9 de agosto de 2019

Saudades de Manuel António Pina


SAUDADES DE MANUEL ANTÓNIO PINA

Ontem, na sala de espera, depois da triagem, aguardei. Durante uns segundos, ainda pensei no SNS, no Saúde 24 que me precedeu e facilitou a chegada, e na privada Médis que contratei há uns anos, mantenho e me desagrada tanto nas letras miúdas e restritivas de um acordo caríssimo. Fui educada a acreditar, se é grave, vai-se para o público, é lá que estão os cuidados intensivos de qualidade se tudo correr mal. Se não é grave e é desconfortável, e se pode e quer, então, vá-se para o privado: melhores quartos, privacidade, atendimento simpático. Confesso, a privatização dos cuidados de saúde causa-me desgosto - a raça envergonha tanto…

Ontem, uma sala cheia de gente. E com quase toda a gente, mais gente: as pessoas vão acompanhadas ao hospital. E de telemóveis onde fixar os olhos a fazer tempo. Eu não jogo nem tenho Facebook, nem Instagram ou qualquer outro aplicativo onde estar acompanhada quando estou só. Tinha um livro - não sei se isso conta, mas é o que quero ter comigo.

Estava, portanto, com Manuel António Pina. Tenho saudades de todas as crónicas que ele já não escreve e deixam pequenos buracos nos jornais e revistas. E dos poemas que ficaram em vida suspensa. Penso muitas vezes naquele almoço, o que ele não fez e eu não fui, para as trezentas  pessoas que compram livros de poesia em Portugal e em como, ao longo de uma vida, porque assim ou porque assado, nunca o conheci nem a ele nem às outras duzentas e noventa e seis pessoas, esses meus pares poéticos - logo eu que sou tão ímpar e gostava de ter companhia. Mas não é mau conhecer três leitores de poesia, comigo, quatro. Dois são poetas, um é editor. Um é amigo em horário de expediente, outro um pouco menos, outro um pouco mais.

Há isto, não é? Estar só para além da sala de espera. O quantum de solidão afere-se pela diferença. Quão diferente se é no pensamento, nos hábitos, no trabalho, no amor, no IRS. A minoria, ou as minorias, ou maiorias a que pertencemos, são o límpido espelho onde nos vemos e a medida exacta da nossa (in)visibilidade. E, verdade seja dita, os amigos morrem-nos e deixam-nos assim com cara de dois de paus e braços caídos de incredulidade, a olhar para o caixão – um caixão é só uma caixa grande, e como é possível? tudo quanto somos cabe ali... E o amor, quando nem amor foi, disfunciona como um relógio de imitação à primeira gota de chuva no mostrador. Fica-se colado ao silêncio.

Eu não. Tenho poetas em casa, escritores, andam armados em versos e parágrafos, e é gente feita de letras, é certo, e são comedidos nas salas de espera, mas nem por isso ocupam menos espaço no sofá.