25 de fevereiro de 2018

Bonjour Mundo!


Dear future husband
here's a few things
you'll need to know if you wanna be
my one and only all my life
[...]
You gotta know how to treat me like a lady
even when I'm acting crazy
tell me everything's alright
[...]
After every fight
just apologize
and maybe then I'll let you try and rock my body right
even if I was wrong -
you know I'm never wrong. Why disagree? Why, why disagree?
[...]

23 de fevereiro de 2018

Há mil anos atrás

HÁ MIL ANOS ATRÁS

Há mil atrás, todos tivemos pai
todos tivemos mãe, avô,
avó também, há mil anos atrás
fizemos esqui de tapete
pelo corredor encerado
e demos quedas condizentes
com o riso acelerado;
e há mil anos atrás
brincámos em quintais,
subimos às árvores,
arranhámo-nos demais,
e fomos tão bem comportados
nos natais de há mil anos atrás.
Há mil anos atrás íamos ser
polícias, bailarinas, professores,
tirar amígdalas se fôssemos doutores
de diga trinta e três,
pois à mil anos atrás não esperávamos a vez
de ser; há mil anos atrás tínhamos amigos e cão
e ninguém conjugava o verbo solidão.
Há mil anos atrás a vida era nossa,
nem sabíamos que tinha fim.
Há mil anos atrás o mundo era um sim.

21 de fevereiro de 2018

Tempística

TEMPÍSTICA

É Inverno e a Primavera chegou. As árvores tão despidas na avenida,
lá em baixo, não sabem. É que há isto de não saber o que não se pode saber:
como pode a folha chegar antes da hora se tem hora para chegar?
Tudo é isto. Tempística. Tudo quando cabe entre a vida e a morte é.
Fora do tempo, nem folha, nem flor, a regra é a voz do Vento.
Não desceu Ele sobre Zorobabel  e lhe disse,
não pela força, não pelo poder, mas pelo meu Sopro Sagrado?
Tudo é isto. Tempística. Mesmo há pouco, estava a ouvir como nada muda além
da mudança - como gosto de pensar em bíblico, gosto em dança,
e no samba estamos todos em nossas pequenas revoluções previstas,
Nelson Cavaquinho, Cartola, Ataulfo Alves, Candeia, Barbosa, eu sei lá,
sei que o coração não tem actualização, não há upgrade sentimental,
nem pela força nem pelo poder,
se é Inverno e a Primavera lhe chega à avenida, não pode saber,
nenhum templo Zorobabel levanta antes do Vento dizer.
Que me perdoem o quadradismo e se eu insisto neste tema
- e logo cantado por Maysa -
mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o coração.
Quando no Sopro a tempística chegar, minha musa, minha lira, minha doce inspiração,
você passa, eu acho graça, nessa vida tudo passa, e você passou também
e então vou levantar o segundo Templo de Jerusalém.

Bonjour Mundo!




[...]
Mas a gente gosta quando uma baiana requebra direitinho,
de cima e em baixo, revira os olhinhos
e diz eu sou filha de São Salvador!
[...]
Ôba! Salve a Bahía, Senhor!

15 de fevereiro de 2018

Escola de Santidade

ESCOLA DE SANTIDADE

Talvez eu tenha sido como disse Paulo:
não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.
Talvez tu tenhas sido como foi Pedro:
jamais me negarias para logo me negares, e mais uma e outra vez.
Talvez os santos nada tenham para nos ensinar.
Talvez o coração nada tenha para aprender.

10 de fevereiro de 2018

Nem fogo nem fogão

Meu amigo Vinicius, leia com seu sotaque, perdão, sutaqui,
esta não-feijoada para sua "feijoada à minha moda"

NEM FOGO NEM FOGÃO

De quando em vez,
alguém me sabe e tudo compreende:
agora mesmo,
teu poema de feijão, rede e gato
para passar a mão -
teu mesmo, Vinicius, pois então.
Porém, olha a falha, sem Cão...
Minha moqueca, minha histórica feijoada,
hoje são nada,
nem cozinho mais.
Se me perguntares,
que é isso menina,
assim, onde vais?
A ti, meu amigo, pergunto-te eu,
e tu, onde estás?

9 de fevereiro de 2018

Amor de sempre e para sempre, não estás

AMOR DE SEMPRE E PARA SEMPRE, NÃO ESTÁS

Meu Espírito, Minha Carne,
Meu Nome para a Alegria,
Minha Porta para o Amor,
Meu Amor:
não se pode amar sozinho:
a escuridão existe
e tu não estás aqui.

8 de fevereiro de 2018

Não acordes...

Não acordes...

Nas fases profundas do sono não se devia acordar com memória do sonho onde estávamos: quem é esta pessoa que nos habita enquanto nós dormimos? E vive aquilo que jamais viveríamos? E num mundo com outras leis, a natureza com outras regras, noutras paisagens, com inconcebíveis comportamentos, detalhes de Bosch. Agora que penso nisto, pergunto-me: Bosch acordaria onde eu acordei esta noite? Os Uruk hai, de Tolkien, e as suas armas do tempo do ferro, terão despertado a meio da noite? Os sonhos não se podem contar ou acaba-se numa cama mais ou menos freudiana.

Não se anda por entre estes lugares antigos como o homem, por entre a violência e o sangue, sem que eles se agarrem a nós.

Estava a beber café, a pensar em tudo, há dias de pensar em tudo e calhou ser hoje, quando vi. Na mesa em frente ao sofá tenho uma caixa chinesa de madeira de cânfora. O fecho partiu-se muito antes dela chegar às minhas mãos. Não tem fecho. Num dos cantos, vê-se a massa de um restauro mal sucedido. Teve bicho porque está miudamente esburacada. E a tampa está empenada do lado direito - não fecha completamente. Foi quando vi. Um quase nada inicial, pensei que fosse um reflexo da luz... Um fio vermelho, muito fino, escorria da caixa: o sonho de sangue saiu do sono e, subtil, materializou-se ali. Pego-lhe. Dentro da caixa tenho cartas, postais risonhos em caligrafia amorosa. Palavras que cabem na alegria em pleno sol. Disseram-mas e eu guardei-as. Tive um amor feliz. Fui feliz. E atei-as bem com uma fita vermelha para não irem a lado nenhum - depois do amor morrer, as palavras, como o corpo, são matéria do pó. A fita desfiou. E o fio, tão fino, transbordou. O sangue, contido, é vida. Derramado, é morte.

Uma caixa vazia no meio da casa? Talvez sirva para guardar os comandos e outras peças de quotidiana relojoaria. Não faz mal. Seja como for, os dias estão maiores, a luz dura quase até à noite e isso, toda a gente sabe, é o princípio das maravilhas.

4 de fevereiro de 2018

Os navegantes

OS NAVEGANTES

Povos, nações, línguas, é isto:
há muito tempo, tanto,
sei que foi comigo porque o meu corpo estava lá,
nas catacumbas de Cecília ou Calisto, nem recordo,
foi quando, de repente, uma pintura hedionda
se me agarrou ao pensamento.
Não queria nada daquilo -
teria preferido estar à superfície, a Roman Holiday, de braço dado com Wyler
e Gregory Peck, três a passeio. O gosto do riso. Mas não.
Foi, como tudo, como tinha de ser.
Isto:
três homens jovens num forno em chamas.
E um quarto, um anjo, por trás.
Fui catolicamente educada.
Um católico não conhece a Bíblia para trás e para diante
como um protestante de igrejas de paredes vazias
e mãos transparentes para um comércio opaco.
O católico não prega o evangelho da prosperidade.
Se é verdade que conheço a Bíblia, e conheço, é
só pela mesmíssima razão que leio Borges ou Rumi.
Nabucodonosor - nave que Matrix popularizou,
Nebuchadnezzar,
and unclean spirits, when they saw him,
fell down before him, and cried, saying,
Thou art the Son of God, Neo, claro, o novo construtor
do homem e dos jardins suspensos da realidade - Nabucodonosor, rei,
mandou que ardessem os três homens por não se submeterem
à sua vontade. E porque não queimaram, os elevou.
Povos, nações, línguas, então é isto:
rodeados de fogo por todos os lados
ou qualquer que seja o nome do mal,
fome doença solidão,
escolhemos: ou o mal nos abraça
e perecemos
ou uma força maior o abraça a ele,
e o derrota quando o beija na boca.
 E se perecermos, perecemos.
Pompeu, Petrarca, Pessoa:
navegar é preciso, viver não é preciso.
Um amigo meu, também de Nebuchadnezzar,
navegador de arenas, praças,
pegava touros e um dia foi colhido,
seremos todos, não há vida sem ceifa,
e o nome e a razão da semente,
só a semente e o Espírito nela o sabem,
seja como tem de ser,
apanhou uma valente cornada,
atravessou-o. E voltou a pegar. Já no hospital tinha dito:
pois quando morrer, vou de mãos no peito e barriga para cima.