3 de setembro de 2019

O tempo do amor das coisas bárbaras, selvagens

O TEMPO DO AMOR DAS COISAS BÁRBARAS, SELVAGENS

Uma a uma regressam as folhas
antes caídas, dispersas pelo vento
em quatro cantos de outono,
durante a sinfonia de cobre e ouro,
metais de que chuva se apodera,
e corrompe,
para fazer o grande inverno.
Uma a uma regressam
para compôr a árvore e
o esplendor esmeraldino da sua copa.

É o tempo do amor
das coisas bárbaras
quando já não é preciso domá-las
porque se dão,
vento, criaturas misteriosas, mar, gente,
é o tempo da devolução:
o cordeiro, o leão e eu
bebemos no regato a mesma água muito fresca
onde as palavras são peixinhos prateados
e cantam e dançam.

O destino dorme na semente
e só acorda na segunda germinação.

E tu, onde tens estado?


E tu, onde tens estado?

Não sei como mas Setembro chegou. Penso no homem invisível da banda desenhada à procura de roupa para existir porque existir não basta, é preciso ser visível. E tu? Para quê, então, seres criador de todas as coisas visíveis e invisíveis? Achaste que haveria roupa para vestir tudo? O luto, as fórmulas silenciosas, amor que nem pensar se pode sem rasto de incêndio e chuva de cinzas, a vida? Não estou feliz contigo. Não estou mesmo nada feliz contigo. Debulhei-me em cabalas e hermetismos e religiões comparadas, até na prática cega alimentada a colherzinhas de devoção. Sinais. Atravessei insónias por ti. Sozinha. E acreditei. Aceitei. Justifiquei tudo, até o imperdoável. Não temos todos pai, filhos, trabalho, não temos todos onde ir. Amigos. Cão. Um lugar. Não temos todos lugar.

A beleza do mundo é clara mesmo na desarmonia, isso eu sei, o mar muito largo, e o céu é todo infinito numa perfeição de papel cenário e à noite estrelas recortadas mesmo antes do muito escuro e frio. A luz morna embala-nos, enrola a tarde em fumo dourado, e talvez a cama seja o esquife onde aprendemos a navegar a morte julgando ser o amor que conjugamos. Mas a ti, a ti, não sei se voltarei. Por agora, pelo menos, acabaram-se as maiúsculas: tenho a certeza de que não virás perguntar-me, e onde estavas tu quando lancei as fundações da terra, a pedra angular, e os anjos cantaram de alegria? Tu não vieste. Tu nunca vens. És omisso. Imperdoável. Eles que te cantem. Eu não te canto mais. Basta.

26 de agosto de 2019

Auto-retrato


AUTO-RETRATO

... é verdade, 
talvez eu beba café demais, 
durma de menos, 
e procure incessantemente 
a cosmologia das coisas. 
Sofra de um excesso de razão e abismo. 
Mas. 
Também sei ficar muito quieta. 
Antena. Atenta.


E.
Separar. 
Organizar. 
Estabelecer relações. 
Reunir. 
Deixar tudo arrumado e pronto a habitar: 
uma casa, uma teoria, um texto, um poema. 
Sair deles e não regressar. 
Jamais.
Gosto de resolver sistemas complexos.
re-solvere
Primeiro apaixona-me. Depois diverte-me.
Dá-me um acréscimo de estima.
Ainda logo de seguida me entristeça,
e tenha de procurar uma dificuldade não apenas maior,
mais subtil.
Um a um, caem,
edifícios e livros.
Que tragédia,
só amo o que fica de pé.

11 de agosto de 2019

Sol do meu Inverno

Igreja de São Domingos - fotografia de Francisco Manuel Carrajola

SOL DO MEU INVERNO

diz-me, então, com que palavras te anunciou a tua mãe... Foram de amor, de desespero? Desejo? Conformadas? Secretas como as das coisas sagradas e tão adoradas que nem chegam aos lábios por se desfazerem na boca de tanta felicidade?

Juana de Aza sonhou com um cão: de tocha em flamas entre os dentes, saía-lhe do ventre. E assim, na posse desta mensagem onírica, para ela tão clara, anunciou que o filho lhe nasceria Santo e incendiaria o mundo com a palavra de Deus. Diz-me, então, com que palavras te anunciaram? Te anunciam... Memórias cruzam o céu das imaginações mais que estrelas caídas sobre a fronte de Santos, como terá acontecido no baptizado de São Domingos, filho de Juana. A avó terá visto uma estrela. A mãe a lua. Corpos celestes, quaisquer que tenham sido, quiseram fazer-se presentes, super-evidentes, audíveis. Dançaram sobre a fronte do menino em plena pia baptismal. Mas quando nada desce e nenhuma luz brilha? Ou ninguém vê. A tua estrela. A tua santidade. As tuas mãos cheias de amor. E o silêncio, como entendê-lo no seu alfabeto de mudez? 

Não foi o caso de São Domingos. Nunca. Até Nossa Senhora, rodeada de três anjos, terá descido dos céus para lhe entregar o Rosário e as bençãos do Rosário a quem o rezasse, mesmo só a esta terça parte dele, o Terço que é o nosso, em mistérios de Alegria, Luz, Dor e Glória, e onde diariamente, conta a conta desta infinita coroa de rosas, nos reconfiguramos. Para quem? Para quê? E o que nos diria, a nós, Maria, se nos visitasse? Esta distribuição de visitações, palavras e silêncios, o que diz? Que mistagogia é esta? Porque inicia uns pela pela clara vidência, pelo claro anúncio e a outros pela ausência, pelo silêncio? 

Dia oito, antes de ontem, estava na Igreja de São Domingos, lá em baixo, na Praça infame de D. Pedro IV, na celebração do seu dia, em seu nome - afinal, há oitocentos e quarenta e nove anos atrás foi o dia do seu nascimento. Fui porque quis ir. E porque os escritores, os poetas, mais ou menos dominicanos, logo, cães mais ou menos fiéis ao seu destino, de palavras mais ou menos flamejantes, e ainda que sem convertidos para além da rendida folha branca, são da O.P.: ordem dos pregadores. E não há penitência maior que a respiração da alegria, da luz, da dor, da glória e anunciá-la assim com palavras vãs. E a ti. Todas as palavras ficam curtas nas mangas. Anunciar isto que somos, ordem menor. Ao amor que trazemos, ordem maior. Balbuciar os mistérios a desejar verbos de claridade. Que penitência... E que espelho esta igreja sucessivamente destruída e reerguida, ardida, um manancial límpido de cinza e pedras negras. Poder-se-ia escrever um romance só por causa disto - se fosse precisa razão para escrever um romance.

(Nem Drogon de Daenerys! Aquela gente de Game of Thrones não viu este lugar. Brutal! Não há efeitos especiais que cheguem para estas paredes. Ainda bem que me dá para pensar estas coisas, que alívio...)

Estava sentada ali, do lado da metade do lenço de Lúcia e do Terço de Jacinta. Onde estariam melhor do que ao lado do Rosário de São Domingos, as relíquias da Visitação da Senhora da Luz e das Rosas, Sol do meu Inverno. Do lado oposto, uma imagem de Nossa Senhora grande e barroca olhava-me fixamente.



9 de agosto de 2019

Saudades de Manuel António Pina


SAUDADES DE MANUEL ANTÓNIO PINA

Ontem, na sala de espera, depois da triagem, aguardei. Durante uns segundos, ainda pensei no SNS, no Saúde 24 que me precedeu e facilitou a chegada, e na privada Médis que contratei há uns anos, mantenho e me desagrada tanto nas letras miúdas e restritivas de um acordo caríssimo. Fui educada a acreditar, se é grave, vai-se para o público, é lá que estão os cuidados intensivos de qualidade se tudo correr mal. Se não é grave e é desconfortável, e se pode e quer, então, vá-se para o privado: melhores quartos, privacidade, atendimento simpático. Confesso, a privatização dos cuidados de saúde causa-me desgosto - a raça envergonha tanto…

Ontem, uma sala cheia de gente. E com quase toda a gente, mais gente: as pessoas vão acompanhadas ao hospital. E de telemóveis onde fixar os olhos a fazer tempo. Eu não jogo nem tenho Facebook, nem Instagram ou qualquer outro aplicativo onde estar acompanhada quando estou só. Tinha um livro - não sei se isso conta, mas é o que quero ter comigo.

Estava, portanto, com Manuel António Pina. Tenho saudades de todas as crónicas que ele já não escreve e deixam pequenos buracos nos jornais e revistas. E dos poemas que ficaram em vida suspensa. Penso muitas vezes naquele almoço, o que ele não fez e eu não fui, para as trezentas  pessoas que compram livros de poesia em Portugal e em como, ao longo de uma vida, porque assim ou porque assado, nunca o conheci nem a ele nem às outras duzentas e noventa e seis pessoas, esses meus pares poéticos - logo eu que sou tão ímpar e gostava de ter companhia. Mas não é mau conhecer três leitores de poesia, comigo, quatro. Dois são poetas, um é editor. Um é amigo em horário de expediente, outro um pouco menos, outro um pouco mais.

Há isto, não é? Estar só para além da sala de espera. O quantum de solidão afere-se pela diferença. Quão diferente se é no pensamento, nos hábitos, no trabalho, no amor, no IRS. A minoria, ou as minorias, ou maiorias a que pertencemos, são o límpido espelho onde nos vemos e a medida exacta da nossa (in)visibilidade. E, verdade seja dita, os amigos morrem-nos e deixam-nos assim com cara de dois de paus e braços caídos de incredulidade, a olhar para o caixão – um caixão é só uma caixa grande, e como é possível? tudo quanto somos cabe ali... E o amor, quando nem amor foi, disfunciona como um relógio de imitação à primeira gota de chuva no mostrador. Fica-se colado ao silêncio.

Eu não. Tenho poetas em casa, escritores, andam armados em versos e parágrafos, e é gente feita de letras, é certo, e são comedidos nas salas de espera, mas nem por isso ocupam menos espaço no sofá.

6 de agosto de 2019

Contigo

Criaturas. Erva, sal, fera. E nós, caídos e levantados com palavras de fogo onde esplendemos - a poesia. Tanto espanto, aberta ferida, tanta espera. Pode-se morrer em quieto desespero e a boca alumbrada ainda de versos e beijos. E os mistérios do coração em flor, as secretas perfeições muito nuas que o mundo despe só para os nossos olhos... Como falar de Deus se não for na língua da paixão? Dá-me de beber, disse Cristo, junto ao poço. Como falar de amor sem oferecer a simetria da nossa própria sede?




5 de agosto de 2019

No meio do orvalho o amor é total

porque não podemos ser todos estáveis, santos, sábios, engenheiros e suas pontes sólidas sobre a água em fuga. Há quem venha de um mundo que levanta com a mão direita e destrói com a mão esquerda e atira ao vento a ordem do alfabeto primordial. Nem por isso disparo sobre mim num campo de flores - não pinto e os poetas suicidas morreram todos no século vinte. Poetas... gente de olhos muito grandes e pequeninos gestos infantis. Inúteis. E assim mesmo, bichos alquímicos, do escuro, beijam a luz de alfa a ómega porque encontram a alegria nos portais do subsolo quântico das letras. Dão laços que se desfazem como se fossem nós de eternidade. O que é um verso, se não for isto? Meu Deus, como nos fizeste... Crianças e seus brinquedos, vida de faz de conta a repetir o teu fiat de poder aos bonecos despedaçados, à beleza da criação.

Mas devastar bibliotecas como se fossem tu, e tu, o amor todo! Porque amar é andarmos juntos pelo lado de dentro das coisas onde os milagres são a lei que a ciência não explica: observadores amorosos interferimos no objecto sensível do amor que se desdobra em agrados. O resto é a existência. Eu passeio no jardim das tuas namoradas mortas.


31 de julho de 2019

Desisti, regresso, aqui me tens

foi então que, estendida no sofá, como se a eternidade estivesse clara à minha volta, percebi, não, não iria a correr fazer tudo quanto não fiz, dizer quanto não disse. Montar o livro atrasado meses para o deixar pronto. Não. Nem aos vinte poemas enfiados nos rascunhos do telemóvel. Na verdade, se estes fossem os meus últimos dias, faria hoje exactamente o que fiz: no YouTube, vi ovos Benedict cozinhados pelo Jamie Oliver e pelo Gordon Ramsay. As receitas de Jamie Oliver têm isto: a ausência de segredo, a transparência que nos deixa ficar bem na foto quando as reproduzimos - saem sempre bem. Mas não os farei, nem aos ovos nem ao molho holandês, penso fazê-los e isso basta. E fui à Booking para não reservar quarto no Curia Palace, nem marcar SPA nem outros prodígios onde o corpo deixa de se sentir como um inimigo íntimo. Continuei a ler, se ler se pode chamar a falar com alguém desconhecido, a andar numa solidão acompanhada, Scruton, Manuel António Pina, Lúcio Cardoso. E o silêncio de Agosto a subir da rua, a entrar no prédio, um andar de cada vez, e o céu por cima. Se calhar, é por esta razão que encontro penas tão pequeninas no quarto, uma desocupação dos anjos no trânsito e janela aberta ao calor.

E há o ilusionismo da memória. Nesta longa insónia revi o meu perfeito primeiro amor, como o primeiro amor sempre é, e o último. Entre um e o outro, a voracidade do tempo. Passou uma vida e, como é possível, não passou nem um segundo, ainda te vejo, nítido, a descer a rua e a nossa extrema a juventude, sem banda sonora e posso jurar não via mais ninguém, só a ti em cinemascope puríssimo, não havia mais ninguém na cidade deserta e decerto os cafés vinham parar à mesa da esplanada por substanciação da vontade, e não, não preciso de nada, sequer de fechar os olhos para a sensação exacta do teu rosto no meu, olá, respirar o cheiro da tua pele na curva do pescoço e numa expiração o excesso da tua ironia tão fácil de perdoar.

Versos em cascata, os bons e os maus, os lidos e os escritos, planos, fracassos, todos os enganos possíveis e nada pior do que os impossíveis. Tudo se desfaz quando embate na Pavane pour une infante défunte, na Ode ao Destino, amado Sena, meu Deus, nas razões porque vivemos, "pelo meu cão", disse Steiner, e eu também, sem o copiar. E o que tenha sido beijo, verso, ou riso. Que alívio a vida não ter importância, não termos importância. Nenhuma.

7 de fevereiro de 2019

Divina Graça

DIVINA GRAÇA


(...)Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O caminho do céu.

Adélia Prado

Ela não vem,
a poesia.
Podia chamar,
sei que nome tem.
Ela não vem mas
no avesso dos dias
caminha em sentido anti-horário
com a mesmíssima precisão
do seu gémeo cronológico
onde habitamos. Então.
Tudo quanto foi
e hoje está
na funda memória celular
até ao recuo
da primeira explosão,
amplo, amplo arco
do tempo ao não tempo e,
meu Deus,
porquê este dom da vida
nascido assim do desequilíbrio,
matriz de todos os nascimentos -
e onde regressaremos?
À casa mãe,
indistinta indivisa silenciosa negra?
Trago comigo
o Teu anti-material vazio
e a Tua explosão
de mundos estrelas pontes multiversais
em cada linha:
toda a vida está suspensa em sombra.
A complexa harmonia celeste,
e seus segredos fechados que de
adolescente busquei abrir na travessia da insónia
e das bibliotecas,
repousa longe do meu entendimento
e hoje, finalmente, ao alcance dos meus olhos,
terrível e delicada música,
expressão da Divina Graça:
poema és tu, Poeta,
pulsação em cada verso
do vento estelar, nucleossíntese do Verbo.
Ela não vem.
Não precisa.
Ela está.

27 de janeiro de 2019

Em certas noites desrezo

EM CERTAS NOITES DESREZO

O vento é fino
e os ramos
não têm folhas.
A rua desce
e é preciso descê-la
desde o altar
da comunhão
à solidão
da porta de casa.
Onde estás
que a Tua voz
não vem impedir
o sacrifício diário
do meu coração?
Vale ele menos
do que o filho de Abraão?
Quantas mortes temos de morrer?

E mesmo entre as mortes é possível,
como?
avançar nos livros
e no deserto,
um versículo de cada vez,
com as sementes do céu
no escuro do peito
à espera
da flor
e do verso
vindos da terra prometida
em dois degraus de adeus
antes de a porta 
se abrir
para se fechar
ao rasto de infinito
pela rua.


19 de janeiro de 2019

À Senhora Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Regina Alves


LA VIE EN ROSE, SENHORA MINISTRA

Esta foi uma semana cor-de-rosa. Não por ter sido em ouro sobre azul, ou cheia de momentos que fariam a imprensa pink disparar flashes. E também não foi por alguém me ter tido dans ses bras e me ter falado tout bas. Foi de um rosa político-evangélico. Agora pergunto, senhora Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, de onde lhe vem esta loucura colorida? Do pé de goiaba? É o mandamento perdido de Moisés? E já lhe contaram que há também um rosa-menina farmacêutico, Filibanserin, a fazer pendant com azulinho-menino Viagra? E se o menino usar com menino, e a menina o usar com menina, abre-se a rosa e rasga-se o céu e ui que medo, lá vou eu? E se heterosexualmente utilizados, rosa e azul, é o quê, arroxeado? Arroxeado pode? E se for só prazer sem procriação, é pecado e não mora ao lado, é mesmo ali? 

Que inspiracional, senhora Ministra, separar menina e menino em cores de comprimidos para as disfunções sexuais. Lógicas destas, que pílula, já chega, são demais. E já que estamos nisto: não lhe parece razoável que, se o sexo for uma função, se disfuncione de vez? E o prazer des mots d´amour, des nuits a ne plus en finir? Isso é que fait quelque chose a ponto de se ver la vie en rose, não é cá a função. Nem a segregação. Mas vamos por partes.

O azul e o encarnado foram as cores da realeza, por excelência, no ocidente - se viajarmos em direcções orientais encontramos os amarelos dourados imperiais exclusivos. Na igreja católica esse esquema azul-vermelho é sempre presente. No mundo da cultura pop onde se emulam os mundos reais e religiosos, o que são as red carpet se não um pisar como reis e deuses?

Ora, o uso da cor rosa esteve sempre assimilado ao vermelho, digamos que é uma diluição homeopática do encarnado pelo branco, e associado à vida, à boa carnação, às boas cores.  Uma cor que se encontra no traje masculino ao longo dos séculos. Séculos, senhora Ministra. No traje feminino também, ainda que até ao século xviii, menos. E antes dos anos cinquenta do século xx, altura em que géneros e papéis se extremaram, não passava pela cabeça de ninguém dizer que o rosa era uma cor feminina. As cores, do início do século xx até essa data, não tinham género: tinham idade: o rosa era uma cor infantil e juvenil.

Claro, nos anos setenta, a cor tinha perdido a força dita feminina: quem fez a Revolução Sexual e o Maio de 68 não vestiria os filhos em rosas e azuis polarizados: a minha geração, senhora Ministra, foi a primeira a ser vestida com a moda unisexo, calças de ganga, t-shirt pro menino e pra menina. O que sucedeu depois, quando a minha geração começou a ter filhos, foi que o unisexo perdeu a força e voltaram os rosas, os laços, e os azuis. Pais conservadores, filhos rebeldes, pais rebeldes filhos conservadores…

Se o azul vem do céu e da água e com ele vem a razão, de onde e com quem vem o cor-de rosa?

O cor-de-rosa vem com a flor. A flor branca e a flor encarnada. E vem de sempre. Do vale de Saron para iluminar a beleza da amada no Cântico dos Cânticos; para nomear a perfeição de Cristo, para, cálice, recolher o Seu sangue e inspirar demandas e para transmutar o vinho. E vem na Matéria de Bretanha e faz-se o símbolo por excelência dos seus cavaleiros e rosa cândida na Divina Comédia. E faz-se pedra no gótico aspiracional. E são rosas cor-de-rosa as que Afrodite inventa às portas da morte de Adónis quando se pica num espinho e sobre o branco da flor cai uma gota do seu sangue. Rosa profana. Rosa sagrada. Da pureza à paixão em todas as colorações do branco ao vermelho, da alma aos maravilhosos Rosarium Philosophorum.

E a pílula cor-de rosa, senhora Ministra? Não me refiro a esta que nos quer fazer engolir, à outra, à concreta que se toma com um copo de água, Filibanserin. Bem, palpita-me que não é flor que se cheire. A pílula azul, Viagra, afecta, vá, a engenharia da coisa, é o levanta e cai da questão. Já o comprimido das meninas é dirigido ao software – mexe com a intimidade do rico cérebro. Ora, se é para mexer por mexer com cérebro, quero dizer, com o desejo, mais vale a fórmula clássica que a tia Edith Piaf tão bem escreveu. E nem sequer tem contra-indicações.

Senhora Ministra, imagino que a indigne que assimile a sua dicotomia colorida à disfunção sexual. Mas veja bem, antes disfunção sexual do que restauração sexual – em português de Portugal por muito que restauremos, casas, pinturas, enfim, de um tudo, quando falamos de restauração, falamos de restaurantes, de comida,  e quando falamos de sexo, se calhar por nos saber tão bem, também dizemos barbáries antropofágicas, por exemplo, comia-te todo! Seja qual for o prato diante de nós, senhora Ministra, que não haja disfunção do apetite.

Duas notas mínimas antes de terminar. Uma. 

Senhora Ministra, sou portuguesa, mas sou mulher, logo humana, e tenho família, tudo alçadas do seu talento, e se lhe falo é porque o meu passado brasileiro me condena, e se é extenso: o meu primeiro namorado foi Pedro Bala, filho de Jorge Amado e, ó, se eu o amei. E na madureza dos dezoito anos plenos e bígamos chegaram o meu perfeito marido Drummond, à direita, e Machado à esquerda – Dona Flor mais feliz não houve, há-de ser por isso que sou de um centro moderado. E amigas de uma vida inteira: a minha avó e Cecília Meirelles, eu e Adélia Prado, dois romances felizes sem atrapalhação de género.

A outra. A terra é redonda. E é uma nave onde todos viajamos. No imenso espaço. Ao longe, muito longe, mal se vê. É um ponto. Num ponto não há fronteiras, nem brasileiro-português, mesmo quando o infinito está em todos quantos cabem nesse ponto. E quero mesmo dizer todos sem excluir nem um, nem sequer a senhora Ministra. Plana só mesmo a tabula rasa que devemos fazer do maluquedo que  a senhora Ministra anda para aí a dizer.




Ps: a despropósito: Deus não fala comigo. Nem me aparece. Nunca fez o favor de me aparecer. Mas estou convicta de que o sinal de Deus é o amor, o imenso amor, o infindo amor e sua compaixão, o abraço que a todos acolhe. Não escolhe. Como na bela imagem medieval de Nossa Senhora do Manto.


Ps 2: olhe, senhora Ministra, que lindo artigo: 
https://www.theatlantic.com/sexes/archive/2013/08/pink-wasnt-always-girly/278535/

17 de janeiro de 2019

Flor acesa

FLOR ACESA

Tanta noite
nesta insónia,
e vigília:
abriu-se a flor,
acendeu-se o escuro.

O coração é uma flor.

A Perfeição do Nó Torto

A PERFEIÇÃO DO NÓ TORTO

Há coisas muito bonitas,
esta é uma delas,
e não as podes evitar -
nem as conheces.
 São uma digital
fora do dedo, solta
na vida, uma alegria,
minha luz da manhã
toda particular:
o nó torto da tua gravata
sempre inclinado à direita.
Não te vejo mas sorrio-te:
que fazes tu ao espelho?

Quem vai ao mar perde o lugar


Igor Levit por Robbie Lawrence


Quem vai ao mar perde o lugar

Gulbenkian. Igor Levit. Eu como o diabo gosta. Entupida de antibióticos, mais Symbicort, Brufen, enfim, de um tudo: a alegria das farmácias. Sala quase cheia. E isto é um mistério gulbenkiano: são mil as vezes em que não se consegue um raio de um bilhete, dois lugares consecutivos então... é coisa da ordem dos milagres ou de uma previdência incompatível com o mundo, mas aceitamos, e entre milagres e previdências, vamos. E chegamos e zás, lugares vagos. E não é um nem são dois.
De quem são aquelas cadeiras? Vendem-nas? Licitam-nas? Posso ficar com uma e pregar-lhe uma tabuleta nos costados a dizer Eugénia de Vasconcellos?
Na verdade, isto até seria em benefício da própria Gulbenkian: daqui a um monte de anos, quando eu estiver a escrever noutro multiverso qualquer, neste, um diligente funcionário desta bela instituição poderia dizer: esta era a cadeira de EV, poeta tão extraordinária que para ser perfeita só lhe faltava a modéstia; é que não nos deslargava, nem durante a semana nem no dia do Senhor: era café, era Almedina, era jardim, era piano, orquestra, violino, ópera... vá, ao menos nas conferências era um calhar, quer dizer, vinha quando lhe calhava ao gosto e sentava-se onde calhava que só era esquisita no Grande Auditório - toda a gente sabe que os guias falam exactamente comme ça.
Quando era pequena e até ser grande, tudo se passava no cinema que era teatro. Lá, ia para a frisa. Era um descanso. Bem. Havia as precedências: tias velhas, primos mais velhos e depois, ao fim, os mais novos. Nunca havia dramas salvo quando havia ópera e não se dava a multiplicação das cadeiras que eram seis nem das sessões que em regra eram duas. Só nervos! Mas desperdício de cadeiras, não.
Hoje a sala portou-se malzinho. Telemóveis a tocar, três. Dois na primeira parte, um, na segunda. Tossicava-se aqui  e respondia uma tosse cavernosa ali. É Janeiro. Uma senhora foi tão mas tão mal olhada e ssshhh  ssssh durante um ataque de tosse que se levantou e saiu a meio da primeira parte. Se tivessem pedras... Regressou na segunda.
Confesso, também tossi. Só uma vez. O grande ataque de tosse do finzinho da primeira parte, fui eu. Azarucho, não conseguia respirar. Não saí. Paciência que eu também a tive e durante duas horas ininterruptas. Sim. Até no intervalo.
O senhor catarrento nas minhas costas, comentou tudo em directo. Tudo. Tossia. Comentava. Mas era um tossidor transazonal-fumador o que, como toda a gente sabe, é outro estatuto - permite insultar senhoras tossidoras sazonais não fumadoras, por exemplo. Não se calou. O tempo todo que o raio do homem gostava de se ouvir e, pior, já era um bom bocado surdo. Olha para isto, com a mão esquerda quando isto foi transcrito para as duas mãos por laialailai e ontem no Mezzo, sim porque eu é Mezzo e Bravo e laialailai. E mais do mesmo, que vergonha, não tem vergonha, nem têm vergonha, trazem gente desta que escolhe isto com tanta peça bonita que Schumann tem e laialailai. Sssssh... esta devia ir tossir lá para fora.
- Não fui eu, ó comentador tússico do inferno, cala-te lá bicho do ouvido que foi o meu alter ego que está sentado nesta cadeira vazia aqui ao lado!

Um passo ao lado

Sim, estou a ver-te!




Um passo ao lado 


Veneza. Turistas em corrente infinda em grupos de dezenas avançam pelas ruas, as malas de quatro rodas low cost batem nas pedras e degraus. Todo o dia. E tomam conta das pontes e das praças para incontáveis selfies de canal à frente, canal ao lado, no centro do canal, da praça, ao centro da sala do palácio, da torre, da tela, da gôndola. Têm gorros com um enorme pompom e usam ténis. Fazem fila.

Há uma fila de cinquenta japoneses, alguns de máscaras hospitalares, para entrar no Florian.

Um passo lado, do outro lado, se fossem à salinha pequena do Gran Quadri, à esquerda de quem entra, quatro mesas e um balcão, não teriam máscaras, só café moído na hora - a melhor bica da minha vida e isto não é dizer pouco. Forte. Creme espesso. A perfeição das manhãs em chávena pequena.

E os restaurantes venezianos nas ruas de maior trânsito... são chineses. Pizza e pasta intragáveis de gordura pré-cozinhada. Basta olhar para perceber. E os menus com fotografias dos pratos plasmados nos vidros das janelas.

Mas um passo lado. Ruas vazias. Roupa nos estendais. Pombos dormentes. E filas só de copos altos de spritz , ao balcão do fim da tarde, nenhuma outra língua para além do italiano, nem um gorro de pompom maior do que o rabo de um coelho, nem um, as mulheres usam kubankas de raposa ou do que for, Laras Antipovas com Zhivagos a tiracolo ou de serviço, deslizam de saltos altos e casacos compridos de deixar a PETA à beira de um ataque de nervos. 

À direita e à esquerda, tudo é belo. Até o estaleiro de gôndolas, acidental e fechado, longas pranchas de madeira amontadas a tomar nevoeiro como se fora sol. 

Uma igreja aberta há mais de doze séculos, caída e levantada como nós, pias cheias de água benta, água suficiente para tanto mal, e nem um crente nem um visitante, e mesmo assim um mistério de velas acesas. Um passo ao lado, colado, viveu um alquimista e sobreviveram-lhe as pedras inscritas a claros símbolos enterradas nas paredes amarelas. Vielas estreitíssimas e decadentes. Belas na sombra húmida que nenhuma luz rasga. Pátios inesperados atrás de portões altos. Belos ao céu descoberto do tempo. 

Nos edifícios, medalhas a torto e a direito: aqui viveu x, ali escreveu y, ali morreu z. As pessoas passam, as casas ficam. As ruas. Morrer, antes, parecia-me um escândalo, tinha a cabeça formatada em Cesário Verde, ai se eu não morresse nunca e eternamente buscasse a perfeição das coisas. Merda para isso. A eternidade não precisa de mim para nada.

Nem há Bach suficiente para nos salvar por muito que aqui cresça na acústica perfeita das igrejas. A beleza não salva ninguém nem quando os Tintoretto são mais do que os pintores de rua e as gaivotas se passeiam, de asas fechadas, passo a passo, a cabeça altiva, como orgulhosos cães sem dono.

Porém, na casa onde Peggy viveu, ainda está uma Maiastra de Brancusi. Essa ave cujo canto, não há romeno que o não saiba, resgata da escuridão quem a ouça.


Vemos tudo, tudinho, não é?



Veneza, Natal de 2018

7 de dezembro de 2018

Funciona!

Em pleno Campo de Ourique...
...o botão que reinicializa o mundo. E funciona!

11 de novembro de 2018

Consubstancial à Luz

CONSUBSTANCIAL À LUZ


Emergiu, gerado do majestoso caos,
este coração consubstancial à luz.
E neste mar-tempo todo de impressões debatíveis,
débeis, inter-substituíveis, avança contra corrente,
inalterada jangada indiferente 
de força antiga agora proibida:
antes, chamávamos-lhe Destino,
Amor dentro do Plano Divino,
inevitável eu-tu, inexorável;
hoje, apenas desuso de palavras raras,
e de fundíssimos sentimentos
na alta raiz das coisas claras.

26 de outubro de 2018

De EV a Deus

DE EV A DEUS
Criador e Escriba dos meus passos,
Tu que desenhaste o meu deserto
e a minha errância
e contaste as minhas lágrimas
e me tens no Teu Livro.
Tu, Nome que aprendi, nem sei como,
a bendizer pelo bem quando chega
e pelo mal quando me vem,
pois sei lá eu se Ismael foi expulso
para salvação de José, e se José
foi traído e vendido para reger um mundo,
para salvar um povo...
O que sabemos ambos, Tu e eu,
é que desisti de lutar Contigo:
ganhaste.
Mas não é por isso que a solidão
se parte e lhe descubro dentro
a amêndoa doce que não provei.