31 de agosto de 2018

Amour

AMOUR

Sento-me à mesa e
de frente para mim,
a cadeira vazia.
Ai, come os ovos, Maria!
A escova de dentes,
em cor-de-rosa-coitada,
no copo abandonada
não percebe nada de
nada mas queria.
Ai, põe-lhe a pasta e
sente a menta, Maria!
Olho em volta: é tudo dois,
a casa de dois, não há depois
de tanta simetria.
Ai, fecha os olhos, Maria!
Chego ao computador, que
saudade, amor, de quando
te via - e só a folha branca, vazia.
Ai, cala-te e escreve, Maria!
O Amour é aceso gás néon,
perdão, é francês para não,
ou melhor, non.
Ai, amour, non, Maria...

23 de agosto de 2018

Poemas no Cinema - iii

CETTE BLESSURE

A cena final é comovente e poética,
e para piorar tudo, Vanessa Paradis
canta Cette Blessure, de Leo Ferré, e
sous des larmes qu'affile le désir,
a decadente estética de saltimbanco
para uma felicidade, ao fim, inútil, patética.
E a respiração dela ouve-se por
entre as linhas da canção.
No peito, fundo, o coração. Enfim.
A vida seria insuportável se fosse eterna,
assim, curta demais, sempre se aguenta
como objecto de desejo. Mas não há consolo.
O mal cai mesmo ao nosso lado, e
já nem lembramos porque nos fizemos inimigos,
nem há riso quando o amor que nos deixou
é deixado e assistimos, nem aplaudimos,
nem quando ganhamos a batalha e a guerra
e todos os clichés de uma só vez.