28 de setembro de 2018

Canção a meio do caminho


com Cecília Meirelles e Amália Rodrigues

CANÇÃO A MEIO DO CAMINHO

Não tem que enganar:
o impensável deu-se,
foram montanhas,
foram mares,
foram os números,
tu sabes,
e tiveste de pensar
essas coisas singulares
e isso é o sal na carne viva,
a guitarra muda,
e nem Wittgenstein te salvou,
se nem Deus a Cristo quanto mais,
é o fim do fado. É o fim. É o fim. É o fado.
 A vida agora é o campo das potencialidades,
e a morte.
E, pasma-te, como é possível?
nada arde na derrota
e as vitórias são risíveis.
Tabula rasa és tu que
já foste perfeccionista de base,
control freak,
tenso na quinta casa,
autoritário incapaz de respirar fundo
sem se engasgar,
e sonhador, lírico, apaixonado.
Resumido:
foste palhaço e foste pasto. Foste comido.
A liberdade. A bendita liberdade.
Encolhes os ombros. Sorris um pouco.
Só posso ser o que sou,
é o que tenho,
as mãos são estas.
É o que for.

23 de setembro de 2018

Morte à Chegada

MORTE À CHEGADA

O mal também tem este nome:
morte à chegada -
 e nada podemos diante dele, nada.
Pensavas que ias viver
mas a aurora despontou no escuro,
o fiat! escondeu-se atrás dos dentes cerrados,
na boca fechada,
e os anjos vestiram as asas pretas.

10 - uma mulher de sonho



10 - uma mulher de sonho

É incontornável. Homens e mulheres não são iguais. Não são iguais no corpo, não são iguais no psiquismo, não são iguais na mecânica mais ou menos quântica do cérebro. Não são iguais. Os homens contam. As mulheres relacionam. 

Um estudo recente pôs ao léu os pensamentos masculino e feminino na escolha de parceiros. Na verdade, poderia ser um estudo de 1979 e realizado por Blake Edwards. Poderia ser 10. Ou em português, 10 - uma mulher de sonho. Explico. 

O homem faz uma auto-avaliação, isto é, dá-se uma nota num conjunto de critérios: rosto, corpo, rendimentos, profissão, competências sociais... Soma tudo de zero a dez. Depois das contas feitas, procura uma mulher que, na sua avaliação, tenha uma pontuação igual, ou um, dois, ou no máximo três pontos acima. Não é, por isso, surpreendente ver um homem de muita idade, envelhecido, e de grande sucesso económico, ou poder específico, ao lado de uma mulher muito jovem, elegante e bonita. Espelham-se na auto-avaliação. Para além destes casos extremados de grandes diferenças de idades e grandes correspondências de avaliação, há o pão nosso de cada dia, e são quase todos os outros. À esquerda e à direita, encontramos casais que claramente se espelham e de forma mais simétrica: no mesmo patamar de beleza, ou de paisagem social, ou económica, ou profissional. E isto também fala das hierarquias que os conduzem, o foco que os dirige. Resumido: no que querem da vida. Igualmente fascinante é olhar para os segundos ou terceiros casamentos, numa idade de maturidade em que a auto-avaliação já não é a mesma da primeira viagem no carrossel da selva e, assim, permite os encontros que na primeira volta seriam impossíveis por assimetria. A pontuação, portanto, não é estática,  a que se auto-atribui e a que se dá aos outros. Muda a beleza, muda a pontuação. Muda o sucesso, muda a pontuação. Muda o comportamento, muda a pontuação.

As mulheres não dão pontos. Não contam. Mas é igualmente fácil perceber quantos pontos se dá uma mulher: basta olhar para o marido/namorado/híbrido. A escolha da mulher é futurista: a mulher escolhe no presente aquele que lhe parece ser o melhor garante de futuro, qualquer que seja o futuro pretendido na qualidade ou duração.

A parte mais gira do estudo, no entanto, são os grandes erros de avaliação. E pasme-se, quem conta melhor, é quem se engana mais e é mais propenso a cometer grandes erros de avaliação. Porque um homem avalia no presente. Ontem não existe. Amanhã também não. Os homens não contam algo com que as mulheres contam sempre: o potencial. E o melhor dos predictores, o passado. Então, o mais frequente e mais consistente erro do homem é subestimar a mulher que avalia. O mais frequente e mais consistente erro da mulher é sobrestimar o homem que escolhe.

Mal por mal, antes mulher que homem.

15 de setembro de 2018

Despedida

DESPEDIDA

Podes ficar com os Teus exércitos
e suas espadas flamejantes,
arcanjos à frente,
anjos ao centro,
voz do Espírito adiante;
e com os Teus milagres,
protecções, provações, profecias;
e com a inamovível montanha -
a semente de mostarda, devolvo-Ta.
Pelo baptismo, renunciamos ao mal,
pela vida ao bem prometido.
A ti, e eu chamava-te Amor,
lugar onde amanheciam todos os prodígios,
devolvo-te os futuros cancelados
como qualquer outro voo.
Aos meus pares, amados iguais
neste pacto de sangue a preto e branco
a correr pelas páginas:
aprendi, para o bem, o que não vem,
e para o mal, a que renunciei,
sou ímpar, estou só.
Nada mais tenho a devolver
além do corpo de hoje, amanhã pó.
Fecho a porta. Entrego a chave.
Adeus.

11 de setembro de 2018

Serena? Não me parece...

JK Rowling, Nicki Minaj, a sério?
Eu se fosse o Harry Potter ia-me já queixar de ter apanhado com um raio nos cabides!
E se fosse uma anaconda, ó Nicki, apresentava queixa ao Pan...



Os muito puros que me perdoem, mas bom senso é fundamental: não, esta não é uma questão racial; não, esta não é uma questão de género; esta é uma questão de manipulação ao serviço da discriminação positiva e do politicamente correcto.

Toda a gente, aqui e ali, ao longo da vida se portou mal. Perdeu o controlo. Foi impulsivo. Ou mesmo, no pior dos casos, foi-se um filho da puta. Acontece. Não se planeia. Não se deseja. Fica-se aquém. Mas acontece. Ninguém de bom senso se orgulha desses momentos da sua vida. Se possível, oferece-se reparação. Somos falíveis. Mas esforçamo-nos. É assim.

Claro que estou a falar de sua alteza sereníssima, perdão, transtornadíssima, da tenista Serena Williams e do circo que se levantou em torno da palhaçada em campo. (E se, por ventura, estiver a contar as micro-agressões verbais deste texto: filho da puta; sua alteza; palhaçada, sempre adianto, que essa outra ficção do politicamente correcto, também aqui não colhe.)

Quando, de impulsos fora de controlo, Serena parte a raquete, ainda se está no reino do justificável, não é bonito, porém é justificável: é um jogo, vai perder, tem a adrenalina a mil e a energia pede escoamento. Não correu da melhor forma esse escoamento, deu-lhe para mcenroear... olha, azarucho, venha a penalização, e pronto.

Agora, dirigir-se a Carlos Ramos, de dedo em riste, a gritar que trabalhou muito para chegar ali, que é mãe de uma filha para quem é um modelo de irrepreensível comportamento, que ele a penaliza porque ela é mulher, e para rematar, chamar-lhe mentiroso e ladrão, isso, não. Não. Não. E vergonha maior, a Associação de Ténis Feminina fazer disto uma questão de género. Não há género nisto, há comportamento. Um comportamento justamente penalizável dentro do regulamento. Um pedido de desculpas devido.

Pior. De cada vez que uma mulher grita discriminação de género como Pedro gritava lobo sem que lobo houvesse até que lobo houve e ninguém acreditou, presta um deserviço à mulher. Todas e, venha a polícia feminina, todos, portanto, mulheres e essa espécie a quem se atira ao alvo quando se quer ficar bem visto nas colunas de opinião dos jornais, os homens, mais uma vez, todos nós, pessoas, em regra, trabalhamos muito para chegar onde chegamos, o que quer que isso seja, e não nos vitimizamos por isso. Fazemos o melhor que podemos para sermos bons referentes para filhos, sobrinhos, ou o miúdo no passeio por quem não atravessamos o vermelho para peões numa rua deserta não vá ele fazê-lo um dia e vir um daqueles tipos que nem se sabe de onde. Não me passa pela cabeça, como não passou pela cabeça da minha mãe, muito menos da minha avó, eleger o homem como inimigo para resolver as inadequações sociais ou profissionais que são da minha responsabilidade: o modelo opressor/oprimido decalcado do marxismo para o feminismo está caduco. Que feminismo e pseudo anti-racismo são estes, de gente como J.K. Rowling e Nicki Minaj, que querem a censura de um cartoon de Mark Knight, para o Herald Sun, a falsos pretextos?

Querem brincar às vítimas de moinhos de vento? Brinquem. Eu, quando perco a cabeça e parto as minhas raquetes, peço desculpa.

3 de setembro de 2018

O teu poema

O TEU POEMA

Perdes a saúde.
Perdes a beleza,
perdes o amor.
Perdes a alegria.
Perdes a fortuna,
perdes a paz,
perdes a casa.
Perdes a esperança.
Perdes a vida.
Perdeste.
E isso, abre os olhos, só tem importância para ti:
se tivesses importância para alguém,
o teu poema escrevia-se com outras palavras.