27 de janeiro de 2019

Em certas noites desrezo

EM CERTAS NOITES DESREZO

O vento é fino
e os ramos
não têm folhas.
A rua desce
e é preciso descê-la
desde o altar
da comunhão
à solidão
da porta de casa.
Onde estás
que a Tua voz
não vem impedir
o sacrifício diário
do meu coração?
Vale ele menos
do que o filho de Abraão?
Quantas mortes temos de morrer?

E mesmo entre as mortes é possível,
como?
avançar nos livros
e no deserto,
um versículo de cada vez,
com as sementes do céu
no escuro do peito
à espera
da flor
e do verso
vindos da terra prometida
em dois degraus de adeus
antes de a porta 
se abrir
para se fechar
ao rasto de infinito
pela rua.