu. Sempre existirá. Espreitamos. Nas páginas dos jornais do tempos dos nossos avós havia a coluna social que era religiosamente seguida, quem casou, onde, com quem, as fotografias que faziam moda, quem morreu e onde foi a enterrar. Agora as revistas ditas cor-de-rosa, com mais latitude, isto é, da riqueza mais pequena ou miséria dourada ao puro miserabilismo, conforme o público a que se destinam, ocuparam e expandiram essa página. Na literatura sempre se publicou correspondência íntima – e até correspondência para ser publicada. Há um subgénero que lhe é dedicado. Na pintura sempre se fizeram retratos até que se chegou ao retrato de rua em meia hora: escondemo-nos e mostramo-nos. Espreitamos. Somos espreitados.
Voltemos ao reality show que é a coluna social em três dimensões mais a intimidade de dois impressa em pixels. Qual é a grande diferença entre a publicação da Historia Calamitatum, o texto confessional do século xii onde Abelardo conta as suas desventuras mais as cartas de Heloísa, texto que se lê avidamente, e o não-romance entre a Fanny do último Big Brother Vip com o musculado Francisco? Há em ambos paixão, escândalo social, intriga. A diferença é qualitativa. Só qualitativa. E isso é tudo. Se desnatar, portanto, se retirar toda a riqueza à Historia Calamitatum, e se olhar para as semelhanças que tem com a relação entre Fanny e Francisco, o que lhe sobra é um amor que após uma série de peripécias deixou de ser correspondido. Porém, ler um, não é o mesmo que assistir a outro. Mas quem leu um, sabe conceber as circunstâncias onde se dê outro. Porquê?
Quem cria porcos sabe construir chiqueiros.

Bonjour Mundo!

adijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tu
lailailai
tu madre kuando te pario y te kito al mundokorason eja no te dio para amar segundokorason eja no te dio para amar segundoadijo adijo keridano kero la vida me l'amargates tulailailaiva bushka te otra amoraharva otras puertasaspera otra ardor ke para mi sos muerta
lailailai
adijo adijo kerida lailailai


12 de outubro de 2013

04. POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...

POESIA? TAMBÉM EU QUERIA...
REDONDO FOCINHO
i
CÃO FLOR
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
Toda a flor tem ao centro um redondo focinho
e em volta pétalas de pêlo branquinho
Toda a flor tem quatro patas
tem tem tem
e o meu Cão também
ii
UNIVERSO CÃO
Tu és o Cão
Tu és o mar
Tu és o céu
Que me leva a passear
O mar é meu
É meu o céu
De trela mas é meu
O universo inteirinho
Redondo no teu focinho

Bonjour Mundo!

this bridge lailailai
if you just cross 
you can´t get lost
and this bridge
lailailai


11 de outubro de 2013

Faz miau ou levas tau-tau...

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - iii
MILEY, MIAU E BABY PORNO
A diferença entre arte e pornografia é a que vai de O Amante de Lady Chatterley a Garganta Funda. Simplifiquemos: a diferença entre saborear um belo vinho tinto ou beber três shots de um líquido fluorescente para ficar marado.
Pensemos numa personagem. Em Breakfast at Tiffany´s, a linda Holly Golightly vivia, de facto, com leveza ou era prostituta? Holly é ambígua. É uma boa menina que dorme com quem quer, quando quer. E no entanto é uma acompanhante que é preciso presentear. Espere lá, presentear daquela forma é ou não é pagamento? Bem, depende: se ela for a sua própria carreira é investimento no serviço pretendido e a necessária retribuição pelo mesmo. Enfim, o que gostava de reforçar é a ambiguidade de Holly que Capote concebeu irrepreensivelmente: não está no centro nem na margem. Está no lugar que fica entre uma coisa e outra, no lugar onde num mundo mais estratificado a oriente e ocidente se arrumariam gueixas e cortesãs. Mas esse mundo já não existia então. E no mundo que existia o que havia? As esposas, as amantes, as prostitutas. E a nova mulher: as hollys.
As hollys de hoje, meio século passado desde a original, já não são ambíguas: são o estado natural da mulher antes de ter qualquer outro estado e entre estados. Sim, não se ofenda na sua honrazinha lá porque não recebe uma pulseira de diamantes.
Os homens não oferecem pulseiras de diamantes, rosas, nem fazem convites para jantar ou para ir ao cinema, nem coisa alguma a mulher alguma, nem à santa da mãe deles: afirmam: estou aqui e quero que me queiras - seja com os diamantes, as rosas, o restaurante ou o filme. Mal comparado é como a minha cadela, de quando era pequenina, fazia. De manhã, muito cedo, deixava no lado de fora da porta da cozinha fechada a prova da sua força, do seu sucesso, da sua dedicação: tanto podia ser um rato como um gato. Mortos e bem mortos com um mínimo de estrago: troféus quase perfeitos de mímica vitalidade. E ficava ali, até que a minha avó chegasse. Ai de quem tocasse no presente. E depois de ouvir, linda cadela, abanava o rabo e ia à vida dela: o dia estava ganho: a sua posição garantida, casa, cama, comida.
Isto para chegar onde? Conto tudo. Mas antes um quase nadinha.
A pop, a cultura pop e nela a música pop, não é alta cultura, o patamar pré-erudição, a grande arte. Não chega a ser O Amante de Lady Chatterley. Não chega a ser um bom vinho tinto. Porém, não é de certeza absoluta A Garganta Funda. Os três shots. A pop é a Holly em 1961. O lugar ambíguo e a ponte de ligação onde o trânsito entre religião/arte/civilização e violência/pornografia/natureza se faz visível - sim, visível, porque existir, existe sempre, contudo, a partir de um elevado nível de competência, sofisticação, as dobradiças nem se percebem.
Agora, sim, conto tudo.
Miley Cyrus nos MTV Awards, e todo o ruído que se produziu em volta da sua actuação vestida de despida em latex cor de nu e a encenar uma resposta simétrica ao videoclip de Robin Thicke, quando lhe diz estás domesticado, vou libertar-te, vá, com uns tau-taus, repete precisamente o que ele diz às meninas vestidas de nuas do videoclip dele, entre outras delicadezas. E fá-lo de língua à solta e cornichos de diabo, a tentar abanar o rabo branco e extra-small com o ritmo afro-latino. Nem com todo este aparato há uma vírgula de dominação da mulher sobre o homem. E isto é trigo miúdo comparado com que verdadeiramente interessa - e lamento muito decepcionar de uma só vez a ortodoxia feminista e multiculturalista e cristã e tal e o que mais venha.
A questão não é a encenação da prostituta. Não há ali nenhuma prostituta, nem cortesã. Nem uma Hollyzinha para amostra. Nem a questão são os MTV Awards e o que neles se passou. A questão é a banalização levada a palco e ao YouTube de milhões de um fenómeno contemporâneo. Qual?
Basta ver o videoclip de Miley Cyrus, Wrecking Ball ou We Can´t Stop, e o de Robin Thicke, Blurred Lines, da mesma realizadora, Diane Martel, para perceber o quão previsível o espectáculo seria e qual é o caminho da mega-pop-urbana, americana, branca e de raiz anglo-saxónica, e a da sua prima branca de neve europeia e protestante.
Não há cultura pop, há o esvaziamento da cultura pop - um fenómeno normal quando não há cultura erótica. Não é eroticamente credível porque as referências são as da pornografia. Não é pornografia. Todavia é. Ora, quem quer deixar de ser conotada com a Disney, não deve fazer baby-porno.


Bonjour Mundo!

lailailai
lai lai lai
lailailai lailai lailai
lai lai lai lai lai lai lai lai
 

9 de outubro de 2013

Cozido à portuguesa, meus ricos filhos, não é cultura portuguesa

CULTURA: A CIDADE PROIBIDA - ii
A Ana Malhoa é a Miley Cyrus
Comentei: gostava de escrever sobre a Miley Cyrus. Aquela questão nos MTV Awards. Disseram-me: não vale a pena, não se passou cá, as pessoas não se interessam por causa da distância, sentem que não lhes diz respeito. Eles logo escreverão. É outro mundo, outra língua - e nós não temos estrelas globais na cultura pop, urbana. A erudição é um nicho, não entra nesta conversa. E tu escreves em português.
Tudo quanto me foi dito é verdade e sensato. E é mentira insensata. E quanto ao português, é a minha língua. Não quero escrever noutra - o que não falta são tradutores de primeira água se alguém em vez de ler os clássicos que deveria, fizer gosto em ler o que escrevo.
Porque é insensatez e mentira? Porque não há cultura portuguesa. Tenha calma. Explico-me. Nunca houve - se houvesse só nós a entendíamos pela sua especificidade. A nossa maior qualidade é essa, a da plasticidade integradora, seja ela navegante, imigrante ou mulata, a nossa vocação é o outro, o mais além é sempre melhor mesmo quando não. Todo o nosso provincianismo tem raiz cosmopolita. Hei-de voltar a isto.
Aponto apenas dois dos nossos grandes e mais conhecidos nomes da dita cultura portuguesa que sabiam não haver uma cultura portuguesa e agiram dentro desse conhecimento: Eça e Pessoa. Na mais alta pintura contemporânea passa-se o mesmo: Lucien Freud e Paula Rego falam a mesma língua. E não é a do cenário inglês ou português em que o pensamento, respectivamente, se lhes formou e a despeito da nacionalidade de Lucien Freud esmagar a visibilidade de Paula Rego apenas e só por nascimento.
Não há cultura portuguesa. Há a cultura ocidental, onde nos situamos, fortemente permeada pelo oriente de séculos e cujos traços ora foram integrados ora combatidos conforme os interesses comerciais. É preciso olhar para a cultura e vê-la como ela é na sua face perene tanto quanto nas linhas de rosto mais sujeitas aos efeitos do tempo.
A cultura pop é o jornal do dia. As notícias de hoje, o nada de amanhã. Lixo. Mas nesse fio contínuo das horas impressas está a história das ideias, dos costumes, da política. E também, aproximando muito o olhar, ao microscópio de uma notícia, pode estar um romance: Capote sabia isto. Ou afastando tanto quanto possível o olhar do minuto que agora passa, e impondo a maior distância para uma visão global, podem estar mil contos a reflectir a humanidade: Borges sabia isto.
Creio que temos estrelas no firmamento. Portuguesas de pai e mãe e não são nossas. Na cultura urbana, na literatura, na pintura. São ocidentais. Não temos a indústria musical norte americana, de facto, ou então a Miley Cyrus seria a Ana Malhoa cuja história, salvaguardando entre outras diferenças de maior peso, geracional e de costumes, tem pontos de contacto significativos.
Fundamental é como tratamos este tecido cultural comum. Pobremente. Tratamo-lo pobremente. Demonstro.
Se o autor/pintor/músico é estrangeiro, espera-se pela crítica do respectivo país de origem para depois espelhar à náusea os conteúdos produzidos. Se é português, para existir na crítica, tem de fazer parte de um círculo mágico, social ou maçónico ou jantante, tanto faz, em que A projecta B que projecta A. Ou isso, ou ir para fora para ser de dentro como qualquer estrangeiro na sempre actual tradição estrangeirada.
Se está a pensar: então porque não escreve sobre algo ou alguém, a partir das suas próprias referências? Alguém nosso em sentido restrito ou aberto? Bem, tenho-o feito. Mais recentemente sobre Alexandre Farto aqui, por exemplo. E sobre outros e outras questões também.
Tenho muito mais para dizer. Se quiser ouvir, vá passando pelas páginas onde escrevo. Sabe, pode parecer insignificante, mas arrependo-me mesmo de não ter escrito sobre a Miley Cyrus.

Bonjour Mundo!

lailailai
la prima vez ke te vidi
de tuz ojos me 'namori
d'akel momento te ami
fin a la tomba te amare.
aserkate mi kerida
salvadora de mi vida
descubrite i avlame
sekretos de la tu vida

27 de setembro de 2013

Meio-Dia

MEIO-DIA
Uma atrás da outra, hoje
vi as ondas mudarem-se
do verão para o outono
e as nuvens descerem
para um extremo branco de chumbo
e soube que era verdade:
não encontrei o mar à minha frente
não fui  rio nem água nem sede
nem as palavras ditas liquesceram
onde o sol lhes bebesse a frescura
Nunca houve caminho de volta em qualquer regresso
em nenhum passo vive o futuro
Há esta solidão a pique, clara como o meio-dia
para iluminar o coração no escuro

19 de setembro de 2013

Os ciganos são porcos: não tomam banho

Em dois dias seguidos, ontem e hoje, duas pessoas de quem gosto muitíssimo, e mais, respeito, quero-as perto, me disseram: não podes escrever sobre cultura no sítio x, ninguém quer que se escreva tal, ninguém quer ler; não no sítio y. Têm razão. Só um bocadinho, no entanto. Talvez não queiram que se escreva. Azarucho. Mais perdemos todos. Eu quero escrever e há quem queira ler.
CULTURA: A CIDADE PROIBIDA -i
Não têm pão? Comam brioches...
Quero falar-lhe de um lugar proibido, da palavra mágica que fecha portas, o avesso do abracadabra, a matéria com que construímos exílios de pensamento e sociais, guetos económicos, solidões morais, afectivas. Quero falar-lhe – fuja enquanto é tempo – de cultura: a nova cidade proibida.
Os ciganos são porcos, cheiram mal, não tomam banho. Isto é fácil de pensar. Menos fácil de dizer numa altura em se tratam na pontinha dos dedos delicados as etnias multiculturais e lailailais. Lixem-se. Importante é referir que não tomam banho quando não têm água canalizada, casa de banho, e que quando as têm são tão limpos ou tão sujos quanto qualquer outra pessoa com maior ou menor gosto pela água. Não é uma questão cultural, é social.
Os pobres não têm mau gosto: não têm é dinheiro para ter bom gosto. Ah, mas e os novos ricos e os seus arabescos dourados? Os velhos ricos tiveram o rococó e a decadência de um bordado de um saiote custar o mesmo do que uma pequena quinta, ou não tiveram? O que um novo rico precisa é de tempo. Até os ingleses, gente amante das castas mais do que os indianos, afirmam sem pejo: são precisos duzentos anos para fazer um lord. E convenhamos, um novo rico é bem mais veloz do que isso numa república como a nossa: cem aninhos de pulso chegam para levantar egrégios avós aos píncaros do poder económico e político – claro que me refiro a relações privilegiadas e ambíguas com a classe política, não ao presidente da junta ou ao deputado, muito menos ao pequeno e médio empresário que sustenta a economia sem qualquer patrocínio desviante. E convenhamos, vivemos dias de novos pobres, por favor, venham os novos  ricos sem vínculo com o estado – a fila é onde?
O povo não abomina a cultura, não evita entrar na cidade proibida. E prova disso é o sempre apreço pelo pão e circo, o turismo barato de excursão de autocarro, a fidelidade ao Correio da Manhã, ao Tony Carreira, aos programas da tarde de domingo, à festa de camarão congelado e africano. Porque são prazer e consolação na língua comum, a preço acessível, num dia a dia de dinheiro contado para chegar ao fim do mês. Não se pode retirar o entretenimento popular a quem não sabe o que significa erudito nem pratos de degustação. Deve-se, no entanto, introduzir a erudição nesse quotidiano. E não se queixe de que a imprensa é um lixo e a televisão outro. Acaso o vizinho do lado decide o seu jornal diário ou semanal ou tem poder sobre o seu comando de televisão? Não gosta? Não compre. Garanto-lhe que a quebra de vendas não precisa de tradução ainda que precise, e muito, de interpretação.
É verdade que uma mulher de classe média não lê latim nem grego a menos que seja professora de latim e grego. Lê Margarida Rebelo Pinto a quem pretensos intelectuais ou pretendentes a qualquer protagonismo invectivam por uma razão de mistério. Ela faz bem feito aquilo que num país normal se chama Chick Lit. Acaso um livro dela torna inviável a leitura de Roth? Não. São públicos distintos. A questão é a crítica portuguesa trocar os b pelos v.
Poderia continuar, porém vou resumir. Escrever sobre cultura no Jornal de Letras é bom. Mas não chega, é o mesmo que escrever sobre livros na Ler, ou assassinatos no Jornal do Crime – ainda existe? É um circuito de vídeo fechado. O que nos tirou do chão, das quatro patas, foi olhar para cima, e não se olha para cima se não houver o que ver. Portanto, não digam que não se pode dizer a cultura, pop ou moderna ou erudita na imprensa, nos media, quaisquer que eles sejam porque as pessoas não querem: não saber, não é sinónimo de não querer, nem de não querer saber.
Logo que a linguagem seja desempoeirada e a língua não se enrole em teias de aranha qualquer besta descobre que tem em si uma luz sublime. E gosta.

2 de setembro de 2013

Bonjour Mundo leitor!


A Tempestade

A TEMPESTADE
Tenho andado a estudar a espessura das noites
a largura dos dias, a duração do tempo, a biologia do céu:
há uma via láctea inteira no mais escuro dos corpos
milhões de células brilham para iluminar o nada
onde a matéria se suspende se a espreitarmos
amorosamente perto para logo descobrimos:
o longe é mentira
Porque a vida é fisicamente interseccionista
- um poema de Álvaro de Campos tem mais realidade do que nossa separação
Não colecciono estes pedaços de informação
construo um barco que navegue a falsa distância
e me leve de volta a casa onde me esperas
onde sempre fui, de onde nunca saí
A chuva que oblíqua me molha
evapora-se do manto de Próspero
e do suspiro que oscila na expiração de Miranda
inspiração de Ferdinando

Carta ao meu Amor


Homem Mau,
Muito gostava de saber por onde anda e a fazer o quê - o com quem dispenso nem seja por uma questão de bom gosto. Já lhe passou pela cabeça que um marido faz muita falta em casa? Imagina o que aconteceu na sua estúpida ausência? Sim, tem a mania que vida dura para sempre e não se digna a aparecer… Fie-se. Qualquer dia chateio-me e digo sim em vez de dizer não e depois quero ver como é que se governa sem mim. Há limites para a santidade. Patetão. Estou tão chateada consigo que até a minha voz interior, esta que agora lhe escreve, subiu para, vá, um sopranozinho. Ai! Que nervos.
Sabe que por sua tão grande culpa me arrisco a encarnar num verme com duas cabeças? Pois devia ou querem lá ver que também não sabe que escrevo aqui, diante deste ecrã grande e cheio de um computador lá dentro que o faz pesado? Isto não é um portátil, seu ingrato, é um all in one. Não é para andar com ele a reboque pela casa. E podia estar tranquila a trabalhar? Não. Porquê? Porque o menino anda aí na boa vai ela!
Vi uma coisinha a mexer, na parede, rente ao tecto. Ponho os óculos – ainda não lhe tinha dito que sou míope? Um horror. Não vejo nada ao longe, deve ser por isso que nunca o encontrei. Já ao perto… E zás. Era uma osga bebé. Racionalmente não tenho medo. Mas parte de mim é irrazão. Quer ver?
Onde há uma osga bebé há uma enorme mãe osga e vai surgir a qualquer instante. E vão cair-me em cima. Uma osga enorme e dezenas de osgas pequeninas. A qualquer instante. E não consigo levar o computador daqui. Vou comprar outro portátil. Vai-te embora osga, please. Vai-te embora, vai, xô. Oh meu Deus, vai crescer às escondidas. A minha casa é um ninho de osgas. Nesta altura estou em pleno Amazonas na barriga de um crocodilo pré-histórico que, aposto, é o pai de todas as osgas, num mundo onde há uma fartura de serpentes e baratas enormes e voadoras.
O delírio reptilário-serpentário dura um segundo. Matei a osga. É verdade. Uma osga bebé. Eu, que nem carne como. Por sua tão grande culpa, homem mau! Torci a esfregona e acertei no super-crocodilo de dez metros que se contorceu no chão debaixo dos meus olhos incrédulos. Tão pequenina. Porque não estava aqui para a espantar a osga e evitar esta mortandade? E o meu karma? E os remorsos? Só desgostos.
Espero que ache o sofá confortável.
Um beijo da sua linda mulher
EV
(Bem sei, bem sei, trato o raio do Amor na terceira pessoa. Mas fazer o quê? Não me vou pôr de tu cá, tu lá, com um desconhecido. Para mais o excesso de intimidade estraga o quotidiano.)

21 de agosto de 2013

Rosto, pescoço, mamas, e outros lugares sujeitos à lei da gravidade

A autora adverte: o uso deste post pode causar danos irreversíveis.
Norah Ephron, sim, aquela que escreveu When Harry met Sally, tem este bestseller, entre outros. O título, I feel bad about my neck, há que convir, fala connosco. Quem diz que gosta de envelhecer ou está a mentir ou está doente.
Envelhecer dói. Na vaidade tanto como nas articulações. Mesmo que estejamos cada vez mais novos, porque estamos, com a ajuda da medicina, do ginásio, dos ácidos gordos, das vitaminas, de uma boa alimentação, da cosmética, nem por isso paramos o tempo ou somos imunes à gravidade. Isto não significa que envelhecer não seja o preço do privilégio que é a vida. O privilégio da idade, tendemos a esquecê-lo. Estamos vivos. E não envelhecemos também para aprender a nossa mortalidade, o impossível e nem por isso menos inevitável adeus?
O corpo e o rosto duram muito tempo. E se bem amados duram em bom estado. O envelhecimento faz-se mais lento a cada dia que passa. Não duramos apenas mais, duramos melhor. Se olharmos para uma mulher de cinquenta anos, de agora, é fácil encontrarmo-nos com a descrição que Eça, nos Maias, faz da Cohen: Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se às vezes Raquel, e as opiniões discordavam. Taveira achava-a “deliciosa!” — e dizia-o rilhando o dente: ao marquês não deixava de parecer apetitosa, para uma vez, aquela carnezinha faisandée de mulher de trinta anos. Repito. O corpo e o rosto duram muito tempo. E se bem amados duram em bom estado. Bem amados não é sinónimo de bem cortados: uma mulher de quarenta anos não deve parecer que tem vinte. Nem uma de sessenta ter um rosto de trinta. Muito menos a lisura esticada por ali acima, ou preenchida de espanto de botox e outras discrepâncias que fazem da figura humana uma montagem desarmoniosa de várias épocas: uns lábios grossíssimos do ano 2000, bóias de náufragos, e umas mãos de quem nasceu em 1940 a coabitar na mesma pessoa. E não, um homem não ama mais, nem quer mais a uma mulher jovem ou bela como uma estrela de cinema - se assim fosse nem as mulheres jovens nem as mulheres belas como estrelas de cinema, ou as próprias cinematográficas estrelas seriam jamais traídas, ou deixadas, ou estariam sós.
É verdade que o contorno do rosto perde a tensão e ficamos todos um bocadinho pendidos, com focinho de boxer. É verdade que a zoomorfia não acaba ali: o pescoço que fazia Norah Ephron andar de gola alta ou lenço, diabo, fica com uma barbela que lembra o touro - mas o touro é um animal nobre, uma besta de beleza e força. E é verdade, as maminhas não apontam para o céu, porém não é grave, a vocação delas não é astronómica.
Nestes dias em que persistentemente nos informam que não há fronteira entre uma intervenção cosmética e uma intervenção cirúrgica, em que insistem na substituição do valor pessoal pelo valor da imagem, pior, na manipulação perversa da auto-imagem ao ponto de nos parece natural, higiénico, a remoção ácida de rugas, o lifting, os implantes nas maçãs do rosto, no peito, queria dizer: tenho 45 anos e sinto-me bem com o meu pescoço.

6 de agosto de 2013

i - Homens dum raio! Meninas, não digam que não avisei...

Talvez porque não gostasse de pérolas, a minha avó deu-mas. Uma a uma. Às vezes esqueço-me delas. Mas dão um jeito do caneco: fica-se sempre composto e nunca saem de moda, é só actualizar o modo de as usar.
Pérola:
Nunca por nunca julgue um homem por si, mulher. São uma raça à parte. Isto para dizer o quê? Nós, quando precisamos de ajuda, gostamos de a ter, mas sem ter de pedi-la - esperamos telepatia porque somos, vá, telepatetas. Os homens quando querem ajuda, pedem. Logo, rewind, nunca por nunca ofereça ajuda a um homem. Se ele estiver enterrado até ao pescoço, deixe que esteja, ou sai sozinho ou pede ajuda antes da areia lhe entrar na boca. Porquê? Quando a minha querida lhe oferece ajuda, o que a cabeça dele ouve é: tu não dás conta disso sozinho. Porquê? Porque ao contrário dos cães, os homens ouvem mal a voz feminina, os agudinhos desconcentram-lhes as hormonas. E já que estamos nisto, para facilitar o diálogo inter-espécies, quando a minha querida precisar de ajuda, não espere que ele lha ofereça: peça-lha.