7 de fevereiro de 2019

Divina Graça

DIVINA GRAÇA


(...)Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O caminho do céu.

Adélia Prado

Ela não vem,
a poesia.
Podia chamar,
sei que nome tem.
Ela não vem mas
o avesso das horas
caminha em sentido anti-horário
com a mesmíssima precisão
do seu gémeo cronológico
onde habitamos. Então.
Tudo quanto foi
e hoje está
na funda memória celular
até ao recuo
da primeira explosão,
amplo, amplo arco
do tempo ao não tempo e,
meu Deus,
porquê este dom da vida
nascido assim do desequilíbrio,
matriz de todos os nascimentos -
e onde regressaremos?
À casa mãe,
indistinta indivisa silenciosa negra?
Trago comigo
o Teu anti-material vazio
e a Tua explosão
de mundos estrelas pontes multiversais
em cada linha:
toda a vida está suspensa em sombra.
A complexa harmonia celeste,
e seus segredos fechados que de
adolescente busquei abrir na travessia da insónia
e das bibliotecas,
repousa longe do meu entendimento
e hoje, finalmente, ao alcance dos meus olhos,
terrível e delicada música,
expressão da Divina Graça:
poema és tu, Poeta,
pulsação em cada verso
do vento estelar, nucleossíntese do Verbo.
Ela não vem.
Não precisa.
Ela está.