11 de agosto de 2019

Sol do meu Inverno

Igreja de São Domingos - fotografia de Francisco Manuel Carrajola

SOL DO MEU INVERNO

diz-me, então, com que palavras te anunciou a tua mãe... Foram de amor, de desespero? Desejo? Conformadas? Secretas como as das coisas sagradas e tão adoradas que nem chegam aos lábios por se desfazerem na boca de tanta felicidade?

Juana de Aza sonhou com um cão: de tocha em flamas entre os dentes, saía-lhe do ventre. E assim, na posse desta mensagem onírica, para ela tão clara, anunciou que o filho lhe nasceria Santo e incendiaria o mundo com a palavra de Deus. Diz-me, então, com que palavras te anunciaram? Te anunciam... Memórias cruzam o céu das imaginações mais que estrelas caídas sobre a fronte de Santos, como terá acontecido no baptizado de São Domingos, filho de Juana. A avó terá visto uma estrela. A mãe a lua. Corpos celestes, quaisquer que tenham sido, quiseram fazer-se presentes, super-evidentes, audíveis. Dançaram sobre a fronte do menino em plena pia baptismal. Mas quando nada desce e nenhuma luz brilha? Ou ninguém vê. A tua estrela. A tua santidade. As tuas mãos cheias de amor. E o silêncio, como entendê-lo no seu alfabeto de mudez? 

Não foi o caso de São Domingos. Nunca. Até Nossa Senhora, rodeada de três anjos, terá descido dos céus para lhe entregar o Rosário e as bençãos do Rosário a quem o rezasse, mesmo só a esta terça parte dele, o Terço que é o nosso, em mistérios de Alegria, Luz, Dor e Glória, e onde diariamente, conta a conta desta infinita coroa de rosas, nos reconfiguramos. Para quem? Para quê? E o que nos diria, a nós, Maria, se nos visitasse? Esta distribuição de visitações, palavras e silêncios, o que diz? Que mistagogia é esta? Porque inicia uns pela pela clara vidência, pelo claro anúncio e a outros pela ausência, pelo silêncio? 

Dia oito, antes de ontem, estava na Igreja de São Domingos, lá em baixo, na Praça infame de D. Pedro IV, na celebração do seu dia, em seu nome - afinal, há oitocentos e quarenta e nove anos atrás foi o dia do seu nascimento. Fui porque quis ir. E porque os escritores, os poetas, mais ou menos dominicanos, logo, cães mais ou menos fiéis ao seu destino, de palavras mais ou menos flamejantes, e ainda que sem convertidos para além da rendida folha branca, são da O.P.: ordem dos pregadores. E não há penitência maior que a respiração da alegria, da luz, da dor, da glória e anunciá-la assim com palavras vãs. E a ti. Todas as palavras ficam curtas nas mangas. Anunciar isto que somos, ordem menor. Ao amor que trazemos, ordem maior. Balbuciar os mistérios a desejar verbos de claridade. Que penitência... E que espelho esta igreja sucessivamente destruída e reerguida, ardida, um manancial límpido de cinza e pedras negras. Poder-se-ia escrever um romance só por causa disto - se fosse precisa razão para escrever um romance.

(Nem Drogon de Daenerys! Aquela gente de Game of Thrones não viu este lugar. Brutal! Não há efeitos especiais que cheguem para estas paredes. Ainda bem que me dá para pensar estas coisas, que alívio...)

Estava sentada ali, do lado da metade do lenço de Lúcia e do Terço de Jacinta. Onde estariam melhor do que ao lado do Rosário de São Domingos, as relíquias da Visitação da Senhora da Luz e das Rosas, Sol do meu Inverno. Do lado oposto, uma imagem de Nossa Senhora grande e barroca olhava-me fixamente.