1 de outubro de 2017

Um Marlboro, se faz favor

Não há? Então, pode ser um Camel...

Um Marlboro, se faz favor


Não fumo. Mas, na verdade, tenho pena de não fumar. Não tenho uma única tatuagem nem um único piercing, e ainda que pense que não tenho pena de não os ter, na verdade, tenho, ou devo ter...

Tal como 20% da população mundial, tenho alergias. Não tenho asma. Com certas alergias, desencadeio uma asma diabólica que quase sempre passa a toque de Symbicort 320. Hoje, e depois de um desses números asmatiformes de grande aparato, meti-me no carro, capota para baixo, e conduzi até à praia. Fiquei dentro do carro a olhar para o céu do fim de tarde de Outubro como se fora Agosto, a noite a chegar devagarinho e exuberante. Foi então que os vi.

Eram dois grupos. Ou duas famílias. Ou uma. Enfim. Eram duas caravanas. Dentro e fora andavam uns miúdos novos, tatuados com sóis de Maui e mais bonecagem nativa. As respectivas namoradas, ou mulheres, e duas crianças - duas meninas - sem saias de ráfia. Mais as pranchas. Elas, as duas mulheres, sentadas no chão a fumar aquela treta a vapor que não sei como se chama e veio substituir o tabaco.

E pus-me a pensar. Para que raio andei eu a dar cabo da cabeça para arranjar casa em Lisboa? E para quê isto de ter quinhentos copos e mil pratos e quilos infindos de livros? Vou dar algum baile, vou abrir uma biblioteca? Se em vez do carro e da casa, tivesse comprado uma caravana e um portátil, não me andava a consumir com transportadoras de pouco profissionalismo e grande nome no lombo dos contentores... Quem é que, no tempo do Ikea, no mundo descartável em que vivemos e perfeitamente adequado à nossa própria descartabilidade, ainda perde tempo com linhos e iluminação e em transformar uma porcaria de um armário de copa num aparador, só porque sim, porque estava lá na cozinha de uma infância que correu no sentido oposto ao da vida adulta?

Se pudesse, mandava tudo à merda e ia passear com O Cão.