4 de fevereiro de 2018

Os navegantes

OS NAVEGANTES

Povos, nações, línguas, é isto:
há muito tempo, tanto,
sei que foi comigo porque o meu corpo estava lá,
nas catacumbas de Cecília ou Calisto, nem recordo,
foi quando, de repente, uma pintura hedionda
se me agarrou ao pensamento.
Não queria nada daquilo -
teria preferido estar à superfície, a Roman Holiday, de braço dado com Wyler
e Gregory Peck, três a passeio. O gosto do riso. Mas não.
Foi, como tudo, como tinha de ser.
Isto:
três homens jovens num forno em chamas.
E um quarto, um anjo, por trás.
Fui catolicamente educada.
Um católico não conhece a Bíblia para trás e para diante
como um protestante de igrejas de paredes vazias
e mãos transparentes para um comércio opaco.
O católico não prega o evangelho da prosperidade.
Se é verdade que conheço a Bíblia, e conheço, é
só pela mesmíssima razão que leio Borges ou Rumi.
Nabucodonosor - nave que Matrix popularizou,
Nebuchadnezzar,
and unclean spirits, when they saw him,
fell down before him, and cried, saying,
Thou art the Son of God, Neo, claro, o novo construtor
do homem e dos jardins suspensos da realidade - Nabucodonosor, rei,
mandou que ardessem os três homens por não se submeterem
à sua vontade. E porque não queimaram, os elevou.
Povos, nações, línguas, então é isto:
rodeados de fogo por todos os lados
ou qualquer que seja o nome do mal,
fome doença solidão,
escolhemos: ou o mal nos abraça
e perecemos
ou uma força maior o abraça a ele,
e o derrota quando o beija na boca.
 E se perecermos, perecemos.
Pompeu, Petrarca, Pessoa:
navegar é preciso, viver não é preciso.
Um amigo meu, também de Nebuchadnezzar,
navegador de arenas, praças,
pegava touros e um dia foi colhido,
seremos todos, não há vida sem ceifa,
e o nome e a razão da semente,
só a semente e o Espírito nela o sabem,
seja como tem de ser,
apanhou uma valente cornada,
atravessou-o. E voltou a pegar. Já no hospital tinha dito:
pois quando morrer, vou de mãos no peito e barriga para cima.