LA VIE EN ROSE, SENHORA
MINISTRA
Esta foi uma semana cor-de-rosa. Não por ter sido em ouro sobre azul, ou
cheia de momentos que fariam a imprensa pink disparar flashes. E também não foi
por alguém me ter tido dans ses bras e me ter falado tout bas. Foi de um
rosa político-evangélico. Agora pergunto, senhora Ministra da Mulher,
Família e Direitos Humanos, de onde lhe vem esta loucura colorida? Do pé
de goiaba? É o mandamento perdido de Moisés? E já lhe contaram que há também um
rosa-menina farmacêutico, Filibanserin, a fazer pendant com
azulinho-menino Viagra? E se o menino usar com menino, e a menina o usar com
menina, abre-se a rosa e rasga-se o céu e ui que medo, lá vou eu? E se
heterosexualmente utilizados, rosa e azul, é o quê, arroxeado? Arroxeado pode?
E se for só prazer sem procriação, é pecado e não mora ao lado, é mesmo
ali?
Que inspiracional,
senhora Ministra, separar menina e menino em cores de comprimidos para as
disfunções sexuais. Lógicas destas, que pílula, já chega, são demais. E já que
estamos nisto: não lhe parece razoável que, se o sexo for uma função, se
disfuncione de vez? E o prazer des mots d´amour, des nuits a ne plus en finir?
Isso é que fait quelque chose a ponto de se ver la vie en rose, não é cá a
função. Nem a segregação. Mas vamos por partes.
O azul e o encarnado foram as cores da realeza, por excelência, no
ocidente - se viajarmos em direcções orientais encontramos os amarelos dourados
imperiais exclusivos. Na igreja católica esse esquema azul-vermelho é sempre
presente. No mundo da cultura pop onde se emulam os mundos reais e religiosos,
o que são as red carpet se não um pisar como reis e deuses?
Ora, o uso da cor rosa esteve sempre assimilado ao vermelho, digamos que
é uma diluição homeopática do encarnado pelo branco, e associado à vida, à boa
carnação, às boas cores. Uma cor que se encontra no traje masculino ao
longo dos séculos. Séculos, senhora Ministra. No traje feminino também, ainda
que até ao século xviii, menos. E antes dos anos cinquenta do século xx, altura
em que géneros e papéis se extremaram, não passava pela cabeça de ninguém dizer
que o rosa era uma cor feminina. As cores, do início do século xx até essa
data, não tinham género: tinham idade: o rosa era uma cor infantil e juvenil.
Claro, nos anos setenta, a cor tinha perdido a força dita feminina: quem
fez a Revolução Sexual e o Maio de 68 não vestiria os filhos em rosas e azuis
polarizados: a minha geração, senhora Ministra, foi a primeira a ser vestida
com a moda unisexo, calças de ganga, t-shirt pro menino e pra menina. O que sucedeu
depois, quando a minha geração começou a ter filhos, foi que o unisexo perdeu a
força e voltaram os rosas, os laços, e os azuis. Pais conservadores, filhos
rebeldes, pais rebeldes filhos conservadores…
Se o azul vem do céu e da água e com ele vem a razão, de
onde e com quem vem o cor-de rosa?
O cor-de-rosa vem com a flor. A flor branca e a flor encarnada. E vem de
sempre. Do vale de Saron para iluminar a beleza da amada no Cântico dos
Cânticos; para nomear a perfeição de Cristo, para, cálice, recolher o Seu
sangue e inspirar demandas e para transmutar o vinho. E vem na Matéria de
Bretanha e faz-se o símbolo por excelência dos seus cavaleiros e rosa cândida
na Divina Comédia. E faz-se pedra no gótico aspiracional. E são rosas cor-de-rosa
as que Afrodite inventa às portas da morte de Adónis quando se pica num espinho
e sobre o branco da flor cai uma gota do seu sangue. Rosa profana. Rosa
sagrada. Da pureza à paixão em todas as colorações do branco ao vermelho, da
alma aos maravilhosos Rosarium Philosophorum.
E a pílula cor-de rosa, senhora Ministra? Não me refiro a esta que nos
quer fazer engolir, à outra, à concreta que se toma com um copo de água, Filibanserin. Bem,
palpita-me que não é flor que se cheire. A pílula azul, Viagra, afecta, vá, a engenharia
da coisa, é o levanta e cai da questão. Já o comprimido das meninas é dirigido
ao software – mexe com a intimidade do rico cérebro. Ora, se é para mexer por
mexer com cérebro, quero dizer, com o desejo, mais vale a fórmula clássica que
a tia Edith Piaf tão bem escreveu. E nem sequer tem contra-indicações.
Senhora
Ministra, imagino que a indigne que assimile a sua dicotomia colorida à
disfunção sexual. Mas veja bem, antes disfunção sexual do que restauração
sexual – em português de Portugal por muito que restauremos, casas, pinturas,
enfim, de um tudo, quando falamos de restauração, falamos de restaurantes, de comida, e
quando falamos de sexo, se calhar por nos saber tão bem, também dizemos
barbáries antropofágicas, por exemplo, comia-te todo! Seja qual for o prato
diante de nós, senhora Ministra, que não haja disfunção do apetite.
Duas notas
mínimas antes de terminar. Uma.
Senhora
Ministra, sou portuguesa, mas sou mulher, logo humana, e tenho família, tudo
alçadas do seu talento, e se lhe falo é porque o meu passado brasileiro me
condena, e se é extenso: o meu primeiro namorado foi Pedro Bala, filho de Jorge
Amado e, ó, se eu o amei. E na madureza dos dezoito anos plenos e bígamos
chegaram o meu perfeito marido Drummond, à direita, e Machado à esquerda – Dona
Flor mais feliz não houve, há-de ser por isso que sou de um centro moderado. E
amigas de uma vida inteira: a minha avó e Cecília Meirelles, eu e Adélia Prado,
dois romances felizes sem atrapalhação de género.
A outra. A
terra é redonda. E é uma nave onde todos viajamos. No imenso espaço. Ao longe,
muito longe, mal se vê. É um ponto. Num ponto não há fronteiras, nem
brasileiro-português, mesmo quando o infinito está em todos quantos cabem nesse
ponto. E quero mesmo dizer todos sem excluir nem um, nem sequer a senhora Ministra.
Plana só mesmo a tabula rasa que devemos fazer do maluquedo
que a senhora Ministra anda para aí a dizer.
Ps: a
despropósito: Deus não fala comigo. Nem me
aparece. Nunca fez o favor de me aparecer. Mas estou convicta de que o sinal de
Deus é o amor, o imenso amor, o infindo amor e sua compaixão, o abraço que a
todos acolhe. Não escolhe. Como na bela imagem
medieval de Nossa Senhora do Manto.
Ps 2: olhe, senhora Ministra, que lindo artigo:
https://www.theatlantic.com/sexes/archive/2013/08/pink-wasnt-always-girly/278535/