29 de abril de 2018

Não se pode fugir


então, passei ali no quiosque das flores e comprei uma rosa a caminho de casa - é uma variedade portuguesa de rosas imprevistas. E todo o tempo vinha a pensar naquilo: as últimas imagens do documentário acabado de ver, Maria by Callas, ela ao pé da piscina quando, na verdade, já tudo foi ganho, já tudo está perdido e viver não é preciso. É passado e passou e futuro não pode haver. E a consciência disso é o fim da duração à espera do fim do tempo que lhe foi dado viver. E impressionou-me muitíssimo: como é que uma mulher tão forte se partiu aos pedaços numa linha de sismo? Eu sei que também somos os cubos do jogo de uma criança espalhados pela casa toda. As peças desunidas são só desordem, dessentido. As mesmas peças juntas, organizadas, mostram uma imagem clara.

Pouco depois do início do filme, na entrevista intermitente que o atravessa, Maria Callas, tão bonita, a linha dos lábios natural, sem estar pintada por fora, ao gosto da época, o olhar livre do excesso de maquilhagem, diz o destino é o destino, não se pode fugir. Recentemente ouvi uma Ted Talk sobre fatalistas e não fatalistas e a produtividade, desempenho e satisfação de uns e de outros. Somos animais do fundo do tempo e a nossa memória é mais longa do que a supomos. A biologia, o hardware que trazemos é de configuração antiga e, ao que parece, determina, quase sempre, se conseguimos ou não fugir. Ao plano divino. Ou astrológico. Ou circunstancial.

Chego a casa. E já a rosa está na água. Uma rosa só. Uma rosa chega.