31 de julho de 2019

Desisti, regresso, aqui me tens

foi então que, estendida no sofá, como se a eternidade estivesse clara à minha volta, percebi, não, não iria a correr fazer tudo quanto não fiz, dizer quanto não disse. Montar o livro atrasado meses para o deixar pronto. Não. Nem aos vinte poemas enfiados nos rascunhos do telemóvel. Na verdade, se estes fossem os meus últimos dias, faria hoje exactamente o que fiz: no YouTube, vi ovos Benedict cozinhados pelo Jamie Oliver e pelo Gordon Ramsay. As receitas de Jamie Oliver têm isto: a ausência de segredo, a transparência que nos deixa ficar bem na foto quando as reproduzimos - saem sempre bem. Mas não os farei, nem aos ovos nem ao molho holandês, penso fazê-los e isso basta. E fui à Booking para não reservar quarto no Curia Palace, nem marcar SPA nem outros prodígios onde o corpo deixa de se sentir como um inimigo íntimo. Continuei a ler, se ler se pode chamar a falar com alguém desconhecido, a andar numa solidão acompanhada, Scruton, Manuel António Pina, Lúcio Cardoso. E o silêncio de Agosto a subir da rua, a entrar no prédio, um andar de cada vez, e o céu por cima. Se calhar, é por esta razão que encontro penas tão pequeninas no quarto, uma desocupação dos anjos no trânsito e janela aberta ao calor.

E há o ilusionismo da memória. Nesta longa insónia revi o meu perfeito primeiro amor, como o primeiro amor sempre é, e o último. Entre um e o outro, a voracidade do tempo. Passou uma vida e, como é possível, não passou nem um segundo, ainda te vejo, nítido, a descer a rua e a nossa extrema a juventude, sem banda sonora e posso jurar não via mais ninguém, só a ti em cinemascope puríssimo, não havia mais ninguém na cidade deserta e decerto os cafés vinham parar à mesa da esplanada por substanciação da vontade, e não, não preciso de nada, sequer de fechar os olhos para a sensação exacta do teu rosto no meu, olá, respirar o cheiro da tua pele na curva do pescoço e numa expiração o excesso da tua ironia tão fácil de perdoar.

Versos em cascata, os bons e os maus, os lidos e os escritos, planos, fracassos, todos os enganos possíveis e nada pior do que os impossíveis. Tudo se desfaz quando embate na Pavane pour une infante défunte, na Ode ao Destino, amado Sena, meu Deus, nas razões porque vivemos, "pelo meu cão", disse Steiner, e eu também, sem o copiar. E o que tenha sido beijo, verso, ou riso. Que alívio a vida não ter importância, não termos importância. Nenhuma.