29 de maio de 2018

Manual de Instruções

MANUAL DE INSTRUÇÕES

Tal como a vida, a poesia. Ou nos faz ou nos desfaz.
Há um momento. É a chave. É quando, qualquer que seja o tu,
desassossego, diferença - pior que doença - medo,
sete vezes o meu tamanho, investes contra mim,
e de espada e lança e escudo e mesmo
assim, porque sigo o manual de instruções,
também eu te cortarei a cabeça e a darei
por alimento às aves do céu e aos bichos da terra:
podes ser vítima ou podes ser vitória -
não podes ser ambas, nem quando sangras.
Tens de ficar de pé, não interessa como,
no tempo do pão amargo, tempo do não,
tempo da devolução do manuscrito não solicitado,
ou do amor não desejado, ou do fracasso inesperado,
contra espada e lança e escudo, a instrução.
Às aves do céu. Aos bichos da terra.
Pensa no poema. Também ele tem de se aguentar
na inteireza do próprio verso, o que tem de o suster
é a flecha apontada ao coração da poesia,
fonte de onde todos somos, taça derramada
a correr frescura, mel, claridade e força obscura. Então,
o poema, tal como a vida, não é uma arte performativa,
não faz malabarismo, nem deita fogo pela boca,
não depende da voz interpretativa, da expressão declamativa,
não precisa de grandes gestos nem de quartetos de cordas.
O poema escreve-se, o poema lê-se, o poema diz-se.
Como a vida, é uma história de solidão contra a aniquilação pela
brancura do papel e o puro buraco branco do ecrã. Isto
e uma Acção de Graças.

22 de maio de 2018

Ocupação

OCUPAÇÃO

Entrar pelas coisas dentro -
não ficar de fora, metódico, assistente.
Pintura, página, música, rua, gente.
Todo o Amor é invasão: se nos apropriamos dele,
ocupa-nos. Assim, ele pode ir, ou nós, e
nem por isso deixará de estar presente. Sempre.

14 de maio de 2018

Duzentos dias

DUZENTOS DIAS

Que alegria teria sido
se em qualquer um destes duzentos dias
tivesses vindo dizer sim.
Mas um homem não sabe
ter um Coração de Maria:
faça-se em ti segundo a minha vontade
é o Verbo do homem.
E nem sequer tem culpa.
Vive fora. Sempre viveu fora.
Para fora. O mundo lá fora
deu-lhe trabalho a construir,
teve de o moldar.
E todo o choque é este
quando homem e mulher
batem de frente,
mundo fora, mundo dentro,
 e alegria não há por duzentos dias.
Quem ri é a serpente.

2 de maio de 2018

A tentação de um Jedi

O meu sobrinho e eu, perdão, nós somos Jedis, Darth Vader acompanhado do senador Palpatine diante da Estrela da Morte.

O meu rico sobrinho mais velho tem nove anos. Está no Year 5. E isto diz-se assim mesmo no meio do português porque ele diz assim mesmo no meio do português. Hoje tinha de levar um poema para a escola. E dizê-lo - é preciso acrescentar que o ano passado não correu famosamente: levou The Laughing Heart, de Charles Bukowski. Alguém terá pensado que não era adequado à idade dele. Ele achou que era, gosta muito do poema.

Este ano, sugeri que levasse The Tiger, de William Blake. É um poema maravilhoso. E sem dramas de adequação. E ele, zás! não. Não? Então?
- Não é poeta? Faça lá um poema de Star Wars, para mim, por favor.
- Mas eu não escrevo em inglês.
- Escreva em português que eu traduzo.
- Também não será preciso tanto, senhor tradutor...
Resumido.

A JEDI THOUGHT ABOUT THE DARK SIDE OF THE FORCE

Death Star,
oh dreaded Death Star,
where you are
i do not want to be for
i do not want to be tempted
by the Darth Vader in me.